terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Entenda o fenômeno La Niña

Entenda o fenômeno oceânico-atmosférico La Niña
La Niña representa um fenômeno oceânico-atmosférico com características opostas ao EL Niño, e que caracteriza-se por um esfriamento anormal nas águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Alguns dos impactos de La Niña tendem a ser opostos aos de El Niño, mas nem sempre uma região afetada pelo El Niño apresenta impactos significativos no tempo e clima devido à La Niña.
La Niña
Fonte de Informação: Livro – O El Niño e Você – o fenômeno climático, Autor – Gilvan Sampaio de Oliveira
Você agora deve estar pensando. Ora, La Niña, como é o oposto, ou seja, é o resfriamento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, então os efeitos são exatamente opostos!
Não é bem assim!!!
O termo La Niña (“a menina”, em espanhol) surgiu, pois o fenômeno se caracteriza por ser oposto ao El Niño. Pode ser chamado também de episódio frio, ou ainda El Viejo (“o velho”, em espanhol). Algumas pessoas chamam o La Niña de anti- El Niño, porém como El Niño se refere ao menino Jesus, anti-El Niño seria então o Diabo e, portanto, esse termo é pouco utilizado. O termo mais utilizado hoje é: La Niña
Anomalia de temperatura da superfície do mar em dezembro de 1988. Plotados somente as anomalias negativas menores que -1ºC. Dados cedidos gentilmente pelo Dr. John Janowiak – CPC/NCEP/NWS/NOAA-EUA.
Para entender sobre La Niña, vamos retornar ao nosso “modelinho” descrito no item sobre El Niño. Imagine a situação normal que ocorre no Pacífico Equatorial, que seria o exemplo da piscina com o ventilador ligado, o que faria com que as águas da piscina fossem empurradas para o lado oposto ao ventilador, onde há então acúmulo de águas. Voltando para o Oceano Pacífico, sabemos que o ventilador faz o papel dos ventos alísios e que o acúmulo de águas se dá no Pacífico Equatorial Ocidental, onde as águas estão mais quentes. Há também aquele mecanismo que citei anteriormente, o qual é chamado de ressurgência, que faz com que as águas das camadas inferiores do Oceano, junto à costa oeste da América do Sul aflorem, trazendo nutrientes e que por isso, é uma das regiões mais piscosas do mundo. Até aqui tudo bem, esse é o mecanismo de circulação que observamos no Pacífico Equatorial em anos normais, ou seja, sem a presença do El Niño ou La Niña.
Pois bem. Agora, ao invés de desligar o ventilador, vamos ligá-lo com potência maior, ou seja, fazer com que ele produza ventos mais intensos. O que vai acontecer?
Vamos tentar imaginar? Com os ventos mais intensos, maior quantidade de água vai se acumular no lado oposto ao ventilador na piscina. Com isso, o desnível entre um lado e outro da piscina também vai aumentar. Vamos retornar ao Oceano Pacífico. Com os ventos alísios (que seriam os ventos do ventilador) mais intensos, mais águas irão ficar “represadas” no Pacífico Equatorial Oeste e o desnível entre o Pacífico Ocidental e Oriental irá aumentar. Com os ventos mais intensos a ressurgência também irá aumentar no Pacífico Equatorial Oriental, e, portanto virão mais nutrientes das profundezas para a superfície do Oceano, ou seja, aumenta a chamada ressurgência no lado Leste do Pacífico Equatorial. Por outro lado, devido a maior intensidade dos ventos alísios as águas mais quentes irão ficar represadas mais a oeste do que o normal e, portanto novamente teríamos aquela velha história: águas mais quentes geram evaporação e consequentemente movimentos ascendentes, que por sua vez geram nuvens de chuva e que geram a célula de Walker, que em anos de La Niña fica mais alongada que o normal. A região com grande quantidade de chuvas é do nordeste do Oceano Índico à oeste do Oceano Pacífico passando pela Indonésia, e a região com movimentos descendentes da célula de Walker é no Pacífico Equatorial Central e Oriental. É importante ressaltar que tais movimentos descendentes da célula de Walker no Pacífico Equatorial Oriental ficam mais intensos que o normal o que inibe, e muito, a formação de nuvens de chuva.
Em geral, episódios La Niñas também têm frequência de 2 a 7 anos, todavia tem ocorrido em menor quantidade que o El Niño durante as últimas décadas. Além do mais, os episódios La Niña têm períodos de aproximadamente 9 a 12 meses, e somente alguns episódios persistem por mais que 2 anos. Outro ponto interessante é que os valores das anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) em anos de La Niña têm desvios menores que em anos de El Niño, ou seja, enquanto observam-se anomalias de até 4,5ºC acima da média em alguns anos de El Niño, em anos de La Niña as maiores anomalias observadas não chegam a 4ºC abaixo da média.
 Episódios recentes do La Niña ocorreram nos anos de 1988/89 (que foi um dos mais intensos), em 1995/96 e em 1998/99.
O El Niño e Você – o fenômeno climático – Gilvan Sampaio de Oliveira, Editora Transtec – São José dos Campos (SP), março de 2001. (EcoDebate)

La Niña pode durar até maio

La Niña pode durar até maio, dizem meteorologistas
Efeitos globais do fenômeno climático La Niña.
