domingo, 31 de julho de 2016

Temperaturas globais batem recordes nos primeiros meses de 2016

Temperaturas globais batem novos recordes nos seis primeiros meses de 2016
Segundo Organização Meteorológica Mundial, OMM, ano está em vias de se tornar o mais quente já registrado; chefe da agência da ONU ressaltou importância “mais clara do que nunca” de implementar Acordo de Paris sobre mudança climática.
Segundo a OMM, 2016 está a caminho de se tornar o ano mais quente já registrado.
As temperaturas globais nos primeiros seis meses deste ano bateram novos recordes, segundo a Organização Meteorológica Mundial, OMM.
Segundo a agência da ONU, isto significa que 2016 está a caminho de se tornar o ano mais quente já registrado.
Mudança Climática
O gelo do Oceano Ártico derreteu de forma rápida e precoce, mais um indicador da mudança climática, de acordo com a OMM.
A agência alertou que os índices de dióxido de carbono, que estão impulsionando o aquecimento global, alcançaram novos níveis máximos.
Dois relatórios separados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, Noaa, e do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da NASA destacaram as mudanças “dramáticas e radicais” no estado do clima.
Terra e Oceano
Segundo a OMM, junho de 2016 marcou o 14º mês consecutivo de calor recorde para terras e oceanos e o 378º mês consecutivo com temperaturas acima da média do século XX.
O último mês com temperaturas abaixo da média do século passado foi dezembro de 1984.
“Outro mês, outro recorde”, alertou o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas. Ele afirmou que décadas de tendências de mudança climática estão chegando a novos ápices, impulsionados pelo forte El Niño de 2015/2016.
Taalas alertou que o fenômeno climático agora desapareceu, mas a mudança climática, causada por gases de efeito estufa, não.
Acordo de Paris
Os índices de dióxido de carbono estão em alta. Para o chefe da OMM, isto “ressalta a necessidade mais clara do que nunca de aprovar e implementar o Acordo de Paris sobre mudança climática e acelerar a mudança para economias de baixo carbono e energia renovável”.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, convidou líderes mundiais para um evento especial em 21 de setembro onde possam “depositar seus instrumentos de ratificação, aceitação, aprovação e adesão ao Acordo de Paris”.
Em 21/06/2016 os termômetros no Kuweit bateram a marca dos 54°C.
Temperaturas
A temperatura média nos primeiros seis meses de 2016 foi 1,3ºC mais quente que a era pré-industrial no fim do século 19, de acordo com a NASA.
A Noaa afirmou que a média global da temperatura de terra e oceanos entre janeiro e junho foi 1,05ºC acima da média do século 20, batendo o recorde anterior de 0,2ºC em 2015. (ecodebate)

Impactos climáticos do El Niño serão cada vez mais imprevisíveis

‘Impactos de fenômenos climáticos como El Niño serão cada vez mais imprevisíveis’
Avaliação é do secretário-geral da ONU, que alerta sobre severidade de La Niña, que deve surgir no fim do ano; em evento sobre o clima, Ban lembra que secas e enchentes afetaram a vida de 60 milhões de pessoas este ano.
Um debate de alto nível sobre os impactos do El Niño foi promovido em 18/07/16 na ONU com a participação do secretário-geral da organização. Em Nova York, Ban Ki-moon lembrou que a força do fenômeno natural afetou a vida de 60 milhões de pessoas este ano.
Alto nível sobre os impactos do El Niño.
São moradores da América Central, do Chifre da África, do sul do continente africano, das Ilhas Pacífico e do sudeste da Ásia. Essas regiões enfrentaram fortes secas ou grandes enchentes, que destruíram comunidades e meios de subsistência.
La Niña
Segundo Ban, os próximos eventos do clima devem ser “mais imprevisíveis, mais frequentes e mais severos”. Ele mencionou o La Niña, previsto para surgir no fim deste ano e terminar em 2017.
O chefe da ONU falou sobre a visita que fez recentemente à Etiópia, onde o El Niño afetou milhões de pessoas, testando a resistência da população. Com os impactos na produção agrícola, a insegurança alimentar e a desnutrição atingiram os etíopes.
Retrocesso
Para Ban Ki-moon, responder a esse desafio vai além das ações humanitárias, uma vez que os eventos extremos do clima causam retrocesso nos ganhos obtidos no desenvolvimento dos países.
O secretário-geral teme que fenômenos do clima ligados à mudança climática possam colocar em risco o alcance da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
Financiamento
Ban avalia ser essencial tirar lições dos impactos do El Niño e “prevenir, preparar e diminuir os efeitos da mudança climática”. Elementos “humanitários, de desenvolvimento e de resiliência climática” precisam ser incorporados na resposta a esses eventos, segundo o secretário-geral.
O chefe da ONU também falou sobre a importância de se investir na redução do risco de desastres naturais. Durante a passagem do El Niño, vários governos disponibilizaram recursos financeiros para aliviar os impactos causados pelo fenômeno.
Por sua vez, agências humanitárias aproveitaram a doação de US$ 120 milhões do Fundo Central da ONU de Resposta a Emergências, Cerf, para ações em 19 países.
Ban Ki-moon aproveitou para fazer um pedido a governos, doadores, sociedade civil, setor privado e agências humanitárias e de desenvolvimento. Ele quer mais apoio aos seus dois enviados especial para El Niño e Clima: Mary Robinson e Macharia Kamau. (ecodebate)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

La Niña tem 60% de chance se desenvolver entre agosto e outubro

La Niña tem de 55% a 60% de chance se desenvolver entre agosto e outubro, diz NOAA
As especulações sobre o La Niña são fortes e crescentes neste ano. O NOAA, o departamento oficial de clima dos Estados Unidos trouxe em 14/07/16 uma nova previsão indicando que o fenômeno tem de 55% a 60% de chances de ocorrer entre agosto e outubro.
No mês passado, essa probabilidade era de 75%.
Ainda de acordo com informações da instituição, as condições de um clima mais neutro foram registradas no mês passado, embora as temperaturas das águas da subsuperfície ainda estejam abaixo da média para essa época, e esse padrão continua se estendendo por toda a superfície de áreas central e leste do Pacífico Equatorial. 
Com isso, as chances de que o La Niña se desenvolva entre os meses de setembro e novembro ficam, portanto, em 57% e, entre novembro e janeiro, em 61%. 
Para o agrometeorologista Marco Antônio dos Santos, essa projeção fica bem em linha com as condições atuais para o desenvolvimento do fenômeno e, caso isso se confirme dessa forma, os meses de agosto e setembro poderão ser um pouco mais secos nos Estados Unidos. 
Assim, Santos acredita que os impactos sobre a nova safra norte-americana de grãos acontecerão, no entanto, não deverão ser tão fortes. "Mas eles não deverão ter uma safra cheia, alguma quebra pode ter", diz. E isso, ainda segundo o especialista, pode ser registrado tanto na cultura da soja, quanto do milho. 
"O maior problema que eu vejo estão nas temperaturas, que estão muito elevadas, e não tanto na questão das chuvas. Observando os últimos relatórios semanais (de acompanhamento de safras do USDA), vimos que há muitas lavouras de soja florescendo e muitas de milho na fase de pendoamento, e isso acontecendo nesse calor forte pode ocasionar em alguma perda", explica Santos. 
O agrometeorologista alerta ainda que, dependendo da intensidade do La Niña, os Estados Unidos poderia registrar, além de uma menor pressão das chuvas, o frio chegando mais seco, o que aumentaria a possibilidade de ocorrência de geadas precoces.
Previsões para os próximos 8 a 14 dias
Ainda de acordo com Santos, as condições para o final de julho ainda inspiram alguma preocupação para a nova safra norte-americana. "O final deste mês já deverá ser um pouco mais seco nos EUA", diz. E os mapas do NOAA para o período dos próximos 8 a 14 dias deixa isso bem ilustrado.
Previsão de Temperaturas nos EUA de 21 a 27/07/2016
Previsão de Chuvas nos EUA de 21 a 27/07/2016
As temperaturas ficam bem acima da média entre 21 e 27 de julho e as chuvas, em contrapartida, abaixo. E esse padrão pode se estender, segundo informações de casas particulares de clima, até o dia 28, com menos precipitações e mais calor.
Os mapas a seguir, do portal internacional AgWeb indicam que, no coração do Meio-Oeste americano, as temperaturas deverão ficar bem acima do normal não só durante julho, como no intervalo de julho a setembro. Confira as imagens:
Previsão de Temperaturas nos EUA em Julho/2016
Previsão de Temperaturas nos EUA entre julho e setembro/2016 (noticiasagricolas)

