sábado, 29 de abril de 2017

Manifesto alerta as altas taxas de desmatamento do Cerrado

SBPC e ABC fazem manifesto alertando para as altas taxas de desmatamento do Cerrado.

Colniza, MT, Brasil: Área degradada no município de Colniza, noroeste do Mato Grosso.
As entidades alertam para as altas taxas de desmatamento e pedem urgência na implementação de políticas públicas de proteção ao bioma.
A SBPC e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) divulgaram em 17/04/17, um manifesto para alertar o Governo Federal, os Governos Estaduais e toda a sociedade, para as altas taxas de desmatamento do Cerrado, que ameaçam sua sobrevivência. Na nota, as entidades afirmam que é fundamental que as duas esferas de governos implementem políticas públicas que visem ampliar significativamente a área conservada em unidades de proteção integral e de uso sustentável, bem como os recursos para o desenvolvimento científico e tecnológico do bioma. Pedem também que tais politicas visem à implantação do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo), bem como da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Proveg).
“É imperioso que essas políticas sejam executadas de forma integrada. Para tanto, é fundamental que os recursos financeiros e técnicos sejam garantidos e que haja uma harmonia entre os entes governamentais, instituições de pesquisa e ensino, organizações da sociedade civil e iniciativa privada”, defendem a SBPC e a ABC na nota.
As entidades ressaltam a importância do Cerrado, onde nascem três das principais bacias hidrográficas, que abastecem de água grande parte do Brasil. “O Cerrado é a savana mais rica em espécies do mundo e a mais ameaçada pelas atividades antrópicas. Sua biodiversidade e os produtos que ela pode gerar em benefício da humanidade são ainda pouco conhecidos”, destacam.
Apesar da riqueza e importância, a SBPC e a ABC lamentam que o Cerrado esteja sofrendo com as mais altas taxas de desmatamento, que já dizimou metade de sua vegetação. O desflorestamento, somado a práticas “insustentáveis”, segundo alerta a nota, vêm causando a redução dos recursos hídricos e da biodiversidade, comprometendo a própria existência desse bioma.
“Isto compromete não apenas o uso futuro, mas também o uso presente pela população brasileira e pelas iniciativas econômicas vigentes. É vital para a sociedade brasileira que o uso atual do Cerrado não comprometa o futuro do Brasil”, defendem as instituições, ressaltando a importância dos governos Federal e Estaduais implementarem as políticas públicas propostas. (ecodebate) 


Aumento desmatamento e as metas brasileiras no Acordo de Paris

Aumento do desmatamento comprometem as metas brasileiras no Acordo de Paris
Aumento do desmatamento e propostas de redução de áreas de UC’s na Amazônia comprometem as metas brasileiras no Acordo de Paris.


A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura expressa sua forte preocupação com o alarmante aumento da taxa de desmatamento, bem como seu desacordo com recentes propostas legislativas que podem reduzir as áreas protegidas em Unidades de Conservação na Amazônia. O aumento da devastação florestal coloca o Brasil na direção contrária de suas metas da Política Nacional de Mudanças Climáticas para 2020 e compromete a meta brasileira referente ao Acordo de Paris.
Num momento em que o país busca reestabelecer a confiança com a retomada da gestão econômica responsável e focada no alcance das metas estabelecidas, é igualmente crucial retomar o caminho das metas da agenda climática em especial a redução drástica do desmatamento.
Os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que entre 2014 e 2016 o desmatamento aumentou 60%. A taxa de desmatamento em 2016 chegou a quase 8.000 km2, mais do que o dobro da taxa necessária para alcançar a meta de redução de 80% do desmatamento em 2020, estabelecida pela Política Nacional de Mudanças Climáticas.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) mostra que o desmatamento aumentou dentro de Unidades de Conservação e em áreas públicas ainda não destinadas a um uso específico e também em propriedades rurais inseridas no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Mais da metade de toda área desmatada detectada pelo INPE está no CAR.
Esse cenário é incompatível com o passado recente do Brasil que, entre 2005 e 2012, foi um dos países que mais contribuiu para a mitigação das mudanças climáticas. O resultado positivo daquele período foi alcançado, entre outras medidas, pela substancial redução no desmatamento da Amazônia, na qual as ações de monitoramento contínuo, repressão à exploração ilegal e a criação de Unidades de Conservação se mostraram estratégias bem-sucedidas. O desmatamento, que chegou a 27.000 km2 em 2004, baixou a 4.500 km2 em 2012, simultaneamente a um período de saltos extraordinários da produção agropecuária brasileira. A reversão recente desta tendência com forte aumento do desmatamento coincide com a diminuição da frequência da divulgação de dados do DETER, a redução das ações de comando e controle, a paralisação da criação de novas Unidades de Conservação e propostas de redução de antigas áreas protegidas, o baixo investimento e a ausência de incentivos para a conservação das florestas e para atividades sustentáveis. Além disso, com base nos dados preliminares do próprio governo federal, essa tendência de aumento deve se manter ou até se agravar nos próximos anos, colocando em risco o compromisso climático brasileiro com o Acordo de Paris, que tem como um dos seus pilares alcançar o desmatamento ilegal zero na Amazônia brasileira até 2030.
Somam-se a essa situação as ações de parlamentares e agentes públicos, apresentadas nos últimos meses, propondo a redução das áreas protegidas em Unidades de Conservação na Amazônia em cerca de um milhão de hectares, que emitem um sinal contrário a tudo que o país vem defendendo nacional e internacionalmente. A Coalizão Brasil entende que tais ações abrem caminho para uma maior destruição florestal e colocam em risco populações tradicionais e atividades econômicas ligadas direta ou indiretamente à floresta, como a própria agropecuária, responsável por quase 25% de nosso PIB.


É preciso uma retomada urgente da agenda integrada de controle do desmatamento com ações que incluem (i) a retomada da divulgação mensal dos alertas de desmatamento do DETER, (ii) a suspensão dos processos de regularização fundiária e crédito e a imediata responsabilização e autuação de todas as áreas com desmatamento ilegal, (iii) a instalação de uma força tarefa para promover a destinação para conservação e usos sustentáveis de 60 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas e (iv) a suspensão imediata de todos os processos de redução de unidades de conservação.