O fenômeno climático La Niña, responsável por uma forte seca neste ano na América do Sul e no sudoeste dos Estados Unidos, pode durar mais do que o previsto, talvez até maio, alertou em 04/01/12 o Centro de Previsão Climática dos EUA.
“As últimas observações… sugerem que o La Niña será de fraco a moderado neste inverno (boreal), e vai continuar depois disso como um evento fraco, até que deve se dissipar em algum momento entre março e maio”, disse o CPC em seu relatório mensal.
Foi a primeira vez que o CPC cogitou a hipótese de que o La Niña persista até a primavera boreal. Os meteorologistas antes esperavam que o fenômeno, que já causa preocupação nos mercados de grãos, oleaginosas, açúcar e café, persistisse durante o inverno boreal.
No relatório anterior, o CPC (ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) disse que o La Niña perderia força no começo da primavera.
O fenômeno, que pode durar vários anos, se deve ao aquecimento anormal das águas na região equatorial do oceano Pacífico – é o contrário do famoso El Niño. Ambos causam transtornos climáticos da América Latina à Índia, e talvez também na África.
Uma seca prolongada pode causar problemas para agricultores em vários Estados dos EUA, numa faixa das Carolinas ao Kansas. Oklahoma e Texas já estão com seus solos esgotados devido à seca, e a persistência do La Niña pode significar mais uma safra ruim para o algodão texano.
Mesmo antes da divulgação do alerta do CPC, a previsão da safra argentina de milho para 2011/12 já havia sido revista para baixo por causa do La Niña. Mesmo assim, a Argentina, segunda maior produtora mundial de milho, deve colher uma safra recorde.
Na Malásia, importante exportador de óleo de palma, fortes chuvas de monções causadas pelo La Niña ameaçam prejudicar a colheita dos frutos, elevando a cotação do produto.
As chuvas no período de dezembro a março também constituem uma ameaça para os cafeicultores da Colômbia, maior produtor mundial de cafés de qualidade.
A persistência do La Niña até depois do inverno boreal também fará com que o fenômeno quase coincida com o início da temporada de furacões no Atlântico. Nos últimos dois anos em que houve La Niña, mais tempestades se formaram. (EcoDebate)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Rio+20 e a criação de uma agência ambiental

Rio+20 discutirá a criação de uma agência ambiental nas Nações Unidas nos moldes da OMC
Rio+20 discute a criação de uma “OMC ambiental” – Está crescendo a ideia de se criar uma agência ambiental nas Nações Unidas nos moldes da Organização Mundial do Comércio, a OMC, ou da Organização Mundial do Trabalho, a OIT. A proposta de nascimento da World Environment Organization (WEA) é da União Europeia, vem sendo desenhada pela França e Alemanha, e pode ser um dos grandes feitos da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável em junho, no Rio.
Mais de cem países apoiam o fortalecimento do Pnuma, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep, na sigla em inglês). O Pnuma seria o embrião natural de uma agência ambiental nova. Vários países sugerem a criação da WEA ou de órgão similar. O surgimento da agência poderia ser forte chamariz para atrair grande número de líderes para a Rio+20 e garantir o êxito do evento.
Mas a criação da Organização Mundial do Meio Ambiente (OMMA, na sigla em português) tem forte opositores. Os Estados Unidos não querem nem ouvir falar dela. Historicamente, os EUA costumam não aceitar acordos ou organizações internacionais que possa interferir em suas próprias decisões internas. E a resistência americana é um grande obstáculo à ideia. Ironicamente, mas por razões outras, os EUA estão alinhados nesta oposição com Venezuela, Cuba e Bolívia. Os latinos temem que uma agência do gênero sirva para encobrir ações comerciais protecionistas de países ricos.
O Brasil vê a ideia com reservas, mas não é totalmente contrário. Na ótica do governo, a proposta fortalece apenas o “pilar ambiental” do desenvolvimento sustentável. Representantes brasileiros vêm lembrando nos últimos dias que a Rio+20 é uma conferência de desenvolvimento sustentável com três vertentes – ambiental, econômica e social. E repetem que ela tem por tema central “a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza”. Favorecer apenas o ambiente “é uma obsessão europeia”, diz uma fonte do governo brasileiro sobre tornar o Pnuma um tipo de “OMC ambiental”.
“A menos que se fortaleça o ambiente, não haverá desenvolvimento econômico e social no mundo”, rebate o representante de um governo europeu.
O Pnuma foi criado há 40 anos, tem sede em Nairóbi, no Quênia, e 1.130 funcionários. Seus relatórios são referência ambiental no mundo. No Pnuma, a valorização de ativos ambientais deixou de ser uma abstração. O diretor-executivo, Achim Steiner, diz, por exemplo, que uma floresta no Quênia fornece água para uma dúzia de bacias hidrográficas, umidade para a indústria do chá e estoca carbono – e que isso representa U$ 1,5 bilhão ao ano para a economia do país.