Aquecimento global

Entenda o Aquecimento Global, Efeito Estufa, consequências, aumento da temperatura mundial, degelo das calotas polares, gases poluentes, Protocolo de Kyoto, furacões, ciclones, desertos, clima, resumo.
Todos os dias acompanhamos na televisão, nos jornais e revistas as catástrofes climáticas e as mudanças que estão ocorrendo, rapidamente, no clima mundial. Nunca se viu mudanças tão rápidas e com efeitos devastadores como tem ocorrido nos últimos anos.
A Europa tem sido castigada por ondas de calor de até 40°C, ciclones atingem o Brasil (principalmente a costa sul e sudeste), o número de desertos aumenta a cada dia, fortes furacões causam mortes e destruição em várias regiões do planeta e as calotas polares estão derretendo (fator que pode ocasionar o avanço dos oceanos sobre cidades litorâneas). O que pode estar provocando tudo isso? Os cientistas são unânimes em afirmar que o aquecimento global está relacionado a todos estes acontecimentos.
Pesquisadores do clima mundial afirmam que este aquecimento global está ocorrendo em função do aumento da emissão de gases poluentes, principalmente, derivados da queima de combustíveis fósseis (gasolina, diesel, etc), na atmosfera. Estes gases (ozônio, dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e monóxido de carbono) formam uma camada de poluentes, de difícil dispersão, causando o famoso efeito estufa. Este fenômeno ocorre, pois, estes gases absorvem grande parte da radiação infravermelha emitida pela Terra, dificultando a dispersão do calor.
O desmatamento e a queimada de florestas e matas também colaboram para este processo. Os raios do Sol atingem o solo e irradiam calor na atmosfera. Como esta camada de poluentes dificulta a dispersão do calor, o resultado é o aumento da temperatura global. Embora este fenômeno ocorra de forma mais evidente nas grandes cidades, já se verifica suas consequências em nível global.
Consequências do aquecimento global
- Aumento do nível dos oceanos: com o aumento da temperatura no mundo, está em curso o derretimento das calotas polares. Ao aumentar o nível das águas dos oceanos, podem ocorrer, futuramente, a submersão de muitas cidades litorânea;
- Crescimento e surgimento de desertos: o aumento da temperatura provoca a morte de várias espécies animais e vegetais, desequilibrando vários ecossistemas. Somado ao desmatamento que vem ocorrendo, principalmente em florestas de países tropicais (Brasil, países africanos), a tendência é aumentar cada vez mais as regiões desérticas do planeta Terra;
- Aumento de furacões, tufões e ciclones: o aumento da temperatura faz com que ocorra maior evaporação das águas dos oceanos, potencializando estes tipos de catástrofes climáticas;
- Ondas de calor: regiões de temperaturas amenas têm sofrido com as ondas de calor. No verão europeu, por exemplo, tem se verificado uma intensa onda de calor, provocando até mesmo mortes de idosos e crianças.
Protocolo de Kyoto
Este protocolo é um acordo internacional que visa a redução da emissão dos poluentes que aumentam o efeito estufa no planeta. Entrou em vigor em 16/02/2005. O principal objetivo é que ocorra a diminuição da temperatura global nos próximos anos. Infelizmente os Estados Unidos, país que mais emite poluentes no mundo, não aceitou o acordo, pois afirmou que ele prejudicaria o desenvolvimento industrial do país.
Conferência de Bali
Realizada entre os dias 3 e 14/12/2007, na ilha de Bali (Indonésia), a Conferência da ONU sobre Mudança Climática terminou com um avanço positivo. Após 11 dias de debates e negociações, os Estados Unidos concordaram com a posição defendida pelos países mais pobres. Foi estabelecido um cronograma de negociações e acordos para troca de informações sobre as mudanças climáticas, entre os 190 países participantes. As bases definidas substituirão o Protocolo de Kyoto, que vence em 2012.
Conferência de Copenhague - COP-15
A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima foi realizada entre os dias 7 e 18/12/2009, na cidade de Copenhague (Dinamarca). A Conferência Climática reuniu os líderes de centenas de países do mundo, com o objetivo de tomarem medidas para evitar as mudanças climáticas e o aquecimento global. A conferência terminou com um sentimento geral de fracasso, pois poucas medidas práticas foram tomadas. Isto ocorreu, pois houve conflitos de interesses entre os países ricos, principalmente Estados Unidos e União Europeia, e os que estão em processo de desenvolvimento (principalmente Brasil, Índia, China e África do Sul).
Soluções Para o Aquecimento Global
Exemplos de medidas para diminuir o aquecimento global, através do desenvolvimento sustentável.
Energia eólica: fonte de energia limpa para combater o aquecimento global
A emissão de gases poluentes tem provocado, nas últimas décadas, o fenômeno climático conhecido como efeito estufa. Este tem gerado o aquecimento global do planeta. Se este aquecimento continuar nas próximas décadas, poderemos ter mudanças climáticas extremamente prejudiciais para o meio ambiente e para a vida no planeta Terra.
Soluções para diminuir o Aquecimento Global

- Diminuir o uso de combustíveis fósseis (gasolina, diesel, querosene) e aumentar o uso de biocombustíveis (exemplo: biodiesel) e etanol.
- Os automóveis devem ser regulados constantemente para evitar a queima de combustíveis de forma desregulada. O uso obrigatório de catalisador em escapamentos de automóveis, motos e caminhões.
- Instalação de sistemas de controle de emissão de gases poluentes nas indústrias.
- Ampliar a geração de energia através de fontes limpas e renováveis: hidrelétrica, eólica, solar, nuclear e maremotriz. Evitar ao máximo a geração de energia através de termoelétricas, que usam combustíveis fósseis.
- Sempre que possível, deixar o carro em casa e usar o sistema de transporte coletivo (ônibus, metrô, trens) ou bicicleta.
- Colaborar para o sistema de coleta seletiva de lixo e de reciclagem.
- Recuperação do gás metano nos aterros sanitários.
- Usar ao máximo a iluminação natural dentro dos ambientes domésticos.
- Não praticar desmatamento e queimadas em florestas. Pelo contrário, deve-se efetuar o plantio de mais árvores como forma de diminuir o aquecimento global.
- Uso de técnicas limpas e avançadas na agricultura para evitar a emissão de carbono.
- Construção de prédios com implantação de sistemas que visem economizar energia (uso da energia solar para aquecimento da água e refrigeração). (buiquejovem)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Tecnologia australiana de despoluição de águas será usada no Brasil?

