segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Mudanças climáticas irão espalhar fome pelo mundo

A fome crônica deverá ser a definição da tragédia humana desse século, com o advento das mudanças climáticas que causam alterações nas estações, dano aos plantios, além de tempestades e secas que devastam campos, informou a Oxfam, uma organização mundial de combate à fome. A Oxfam Internacional divulgou um relatório esta semana, quando os lideres do Grupo dos Oito (G8) países mais ricos do mundo se preparam para se encontrar na Itália, com uma agenda de discussão que inclui a segurança alimentar e as mudanças climáticas. O relatório informa que, enquanto o clima muda, milhões de pessoas que vivem em áreas prejudicadas pela escassez de água terão que desistir de cultivar plantações tradicionais, o que deve levar a grandes mudanças sociais, como as migrações em massa e conflitos pela água. Os países ricos que ficam em região de clima temperado, como o norte da Europa e em partes dos Estados Unidos, serão beneficiados por um clima mais quente e mais chuva. Porém, muito mais pessoas que vivem em países mais pobres e quentes irão enfrentar estoques de alimentos mais caros e restritos, informou a organização. O relatório “O que aconteceu com as estações?” foi feito para mostrar a urgência da questão para o encontro do G8 e para um grupo maior de 17 países, que formam o “Fórum das Grandes Economias” (MEF – sigla em inglês), que se encontram no final da semana para tentar travar negociações para um novo acordo sobre as mudanças climáticas, que deve ser completo em dezembro. Agricultores entrevistados A Oxfam informou que preparou um estudo para O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento entrevistando agricultores em todo o mundo, que relatam que as mudanças nos padrões estacionais já estavam afetando sua habilidade de planejar o plantio e colheita de suas safras. Os resultados foram “extremamente consistentes em todas as regiões do mundo”. Os agricultores já começaram a mudar suas culturas nos trópicos, onde uma mudança de 1 grau Celsius na temperatura pode tornar plantios tradicionais insustentáveis. As chuvas imprevisíveis fazem com que suas escolhas por novas culturas se tornem um “jogo de azar”, informou o relatório. Entre os mais prejudicados estão as nações que cultivam arroz, o alimento mais consumido do mundo. Os rendimentos devem cair em média 10% para cada 1ºC de aumento na temperatura em países com as Filipinas, onde a produção deve cair de 50% a 70% até 2020. Ao mesmo tempo, a China irá produzir mais arroz, já que suas áreas mais quentes, ideais para o cultivo, irão aumentar. Milho O milho é outra cultura que será largamente afetada pelas mudanças climáticas, já que é particularmente vulnerável quanto ao volume de água. O milho é a principal fonte de alimento para 250 milhões de pessoas no leste da África e é usado como ração animal em todo o mundo. Negociadores em reuniões das Nações Unidas foram requisitados para criar um fundo de recursos para adaptação, que possa ajudar países pobres a lidar com os efeitos das mudanças climáticas. As estimativas da ONU sugerem que até US$ 200 bilhões por ano seja necessário até 2030 para desenvolver recursos e trazer água para regiões cada vez mais áridas, alterar a agricultura para culturas mais adaptáveis ao clima, criar barreiras para proteger as cidades litorâneas do aumento dos níveis do mar e ajudar os pescadores que devem ser profundamente prejudicados pela acidificação do oceano. O relatório da Oxfam informou também que medidas podem ser tomadas para aumentar os estoques de alimento no mundo. “O potencial agrícola do mundo é menos que 60% explorado: ainda há terra suficiente para alimentar todos, até com a população a níveis de 9,2 bilhões, previstas pelas Nações Unidas para 2050”, informa o relatório. Métodos modernos para irrigação e fertilização podem aumentar consideravelmente a produção.