Mas sua força política é restrita. O órgão tem menos de 60 países-membros e vive de contribuições voluntárias. O orçamento, inferior a US$ 100 milhões anuais, é bancado principalmente pelo Japão, Reino Unido, países nórdicos e outros europeus. Mas, quando ministros do meio ambiente se reúnem e decidem, por exemplo, reduzir a fabricação de determinado produto químico em 10% para tornar o mundo menos poluente, a decisão tem que ir para a Assembleia Geral da ONU e pode ser vetada. “Aí vai para o lixo”, diz um funcionário da ONU. “Mas, se ministros da Saúde se reúnem na OMS (a Organização Mundial da Saúde) e tomam uma decisão, vira lei internacional.”
A reforma institucional defendida pelo Brasil é de estabelecer participação universal no Pnuma e tornar obrigatória a contribuição dos países. O Brasil quer ainda mudanças em outra parte da ONU: que o Conselho Econômico e Social (Ecosoc), órgão no alto do organograma da ONU, mas que nunca decolou, incorpore o meio ambiente e se torne um Conselho de Desenvolvimento Sustentável.
Mas os negociadores brasileiros aceitariam a agência ambiental, dependendo de seu perfil, diz uma fonte. “E se a parte, na ONU, do desenvolvimento sustentável fosse sólida”. Isso significa, na ótica brasileira, que Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio teriam que estar neste quebra-cabeças institucional. “Desenvolvimento sustentável tem que ser paradigma de todos os órgãos da ONU, principalmente dos econômicos”, diz um negociador. (EcoDebate)

Uso de recursos naturais já está se excedendo

Especialistas da ONU afirmam que uso dos recursos naturais da Terra já está se excedendo
ONU diz que é preciso adotar nova economia para salvar o planeta – Painel de especialistas divulgou em 30/01/12 relatório sobre o tema. Documento pretende ser ferramenta de trabalho na Rio+20, em junho.
Um grupo especialistas e políticos de alto nível formado pela Organização das Nações Unidas (ONU) ressaltou em 30/01 a urgência de adotar novas vias de desenvolvimento para salvar o mundo de uma crise econômica até mais grave que a vivida atualmente e para assegurar sua sustentabilidade.
O Painel sobre Sustentabilidade Global, formado por 22 membros e que foi estabelecido pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em agosto de 2010, apresentou seu primeiro relatório, que contém 56 recomendações para realizar uma mudança no modelo econômico atual.
O documento pretende ser uma das principais ferramentas de trabalho na Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, que será realizada no Rio de Janeiro, de 20 a 22 de junho.
Nova economia
Com o título “Pessoas resilientes, planeta resiliente: um futuro que vale escolher”, o relatório aponta um roteiro que ajudará aos governos, o setor privado e outros atores a atingir o desenvolvimento sustentável.
Além disso, ressalta a importância de outorgar mais poder à mulher e assegurar que ela desempenha um papel importante para alcançar um sistema sustentável.
O texto sugere um novo desenho da economia mundial e apresenta um maior comprometimento com o equilíbrio sustentável da Terra. Segundo o documento, antes de 2030, o mundo deveria dobrar sua produtividade, porém, reduzindo o consumo de recursos naturais.
O relatório afirma ainda que, apesar de já estarmos excedendo a capacidade da Terra, vamos precisar de 50% a mais de comida, 45% de energia e 30% de água já no ano de 2030. Para isso, os governos deveriam implementar políticas fiscais de estímulo das energias renováveis e suprimir os subsídios às energias fósseis, entre outras medidas.
Outro ponto abordado é que o número de pessoas vivendo na pobreza está em queda, mas o número de famintos tem crescido. O documento comenta ainda que a desigualdade na distribuição dos serviços de saúde está crescendo e que o acesso à água potável vem aumentando, mas 2,6 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento básico.
“Trata-se de uma proposta concreta e com visão de futuro para conseguir um desenvolvimento sustentável”, afirmou o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, co-presidente do painel, durante a apresentação do documento no Centro de Convenções da ONU em Adis-Abeba. “Os modelos econômicos do passado perderam fôlego e esgotou o tempo para deles”, acrescentou Zuma.
“Tanto a ciência como a economia nos dizem que as vias atuais são insustentáveis” disse Ban Ki-moon, presente durante o ato de apresentação do documento elaborado pelo Painel.
Divisão
Além de apresentar suas recomendações, o Painel pediu à ONU que forme vários organismos novos que atendam às necessidades de futuras vias de desenvolvimento, entre eles uma força conjunta que desenhe um plano para o período posterior a 2015, quando chegam ao fim os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.
O Painel pede a instauração de novos indicadores do desenvolvimento, além do Produto Interno Bruto (PIB), e sugere que sejam utilizados fundos públicos para impulsionar o setor privado em direção a uma economia sustentável. (EcoDebate)

Política populacional na sustentabilidade

Rio+20: o papel da política populacional na sustentabilidade ambiental
A divisão de população da ONU divulgou um paper no final de 2011 resumindo os principais resultados das projeções de população para o mundo no século XXI e mostrando a importância da dinâmica demográfica para a sustentabilidade ambiental. O estudo também mostra a evolução do conceito de direitos reprodutivos e mostra quais são as principais políticas populacionais acordadas nas diversas Conferências Internacionais.