Tecnologia australiana de despoluição de águas pode ser aplicada no Brasil.
Tecnologia pode ser utilizada, inclusive, para a despoluição da Baía de Guanabara.
Menos de 60% dos brasileiros são atendidos por rede de esgoto. Esgoto a céu aberto.
Testes feitos em parceria com pesquisadores da Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro, com o apoio da Universidade Curtin, da Austrália, mostraram que a tecnologia australiana The Water Cleanser pode despoluir águas de rios, lagoas, bacias e até da Baía de Guanabara. A tecnologia está aprovada em 15 países, tem 11 anos de mercado e patente mundial há cinco anos. Ela começou a ser aplicada em fazendas de ostras na Austrália, que são muito sensíveis à poluição, e demonstrou ser eficaz tanto no tratamento de água doce quanto de salgada.
O representante da tecnologia no Brasil, Joel de Oliveira, disse que os testes iniciais na Universidade Santa Úrsula conseguiram eliminar 75% das bactérias de tanques que reproduziam ambientes similares aos de rios e lagoas poluídas. Nessa pesquisa, foram usadas amostras de água da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde vão ocorrer provas de remo durante os Jogos Olímpicos Rio 2016.
Nos tanques, os níveis de coliformes foram reduzidos próximo de zero. “Os resultados têm sido 100% positivos e nos provam que podemos deixar lagoas, rios e baías limpas em um curto espaço de tempo”, afirmou o coordenador do projeto na Universidade Santa Úrsula, Bruno Meurer.
A tecnologia australiana para despoluição de águas está sendo lançada no país pela empresa Greenpolis, criada por três empreendedores brasileiros com o objetivo de desenvolver soluções para a prevenção e recuperação de danos ao meio ambiente.
Joel de Oliveira informou que o mesmo experimento será feito com amostras da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC), em conjunto com uma universidade da região. Estão em curso também negociações com outras universidades do país, com o mesmo objetivo de comprovar cientificamente a tecnologia australiana, que já resolveu problemas de águas poluídas nos Estados Unidos, no México, na Nova Zelândia, em Myanmar e na Tailândia, além da própria Austrália, onde a lei ambiental é bem rígida.
Oliveira disse que a tecnologia elimina qualquer possibilidade de surgimento de organismo estranho ao ecossistema daquele ambiente. “Em quatro semanas, já estava limpa a água nos tanques, na [Universidade] Santa Úrsula”, acrescentou.
A tecnologia usa oligoelementos, ou microminerais essenciais para os seres vivos, que facilitam para que as bactérias boas que já estejam no meio ambiente se reproduzam de maneira exponencialmente maior e mais rápido, limpando a água poluída. “Se tem uma lagoa, por exemplo, que está poluída, e se você parar de jogar esgoto ou qualquer outro tipo de poluição nela, ela vai ficar limpa, porque a natureza já tem as bactérias que vão comer hidrocarbonetos, gorduras, o esgoto propriamente dito. Só que isso pode demorar muito tempo”, comentou Oliveira.
A patente australiana agiliza o processo porque usa oligoelementos, como zinco e cobre, que ajudam as bactérias boas a se reproduzir e diluir mais rapidamente o dejeto nas águas. “Você não coloca bactérias na água, mas utiliza as bactérias que já estão ali. Você não traz nada criado em laboratório. Utiliza a natureza para limpar a natureza”. Joel de Oliveira confirmou que a tecnologia pode ser utilizada, inclusive, para a despoluição da Baía de Guanabara. Observou, entretanto, que “não adianta a gente tratar e a água continuar sendo poluída. A gente consegue mostrar para a população que a água vai ser tratada, mas é preciso que haja um projeto que estanque a entrada de esgoto na água”.
A intenção dos empreendedores brasileiros é oferecer a tecnologia a governos estaduais e a indústrias que usam muita água, como a cervejeira e a de papel. “A gente pode tratar a água antes e depois, de uma maneira natural, rápida e com melhor custo/benefício que existe”. Oliveira disse que empresas de saneamento básico, como a Sabesp, em São Paulo, a Pró-Lagos e a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), no Rio de Janeiro, que fazem tratamento de esgotos, podem reduzir acima de 30% seu custo operacional com a adoção da tecnologia australiana. (ecodebate)

Órgãos não são transparentes ao divulgar dados do Cantareira

Órgãos são pouco transparentes na divulgação de dados do Cantareira, diz ONG.
Em relação à divulgação de dados do Cantareira, dos 14 sites avaliados, metade teve resultados insatisfatórios.
Relatório feito pela Organização Não Governamental (ONG) Artigo 19 mostra que os órgãos ligados à gestão do Sistema Cantareira apresentam baixa transparência quando o assunto é fornecimento de dados à população. A pesquisa avaliou a disponibilidade de informações nos sites desses órgãos, além da qualidade de respostas fornecidas a perguntas feitas diretamente por e-mail ou telefone.
Dos 14 site avaliados, metade teve resultados insatisfatórios. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), principal responsável pela gestão do Cantareira, obteve baixa transparência por não revelar atas, reuniões, deliberações e audiências. O estudo indica que a página na web apresenta informações sobre o nível dos reservatórios, tarifas e sobretaxa, mas as declarações emitidas pelo órgão não foram facilmente encontradas.
O site do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), além de também não divulgar suas deliberações, não mostra estudos relativos ao tema da crise hídrica. O Daee recebeu classificação de baixa transparência. Quando os dados foram solicitados por telefone e e-mail, o departamento redirecionou para a Sabesp, que também não enviou resposta.
Embora não tenha responsabilidade em regular os serviços de saneamento e abastecimento de água, a prefeitura de São Paulo foi incluída no estudo, ficando com classificação de baixa transparência. No site da administração municipal, não foram encontradas informações ou notícias sobre o tema. “Apenas ao utilizar as caixas de busca é possível acessar notas, notícias e posicionamentos em relação à situação”, informa o relatório.
Transparência zero
A Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, o Centro de Vigilância Sanitária e o governo estadual obtiveram os piores desempenhos, com a transparência zero. Na avaliação dos pesquisadores, o site da secretaria apenas tem links que redirecionam para as páginas da Sabesp e do Daee. Já a Vigilância Sanitária mostra em seu site um Programa de Controle da Qualidade da Água de Abastecimento Público (Proágua), mas não indica onde é possível conferir as informações, como resultados de monitoramentos.
Resultados satisfatórios
No total, a análise da transparência passiva, ou seja, quando respostas são dadas após o envio de pedidos de informação, apontou que 37% dos pedidos não foram respondidos. Quanto às respostas recebidas, 73% foram consideradas satisfatórias.
Conclusões
A pesquisa Sistema Cantareira e a Crise da Água em São Paulo: Falta de Transparência, um Problema que Persiste foi feita em 2015, em sua segunda edição. Em relação à primeira, de 2014, houve uma pequena melhora na transparência, segundo os pesquisadores, mas a conclusão do estudo é que a situação ainda é crítica, “com o predomínio da lógica do sigilo”.
Mariana Tamari, uma das responsáveis pelo relatório, disse que o prognóstico é preocupante. Para ela, o governo estadual omite dados com objetivo de minimizar a gravidade da crise hídrica.
Governo estadual
Em nota, a Sabesp e seus órgãos correlatos, como o Daee, informaram que contam com diversos canais de comunicação e de divulgação de informação a respeito da gestão dos recursos hídricos. O Daee acrescentou que publica em seu site, na íntegra, todas as deliberações e resoluções sobre a situação do Sistema Cantareira, além de disponibilizar documentos e estudos relativos ao tema.
Segundo a Sabesp, em seu site, podem ser encontrados boletins diários com os índices de todos os mananciais gerenciados pela companhia. “Além disso, durante a crise hídrica a Sabesp contou com constante campanha publicitária para informar aos consumidores sobre a importância do uso racional da água, assim como os programas de bônus e ônus amplamente divulgados, que contaram com o importante apoio da população e foram essenciais para diminuir os efeitos da estiagem enfrentada pelo estado de São Paulo”, acrescentou.
O governo estadual argumenta que os órgãos contam com o Sistema de Informações ao Cidadão. “O do estado de São Paulo [é] considerado o melhor pela pesquisa Escala Brasil Transparente, realizada pela [então] Controladoria-Geral da União (CGU), que mede o grau de transparência pública em estados e municípios brasileiros quanto ao cumprimento às normas da Lei de Acesso à Informação.”
A prefeitura de São Paulo disse que os reforços de ações referentes aos serviços de saneamento e abastecimento de água cabem ao governo estadual. O Centro de Vigilância Sanitária não enviou resposta até a publicação da matéria. (ecodebate)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Relatório avalia a transparência na gestão da água em São Paulo