A busca de mais harmonização entre conservação florestal e o uso eficiente de nossos solos para a produção agropecuária é um dos maiores desafios do Brasil nos próximos anos. Um país que produz 7% dos alimentos do mundo, com meta de chegar a 10% em cinco anos, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, precisa ter responsabilidade e compromisso com o bom uso de seus recursos naturais.
O Brasil é fundamental nos esforços globais para enfrentar os desafios das mudanças climáticas. Possui tecnologia para produzir mais sem precisar desmatar. Tem, ainda, a ambição de ser um país mais justo e responsável para com seus cidadãos e com o planeta. Para isso, deve crescer, ampliar a economia e potencializar ainda mais sua produção agropecuária e, ao mesmo tempo, proteger ativos naturais. (ecodebate)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Toneladas de plástico flutuam no Ártico

Segundo estudo, altas concentrações de lixo plástico foram encontradas nas águas, mesmo com pouca gente vivendo por ali.
Na casa das toneladas
Estudo mostra que toneladas de plástico flutuam no Ártico.
Mar da Groenlândia, onde pesquisadores encontraram quantidade significativa de plástico.

Altas concentrações de lixo plástico foram encontradas nos mares do Ártico, mesmo com poucas pessoas vivendo por ali, apontou uma pesquisa.

Os detritos, possivelmente, vêm de lugares como as costas do noroeste da Europa e até dos Estados Unidos.

O que faz a sujeira chegar tão longe, segundo os pesquisadores, é uma corrente do Atlântico que a arrasta para a áreas consideradas “becos sem saída”, nos mares da Groelândia e de Barents, ao norte da Noruega.
Os resíduos são dos mais variados tipos, como redes de pesca, filmes plásticos, fragmentos e partículas que, segundo cálculos dos pesquisadores, chegam a casa das toneladas.
O oceano Ártico concentra grandes quantidades de plástico, lixo produzido em locais distantes e transportado por uma corrente oceânica, conclui estudo publicado por investigadores que transmitiram preocupação sobre os efeitos da poluição nos ecossistemas árticos.

Aliás, estima-se que as altas cargas de poluição plásticas nos mares possam, inclusive, superar a de peixes no futuro.

O estudo foi conduzido pelo pesquisador Andres Cozar, da Universidade de Cadiz, na Espanha, e os resultados foram publicados na revista “Science Advances”.
Os cientistas indicam que o plástico que flutua no Ártico representa menos de 3% do total mundial, mas adverte que essa taxa continuará crescendo ao longo dos anos. (yahoo)

O mundo está cada vez mais contaminado por plásticos


Crianças recolhem lixo de uma zona aquática em Jakarta - Indonésia
Planeta Terra, um ecossistema complexo onde milhões de seres vivos coabitam em “quase” perfeita harmonia. Quase, porque existe um que para viver necessita de explorar recursos naturais e criar subprodutos derivados, como o plástico. Estaremos, sem perceber, a plastificar o nosso planeta? Mas que produto tão válido e útil é este que é também um problema difícil de descartar?
O plástico é um componente orgânico de polímeros sintéticos, produzido com base no petróleo, que serve de matéria-prima para o fabrico dos mais variados objetos e com uma durabilidade elevada, mas também com elevados riscos ambientais, sendo os oceanos uma das potenciais vítimas deste produto.
Cerca de 70% da superfície do nosso planeta é coberta por oceanos - um ecossistema que suporta grande variedade de habitats e biodiversidade.
Porém, com a evolução da indústria ao longo da história da humanidade, o meio marinho é utilizado extensivamente como um local onde os despojos de lixo doméstico e industrial são canalizados através dos rios ou mesmo de forma direta, provocando fortes impactos negativos nos ecossistemas e na economia.
Segundo estudos realizados pela comunidade científica que analisa este fenómeno global, são lançados anualmente nos oceanos cerca de oito milhões de toneladas de lixo plástico e seus derivados.
Uma quantidade que daria para cobrir 34 vezes toda a área da ilha norte americana de Manhattan, com uma camada de lixo à altura dos joelhos de uma pessoa.


Fibras sintéticas são micropartículas derivadas do plástico que estão um pouco por todo o material sintético como, por exemplo, roupa poliéster.
O estudo apresentado recentemente é considerado um dos melhores esforços para quantificar o plástico despejado, queimado ou arrastado para o mar.
Segundo os investigadores, a análise também pode ajudar a descobrir a quantidade total de plástico existente hoje no oceano – não apenas o material que é encontrado na superfície ou mesmo nas praias.
O que é o Pellet? Pellet é um granulado derivado do plástico depois da fragmentação. Encontramos muitos destes fragmentos nos detritos marinhos que dão à costa provenientes do lixo que se encontra no mar.
Estima-se que grandes quantidades de resíduos plásticos, cerca de 70%, podem estar depositadas no fundo dos oceanos, muitos deles fragmentados em pedaços tão pequenos (pellet e fibras sintéticas) que não são captados pelas análises convencionais.
O problema agrava-se quando se lhe associa a questão das cadeias alimentares marinhas, que depois entram no sistema de consumo humano.
Estamos a plastificar o mar
O lixo marinho é todo o material “não orgânico” e duradouro que é descartado, eliminado ou abandonado na costa ou no mar.


Trata-se de um problema global em constante crescimento e de uma ameaça direta para o ecossistema marinho, que atraiu uma maior atenção do mundo, após a descoberta de uma grande “ilha de lixo” (garbage patch) no Giro do Pacífico Norte.
Esta questão ambiental não existe apenas no Pacifico Norte, porque segundo estudos e análises feitas por investigadores e cientistas ligados à vida marinha, já foram identificadas pelo menos cinco ”ilhas” de detritos no mar nos designados giros marinhos ou oceânicos: dois no Pacifico, dois no Atlântico e um no Índico.