sábado, 29 de agosto de 2009

Brasil cobra ação de países desenvolvidos sobre o clima

Falta compromisso com metas maiores e com redução doméstica, diz negociador brasileiro. Ontem foi a vez de os países em desenvolvimento cobrarem mais transparência e mais ação por parte dos desenvolvidos no combate às mudanças climáticas. Após várias horas de debate sobre as metas de redução de emissões que as nações industrializadas estão colocando na mesa para o próximo período do Protocolo de Kyoto, o Brasil fechou o dia de negociações com uma intervenção enfática do representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, José Domingos Miguez. "Todo mundo diz que é preciso reduzir as emissões urgentemente, mas não é isso que eu vejo nos números", disse Miguez ao microfone, levantando uma lista com estatísticas de emissão de carbono dos países do chamado Anexo 1 - aqueles que têm obrigação de reduzir suas emissões dentro do Protocolo de Kyoto. A soma mostra que as emissões agregadas do grupo caíram levemente entre 1990 e 2006, mas só graças à Rússia e Ucrânia, que reduziram muito sua atividade industrial após o desmembramento do bloco soviético. Sem esses dois países, a soma das emissões do Anexo 1 aumentou, calculou Miguez. "Depois dizem que a gente é que é o vilão, que a gente é que não está fazendo nada." Além disso, todas as metas apresentadas até agora para o segundo período de compromisso do protocolo, que começa em 2013, estão abaixo do que se considera necessário para manter a elevação da temperatura global sob controle (no mínimo 40% até 2020). "Onde está essa tal urgência?", cobrou Miguez. "Vocês querem comer o omelete sem quebrar o ovo", completou o negociador brasileiro, indicando que os países desenvolvidos querem se proteger do aquecimento global, mas não se mostram dispostos a fazer os sacrifícios necessários para reduzir suas emissões nesse sentido. Em vez disso, teme-se que a estratégia do Anexo 1 seja transferir indiretamente a responsabilidade de reduzir emissões para os países em desenvolvimento, por meio da compra de créditos de carbono. Brasil, China, Índia, África do Sul e vários outros cobraram estimativas de quanto das metas propostas pelos países desenvolvidos será compensada via mercado de carbono e quanto será resultado de reduções reais de suas emissões domésticas. Nenhuma foi apresentada. "Se houver muito uso de compensações, as emissões per capita dos países desenvolvidos continuarão altas", disse um diplomata chinês. Nesse cenário, os países do Anexo 1 continuariam a emitir grandes quantidades de carbono, deixando o esforço maior de reduzir emissões (e produzir créditos) para os países em desenvolvimento. Há uma pressão por parte de países do Anexo 1 para que o mercado de carbono seja expandido e flexibilizado na próxima etapa de Kyoto, incorporando mecanismos de compensação, como o de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD) - que o Brasil defende que não seja compensatório (mais informações nesta página). O encontro de Bonn é uma das últimas reuniões preparatórias para Copenhague, em dezembro, onde deve ser feito o acordo final sobre as metas. Governadores pedem por REDD A quatro meses da Conferência de Copenhague, o Brasil briga por uma posição única. Chamados a debater com o governo federal, governadores da região amazônica, interessados nos benefícios que pode trazer o mecanismo de Redução de Emissões por Degradação e Desmatamento (REDD), não estão satisfeitos com as ideias do Ministério das Relações Exteriores. Os governadores querem que o governo aceite o REDD, que prevê que países ricos repassem recursos a países pobres que diminuam o desmatamento. Mas a posição do País é de que ele não pode ser aceito a qualquer custo e só vale senão puderem ser trocados pelo direito de países ricos manterem suas emissões. As propostas de metas apresentadas por eles são baixas. Se puderem compensar, vai equivaler a nada.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Poluição e aquecimento 'encolheram' ursos polares