O estudo pretende também ser uma contribuição para a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio + 20, pois a população é uma variável chave para se chegar ao desenvolvimento de formas de produção e consumo sustentáveis.
O estudo começa mostrando que a variação de apenas 0,5 filho (meio filho) acima ou abaixo da taxa média de fecundidade pode significar uma população total de cerca de 6 bilhões de habitantes em 2100 (no caso de uma taxa de fecundidade total – TFT – de 1,5 filho por mulher) ou 16 bilhões de habitantes (no caso de TFT de 2,5 filhos por mulher). Portanto, o mundo pode ter 10 bilhões de habitantes a mais ou a menos, em 2100, dependendo de uma variação entre 1,5 e 2,5 filhos por mulher.
Mas o futuro não está traçado de antemão. Se os países tomarem medidas que viabilizem uma redução do alto nível de fecundidade e se a estabilização da população for atingida em menor tempo isto pode ajudar a resolver ou mitigar parte dos problemas globais, tais como:
Fome: os especialistas concordam que mesmo havendo comida suficiente para alimentar os 7 bilhões de habitantes, hoje, importantes mudanças precisam ocorrer para garantir a segurança alimentar para os habitantes adicionais e para o aumento da procura impulsionado pela elevação da renda, em um quadro de adaptação às consequências das alterações climáticas;
Pobreza: o rápido incremento populacional torna mais difícil a luta pela redução da pobreza, especialmente entre as famílias com alta razão de dependência demográfica;
Urbanização: o rápido crescimento das cidades pode ser uma oportunidade, mas também pode apenas agravar a situação de moradia, educação, saúde, etc. se não houver investimentos adequados em um quadro de rápido incremento populacional;
Envelhecimento: países que estão em processo de envelhecimento mas não aproveitaram suas janelas de oportunidade demográfica vão ter dificuldades para manter o padrão de vida na velhice;
Fecundidade indesejada: alta fecundidade tende a agravar os riscos à saúde e a mortalidade de mulheres e crianças, além de aumentar a competição entre os filhos e reduzir a capacidade das mulheres de se inserirem no mercado de trabalho e terem renda própria.
Desta forma, o relatório argumenta que os governos podem influenciar o crescimento futuro da população através de políticas que aumentam o bem-estar humano, além de garantir que as pessoas possam exercer os seus direitos reprodutivos, ampliando as escolhas individuais. O acesso aos métodos contraceptivos modernos é não somente um direito, mas permite que as pessoas possam decidir livremente quantos filhos ter e quando tê-los. Muitas pessoas estão ainda privadas dos meios de realizar suas escolhas reprodutivas por causa das barreiras que enfrentam na obtenção e uso de métodos modernos de planejamento familiar. Em 2009, um número estimado de 215 milhões de mulheres que eram casadas ou em união, tinham necessidades não atendidas de planejamento familiar.
Em nível nacional, a queda da fecundidade pode aumentar os investimentos per capita em educação e saúde, melhorando assim o capital humano e possibilitando a criação de um ciclo virtuoso em que países e famílias com menos filhos podem investir mais em cada um e, portanto, construir uma força de trabalho mais qualificada, a qual, por sua vez, será mais produtiva do que a geração anterior e vai querer ter menos filhos, a fim de ser capaz de investir mais em cada um deles.
A mensagem central do paper da ONU é mostrar que a dinâmica demográfica pode ajudar na sustentabilidade ambiental. Neste sentido, as questões demográficas não podem ficar de fora das discussões e resoluções da Rio + 20. Não faz sentido haver uma Conferência de População e Desenvolvimento de um lado e Desenvolvimento Sustentável de outro. População, desenvolvimento e ambiente devem ser temas tratados em conjunto. Uma política populacional que respeita os direitos humanos é fundamental para se atingir as metas da sustentabilidade ambiental.
Para o Brasil, a Divisão de População da ONU publicou o Expert Paper (Cavenaghi e Alves, 2011/8), que mostra a dinâmica demográfica brasileira e aponta para o fato de o Brasil já estar em regime de fecundidade abaixo do nível de reposição e com uma estrutura rejuvenescida de fecundidade. O estudo foi realizado com base nos dados da PNDS-2006 e o processo de queda da fecundidade foi confirmado pelo censo demográfico 2010 do IBGE que apontou uma TFT de 1,86 filho por mulher. Com esta continuidade da queda da fecundidade, o Brasil deve atingir uma população máxima (algo em torno de 2010 a 2020 milhões de habitantes) na década de 2030 e a partir daí iniciar um decrescimento demográfico, juntamente com uma aceleração do processo de envelhecimento populacional.
Ou seja, o Brasil que vai sediar a Rio + 20 também pode ser um bom exemplo a ser seguido por outros
países do mundo que ainda estão atrasados no processo de transição demográfica. (EcoDebate)

Ambientalistas europeus denunciam falta de foco

Ambientalistas europeus denunciam ‘falta de foco’ da conferência do Rio+20
Temor é de que insistência do Brasil em ampliar pauta impeça aprovação de resoluções práticas
André Correa do Lago: “foco não é meio ambiente, e sim desenvolvimento sustentável”
A menos de cinco meses da conferência Rio+20, no Rio de Janeiro, autoridades políticas e líderes ambientalistas europeus estão preocupados com a suposta “falta de foco” das propostas feitas pelo governo do Brasil, organizador do evento. As críticas sobre as prioridades brasileiras, antes feitas a portas fechadas, foram externadas em público nesta terça-feira, 31, durante encontro em Paris. O temor é de que, alargando as discussões, a Rio+20 não resulte em nada.