Relatório avalia o que mudou na transparência na gestão da água em São Paulo
Estudo analisou informações divulgadas pelos órgãos responsáveis pela gestão do Sistema Cantareira durante 2016, e comparou com dados de 2014.
A ARTIGO 19 lançou em 28/06/16 o relatório “Sistema Cantareira e a Crise da Água em São Paulo: falta de transparência, um problema que persiste”, que analisa as informações divulgadas pelos órgãos responsáveis pela gestão do Sistema Cantareira entre 2014 e 2015. Trata-se da segunda versão do estudo – a primeira foi lançada em 2014, no auge da crise hídrica.
Em 2014 e 2015, centenas de milhares de pessoas em São Paulo conviveram com cortes diários no abastecimento de água. O Sistema Cantareira, responsável por atender cerca de 50% da população da região metropolitana, quase colapsou. À época, os órgãos responsáveis pela gestão da crise foram bastante criticados, entre outras coisas, pela falta de transparência com que gerenciavam as informações.
O relatório deste ano mostra que, apesar de ter havido alguma melhora em relação a 2014, a situação ainda é crítica, com o predomínio da lógica do sigilo.
Dos 14 sites de órgãos avaliados no quesito “transparência ativa” (divulgação de informações de forma espontânea em sites de órgãos públicos), sete foram classificados abaixo da média de transparência. Entre eles estão os sites da Sabesp, da Secretaria de Recursos Hídricos, do DAEE e da ARSESP (esses dois últimos, órgãos reguladores).
Na análise da “transparência passiva” (respostas dadas após o envio de pedidos de informação), foram feitos 24 pedidos de informação a 11 órgãos públicos entre janeiro e fevereiro de 2016. De todos os pedidos enviados, 37% não foram respondidos. Quanto às respostas recebidas, 73% foram consideradas satisfatórias.
Para Mariana Tamari, oficial de Acesso à Informação da ARTIGO 19 e uma das responsáveis pelo relatório, o prognóstico é preocupante. “Verificamos que o Governo do Estado divulgou informações com o objetivo de minimizar a gravidade da crise hídrica. Isso, somado à falta de transparência constatada e a manutenção do modelo de gestão da água, abre espaço para que uma nova crise hídrica venha a ocorrer em São Paulo no futuro”, afirma.
Tamari aponta ainda que os pontos em que houve melhora são reflexo direto da pressão da sociedade e da atuação dos Ministérios Públicos (MP) Estadual e Federal. “O MP teve uma atuação fundamental para pressionar o Governo do Estado a ser mais transparente na gestão da crise. Foi o MP que garantiu que a informação correta sobre o volume d’água no Sistema Cantareira fosse divulgada, após acionar o Judiciário, e também quem realizou audiências públicas para produzir provas de que ocorria racionamento, quando o governo dizia o contrário”.
Para a ARTIGO 19, a transparência na administração pública deve ser regra sempre, mas ganha ainda mais importância em momentos de crise social. No caso da crise hídrica, a transparência é fundamental para garantir o acesso à água, um direito humano o qual o Estado tem o dever de proteger. (ecodebate)

Ações pra proteger as águas

Parque Estadual do Rio Doce
Governo do Paraná produziu cartilha sobre preservação de águas que merece reflexão. É bom lembrar que nascentes estão sob a influência de uma área de contribuição da microbacia. No processo de recuperação de nascentes devem ser desenvolvidas, no mínimo, as ações descritas a seguir.
Considerando que a nascente desejável é aquela que fornece água de boa qualidade, abundante e contínua, fica evidente que o solo de uma microbacia deve ter uma permeabilidade tal que possibilite infiltrar a maior quantidade possível de água da chuva, evitando que esta escoe sobre o solo.
A equação de equilíbrio hídrico corresponde a quantidade de chuvas que se armazena nos solos, descontado o escoamento superficial e a evapotranspiração.
A infiltração possibilita o armazenamento de água nos lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos. Com este armazenamento, a água dos aquíferos é liberada aos poucos para os cursos d´água, através das nascentes.
Por outro lado, a cobertura permanente do solo por plantas ou resíduos vegetais, além de conter o escoamento superficial favorece a infiltração da água no solo, minimiza as perdas de água por evaporação e auxilia a sua depuração, em face da capacidade de filtro que o solo possui.
A proteção das áreas ciliares às nascentes e rios através da reposição da floresta nas áreas de preservação permanente (APP) e em outras áreas das propriedades rurais, é fundamental na proteção e produção de água.
A diminuição dos efeitos da enxurrada, por meio de sistema de terraceamento corretamente dimensionado, a readequação de estradas em bases conservacionistas e a contenção das águas pluviais do meio rural, são ferramentas fundamentais no controle da erosão dos solos por fatores hídricos.
Geralmente os solos de uma microbacia não possuem permeabilidade que possibilite infiltrar toda a água da chuva, por melhor que seja o manejo. Nas chuvas de elevada intensidade haverá a formação de enxurrada e, por consequência o carreamento de sedimentos e contaminantes para as nascentes e cursos d’água.
É necessário conter a enxurrada para que sejam proporcionado o controle da contaminação das águas das nascentes e rios, contribuindo com a disponibilidade da água no aspecto qualidade e controle do soterramento de nascentes e assoreamento dos rios, contribuindo com a disponibilidade da água no aspecto quantidade.
E também o aumento do volume de água infiltrada no solo uma vez que será contido no canal dos terraços, contribuindo com a disponibilidade da água nos aspectos quantidade e qualidade proporcionada pela função depuração física que os solos possuem.
O uso racional de agrotóxicos, o manejo de pragas e invasoras, a destinação correta de embalagens, a implantação de abastecedouros comunitários, o gerenciamento adequado de efluentes domésticos e industriais e o destino correto dos resíduos sólidos e efluentes domésticos, são práticas que auxiliam na qualidade ambiental.
Os compostos químicos presentes em muitos agrotóxicos não são eliminados pela fervura, cloração ou filtragem, por isso é importante evitar que os resíduos cheguem às nascentes e cursos d’água.
A implantação de sistema de terraceamento e a readequação de estradas em bases conservacionistas cumprem também a função de evitar que agrotóxicos utilizados nas microbacias, alcancem as nascentes e rios através de enxurradas que se formarem nas lavouras e estradas. (ecodebate)