Um estudo de uma universidade da Dinamarca sugere que os ursos polares diminuíram de tamanho no último século. Os cientistas compararam os crânios destes ursos recolhidos no começo do século 20 com os que foram recolhidos no final daquele século e descreveram mudanças no tamanho e forma que poderiam estar ligadas a um aumento na poluição e à redução do gelo no mar. Os pesquisadores usaram os crânios como indicadores do tamanho do corpo. Os crânios do final do século 20 eram entre 2% e 9% menores. O estresse físico causado por poluentes nos corpos dos ursos e o aumento do esforço necessário para encontrar alimento podem ter limitado o crescimento do animal, segundo a equipe de pesquisadores. "Pelo fato de o gelo estar derretendo, os ursos precisam usar muito mais energia para caçar suas presas", explicou Cino Pertoldi, professor de biologia da Universidade Aarhus, da Dinamarca, e da Academia Polonesa de Ciência, líder deste estudo. "Imagine que você tem dois gêmeos - um é bem alimentado durante a fase de crescimento e um está passando fome. (O que passa fome) será muito menor, pois não terá energia o bastante para destinar ao crescimento", acrescentou. Poluentes O estudo, publicado na revista especializada Journal of Zoology, analisou umacoleção de quase 300 crânios de ursos polares fornecida pelo Museu de Zoologia de Copenhague, na Dinamarca. Christian Sonne, veterinário e cientista da Universidade de Aarhus que trabalhou com a equipe, afirmou que esta coleção forneceu "amostras fantásticas", abrindo uma janela para o desenvolvimento dos ursos durante um século inteiro. Durante este período, de acordo com Sonne, as concentrações de muitos poluentes fabricados pelo homem no Ártico aumentaram de forma significativa. "O urso polar é um dos mamíferos mais poluídos do mundo", afirmou. Para Pertoldi, a poluição é um dos fatores que podem ter causado a diminuição e a mudança na forma dos crânios dos ursos polares. Os poluentes detectados no Ártico e nos corpos dos animais em geral eram compostos de carbono e halogênios - flúor, cloro, iodo ou bromo. Alguns desses compostos ainda são usados pelas indústrias em solventes, pesticidas, refrigeradores, adesivos e revestimentos. "Também sabemos, a partir de estudos anteriores, que alguns poluentes químicos à base de cloro afetaram a fertilidade das fêmeas", disse Pertoldi. Rune Dietz, outro pesquisador da Universidade de Aarhus que participou do estudo, explicou que os cientistas já conseguiram determinar uma ligação entre "poluentes persistentes orgânicos" fabricados pelo homem e a redução da densidade mineral de ossos de ursos polares, que tornar os animais vulneráveis a ferimentos e osteoporose. Os cientistas afirmam que as mudanças observadas também poderiam estar relacionadas à redução na diversidade genética das espécies. A caça ao urso polar no século passado pode ter exaurido o conjunto genético, o que levou os ursos polares a sofrerem os efeitos da procriação consanguínea, de acordo com o professor Pertoldi.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Desmate gera 2,5% das emissões globais de carbono