Um giro marinho ou oceânico é um sistema de correntes marinhas rotativas, particularmente as que estão relacionadas com os grandes movimentos do vento. Os giros são causados pelo efeito da força de Coriolis. O termo giro pode ser usado para referir-se a qualquer tipo de vórtice, tanto no ar como no mar, e inclusive para aqueles produzidos pelo homem, mas é mais comumente usado em oceanografia para referir-se aos maiores sistemas oceânicos.
Não é possível determinar com exactidão a área que ocupam estas “ilhas de lixo”, já que, como explica Paula Sobral, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL) os plásticos estão constantemente a fragmentar-se e os valores variam bastante. Estima-se, no entanto, que só 30 % destes detritos se encontram à superfície, estando a maior parte na coluna de água e no fundo dos oceanos.
Lia Vasconcelos, investigadora da FCT/UNL, alerta para o facto de, por estes aglomerados de lixo estarem “longe da vista”, estão também “longe da preocupação”. É por isso importante chamar a atenção das pessoas para esse problema.
Quais são as consequências?
O lixo que vemos nas nossas praias é apenas uma pequena percentagem de todo o lixo que existe nos oceanos (15%). De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente (UNEP), 15% do lixo marinho flutua à superfície ou está na coluna de água (a mais de 40 centímetros de profundidade). Os restantes 70% estão nos fundos marinhos, fora da nossa vista.
O lixo marinho é constituído por uma grande diversidade de materiais, especialmente materiais que se degradam lentamente, o que torna a situação cada vez mais grave. Mesmo que deixássemos de produzir lixo hoje, os problemas associados ao lixo marinho permaneceriam durante muitos anos.
Paula Sobral explica que, apesar de ainda haver muito desconhecimento em relação aos impactos do plástico nos diferentes compartimentos do ecossistema, sublinha que há “vários relatos de casos de animais que ingerem microplásticos com consequências nefastas para os organismos”.
Ainda que não existam dados concretos que indiquem que há consequências negativas para o ser humano, a possibilidade de isso acontecer através da ingestão de organismos marinhos que filtrem o lixo que está no mar é grande.
Para além das possíveis consequências para a saúde, tem de se ter em conta também o impacto que o lixo marinho tem a um nível socioeconómico.
Cerca de 70% de todo o lixo marinho é constituído por plásticos. Os restantes 30 correspondem a outros materiais como vidro, papel, metal, têxteis entre outros.
Existem, contudo, diferenças significativas entre regiões no tipo e quantidade de lixo que entra no mar, que normalmente estão associadas a fatores socioeconómicos como o urbanismo, turismo e atividades de pesca.
Praias em Portugal estão cheias de microplásticos
As praias nacionais estão sujas apesar do trabalho de limpeza que muitas autarquias e concessionários fazem para eliminar este problema.
Mas será que apesar de as praias serem e parecerem limpas, estão mesmo isentas de lixo? A resposta é “não”. Isto porque muitos dos produtos estão já incorporados e dissimulados nas areias balneares, como por exemplo, os “microplásticos”.


Segundo um trabalho académico elaborado para uma dissertação para a obtenção do grau de Mestre em Engenharia do Ambiente, Perfil Engenharia, por Joana Veiga Ferreira Martins em 2011, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL), muitas das praias analisadas por esta académica estão contaminadas com vários tipos de lixo e com especial destaque para a questão dos microplásticos.
Neste trabalho académico com o título “Caracterização de Resíduos Plásticos na Costa Portuguesa – será um Microproblema?”, é referido que “a poluição marinha por resíduos plásticos constitui um enorme desafio à integridade dos oceanos, a uma escala global”.
O estudo revela que devido à elevada persistência do material plástico, bem como às medíocres estratégias de gestão do ciclo de vida e consequente elevado volume de resíduos descartados que entra nas massas de água, se promove a acumulação de lixos “não biodegradáveis” ao longo dos rios, mares e oceanos e linhas de costa.
Neste trabalho foi feita uma monitorização em algumas praias nacionais e a análise do plástico recolhido denota evidências preocupantes: efeitos físicos e ecotoxicológicos na fauna marinha, resultantes da ingestão de plásticos devido à absorção de poluentes orgânicos persistentes (POP) e outros compostos químicos, bem como o transporte de espécies invasoras e outros impactos econômicos e sociais.


Segundo Joana Martins da FCT/UNL, autora do estudo: “A costa portuguesa é vulnerável à acumulação de resíduos plásticos no mar e nas praias. Por conseguinte o estudo teve como objectivos: realizar um programa de amostragem e trabalho laboratorial para identificar as principais categorias de plásticos acumulados (micro a macro-dimensões) em praias específicas, e determinar concentrações de POP em pellet e avaliar o estado da costa”.
O estudo efetuado em dez praias nacionais veio a revelar diferentes amostras de sedimentos plásticos entre muitos, material pertencente a redes de pesca, vasilhames plásticos, derivados múltiplos e microplásticos.
De entre as amostras recolhidas, cerca 90% do total eram pellets plásticos, poliestireno e fragmentos plásticos com tamanhos entre 50 µm e 20 cm, e quanto mais pequenas as partículas, maior a abundância (90% destas com diâmetro inferior a 10 mm), devido aos processos de degradação promovidos pelo tempo e pela ação erosiva do mar.


Destaca-se neste trabalho que entre o lixo plástico a categoria  mais encontrada na maioria das praias em estudo foi o plástico de pós-produção, correspondendo a 67% do total, muito representado pela classe de poliestireno com 37% e fragmentos plásticos 18%, sendo o restante lixo plástico (33% do total) correspondente a plástico de pré-consumo, mais precisamente pellet.
Segundo a autora do estudo, Joana Martins, “os resultados comprovam que os resíduos plásticos na costa portuguesa são um problema particularmente nas dimensões mais pequenas, considerado o facto de 72% do plástico amostrado nas praias (identificado visualmente) ter dimensões correspondentes às de microplásticos, para além da grande quantidade detectada ao microscópio. Contudo, não é um microproblema na perspectiva de ser um problema pequeno, mas ser sim um problema de grande dimensão disseminado pela costa portuguesa”.
Este estudo, apesar de ser um trabalho académico e sem resultados diretos práticos no terreno, foi inovador, no sentido em que, face a um conhecimento deficitário do estado da costa portuguesa no que diz respeito a este tipo de poluição, apresentou uma perspetiva do atual problema, recorrendo a metodologias simples mas eficazes.
China e países emergentes no topo da lista dos mais poluidores
Já em 2010 os detalhes divulgados no encontro anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência eram alarmantes.
Vários especialistas analisaram dados populacionais com informações sobre a quantidade de lixo gerado e gerenciado (ou não gerenciado) tendo elaborado alguns cenários da quantidade de plástico despejado nos oceanos.
Dados referentes ao ano de 2010, colocavam cenários de produção de lixo a variar entre os 4,8 milhões a 12,7 milhões de toneladas, situando-se a média nos oito milhões de toneladas.