sábado, 23 de julho de 2016

Fiocruz, os desafios das mudanças climáticas e a saúde

Pesquisador da Fiocruz fala sobre os desafios das mudanças climáticas para a saúde.
“É urgente superar a dependência brasileira em relação às commodities”. O alerta é do geógrafo Christovam Barcellos, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e integrante da Rede Clima. Nesta entrevista para o site Saúde Amanhã, ele discute a resposta global às mudanças climáticas e aponta a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil, com foco na sustentabilidade. “Se apostarmos novamente no caminho do gado, da soja e das grandes obras, teremos problemas sérios em médio e longo prazo, como o aumento do desmatamento e da emissão de gases de efeito estufa, a transformação de áreas protegidas em vulneráveis e a intensificação de algumas doenças, sobretudo as transmitidas por mosquitos”, sentencia.
Saúde Amanhã - A resposta à mudança global do clima é um dos 17 Objetivos para Transformar o Mundo, que compõem a Agenda 2030 das Nações Unidas. Como o senhor avalia a atuação do Brasil neste sentido e quais as perspectivas para as próximas décadas?
Em comparação a outros países, o Brasil não é um grande emissor de gases de efeito estufa. Temos uma matriz energética diversificada e relativamente limpa, com hidrelétricas, poucas usinas nucleares e reduzida queima de combustível. Essa característica tem deixado o Brasil confortável no cenário geopolítico e o país tem sido agressivo nas reuniões globais sobre mudanças climáticas. Hoje, discute-se não só os atuais índices de emissão de gases de efeito e estufa e seus impactos no meio ambiente, mas também o histórico de poluição dos países, basicamente desde a Revolução Industrial. As mudanças climáticas que estamos vivendo hoje são resultado de séculos de acúmulo de poluição gerada pelos países considerados desenvolvidos, que se industrializaram primeiro: Inglaterra, França, Alemanha, Estados Unidos, Japão. Mais recentemente, outras nações somaram-se à lista das mais poluentes, dentre elas, China, Índia e Rússia. Nesses países, a combinação de tecnologias sujas e consumismo crescente, com a multiplicação da classe média, leva a uma situação insustentável.
Sem estar em nenhum desses dois grupos, o Brasil tem ocupado uma posição de conciliador no cenário global. Os grandes problemas do país, entretanto, são o desmatamento e a criação de gado de forma predatória, que levam a bruscas transformações de uso do solo. Com essa dinâmica, florestas se tornaram pastos, incapazes de realizar o sequestro de carbono. Outra questão importante é o reconhecimento das nações mais vulneráveis às mudanças climáticas. Os países que se industrializaram primeiro têm, hoje, boa infraestrutura urbana, com sistemas de saúde, educação, transporte e segurança que funcionam. Portanto, não sofrerão as mesmas consequências que países da África, Ásia e América do Sul, inclusive o Brasil, que têm menos recursos para lidar com os efeitos globais das mudanças climáticas. A última Conferência do Clima, realizada no final de 2015 em Paris, aprovou um fundo para países mais vulneráveis, alimentado pelas nações mais ricas. Fóruns globais também debatem políticas e programas que garantam a transferência de tecnologias que promovam o desenvolvimento sustentável. A relação da sociedade com o meio ambiente é mediada pela tecnologia: tudo muda se temos um arado ou um trator à disposição. Portanto, o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias limpas e de soluções para a proteção e preservação do meio ambiente é uma questão central neste debate.

Saúde Amanhã - A PEC 65/2012, em tramitação no Senado, determina a extinção do licenciamento ambiental para obras públicas. Caso a medida seja implementada, quais serão as consequências de longo prazo para o país?
O Brasil vem reduzindo o desmatamento desde início deste século. A tecnologia é essencial nesse processo. O avanço da soja sobre a floresta, por exemplo, foi reduzido a partir do uso de insumos agrícolas. O gado, por sua vez, exigia áreas de pasto mais amplas, sem o limite de avanço sobre a floresta amazônica que existe hoje. No entanto, tudo isso pode mudar, sobretudo diante de um cenário político tão instável e a sucessiva escolha de representantes do agronegócio para o Ministério da Agricultura. Um governo que considera todas as convenções e regulamentações ambientais empecilhos ao desenvolvimento do país dificilmente adotará o caminho mais adequado do ponto de vista ambiental. O novo Código Florestal Brasileiro, que reduz os limites ao desmatamento em propriedades privadas, é um exemplo disso. A PEC 65/2012, outro. Com a prerrogativa de acelerar trâmites burocráticos do licenciamento ambiental, a medida ampliará as possibilidades de desmatamento e de grandes obras que podem produzir fortes impactos sobre o ambiente e a saúde das pessoas.
Então, tudo depende de como o país voltará a crescer. Certamente em algum momento a recessão passará e a economia se reacelerará. É essencial discutir qual será o novo modelo de desenvolvimento e crescimento econômico do Brasil. Se apostarmos novamente no caminho do gado, da soja e das grandes obras, teremos problemas sérios em médio e longo prazo, como o aumento do desmatamento e da emissão de gases de efeito estufa, a transformação de áreas protegidas em vulneráveis e a intensificação de algumas doenças.
Saúde Amanhã - Que modelo de desenvolvimento sustentável seria adequado e possível para o Brasil no horizonte dos próximos 20 anos?
É urgente superar a dependência brasileira em relação às commodities. A atual dinâmica é nociva para o meio ambiente e fragiliza o país do ponto de vista econômico, pois a queda do preço de uma commodity é capaz de derrubar a economia inteira. Isso é muito perigoso. O país precisa atentar para o fato de que, hoje, a economia mundial não é mais baseada em produtos como alimentos ou minério, mas em patrimônio imaterial, como o da informação. Como o valor de corporações como Google, Yahoo e Facebook é precificado? Não é a partir da mesma lógica que se utiliza para precificar produtos que envolvem matéria-prima, mão de obra, meios de produção. Hoje, a produção é completamente descentralizada; os consumidores são também produtores e agregam valor aos produtos que escolhem; tudo é muito diferente. O Brasil não pode perder essa onda de tecnologia e inovação e precisa se adequar aos novos modos de produção e consumo, que prezam pela sustentabilidade. Para isso, é fundamental ter um Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação forte.
Saúde Amanhã - No horizonte dos próximos 20 anos, que outros cenários epidemiológicos podem surgir a partir da persistência ou agravamento das mudanças climáticas?
As doenças transmitidas por vetores – como dengue, febre amarela, malária, doença de Chagas – são naturalmente influenciadas pelo meio ambiente, condicionadas pelo tipo de clima, vegetação, intensidade de chuva, temperatura. Cada uma dessas enfermidades tem uma dinâmica própria e reage de forma diferente a alterações nesses fatores. Mas algumas questões precisam ser observadas. Altas temperaturas aceleram o ciclo de vida e intensificam a proliferação dos mosquitos que transmitem a malária. No entanto, outras variáveis ambientais em curso na Amazônia, onde a malária está concentrada no país, também impactam o quadro da doença. A transformação do solo pela expansão da soja e do gado, o desmatamento e as mudanças no regime de chuvas, por sua vez, levam à redução da área de transmissão da doença. Regiões da Amazônia que sofreram desmatamento brutal, como norte de Mato Grosso, sul de Rondônia e oeste do Pará, diminuíram fortemente a incidência de malária.
Então não podemos afirmar que o aquecimento do planeta, linear e inexoravelmente, levará ao aumento de doenças transmitidas por mosquitos. Muitos fatores devem ser analisados. No caso da malária, as perspectivas são positivas e muitos estudos apontam que a doença abrangerá um território cada vez menor. Já as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti e Aedes albopictus – dengue, zika e chikungunya, dentre tantas outras com maior ou menor gravidade e prevalência no Brasil – são mais preocupantes. A população brasileira está exposta a uma grande variedade de vírus, que podem provocar doenças graves, levar a óbito e ainda irão circular pelo país por muitos anos.
Saúde Amanhã - Que políticas ambientais e de Saúde devem ser tomadas no presente a fim de evitar a proliferação de mosquitos e a ocorrência de emergências sanitárias?
Infelizmente, nenhuma ação de eliminação desses mosquitos deu certo até hoje. O máximo que conseguimos, em diferentes momentos, foi reduzir significativamente a infestação – por alguns meses ou anos. O fato é que nossas grandes cidades tropicais se tornaram paraísos para esses mosquitos: urbanização precária, falta de saneamento básico, habitações improvisadas, acúmulo de lixo, alta densidade populacional, temperaturas elevadas, chuvas intensas. O problema é grave, pois mesmo que consigamos reduzir a infestação pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus muito dificilmente iremos eliminá-los. É preciso agir diretamente sobre os determinantes sociais da saúde e melhorar a infraestrutura das grandes cidades.
Há até pouco tempo acreditava-se que essas doenças não eram graves e causavam apenas mal estar e febre. Mais recentemente, muitas pessoas começaram a morrer de dengue, revelando quadros mais preocupantes. E então surgiram chikungunya, que além de dores articulares pode provocar complicações neurológicas em médio prazo, e zika, que pode levar à gestação de bebês com microcefalia, dentre outras malformações congênitas. A Saúde precisa se repensar e se reinventar para atender o contingente populacional que demandará cuidados especiais e atenção especializada em longo prazo, em decorrência dessas doenças. Além de medidas para controlar os vetores, é fundamental que o sistema de saúde cuide das mulheres, especialmente as grávidas, dos homens, dos adultos, das crianças e dos idosos, considerando cada grupo com suas condições de risco e vulnerabilidades próprias. Há que se discutir, ainda, o aborto. O Sistema Único de Saúde (SUS) precisa estar preparado para acolher, informar e aconselhar mulheres grávidas sobre os riscos de desenvolvimento de microcefalia em fetos. Em síntese, um novo padrão de atenção à saúde se faz necessário justamente no atual contexto de esvaziamento do SUS.
Saúde Amanhã - Como a realização de estudos prospectivos de futuro, como os desenvolvidos pela rede Brasil Saúde Amanhã, contribuem para o enfrentamento dos desafios impostos pelas mudanças climáticas?
Eu admiro a rede Brasil Saúde Amanhã pela iniciativa de trazer cenários futuros sobre o sistema de saúde brasileiro. Historicamente o setor Saúde está sempre respondendo aos desafios presentes, que não são poucos, buscando neutralizar os minimizar os seus impactos negativos. Portanto, criar uma cultura de prospecção de cenários e de planejamento estratégico é essencial. O projeto contribui ainda mais ao criar não apenas um, mas três cenários para o país e o sistema de saúde, considerando variáveis importantes, como o avanço ou não do neoliberalismo e a retomada do crescimento econômico ou o agravamento da recessão.
Diante de tantos desafios – como mudanças climáticas, mortalidade infantil, emergência de doenças infecciosas, problemas crônicos de saneamento, poluição atmosférica, contaminação por agrotóxicos – quais são as prioridades do país e as estratégias de ação? O que nos levou a esta situação? Qual a influência de um modelo de desenvolvimento baseado no agronegócio, na concentração de renda, na desigualdade social? Que possibilidades queremos para o futuro? Sobre essas questões precisamos refletir. (ecodebate)