A insatisfação começou a ficar clara com o lançamento, no início de janeiro, do chamado Draft Zero - o rascunho de declaração final do evento preparado pelo governo brasileiro e submetido às autoridades estrangeiras e à sociedade civil. O documento estabelece como prioridades da conferência os temas da “economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza” e o “quadro institucional” para alcançar tal objetivo.
Nas 21 páginas do rascunho são citados temas “clássicos” do ambientalismo, como segurança alimentar, agricultura sustentável, gestão racional da água, acesso à energia e o estímulo às fontes renováveis, entre outras propostas. Também têm lugar as novas questões do desenvolvimento sustentável, como a criação de empregos “verdes”.
O ponto polêmico é que a tudo isso a presidência brasileira adicionou temas caros à agenda diplomática do País, como a luta contra a pobreza e a fome, os objetivos do Milênio, as relações Sul-Sul, a crise econômica na Europa e até a “transparência da informação” - que têm pouca relação direta com meio ambiente.
Segundo o embaixador André Correa do Lago, diretor do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty, o objetivo é devolver ao evento seu caráter histórico, colocando lado a lado temas como economia, sociedade e ambiente. Com base nesses três “pilares”, seria discutida a nova “governança internacional”. “O Brasil não quer que a nova governança seja de meio ambiente, e sim que ela seja voltada para o desenvolvimento sustentável, ou seja, que acentue que o meio ambiente deve estar no contexto social e econômico”, explica Lago.
Entre os exemplos das questões levantadas pelo Brasil para a Rio+20, diz o diplomata, está discutir se a estratégia da União Europeia para enfrentar a crise da Grécia com políticas de austeridade fiscal é o melhor caminho. “Nós passamos por esse tipo de tratamento de choque nos anos 80 e 90 e sabemos que não traz bons resultados em longo prazo”, diz Lago. Pautando esses temas, o Itamaraty pretende fazer da Rio+20 um G20 voltado para discussões sobre o futuro.
Reação. Ontem, durante a conferência Em Direção a uma Nova Governança Mundial de Meio Ambiente, realizada em Paris, líderes políticos e ambientalistas criticaram as ambições do Brasil. De modo geral, os europeus querem acentuar a discussão ambiental. A França, por exemplo, defende que a Rio+20 se concentre em negociações diplomáticas para a criação da Organização Mundial de Meio Ambiente (WEO, na sigla em inglês).
“Quanto mais falamos sobre crescimento verde e menos sobre governança, mais estamos perdendo o foco”, disse ao Estado a ministra francesa do Meio Ambiente, Nathalie Morizet. Jean Jouzel, vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU que reúne especialistas em clima, também entende que a Rio+20 precisa ser mais conclusiva e menos filosófica. “Quando analisamos por que não andamos mais rápido na proteção ambiental, é também porque faltam instituições para lidar com o tema de forma objetiva”, acredita.
Para Gerard Worms, presidente da Câmara de Comércio Internacional (ICC), a Rio+20 carece de coerência. “Lutar contra a pobreza é importante, mas não é o mesmo que lutar pelo meio ambiente. A causa já é muito vasta e avança pouco. Ou se mantém o foco ou não se avançará.” (OESP)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O ambiente não aceita desaforos

O economista mineiro Eduardo Giannetti da Fonseca, professor do Insper de São Paulo, teve um estalo há alguns anos. Diante dos sinais irrefutáveis da mudança no clima, percebeu que a vida no planeta está indo para um buraco perigoso – e sem retorno – em virtude do modo insustentável de produção. Fã da economia de mercado, Giannetti alerta para a “cegueira” do sistema de preços, que considera omisso quanto ao custo ambiental das escolhas de produção e consumo. “Ele padece de uma falha tão ou mais grave no longo prazo do que o planejamento central. Nunca imaginei que diria isso na vida.” Para Giannetti, é preciso uma mudança nos valores e na forma de produzir e consumir. Senão, diz o economista, a conta recairá sobre o meio ambiente. “E o a ambiente não aceita desaforos.”
Eis a entrevista.
E como termina essa história?
Lamentavelmente, o ambiente não vai aceitar indefinidamente esse desaforo, ainda mais com 1 bilhão de indianos e chineses entrando na corrida armamentista do consumo. O limite virá de fora. Adoraria que viesse do amadurecimento ético, com as pessoas ganhando uma nova consciência e outros valores. Duvido muito. O mundo está se estreitando dentro de um padrão democrático monetário americano dominante. Mas o limite ambiental, que não é de escolha humana, vai se impor.
De que forma?
Já está se impondo. A expressão visível e ameaçadora de que tem limite é a mudança climática. Isso vai levar à mudança nos modos de produzir, consumir e até de valores. Essas mudanças ocorrerão de forma voluntária ou terão de ser impostas. Chegamos a uma situação de tal gravidade que não dá para esperar para compactuar alguma mudança que não sacrifique tanto a liberdade.