Este cenário equivale, em termos de massa, à quantidade de atum pescado anualmente nos oceanos.

Segundo Kara Lavender Law, coautora da pesquisa e porta-voz da Associação Educacional do Mar de Woods Hole, no Estado norte-americano de Massachussetts, "isto significa que estamos a tirar o atum do mar e a colocar plástico no seu lugar".

Os investigadores também fizeram uma lista dos países com maior responsabilidade na produção e despejo destes resíduos e concluíram que no mundo 20 nações são responsáveis por 83% do plástico mal armazenado ou reciclado que pode entrar nos oceanos.

A China ocupa o topo da lista, produzindo mais de um milhão de toneladas. Mas os estudos salvaguardam esta produção com o índice populacional e a extensão da sua costa.

Os Estados Unidos ocupam o 20.º lugar na lista; apesar de registarem altos níveis de consumo de plástico per capita, fazem uma boa gestão destes resíduos.

A União Europeia é analisada em bloco e ocupa o 18º lugar.

Soluções existem, mas têm de ser encontradas a montante

O estudo recomenda algumas soluções para o problema. Afirma que as nações ricas precisam de reduzir o seu consumo de produtos descartáveis e embalagens de plástico, à imagem do que se passa em Portugal, com a implementação de medidas dissuasoras ao consumo deste tipo de embalagens. Já nos países em desenvolvimento, a solução passa por melhor informação e melhoramento no tratamento do lixo.

A equipa de investigadores internacionais estima que a quantidade de plástico anualmente lançada ou enviada inadvertidamente nos mares pode alcançar 17,5 milhões de toneladas até 2025. Este valor pode significar cerca de 155 milhões de toneladas de lixo plástico nos nossos oceanos.

A resolução de uma questão ambiental como esta tem sempre de passar pelos vários atores no terreno, quer indústria, quer população, quer medidas governamentais. O problema é transversal e terá sempre melhores resultados se o trabalho for feito a montante, como explica Paula Sobral.

Projeto Marlisco

O Projeto MARLISCO (Marine Litter in European Seas: Social Awareness and CO-Responsibility) é um projeto europeu financiado pela Comissão Europeia e pretende aumentar a consciência social sobre os impactos do lixo marinho e possíveis soluções para o problema, de forma a inspirar mudanças de atitude e comportamento na sociedade.

Este programa, que conta com a participação da FCT/UNL, quer envolver todos os setores relacionados direta ou indiretamente com o lixo marinho, nomeadamente os utilizadores de águas costeiras e marinhas, setor de gestão de resíduos e reciclagem, setor industrial, comissões regionais do mar e representantes da União Europeia, comunidade científica, municípios locais, grupos de cidadãos, organizações não-governamentais de ambiente, alunos e público em geral.

Até agora tem conseguido a participação de alguns elementos ligados ao desporto náutico (surf) que tem interagido com algumas comunidades piscatórias do litoral nacional, com resultados muito positivos a nível de sensibilização para as práticas de utilização de material nocivo ao ambiente marinho.

Ideias para salvar o mar

As ideias para limpar e salvar a fauna não faltam, mas a questão que se coloca é se resultam e são viáveis. Questão que não desencorajou um jovem de 20 anos, Boyan Slat, que fixou a si próprio uma missão ambiciosa - livrar os oceanos do planeta dos plásticos flutuantes.

Apesar da idade, nos últimos anos a sua técnica já convenceu entusiastas e patrocinadores dispostos a financiar os seus projetos.

A ideia de limpar o lixo marinho surgiu quando tinha 16 anos, em 2011, ao praticar mergulho na Grécia. Relata que viu mais sacos de plástico do que peixes.

E agora elaborou um sistema de recolha que consiste numa série de barreiras flutuantes, ancoradas no leito do mar, que primeiro capturam e concentram os detritos flutuantes. Depois, o plástico é canalizado ao longo das barreiras no sentido de uma plataforma, onde seria, então, extraído de forma eficiente.

Conferência dada por Boyan slat num encontro promotor de ciências TEDxDelft com o titulo : "Como é que podemos limpar os oceanos" em 2012.

A corrente oceânica passaria por baixo das barreiras, levando toda a vida marinha flutuante com ela. Não haveria emissões nem redes para a vida marinha se enroscar. O plástico recolhido no oceano seria reciclado e transformado em produtos ou em óleo.

Este projeto já foi premiado como Melhor Projeto Técnico da Universidade de Tecnologia Delft, mas o que Slat não está a contar é que 70% dos lixos plásticos já se encontram nos fundos oceânicos.

Maior porção dos lixos plásticos no fundo oceânico

Um dos primeiros raciocínios de quem está a ler este artigo poderá ser este: mas o plástico flutua e estas “ilhas” de lixo podem ser apanhadas com métodos criados para o efeito. Infelizmente não é bem assim. O pesquisador Roland Geyer, da Universidade da Califórnia, que também participou no estudo, disse à BBC que não é possível limpar o plástico dos oceanos.

Isto explica-se porque grande parte dos materiais plásticos já não se encontra à superfície.

"Como é que você recolheria o plástico do fundo dos oceanos considerando que a sua profundidade média é de 4,2 mil metros? Temos antes que evitar que o plástico chegue aos oceanos", afirma Geyer.