Estudo projeta impacto das mudanças climáticas em Santos

Um estudo de âmbito internacional em andamento, conduzido por pesquisadores da Unicamp e de outras instituições e centros de pesquisa, traz uma série de dados inéditos sobre o impacto das mudanças climáticas na zona costeira do município de Santos, no litoral sul de São Paulo.
Conforme a pesquisa, que envolveu também uma cidade do Reino Unido e um condado dos Estados Unidos, a elevação do nível do mar no município paulista pode aumentar 18 centímetros até 2050 e 36 cm até 2100, num cenário médio. Associada a eventos climáticos extremos, entre os quais ressacas e marés altas, esta elevação poderia causar prejuízos cumulativos da ordem de R$ 1,3 bilhão para a comunidade santista até 2100, segundo as projeções do trabalho.
O estudo de caso brasileiro sobre o município de Santos envolveu a participação dos professores Luci Hidalgo Nunes e Roberto Greco, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. Além deles, o projeto internacional conta com a participação de cientistas da Universidade de São Paulo (USP), Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), Instituto Geológico de São Paulo e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Também participam pesquisadores da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, e gestores e técnicos da Prefeitura Municipal de Santos. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) financia a iniciativa, desenvolvida no âmbito de um acordo de cooperação com o Belmont Forum, mantido pela International Group of Funding Agencies for Global Change Research (IGFA).
O IGFA é formado por algumas das principais agências financiadoras de projetos de pesquisa sobre mudanças ambientais no mundo. O responsável geral pelo projeto de pesquisa, intitulado Metrópole, é o climatologista José Marengo, chefe da Divisão de Pesquisas do Cemaden, localizado em Cachoeira Paulista (SP).
“A pesquisa envolve três estudos de casos, um nos Estados Unidos, na região da Flórida, outro no Reino Unido, e o caso brasileiro. Nos Estados Unidos, as projeções são para o condado de Broward; e no sul do Reino Unido, para o balneário de Selsey. No Brasil, Santos foi o município escolhido pela relevância estratégica para o país, já que a cidade abriga o porto mais importante do hemisfério sul”, situou a professora Luci Hidalgo, especialista em clima e que atua no Departamento de Geografia do IG.
Ainda de acordo com a docente, o município paulista possui dados importantes para a pesquisa, como as medições de tabuas de marés. “As informações que tínhamos até então, do IPCC [Intergovernmental Panel on Climate Change], eram globais, muito abrangentes. Esse foi o grande desafio, ou seja, obter informações locais e mais realísticas”, avaliou.
O professor Roberto Greco acrescenta que as previsões de elevação do nível do mar envolveram três cenários: “um mínimo, mais conservador, outro médio e um mais extremo.” No cenário conservador, o nível do mar pode elevar 13,5 centímetros até 2050, e 27 cm até 2100.  No cenário médio, a elevação seria de 18 centímetros até 2050 e de 36 até 2100. E, no pior cenário, haveria uma elevação de 22,50 centímetros para 2050 e 45 para 2100.
“Em comum, o que estas projeções mostram é que parte do município de Santos pode ficar inundada pela entrada de água do mar e pela água dos canais que deveriam drenar a ilha de Santos. Pode ocorrer também alagamento. Além disso, as estruturas dos prédios e demais construções podem ser bastante afetadas”, dimensiona Roberto Greco.
Dados da pesquisa informam que, de 1945 até o início da década de 1990, o nível do mar em Santos subiu, em média, 1,3 milímetro ao ano. A partir de 1993 até 2014, o índice dobrou, pulando para 2,7 mm ao ano. Considerando apenas o período de 2004 a 2013, os pesquisadores informam que o índice chegou a 3,6 mm ao ano, número parecido à média global calculada pelo IPCC. A partir desses dados foi possível chegar às projeções de elevação do nível do mar para 2050 e 2100.
Participação da comunidade
Além dos dados, a pesquisa envolve a participação da comunidade local (sociedade civil, empresas públicas, privadas e organizações não governamentais) e do poder público no sentido de apontar intervenções para que o município se adapte às mudanças climáticas. O estudo avaliou o custo benefício das principais propostas da comunidade em relação aos impactos projetados para a elevação do nível do mar em Santos.
“Um elemento inovador desse projeto foi a apresentação para a comunidade de imagens que visualizam o mapa da cidade e põem em evidência as áreas que serão mais afetadas para o aumento do nível do mar e os danos para os imóveis naquelas áreas. Essa é uma metodologia inovadora que se quis testar e avaliar para observar como afeta a propensão dos cidadãos a tomar medidas de adaptação.  O objetivo no futuro será comparar os dados e análises entre os três países participantes da pesquisa”, explicou Roberto Greco.
No caso de Santos, entre alternativas apontadas pela população, estão os serviços de dragagens para remover os sedimentos dos canais; a construção de diques; de muros de contenção; implementação de sistemas de comporta e estações de bombeamento; recolocação de areia nas praias – o chamado “engordamento”; e a recuperação de manguezais.
Em conjunto com a população, os estudiosos concluíram que tais medidas de adaptação são bastante apropriadas, sobretudo com relação ao custo. Na comparação com os eventuais prejuízos que poderiam ser causados pelos eventos climáticos, o investimento nestas obras e serviços de adaptação às mudanças climáticas seria bem menor. Conforme os pesquisadores, o custo das medidas de adaptação consumiria aproximadamente R$ 240 milhões, evitando R$ 1,1 bilhão de prejuízos causados, se nada for feito. Estas projeções foram feitas para um período correspondente até 2100.
“Antes se falava muito em medidas de mitigação dos eventos extremos e do aquecimento global. Hoje, é preciso falar de adaptação porque as mudanças já estão entre nós. É relevante, portanto, encontrar soluções para conviver da melhor maneira possível com estas alterações, não se esquecendo das mudanças de comportamentos da sociedade, da redução dos padrões de consumo e consequente diminuição da poluição para alterar este cenário no longo prazo”, explica a docente Luci Hidalgo.
A professora da Unicamp informa que para estabelecer os cenários apresentados à população de Santos, entidades e poder público, os pesquisadores usaram uma plataforma chamada COAST (Coastal Adaptation to Sea Level Rise Tool), desenvolvida por uma empresa americana em parceria com universidades e centros de pesquisa do país. A ferramenta permite que os usuários respondam perguntas com relação aos custos e benefícios de ações e estratégias para evitar danos causados pelo aumento do nível do mar e inundações costeiras.
“Esta plataforma mostra, dentro das projeções que nós fizemos para Santos, o que pode acontecer em termos de avanço de água e qual o impacto disso para as construções. Todos esses cálculos dos danos e das medidas de adaptação, nós fizemos empregando a plataforma COAST. Essas projeções envolveram as regiões sudeste e noroeste de Santos, de caráter bastante distintos”, complementa Luci Hidalgo.
De acordo com ela, a região sudeste compreende o bairro nobre do Boqueirão até a Ponta da Praia. Ali estão localizadas as construções de maior valor imobiliário. Já a região noroeste é uma das mais pobres do município, com algumas construções em palafitas. “O estudo aponta o quanto o nível do mar pode afetar em termos de números de edifícios e quanto isso pode custar. Os cálculos de danos levaram em consideração apenas o valor venal dos edifícios.”
Luci Hildago esclarece que as estimativas de prejuízos financeiros são bastantes conservadoras porque levam em conta apenas o valor venal dos imóveis. Segundo a professora, não foram considerados os valores de automóveis, equipamentos e infraestrutura pública existente no local. Além disso, o valor venal dos imóveis estabelecido pela Prefeitura está, quase sempre, desatualizado com relação ao preço de mercado das propriedades. (ecodebate)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Mudanças climáticas e os eventos extremos