O que está errado?
Eu, que sou fã da economia de preços e de mercado, hoje percebo que ela padece de uma cegueira absurda, que é o modo como usamos os recursos ambientais. O sistema de preços é completamente omisso em relação ao custo ambiental de nossas escolhas de produção e consumo. Não sinaliza a gravidade do que estamos fazendo com o espaço biológico de que nossa vida depende. Um exemplo vem de Alfred Marshall, economista inglês do século XIX: suponha uma comunidade com acesso a água potável de graça. A água não entra em nenhum tipo de registro. Mas se as pessoas dessa comunidade poluírem todas as fontes de água potável e passarem a direcionar trabalho para engarrafar, distribuir e vender esse bem, o que acontece com o PIB desse país? Aumenta. Uma coisa que antes era de graça passa a demandar trabalho, as pessoas passam a desembolsar dinheiro para comprá-la e o PIB aumenta.
Mas a qualidade de vida piora.
A qualidade de vida piora, as pessoas agora têm que comprar uma coisa que era antes um bem livre e, no entanto, parece que ficaram mais prósperas. Quando a gente tiver de andar com uma garrafinha de oxigênio no bolso para continuar respirando, o PIB vai subir de novo. Se as doenças respiratórias aumentarem porque o ar está poluído e for preciso trabalhar mais para pagar os remédios e os médicos, o PIB subirá de novo.
O cálculo do PIB está errado.
A medida do PIB é muito burra, porque ela apenas registra o que passou pelo sistema de preços, sem saber o que, de fato, está acontecendo com a vida das pessoas. É um problema de contabilidade simples. Mas o mais grave é que o sistema de preços sinaliza errado. Se um empresário quiser fazer uma usina para gerar eletricidade, ele tem um leque de opções. Vamos pegar os extremos: uma termelétrica a carvão ou uma usina solar com a melhor tecnologia. Se eu comparar hoje o preço dessas duas coisas, a ordem é de cinco para um. A termelétrica é muito mais econômica nesse registro monetário – o custo de produção do KW/h – do que a solar. Mas tem uma assimetria nessa comparação. E o custo não monetário do CO2 que ela emitirá ao gerar um KW com o carvão? A solar não tem. O sistema de preços não é internalizado. É como se a emissão de gases e o ônus ambiental dessa opção fossem de graça. Não são.
Isso se aplica a quase tudo.
Veja o caso das viagens aéreas. Quando pego um avião para cruzar o Atlântico, eu emito mais CO2 do que um indiano durante um ano no meio rural. É de uma extravagância sem tamanho. O que está embutido no preço da passagem? Equipamento, combustível, aeroporto, depreciação, serviço. Não está embutido o CO2. Deveria estar. A British Airways deu a opção ao cliente de pagar pelo crédito de carbono equivalente emitido no trajeto. A adesão? 3% dos consumidores toparam. Está todo mundo preocupadíssimo, mas na hora de pôr a mão no bolso… O sistema de preços vai ter de mudar. Ele padece de uma falha tão ou mais grave no longo prazo do que o planejamento central. Nunca imaginei que diria isso na vida! É muito sério. E está em tudo. Onde está, no preço, a emissão enorme de gases do rebanho para alimentar a produção de carnes? É maior do que a emissão de toda a frota automobilística do mundo, segundo a FAO [Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação]. Os preços relativos vão ter de mudar. Algumas coisas vão ficar muito mais caras e outras muito mais baratas. Essas coisas vão ter de ser precificadas de alguma maneira. Do jeito atual, estamos sendo levados para o caminho do desastre.
O que deu o estalo no senhor?
Ver o que está acontecendo. O planejamento central também foi horroroso, causou um desastre ecológico. Não estou dizendo que o planejamento central teria por si só dado conta do mercado. Mas nunca se imaginava que o sistema de preços e a economia competitiva de mercado, capaz de gerar tanta riqueza, tivesse uma falha tão grave.
Há mudanças em curso?
Quem está fazendo uma experiência pioneira nessa direção é a Austrália. Eles adotaram um sistema de internacionalização de custos ambientais e emissão de CO2 na geração de energia elétrica nas diferentes opções. Não sei a mecânica, mas é algo novo.
E ganhos de eficiência nesse contexto?
Essa ideia de melhorar a eficiência dos produtos, no final das contas, é mais um elemento agravante do problema. O Paradoxo de Jevons [Stanley Jevons, economista britânico do século XIX] mostra isso. No século XIX ele já tinha feito um exercício com o carvão. Dizia que, se o consumo de carvão continuasse crescendo, o custo de sua produção ficaria caro e as economias europeias terminariam estranguladas pela alta da sua principal fonte de energia. O exercício é impecável como extrapolação. Ele só não foi capaz de prever que, poucas décadas depois, viria uma segunda revolução industrial, na qual o carvão seria deslocado como fonte primária de energia pela introdução do petróleo e das fontes elétricas. Mas Jevons disse uma coisa que o tempo mostrou ser realidade. Ao contra-argumento de que a eficiência do carvão aumentaria, ele respondeu que melhorar essa eficiência também aumentaria o consumo de carvão. O raciocínio é de que, no início, subiria a lucratividade das siderúrgicas, o que atrairia mais capital ao setor, aumentaria a oferta e derrubaria o preço do carvão. Isso elevaria a demanda e exigiria um consumo de carvão maior do que quando havia máquinas menos eficientes.