"A falta de sistemas de tratamento de lixo alimenta a entrada de plástico no oceano e a solução prioritária neste momento é ajudar todos os países a desenvolver estruturas de tratamento de produtos plásticos e seus derivados", disse. (rtp)


terça-feira, 25 de abril de 2017

Sobradinho deve atingir volume morto em 2017

Redução da vazão do reservatório pode determinar o momento em que o volume útil será esgotado.
Autoridades admitem que o reservatório de Sobradinho deve atingir o volume morto durante o período seco, e a discussão agora não é se, mas quando isso vai acontecer. A situação é inédita na história da hidrelétrica, e avaliação feita pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico aponta para a urgência na redução da vazão da usina dos atuais 700 m³/s para 600 m³/s já a partir de maio, para não apenas retardar esse momento como também limitar o uso da água que está abaixo do chamado volume útil do reservatório a 4% do total disponível até o inicio das chuvas em novembro.
“O melhor cenário hoje considerado é a partir de maio nós estarmos com 600 m³/s. Nessa condição, nós atingiríamos o volume morto no final de outubro. Agora, caso tenhamos alguma demora no processamento dessa decisão e ela só aconteça de forma a permitir a redução para 600 m³/s em junho, aí nós já atingiríamos o volume morto no inicio de outubro”, afirmou o diretor-geral do ONS, Luiz Eduardo Barata, após audiência pública sobre a crise hídrica na Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional.
A redução só pode ser feita com autorização da Agência Nacional de Águas e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. A autorização da ANA sairá na semana que vem, de acordo com o superintendente de Operações e Eventos Críticos da agência, Joaquim Guedes Gondim Filho. Ele alertou, porém, que ainda é necessária a decisão do órgão ambiental.
Com chuvas abaixo da média, os reservatórios das hidrelétricas do rio São Francisco chegam ao fim do período úmido com níveis nada confortáveis de armazenamento. Três Marias (MG) com 32%, Itaparica com 19,6% e Sobradinho, o maior deles, com 16%. A previsão do ONS é de que se for mantida a defluência de 700 m³/s o volume útil da hidrelétrica estará esgotado no fim de setembro, e em novembro, no início do período chuvoso, já terão sido utilizados 9,7% do volume morto.
O limite máximo calculado pela Chesf para uso da água nessas circunstâncias é de 12,5%. “A partir daí você começa a ameaçar as estruturas físicas do talude do reservatório”, explicou Barata. Para não atingir o volume morto este ano, a vazão do reservatório teria que ficar abaixo de 600m³/s, mas o ONS ainda não trabalha com essa possibilidade. No ano passado Sobradinho já havia atingido o menor nível de armazenamento de sua historia, com 1% do volume útil no fim do período seco.
O diretor de Operação da Chesf, João Henrique Franklin Neto, alertou durante a audiência no Senado que as autoridades estão diante de uma situação que não é de natureza energética, e, sim, uma questão de necessidade hídrica da região Nordeste. Ele afirmou que o atendimento energético da região está garantido com o uso de outras fontes de geração, embora isso também seja preocupante. “Entendemos, como operador de reservatório, que é necessária a redução da vazão”, disse.
Franklin Neto afirmou que 16% de armazenamento significam pouco mais de três metros de água. A partir de determinado nível, a usina não vai mais conseguir gerar energia. Mas a água do volume morto, que a estatal calcula em 6 bilhões m³, pode ser aproveitado para outros usos.
Gondim Filho, da ANA, lembrou que a crise hídrica que atinge a bacia do São Francisco é a maior de que se tem notícia desde o inicio da medição das vazões no inicio do século passado. O superintendente lembrou a crise atinge agora níveis que o sistema de abastecimento de água das cidades e a irrigação nunca alcançaram, e é necessário adequar infraestruturas para garantir o abastecimento. “Temos inúmeros reservatórios no Ceará que estão usando o volume morto.” (canalenergia)