Nos últimos anos estamos presenciando, cada vez com mais frequência, manifestações climáticas extremas como longos períodos de seca, ondas de calor, inundações, vendavais e tempestades. São situações que têm causado incredulidade nas pessoas que as vivenciam tal a sua magnitude, como ocorreu recentemente no interior de São Paulo em Jarinu, Campinas, Atibaia entre outras cidades que sofreram destruição antes nunca vista nessas regiões.
Em sua maior parte, esses eventos extremos estão relacionados com o aquecimento global que provoca as mudanças climáticas. Os efeitos do aumento da temperatura média do planeta são observados em nível global e as suas manifestações locais apresentam diferenças de uma região a outra podendo ocorrer na forma de tempestades e secas mais frequentes, intensas e de maior duração, ondas de calor, incêndios, furacões e tornados, chuvas torrenciais entre outros fenômenos.
Em artigo publicado na revista Geophysical Research Letters em abril deste ano, pesquisadores australianos divulgaram estudo mostrando que as tempestades serão cada vez mais destrutivas nas áreas urbanas devido ao aumento do aquecimento global. Os núcleos urbanos enfrentarão chuvas mais fortes porque a mudança climática não somente intensificará as tempestades, mas trará precipitações mais intensas num espaço de tempo mais curto, o que traz implicações importantes para a infraestrutura das grandes cidades.
Os autores do estudo Conrad Wasko, Ashish Sharma e Seth Westra analisaram dados de 1300 pluviômetros e 1700 estações térmicas para comprovar como a temperatura do ar afeta a intensidade e a distribuição espacial das tempestades, que estão cada vez mais concentradas em pequenas áreas, com precipitações mais abundantes e intensas durante um período de tempo mais curto. De acordo com os pesquisadores, os resultados têm implicações globais e representam um padrão que se repete em todo o planeta.
Os pesquisadores afirmam que a maioria dos centros urbanos tem velhas infraestruturas para águas pluviais projetadas para controlar padrões de chuva do passado. Nos centros urbanos há menos terra exposta para drenar o excesso de precipitação de água, diferentemente do que ocorre em áreas rurais. Assim como a capacidade de drenagem não dá conta do volume maior de água, a incidência das inundações aumentará à medida que as temperaturas sejam maiores devido ao aumento do aquecimento global. Haverá inundações mais destrutivas nos principais centros urbanos do mundo.
Diferentes instituições e organismos internacionais (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica – NOAA e Organização Meteorológica Mundial-OMM, entre outras) que acompanham as variações globais de temperatura confirmam que o aquecimento continuará aumentando se não houver redução significativa dos gases que produzem o efeito estufa (GEE) como o gás carbônico (CO2) e metano (CH4). Somente uma redução radical das emissões desses gases reduzirá a temperatura a níveis aceitáveis, caso contrário, os GEE continuarão a se acumular na atmosfera agravando a frequência e a intensidade dos fenômenos meteorológicos extremos.
Para diminuir os efeitos desses fenômenos climáticos radicais é necessário uma melhoria e adaptação da infraestrutura urbana das cidades, mas também há necessidade de se assumir com determinação que o problema só será solucionado com adoção de medidas cada vez mais rigorosas para impedir o aquecimento global.
As cidades, segundo a ONU, são responsáveis por 70% das emissões de CO2 e uma das medidas mais efetivas para diminuir o aquecimento global está na redução da utilização dos combustíveis fósseis amplamente adotados nas cidades no transporte coletivo urbano. Uma alternativa está na utilização dos combustíveis alternativos como o biodiesel, o álcool, o hidrogênio e o uso de carro movidos a eletricidade entre outros. Um bom começo, no Brasil, é acelerar a substituição do diesel pelo biodiesel nos transportes coletivos urbanos. É uma medida não só viável como necessária. (ecodebate)