O desmatamento da Amazônia brasileira contribui com aproximadamente 2,5% das emissões globais de gases do efeito estufa (GEEs), responsáveis pelo aquecimento global, segundo um cálculo preliminar feito por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O volume de carbono emitido é enorme. Porém, proporcionalmente menor do que se imaginava, segundo o diretor do Inpe, Gilberto Câmara. A estimativa inicial, diz ele, era de que o desmatamento na Amazônia brasileira respondia por 5% das emissões globais de GEEs (principalmente dióxido de carbono, ou CO2). O novo cálculo foi feito numa reunião com cientistas do instituto na sexta-feira, após uma consulta feita pela reportagem do "Grupo Estado". Câmara enfatiza que é uma estimativa preliminar, que ainda precisa ser refinada - mas que não deve desviar muito dessa ordem de grandeza. A conta foi feita com base na taxa de desmatamento de 2008, que foi de aproximadamente 13 mil Km². O diretor do INPE aproveita para questionar outra estimativa que vem sendo citada amplamente nos debates internacionais, de que o desmatamento acumulado no mundo produz 20% das emissões globais de GEEs. Esse número, segundo ele, é baseado em dados superestimados da Fundação das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que adota como média para o Brasil um desmatamento anual de 30 mil Km² - muito acima do real. Nos últimos 20 anos, segundo os dados do próprio INPE, a média anual de desmate na Amazônia brasileira foi de aproximadamente 18 mil Km². "Não há base científica confiável para esses 20%", disse Câmara. Ele acredita que uma estimativa mais realista seja em torno de 10%, conforme um trabalho publicado pelo World Resources Institute. O cálculo dos 20% é citado nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e tem servido de base para as negociações internacionais a respeito da contribuição do desmatamento (e dos países em desenvolvimento) para o aquecimento global. "O IPCC chancelou esse dado porque ninguém dos países em desenvolvimento se deu ao trabalho de ir atrás do número real", afirma Câmara - acrescentando que o INPE está empenhado em fazer esse cálculo. "Foi um dado que ninguém se interessou em contestar." Os novos números, segundo Câmara, não diminuem em nada a necessidade de estancar o desmatamento. Mas diminuem, sim, o efeito que essa redução pode ter sobre as mudanças climáticas na escala global. As implicações são grandes para a negociação do novo acordo climático que deverá ser fechado em dezembro, em Copenhague, na próxima Conferência das Partes (COP) da Convenção do Clima das Nações Unidas. "É muito conveniente para os países desenvolvidos que as emissões por desmatamento nos países em desenvolvimento sejam altas", avalia Câmara. "Quanto maior a nossa contribuição (para o aquecimento global), menor a deles." Três reuniões preparatórias ainda serão realizadas antes de Copenhague. A primeira começa amanhã (10) em Bonn, na Alemanha. Desmatamento evitado - Os novos cálculos apresentados por Câmara alteram também o cenário das discussões sobre Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD), que é um dos temas críticos na agenda do Brasil para Copenhague. O REDD é um mecanismo proposto que permitiria aos países desenvolvidos receber créditos de carbono pelo financiamento de projetos de conservação que reduzam o desmatamento nos países em desenvolvimento. O governo brasileiro aceita negociar o REDD como um mecanismo auxiliar de financiamento, mas não como um mecanismo compensatório. Ou seja: os países desenvolvidos poderiam financiar projetos de conservação e até obter créditos de carbono, mas não usar esses créditos para compensar suas próprias emissões. Na visão do Itamaraty e de representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia que participam das negociações, isso daria uma saída fácil para os países desenvolvidos cumprirem suas metas sem precisar reduzir substancialmente suas emissões por queima de combustíveis fósseis - que é o maior problema global. "Não adianta querer salvar o clima com florestas; não adianta mesmo", diz a diretora de Relações Internacionais do Inpe, Thelma Krug, uma das principais representantes do Brasil na Convenção do Clima. "A floresta preserva estoques de carbono, mas não reduz emissões", diz o diplomata André Odenbreit, do Itamaraty. "Se dermos créditos de carbono para conservação aqui, alguém vai emitira mais em outro lugar. A conta simplesmente não fecha." Além disso, diz ele, se o Brasil exigir compensações para não desmatar suas florestas, outros países poderão exigir o mesmo para não explorar suas reservas de petróleo. Mudança de uso da terra Como o desmatamento produz emissões de gás carbônico para a atmosfera. Floresta Intacta – As florestas guardam enormes quantidades de carbono, que é um componente básico da matéria orgânica (biomassa). O carbono está embutido na vegetação. Desmatamento – Quando a vegetação é queimada, o carbono da biomassa é liberado para a atmosfera na forma de gás. Agropecuária – Se a área é convertida em pastos ou plantações, a vegetação não rebrota e o carbono não é reabsorvido. Reflorestamento – Se a floresta rebrota ou é replantada, o carbono é reabsorvido pela vegetação e transformado novamente em biomassa. A proposta REDD Hoje, pelas regras do protocolo de Kyoto, países em desenvolvimento podem obter créditos de carbono pelo reflorestamento de áreas já desmatadas, mas não pelo “desmatamento evitado” de áreas ainda com floresta nativa. Desmatamento Evitado Pelo mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), países desenvolvidos que financiassem projetos de proteção florestal no Brasil poderiam obter créditos pelo carbono que deixou de ser emitido para a atmosfera.