Recursos Hídricos na Comunidade de Triângulo

Recursos Hídricos na Comunidade de Triângulo: potencial de aproveitamento e gestão.
O uso racional da água é fundamental em regiões semiáridas. No povoado de Triângulo, no município de Caém-BA, não há ações por parte dos moradores em preservar os recursos hídricos, por estes serem abundantes. O objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade da água das fontes e descobrir quais são as preocupações da comunidade a respeito desses recursos.
Numa reunião, os moradores foram consultados quanto ao modo de utilização das fontes de água da comunidade. Foram feitas análises para averiguar as condições químicas e biológicas da água e percebeu-se que além da ausência de ações por parte dos moradores para melhorar ou conservar suas fontes, estas se encontram contaminadas por microrganismos patogênicos, podendo trazer problemas de saúde para seus usuários. A comunidade de Triângulo, no município de Caém-BA, precisa urgentemente fazer o tratamento da água da fonte de Mata Verde e consequentemente do reservatório que abastece a referida comunidade.
Introdução
O uso racional da água é uma preocupação global e deve ser redobrada em regiões semiáridas. Na região Nordeste do Brasil o acesso a água é, em geral, bastante limitado e direcionado para empreendimentos agrícolas e industriais. Porém, quando se trata de fontes existentes em pequenas comunidades, não existem ações do poder público para gestão de tais recursos. Todavia, é premente a preocupação com essas fontes e que a gestão desses recursos seja discutida, para que o cidadão entenda que a água não é mais considerada um bem inesgotável, gerando assim, a necessidade de preservação de tais recursos.
Na comunidade de Triângulo o acesso a água se contrapõe a realidade do semiárido à sua volta. Trata-se de uma comunidade com grande disponibilidade de água, rodeada de nascentes, riachos, rios e cachoeiras. Porém, seu uso racional não é uma preocupação do poder público municipal ou estadual, e com isso, seu potencial de uso pode estar sendo comprometido pela contaminação, devido principalmente a utilização de encanações e construção de barragens irregulares, falta de fiscalização quanto à outorga, bem como, a retirada de solo, rocha e vegetação nativa das margens para a comercialização.
Outro fator importante é o monitoramento da qualidade dessas águas para consumo.
De acordo com Cavalcante, a falta de monitoramento das diferentes fontes de água e o desconhecimento da população das causas e dos problemas associados à contaminação decorrem para a alta incidência de doenças de veiculação hídrica em comunidades rurais.
Outros pesquisadores também tem comprovado que a contaminação de fontes de água tem sido um fato comum.
O problema mais grave, entretanto, é a qualidade sanitária da água. Cavalcante concluiu que a água utilizada pela comunidade rural foi identificada como um importante fator de risco à saúde da população, visto que todas as fontes de água analisadas apresentam índices de coliformes totais e E. Coli acima do permitido para consumo humano. Segundo Amaral et al., no meio rural as principais fontes de abastecimento de água são os poços rasos e nascentes, fontes bastante susceptíveis à contaminação e, a ausência do monitoramento da qualidade da água contribui com o aumento de doenças.
A deficiência do poder público na gestão dos recursos hídricos, a falta de uma estrutura apropriada de coleta de água e o saneamento da mesma contribuem para aumento no número de doenças das populações rurais. Todavia, segundo Hossoi, um dos grandes desafios do saneamento brasileiro, atualmente, é desenvolver um “modelo sustentável” para levar água de qualidade e tratamento de esgoto às comunidades isoladas, isto é, comunidades de difícil acesso, cuja interligação aos sistemas municipais demonstra-se inviável, exigindo soluções independentes.
Neste contexto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade da água das fontes da comunidade de Triângulo, município de Caém, no semiárido Baiano, e descobrir quais são as preocupações e ações da comunidade para preservação desses recursos.
Materiais e métodos
Esta Pesquisa foi desenvolvida na comunidade de Triangulo, município de Caém, localizado no Norte Baiano, mais precisamente no Piemonte da Chapada. A comunidade tem aproximadamente 106 famílias, composta na sua maioria por pequenos agricultores. Faz parte do Bioma Caatinga, tem um clima semiárido, com temperatura média variando entre 22 a 30°C.
O município está inserido numa área suscetível a prolongados períodos de estiagem.
Seus solos são, essencialmente, Latossolos distróficos, Luvissolos ou Planossolos eutróficos e Neossolos Litólicos distróficos. Segundo dados da Secretaria Municipal de Agricultura, o município tem um índice pluviométrico em média de 900 a 1200 mm/ano.
Para conhecer outros aspectos relativos à disponibilidade de água da comunidade, foi realizada no dia 27/11/15 um encontro com moradores, onde estavam presentes 30 moradores da comunidade de Triângulo, município de Caém-BA. Os participantes eram 10 crianças, 9 jovens, 5 homens e 6 mulheres. Estes sujeitos foram previamente convidados pela pesquisadora, acompanhada do Agente Comunitário de Saúde local.
O encontro foi motivado por um questionário composto por 13 questões, sistematicamente articuladas, que se destinaram a levantar informações escritas por parte dos sujeitos pesquisados e questões com opções sinalizadas. Trata-se de um estudo de caráter qualitativo.
Os moradores discutiram acerca dos recursos hídricos e como poderiam atuar para melhorar a gestão desses recursos. Todos os presentes foram ainda consultados quanto à importância dos recursos hídricos disponíveis em sua comunidade Para garantir o retorno dos questionários devidamente respondidos e obter uma amostragem que de fato representasse a realidade da comunidade, os pesquisados foram reunidos em um espaço da comunidade para responder as questões em conjunto e posteriormente já devolver à pesquisadora. Para facilitar o entendimento das questões, o grupo foi dividido por faixa etária, seguido de leitura previa e esclarecimento das questões.
Na comunidade de Triângulo existem três fontes de água para o seu abastecimento:
Fonte de Triangulo, Mata Verde e Rio Charneca. A fim de trazer água para um reservatório instalado na comunidade com capacidade de 10.000 l, foi instalada uma tubulação que liga a fonte Mata Verde com esse reservatório. A prefeitura municipal de Caém providenciou os equipamentos, que foram instalados pelos próprios moradores. A água desse reservatório é repassada à comunidade sem custos.
Foi medida a vazão das fontes através das estimativas médias da velocidade seguindo a metodologia de Guerra e Cunha. Na mesma ocasião foi realizada a coleta de amostras da água dos mananciais em 28/06/16, que foram encaminhadas para o Laboratório da Empresa Baiana de Água e Saneamento - EMBASA para análise dos seguintes fatores: Alcalinidade, organismos heterotróficos, PH, turbidez, cor aparente, coliformes totais, e E. Coli. A coleta foi realizada pela própria pesquisadora, seguindo as orientações do referido laboratório: Lavar as mãos com água e sabão, coletar 2 amostras da água em recipientes de plástico, fornecido pelo referido laboratório, devidamente esterilizados, encher com pelo menos ¾ de seu volume, tampar o frasco, identificá-lo, anotando endereço, hora, e nome do coletor, etc, marcar o frasco com o número da amostra, correspondente ao ponto de coleta, preencher a ficha de identificação da amostra de água, colocar o frasco das amostras na caixa de isopor com gelo, lacrar, identificar e enviar a caixa para o laboratório. O tempo de coleta não deve exceder às 08 horas e a realização do exame não deve exceder 24 horas. Na mesma ocasião as referidas fontes foram devidamente identificas atrás de aparelho GPS.