Brasil e o plano de adaptação às mudanças climáticas

Desafio do Brasil é por em prática plano de adaptação às mudanças climáticas
Adaptação às mudanças climáticas deve ser prioridade para o país.
O Brasil já tem um plano para se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas. O documento, lançado na semana passada como um dos últimos atos da presidente afastada Dilma Roussef, contribuirá para que o Brasil reforce sua capacidade de adaptação e avaliação de riscos climáticos, integrando a gestão de vulnerabilidades e riscos climáticos às políticas e estratégias públicas. Deverá também conjugar ações de desenvolvimento nacional e locais às medidas de adaptação previstas no documento. A expectativa é que o plano comece a ser implementado pelo governo interino, pois trata-se de uma prioridade para o país.
O Plano Nacional de Adaptação (PNA) foi uma das promessas do Brasil na Convenção do Clima das Nações Unidas. O documento começou a ser elaborado em 2013 e teve como um dos pontos positivos a manutenção do diálogo com outros órgãos do governo e com a sociedade civil, incluindo reuniões com organizações sociais e uma consulta pública para o documento, para o qual o WWF-Brasil e o Observatório do Clima enviaram contribuições.
O documento inclui objetivos, princípios, diretrizes e estratégias para os seguintes setores e temas: Agricultura, Biodiversidade e Ecossistemas, Cidades, Desastres, Naturais, Indústria e Mineração, Infraestrutura (Energia, Transportes e Mobilidade Urbana), Povos e Populações Vulneráveis, Recursos Hídricos, Saúde, Segurança Alimentar e Nutricional e Zonas Costeiras.
A participação de diferentes atores na elaboração do documento fez com que o PNA tivesse um caráter abrangente e transversal, característica fundamental para um plano de adaptação. “É preciso definir como essas metas serão atingidas, fazendo o detalhamento por meio de planos de ações”, diz o coordenador o Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur.
Ele lembra que o Brasil é um dos países mais impactos pelas mudanças climáticas por causa das suas características regionais, enorme biodiversidade e questões econômicas. Um exemplo é a intensificação dos efeitos climáticos que devem trazer mais danos à agricultura.
“A mudanças climáticas já são uma realidade, o que precisamos é nos prevenir para que seus efeitos tragam o menor impacto possível, principalmente para as comunidades mais vulneráveis”, diz ele.
Além de trazer esforços para reduzir os impactos, o plano nacional de adaptação pode trazer soluções e oportunidades para a população brasileira, com empregos verdes e infraestrutura adequada, continua Nahur, acrescentando que o WWF-Brasil tem trabalhado também de forma subnacional, para desenvolver planos regionais de adaptação.
“A partir da publicação do PNA, abre-se caminho para que os estados desenvolvam e implementem os seus próprios planos, com as características próprias de cada região”. (ecodebate)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Seca prolongada, chuvas intensas e clima caótico

Com seca prolongada e chuvas intensas, estudo do MCTIC prevê ‘clima caótico’ até 2100
“Os impactos e os riscos são tão grandes que não existe outra possibilidade que não seja a mais rápida redução de gases de efeito estufa”, alertou o pesquisador Carlos Nobre durante 68ª Reunião Anual da SBPC.
Até 2100, o clima tende a “ficar mais caótico”, com menor grau de previsibilidade, longos períodos secos e extremos de chuva intensa. O alerta foi feito pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) Carlos Nobre durante lançamento do livro Modelagem Climática e Vulnerabilidades Setoriais à Mudança do Clima no Brasil, na 68ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Porto Seguro (BA).
“Os impactos e os riscos são tão grandes que, na minha opinião, não existe outra possibilidade que não seja a mais rápida redução de gases de efeito estufa, como a COP 21 [21ª Conferência do Clima] preconizou: zerar as emissões até 2050 ou 2060 e chegar a emissões negativas, ou seja, tirar CO2 [dióxido de carbono] da atmosfera”, afirmou o pesquisador. “Esse é um enorme desafio, mas é um problema do qual não temos como fugir se nós não quisermos entregar aos nossos netos e bisnetos um mundo muito difícil de viver.”
Nobre recomendou ao público da palestra que acesse a Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), que, a partir do acordo aprovado na COP 21, terá que ser atualizada a cada dois anos. Desdobramento da última edição do inventário, o livro traz simulações em escala regional e análises de especialistas sobre possíveis impactos de cenários de emissão de gases até 2100 em sete setores – agricultura, biodiversidade, cidades, desastres naturais, energias renováveis, recursos hídricos e saúde humana.
O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) elaborou a publicação em parceria com a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima). O livro teve como editores o coordenador-geral de Mudanças Globais do Clima do MCTIC, Márcio Rojas, o pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) José Marengo e o economista Breno Simonini.
Vulnerabilidades
Interpretadas por especialistas, as simulações até o fim do século geraram estudos de impactos em diversas regiões brasileiras. Nobre destacou efeitos das mudanças climáticas sobre os biomas, como retração de florestas e expansão de vegetações abertas. O livro aponta que Cerrado e Caatinga teriam maior estabilidade para manter a cobertura nativa do solo, mas, em compensação, a Amazônia seria fortemente afetada em sua parte oriental.
“Isso é muito sério e grave para o Brasil, que abriga a maior biodiversidade do planeta, seguido por Colômbia e Indonésia. Temos um hot spot mundial bem aqui, pertinho de Porto Seguro, na Mata Atlântica. São 450 espécies de aves por hectare”, enfatizou. “Há um processo de savanização da Amazônia, com menos florestas e mais savanas, que formam um cerrado empobrecido.”
Na agropecuária, a projeção de aumento da frequência de dias quentes, com temperatura superior a 34ºC, pode prejudicar a produção de café, feijão e leite, e a criação de frangos e suínos. Uma das soluções apontadas para o cultivo de vegetais seria a busca por ambientes tolerantes ao calor e ao déficit hídrico. O climatologista ressaltou que os impactos podem afetar em 90% o milho safrinha e em 80% a soja.
“O Brasil já está quase se tornando o segundo maior exportador de alimentos do mundo, deve passar os Estados Unidos nos próximos 15 anos”, lembrou Nobre. “As mudanças climáticas trazem riscos muito grandes. A única cultura que não sofreria neste século é a cana-de-açúcar, que se estenderia ao sul do País. Arroz, milho, soja e feijão diminuiriam demais a área agriculturável.”
Recursos hídricos
Para recursos hídricos, o estudo evidencia anomalias de escoamento em regiões hidrográficas, com redução da água disponível em praticamente todo o território nacional. O maior impacto percentual aconteceria nas áreas do rio Doce e do rio São Francisco. A vazante aumentaria na bacia do rio Uruguai e em parte da do rio Paraná, com intensificação de cheias no Sudeste, embora, segundo Nobre, o balanço hídrico provavelmente fique negativo, porque uma evaporação crescente superaria o volume proveniente das chuvas.
Na visão do climatologista, o potencial hidrelétrico do País precisa ser encarado com cuidado, com base em um dos mapas do livro. “Detalhamentos mostram que a usina de Belo Monte, no futuro, pode perder pelo menos um terço de sua capacidade”, comentou. “Já a energia eólica ganha com a ampliação da velocidade dos ventos e pode se instalar do Rio Grande do Sul ao Amapá.”
Sobre energia solar, o estudo verificou valores simulados no fim do século, menores do que os atuais. As quedas de intensidade de radiação variam de 4% a 8% em todo o Brasil. Em relação ao biodiesel, estimou-se dificuldades na produção de girassol e soja e menor alteração para cana-de-açúcar e mamona, cujas culturas, no entanto, podem sofrem com a carência hídrica.
A vulnerabilidade a desastres naturais vem se intensificando nas últimas décadas e, nas palavras de Nobre, combina duas variáveis em expansão: os extremos climáticos e a exposição ao perigo. “Nós passamos 60 anos de urbanização caótica no Brasil. Temos hoje 5 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco nas periferias das grandes cidades. É um dos mais altos índices do mundo.”
O livro sugere que o Sul, o Sudeste e grande parte do litoral ficarão mais suscetíveis a inundações bruscas, enxurradas e alagamentos. Para as demais regiões do País, o risco pode diminuir devido à queda dos índices de chuva. Nobre citou dados que indicam que, se a temperatura subir 3ºC em 2 mil anos, o nível do mar subiria 10 metros. “Várias cidades teriam que ser abandonadas”, previu. “Londres só tem solução de engenharia para até cinco metros.” (ecodebate)