Isso virou o Paradoxo de Jevons.
É fantástico. Em 1960, 80% dos condomínios nos EUA não tinham ar-condicionado. O equipamento era caro e o custo de consumo de energia, elevado. Hoje, 84% dos domicílios o têm. Entre 1993 e 2005, a eficiência energética do ar-condicionado aumentou 20%, enquanto o consumo médio por aparelho aumentou 35%. Ficou tão barato que as pessoas deixam ligado. Resumindo: os EUA usam hoje um volume de energia, só com ar condicionado, igual ao total de energia consumida nos EUA em 1955. A China, entre 1997 e 2007, triplicou o número de aparelhos, e estão só começando. A Índia vem na cola. Vai crescer dez vezes o uso de ar-condicionado entre 2005 e 2030. Com o compressor cada vez mais barato e a eficiência maior, o consumo vai aumentar. Essa conta não fecha. Tecnologia não é a resposta. (EcoDebate)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Amazônia está sendo destruída e já emite alertas

Processo de savanização está muito acelerado na parte oriental da Amazônia (PA, TO e MT)
Amplo estudo publicado na revista Nature mostra que o processo de savanização está muito acelerado na parte oriental da floresta. Agressões podem resultar em mais eventos climáticos drásticos, como secas e cheias, e no aumento do aquecimento global.
Pastagem para gado em fazenda na fronteira com a Amazônia: para os cientistas, a derrubada de árvores já prejudicou permanentemente algumas partes da floresta.
O alerta vem sendo dado aos poucos. Pesquisas preveem secas cada vez mais frequentes e intensas, incêndios proliferam, em algumas áreas o desmatamento ficou descontrolado. O resultado é o processo de savanização das porções sul e leste da Amazônia. De forma acelerada, a maior floresta tropical do mundo ganha contorno de cerrado, perdendo parte da sua capacidade de armazenar carbono, um importante processo para contenção do aquecimento global. Um artigo publicado com destaque na edição de hoje da Nature, com ampla participação de pesquisadores e instituições brasileiras, incluindo a Universidade de Brasília (UnB), reúne as mais recentes descobertas sobre o fenômeno, que se tornou preocupante, de acordo com os especialistas.
Segundo a análise, resultante do Programa de Grande Escala da Atmosfera-Biosfera da Amazônia (LBA), uma série de fatores, humanos e naturais, estão sobrecarregando a borda oriental da floresta, nos estados do Pará, do Tocantins e de Mato Grosso. Embora a Amazônia tenha uma alta capacidade de se recuperar dos fenômenos que a agridem, a soma de várias ações simultâneas limita esse poder de auto cura. Como é na região de limite com o cerrado que há maior pressão humana, é por lá que se inicia o processo de savanização.
Lago completamente seco durante a estiagem de 2005, uma das mais graves da história.
Na longa lista de agressões que o rico ecossistema sofre, uma das mais antigas é o desmatamento. Embora nos últimos anos o índice de retirada da vegetação tenha despencado de 28.000km², em 2004, para 7.000km², em 2011, o artigo classifica essa queda como “frágil”. “No ano passado, especialmente no primeiro semestre, houve um aumento no desmatamento. A reversão dessa tendência no segundo semestre fez com que a média do ano ficasse ligeiramente abaixo da de 2010”, explica a pesquisadora do Instituto de Biologia da UnB Mercedes Bustamante, que participou do estudo. “Isso revela que, em algumas regiões, o desmatamento ainda é problemático e precisa ser resolvido”, completa.
Com a persistência da retirada da camada vegetal e as queimadas ainda longe de serem controladas, os cientistas avisam que, de certo modo, o mal já está feito. “Claro que é muito boa a redução da retirada de árvores, mas dependendo da largura da área já desmatada, há uma alteração importante no clima da própria região”, conta Marcos Longo, pesquisador brasileiro da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, que também integra o time de autores do artigo. “Nos lugares onde a largura desmatada é de pelo menos 150 km², há uma alteração na formação das nuvens e no ciclo de chuvas”, explica.
As árvores, os arbustos e as demais espécies de plantas executam um processo de evotranspiração, quando liberam água para a atmosfera. Esse líquido está entre os principais formadores das nuvens de chuva. Ou seja, onde não há mais plantas, a frequência das precipitações diminui. “Ao mesmo tempo, nas bordas da mata remanescente, devido ao alto contraste entre a floresta e a área desmatada, aumenta a chuva”, conta o pesquisador brasileiro nos Estados Unidos. “Da mesma forma, dependendo do tamanho da área desmatada, o interior da floresta naquela região também sofre diminuição da pluviosidade. Um exemplo de onde ocorre isso atualmente é a região de Rondônia, mas o problema pode surgir em qualquer lugar”, completa.