Os resultados deste trabalho serão apresentados para os moradores através de um seminário na comunidade de Triângulo.
Resultados e discussão
Estavam presentes na reunião comunitária 30 pessoas, sendo um percentual muito elevado de crianças e jovens, num total de 19 indivíduos, ou seja, 63% dos presentes.
A pesar da ausência dos adultos, a presença das crianças e jovens gera uma expectativa muito boa, visto que, eles são fundamentais no sentido de mobilizar as famílias e comunidade no presente, além de percebermos uma geração de poderá atuar mais consciente no futuro frente às questões sócio ambientais.
Cavalcante mostrou que a falta de informação da população em geral, é um dos principais desafios enfrentados para conservação e uso racional da água no semiárido brasileiro. Na comunidade de Triângulo, essa é uma realidade que atinge a população adulta.
Os mais jovens demonstraram está mais apropriados da importância das questões referentes à gestão e o uso racional da água pela comunidade.
Com relação à vazão da água, ela é considerada suficiente pelos moradores e supre suas necessidades de abastecimento durante todo o ano. A comunidade ainda não sente os impactos dos meses de estiagem, apesar disso é importante cuidar dessas fontes, pois já é sabido que a água não é um recurso inesgotável.
Os problemas podem chegar, visto que, a referida comunidade está inserida em um contexto geográfico e sociocultural com características comuns. Jardim, afirma que o problema da escassez de água é bastante recorrente no “Semiárido brasileiro”, lugar onde a água é considerada assunto estratégico para o desenvolvimento. Apesar disso, como relata Barbosa e Baptista, o Nordeste tem uma rica biodiversidade, chegando a mais de 160 microclimas, e mesmo no período de escassez hídrica a fauna e a flora resistem, ao cair às chuvas tudo se renova.
Vale ressaltar que a fonte que possui maior vazão de água, Mata Verde, é a que abastece a comunidade de Triângulo, Caém-BA. Os moradores presentes na reunião comunitária afirmaram que a água é utilizada apenas para consumo humano pelas comunidades de Triangulo, Gravatá e Caém de Baixo. Porém existe o uso para irrigações por alguns produtores de frutas na comunidade.
A distribuição da água é realizada através de encanação e o sistema foi implantado pelos próprios moradores, com o apoio financeiro do poder público municipal. Quanto à distribuição e gestão da água, ela é feita por voluntários da própria comunidade e não se paga conta de água. Apesar de não existir um plano de gestão estruturado e uma organização institucional em torno desse processo, a comunidade afirma que água que chega às suas casas é suficiente para suprir as necessidades domésticas.
Quando ocorre algum problema de manutenção e a água falta nas torneiras, as famílias também dispões de cisternas para consumo com água captada da chuva, que Jardim, define como tecnologia social que propicia o acesso à água próximo à casa, atendendo a uma primeira necessidade – água para beber e cozinhar.
Quando perguntados sobre a situação das fontes de água, a maioria dos presentes na reunião comunitária afirmaram que ainda estão conservadas (21 moradores, 70%).
Porém um número bastante considerável (30%) afirma que já se encontram em situação pouco conservada, sobretudo porque, quando foram questionados se existe algum tipo de exploração dos recursos naturais da comunidade, a maioria respondeu que sim. Estas respostas dos moradores da comunidade de Triângulo são preocupantes, pois, em estudo realizado por Amaral et al., 100% dos moradores da comunidade rural pesquisada na ocasião consideravam a água de boa qualidade e que não havia contaminação, mas a realidade era bem diferente do que pensavam os moradores. As fontes estavam contaminadas.
Todos os presentes à reunião informaram que há desmatamento e retirada de rochas indevida por parte de terceiros. Eles dizem que cuidam na medida do possível de seus recursos naturais, sobretudo, na economia de água, mas não existe nenhuma ação especifica voltada para esta questão, seja de conscientização ou fiscalização e demonstraram desconhecer os caminhos legais para coibir a entrada de terceiros para explorar os recursos disponíveis. Todavia essas são ações individuais, de acordo com o nível de consciência de cada um. Barbosa, demonstra preocupação quando afirma que a caatinga vem em uma crescente devastação para a fabricação de carvão, criação de gado e para dar lugar à monocultura e mineração, entre outros fatores.
De acordo com Cavalcante, para se ter uma água de boa qualidade para uso doméstico, além do aporte financeiro, precisa-se também de mão-de-obra especializada ou técnica. O Instituto Nacional do Semiárido-INSA, afirma que o cenário de mudança climática nessas regiões desperta a urgência de maiores investimentos em ciência, tecnologia e inovação, que propiciem convivência adequada com as incertezas futuras.
Em relação à comunidade de Triângulo, as fontes não estão devidamente protegidas, facilitando a entrada de alguns animais, o que contribui para mais contaminação.
Sendo assim, se faz necessário expandir o conhecimento e o fortalecimento das assistências técnicas entre moradores e produtores como está descrito em estudo do Instituto Nacional do Semiárido-INSA, de forma a garantir o mínimo de habilidade no desempenho desta função e minimizar os problemas onde as politicas públicas demoram a chegar.
Outro fator relevante levantado nesta conversa trata-se da falta de diálogo entre os moradores da comunidade. Foi possível perceber que a comunidade de Triângulo quase nunca senta para discutir os problemas relacionados à água, e o maior impacto são ações antrópicas, ligadas ao desmatamento, retirada de rochas e solo para comercialização.
Por isso, torna-se urgente à busca de soluções que viabilizem a reversão deste quadro, ou pelo menos minimizar suas consequências.
Segundo Cavalcante, a participação comunitária é muito importante para se discutir os problemas relacionados à qualidade da água, principalmente referentes à saúde, uma vez que água contaminada resulta em doenças para a população. É preciso considerar as perspectivas de convivência com a região, reconhecer que é viável o convívio no semiárido.
Jardim nos diz que, ainda são lentos os processos de transformação socioeconômica, porém estas transformações hoje, já é fato.
Segundo estudo apresentado na Jornada Integrada de Meio Ambiente, um dos grandes desafios é transformar os indivíduos em cidadãos ativos nos espaços onde vivem, em proteção ao meio ambiente, tomadores de decisão de forma coletiva com relação às questões socioambientais, em busca da homogeneidade de interesses entre as diversas classes sociais. E na comunidade de Triângulo não seria diferente, pois estão inseridos no mesmo ambiente os moradores que na sua maioria são pequenos agricultores, que praticam a agricultura familiar, grandes produtores de frutas e pecuaristas.
A avaliação da qualidade da água
Após a análise da qualidade da água, percebeu-se que os recursos hídricos da comunidade de Triângulo poderão trazer riscos aos moradores que utilizam essa água para consumo e não se preocupam com a limpeza do reservatório da comunidade.
Cavalcante, em pesquisa realizada no semiárido alagoano, notou na água que chegava ao reservatório da comunidade, qualidade similar à da fonte e que nas residências os problemas ainda eram piores, pois as caixas d’água encontravam-se sem limpeza e não possuíam tampa.
Segundo Santos, a alcalinidade que dizer carbonato de cálcio, esta também é conhecida como dureza da água, quanto maior o nível dificulta, por exemplo, a atuação do sabão, mas com valores abaixo de 50 mg/L, essa água é considerada mole ou branda, não trazendo problemas maiores. O pH (Potencial Hidrogeniônico), não passando de 8,3 indica apenas presença de bicarbonatos. As fontes da Mata Verde e o Reservatório são as que apresentam valores mais elevados, visto que, se trata da mesma água. Em pesquisa realizada no semiárido de Alagoas, Cavalcante também percebeu que a água que chegava ao reservatório da comunidade tinha qualidade similar à da fonte.
O pH em uma escala logarítmica que mede o grau de acidez, neutralidade ou alcalinidade da água, pois as águas ácidas são corrosivas, ao passo que as alcalinas são incrustantes. De acordo com a tabela de classificação química todas as amostras apresentam resultados entre bom e ideal, com exceção da fonte de Triângulo, que apresenta PH 5,8. O PH das águas para abastecimento público deve apresentar valores entre 6,0 e 9,5, de acordo com a Portaria 518 do Ministério da Saúde.
Quanto a Turbidez, representa a propriedade óptica de absorção e reflexão da luz, e serve como um importante parâmetro das condições adequadas para consumo da água. A turbidez é causada por partículas sólidas em suspensão, como argila e matéria orgânica, que formam coloides e interferem na propagação da luz pela água. Todavia, nas amostras analisadas, a turbidez não é problema, pois seus valores são muito baixos, inferiores a 2 uT.
A turbidez é uma característica da água devida à suspensão de partículas de tamanhos dos mais variáveis, dependendo do grau de agitação da água, considerando a presença dessas partículas inorgânicas (argila, lodo, areia, silte), esgoto e microrganismos como algas, bactérias e plâncton em geral.
No caso em estudo, os valores encontrados para turbidez e cor aparente foram, em quase sua totalidade, inferiores ao padrão aceitável para consumo humano, correspondentes a 5 uT e 15 uC, respectivamente, conforme Portaria n° 2914/2011 do Ministério da Saúde, com exceção do Rio Charneca, que apresentou cor aparente de 220 uC.
Nesse contexto, percebe-se um número relevante de Organismos Heterotróficos presentes nas amostras da Mata Verde e Rio Charneca. Esses organismos são definidas como microrganismos que requerem carbono orgânico como fonte de nutrientes para seu crescimento e para a síntese de material celular, onde a grande maioria não trazem prejuízos à saúde, mas alguns podem ser patogênicos. Segundo Scuracchio, quando a contagem de organismos heterotróficos ultrapassa 500 UFC/ml, eles podem impedir a detecção de coliformes e deterioração da qualidade da água, podendo torná-la imprópria para o consumo. Por outro lado, o reservatório da comunidade de Triângulo apresenta valores bem baixos (68 UFC/ml), provavelmente, devido à falta de alimento para o desenvolvimento de colônias.
Quanto à análise microbiológica, atualmente está em vigor a portaria nº 2.914/2011, a qual estabelece a determinação da presença de coliformes totais e E. Coli para verificar a qualidade da água para consumo humano. Os resultados das análises mostram, no geral, valores de coliformes totais e E. Coli muito acima do que é preconizado pela legislação, principalmente para a Mata Verde e Reservatório. Esta contaminação identificada na fonte de água e no ponto de consumo ressalta a importância de intervenções adicionais para melhoria estrutural do abastecimento de água na comunidade de Triângulo, em especial medidas de saneamento e armazenamento apropriado, a fim de melhorar e preservar a saúde dos habitantes desta comunidade.
Porém, a comunidade de Triângulo considera a água que consomem de boa qualidade e por conta disso, essa água não passa por nenhum tratamento adequado. Isto é muito perigoso, pois segundo Amaral, percebeu que apesar de toda a comunidade consideraram a água das propriedades de boa qualidade, e por isso não haver a ausência de qualquer tratamento da água consumida os resultados das análises diferem muito do conceito dos moradores, uma vez que elevadas percentagens de amostras de água das fontes (nascentes e poços) estavam fora dos padrões microbiológicos de potabilidade para água de consumo humano.
Scuracchio  percebeu que os valores de coliformes totais e E. Coli foram controlados após uma limpeza da caixa d’água do local do estudo e que medidas simples, como apenas colocar tampa no reservatório melhora a qualidade da água. Todavia, uma vez que a fonte está contaminada, não adianta limpar o reservatório, afirma.
Das amostras analisadas, apenas a fonte de Triângulo está dentro do limite aceitável, as demais apresentam resultados muito acima do que se espera de uma água própria para o consumo humano. Vale salientar que a maioria das famílias, consome a água da fonte da Mata Verde, que não corresponde aos padrões de qualidade. Segundo Cavalcante, a falta de monitoramento das diferentes fontes de água e o desconhecimento da população das causas e problemas associados à contaminação contribui para a alta incidência de doenças de veiculação hídrica em comunidades rurais.
Com os resultados apresentados, podemos considerar a água utilizada na comunidade de Triângulo, município de Caém-BA, como um fator de risco à saúde dos seres humanos que a utilizam, considerando os resultados obtidos na análise laboratorial.
São doenças veiculadas pela água e seus agentes: enterites, diarreias infantis e doenças epidêmicas – como a febre tifoide – que constituem grave risco para a saúde humana.
Essas doenças transmitem-se principalmente por meio de excretas de origem humana ou animal, por sua introdução nas fontes de água. Pesquisadores recomendam um trabalho de educação sanitária para a população do meio rural, a adoção de medidas preventivas visando à preservação das fontes de água e o tratamento das águas já comprometidas, como ferramentas necessárias para diminuir ao máximo o risco de ocorrência de enfermidades de veiculação hídrica.
Considerações finais
A participação da comunidade pesquisada foi abaixo do esperado, principalmente os adultos. O fato da comunidade não se reunir para discutir suas demandas, dificulta sua organização, sobretudo pensar estratégias de preservação e melhor aproveitamento dos recursos naturais. As crianças e jovens tiveram uma participação mais efetiva, além de demonstrarem maior preocupação com as questões relacionadas à água e ao meio ambiente local. Diante disso, podemos perceber que só acorrerão mudanças significativas se houver uma mobilização por parte dos jovens e crianças em parceria com a escola.
Por outro lado, a necessidade é urgente, visto que, através das analises da qualidade da água consumida pela comunidade, pôde-se observar que a mesma está exposta ao risco de doenças de veiculação hídrica, devido à presença de organismos heterotróficos, coliformes totais e E. Coli encontradas nas amostras, sobretudo, das fontes da Mata Verde, que abastece o Reservatório da comunidade de Triângulo-BA. Espera-se que esse estudo possa despertar o interesse e preocupação dos moradores em buscar estratégias para preservação das fontes, bem como, para melhoria da qualidade da água consumida. (ecodebate)