Clima
As mudanças do clima — que, de certo modo, também tem causas humanas — contribuem com o preocupante cenário. Os efeitos dos fenômenos El Niño e La Niña, complementados pelo aquecimento global, desregulam os ciclos de chuva do gigante verde da América do Sul. “Tem havido um aumento no fluxo de estação chuvosa nas regiões do Araguaia e do Tocantins durante as últimas décadas, causando inundações, erosão do solo, além de maior sedimentação”, explica ao Correio o líder da pesquisa, Eric Davidson, do The Woods Hole Research Center, nos EUA.
A bagunça climática chegou a tal ponto que, dependendo da época do ano, ocorre o fenômeno inverso: a ausência quase total de chuva. “Em apenas cinco anos, houve duas grandes estiagens na região: em 2005 e em 2010. Secas que normalmente ocorrem apenas uma vez a cada 100 anos”, explica o norte-americano. “Se essa é uma tendência que deve continuar, é muito cedo para dizer com confiança, mas um clima com mais secas extremas é algo inteiramente consistente de acordo com projeções de mudanças climáticas atuais”, alerta o pesquisador.
O grande legado das secas, mesmo após uma aparente recuperação da mata, é a limitação da capacidade das plantas de exercerem seus serviços ambientais. O artigo conta que, quando a água da chuva em uma determinada região diminui de 35% a 60% durante três anos, a umidade do solo se esgota, a produção de madeira cai entre 30% e 60%, a mortalidade de árvores quase dobra e a biomassa viva acima do solo diminui de 18% a 25%. Quando o período de seca cresce para entre quatro e sete anos, as taxas de mortalidade quase triplicam. Os especialistas lembram que o fenômeno de 2005 trouxe efeitos semelhantes (o nível do Rio Solimões ficou apenas entre 33% e 65% da média histórica).
Carbono
Os efeitos do enfraquecimento da Amazônia ainda não são totalmente entendidos. Contudo, os pesquisadores sabem que eles são, em maior ou menor escala, catastróficos. Ainda falta entender se a floresta é grande consumidora de carbono produzido externamente ou se ela está próxima do equilíbrio, ou seja, produz o gás durante as queimadas ou na decomposição das plantas e consome a mesma quantidade pelo crescimento e desenvolvimento das árvores. “Independentemente disso, a floresta funciona como um gigantesco reservatório natural de carbono”, conta Mercedes Bustamante, da UnB.
Enquanto o mundo tenta reduzir o efeito estufa por meio da captura do excesso de carbono — liberado principalmente pela queima de combustíveis fósseis —, a floresta guarda em suas folhas, troncos e galhos cerca de 100 bilhões de toneladas de carbono, o mesmo que os 7 bilhões de habitantes do planeta demoram 10 anos para emitir.
Dessa forma, o enfraquecimento da floresta não seria apenas um problema das comunidades locais, ou dos países da América do Sul por onde ela se estende. “As plantas utilizam o carbono presente na atmosfera para se desenvolver. É como se elas ‘comessem’ esse carbono”, explica Marcos Longo. “Quando não há vegetação, não há quem utilize esse carbono. Da mesma forma, quando há derrubada da floresta, o carbono armazenado nas árvores vai para algum lugar, no caso, para a atmosfera.” Assim, a balança de carbono mundial ficaria ainda mais desequilibrada, com menos seres consumindo o elemento e uma gigantesca quantidade da substância despejada na natureza.
Conhecimento ampliado
Criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCT), o Programa de Grande Escala da Atmosfera-Biosfera da Amazônia (LBA) tem a função de ampliar o entendimento sobre o funcionamento dos ecossistemas amazônicos e integrar as dimensões sociais e econômicas às pesquisas ambientais de ponta. No artigo publicado pela Nature, além dos três brasileiros citados pela matéria, participaram da pesquisa, especialistas do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Embrapa, da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Centro de Geotecnologia do Imazon, no Pará. (EcoDebate)

Agricultura cresce com a queda do desmatamento

Estudo mostra que produção agrícola cresce com a queda do desmatamento
Pesquisadores analisaram tendências de uso da terra na floresta amazônica em Mato Grosso
Não há nenhuma contradição entre diminuir o desmatamento e aumentar a produtividade agrícola. É o que mostra um estudo publicado na última edição da revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences [Decoupling of deforestation and soy production in the southern Amazon during the late 2000s] (PNAS).
Os pesquisadores analisaram as tendências de uso da terra na floresta amazônica do Estado de Mato Grosso.
Entre 2006 e 2010, o desmatamento na região caiu para 30% da média histórica de 1996 a 2005. Ao mesmo tempo, a produtividade agrícola atingiu o ápice do período estudado.
De 2001 a 2005, o aumento da produtividade da soja pode ser explicado exclusivamente pelo aumento da área plantada, principalmente pastos convertidos em lavouras (74%) e florestas desmatadas (26%). Na segunda metade da década, a produtividade da soja cresceu 78%. Quase um terço desse porcentual pode ser explicado pelo aumento de produtividade das lavouras já existentes.
Além disso, a maior parte da expansão das fronteiras agrícolas da soja (91%) ocorreu em regiões já desmatadas. As razões apontadas para a mudança são políticas eficazes para estimular o uso sustentável da terra. (EcoDebate)