domingo, 23 de agosto de 2009

Experimento pretende queimar floresta em MT

Cientistas estrangeiros realizarão uma experiência única no Brasil: colocar fogo em uma floresta de hectares no Mato Grosso. O objetivo é saber exatamente o que ocorre quando o fogo gera o desmatamento de floresta tropical, qual o volume de CO2 produzido, qual a flora que sobrevive e em quanto tempo o solo será recomposto. No fundo, o que os cientistas querem saber é como as florestas tropicais vão sobreviver aos fogos cada vez mais frequentes nessas regiões, causados não por fazendeiros querendo abrir terreno para plantar, mas por causa de mudanças climáticas. Hoje, o custo de incêndios nas florestas em todo o mundo já chega a US$ 24 bilhões, seja com a perda de madeira, biodiversidade e mesmo prejuízos a proprietários de terras. Testes como o que ocorrerá em Mato Grosso ocorrem desde 2004, conduzidos pelos cientistas da Woods Hole Research, dos EUA. No Brasil, os testes ocorrerão em uma propriedade da família do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi. A queima de floresta tropical se tornou um dos principais problemas enfrentados por países na América Latina, África ou sul da Ásia. Alguns dados apontam que o desmatamento causado pelo fogo é o dobro do causado pelo corte deliberado de madeira por empresas tentando exportar produtos tropicais. Avaliações preliminares indicaram que, ao contrário das temperadas, florestas tropicais reagem de forma diferente a fogo. Por serem úmidas, teriam partes de sua flora mantidas, mesmo em um incêndio natural. Mas a suspeita é de que a vegetação mais baixa não se recupere. O experimento promete ser um evento. O primeiro passo será colocar fogo. Em seguida, outro grupo mede com qual velocidade o incêndio se propaga. Outro trabalho será o de medir as chamas. No fim, os cientistas vão avaliar o que sobrou e ainda quanto foi gerado em termos de emissões de CO2.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Críticos cobram apoio do País ao REDD

Posição brasileira sobre o tema é atrasadíssima, diz professor da UnB. A medida que a cúpula de Copenhague se aproxima, aumentam as pressões, doméstica e internacional, para que o Brasil mude sua posição sobre a inclusão do desmatamento evitado no mercado de carbono. Críticos ouvidos classificam a atuação brasileira no tema como retrógrada, anti-científica, maniqueísta e contrária aos esforços de conservação das florestas tropicais. "A posição do Brasil é atrasadíssima", diz o sociólogo Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Segundo ele, o País está "prisioneiro de um erro histórico" que cometeu em 1997, quando se opôs à inclusão do desmatamento evitado no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto - apesar de todos os outros países florestais serem a favor. "Foi um tiro no pé", diz Viola. "O Brasil está isolado." Muitas dessas políticas, diz ele, estão enraizadas numa "paranóia histórica" que envolve a soberania nacional e o domínio da Amazônia. "Essa proteção da soberania acaba sendo uma proteção das forças que desmatam", diz a antropóloga cultural Myanna Lahsen, do INPE, autora de um estudo sobre as relações de poder que moldaram esse debate no Brasil. Ela aponta que, mesmo diante do acúmulo de evidências científicas mostrando que a Amazônia não funciona apenas como um reservatório, mas também como um sumidouro de carbono (absorvendo CO2 da atmosfera), a agenda brasileira manteve-se contrária à inclusão das florestas nativas no mercado de carbono. "Precisamos ser mais flexíveis", diz. Para o ecólogo Antonio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a diplomacia brasileira sobre carbono florestal é comandada por um "grupo ideológico e secretivo", que fecha os olhos para a ciência e continua a insistir na mesma "política falida de Kyoto". Ele teme que as incertezas levantadas sobre o papel do desmatamento nas emissões globais de carbono sejam usadas para sabotar um acordo favorável ao REDD em Copenhague. "Vão tentar remover as florestas das negociações, como já fizeram em Kyoto, e veja onde isso nos levou. As emissões globais de carbono só aumentam e nossas florestas continuam sendo devastadas", aponta Nobre, ressaltando que os ecossistemas florestais prestam muitos outros serviços ambientais além do ciclo de carbono. "O maniqueísmo em torno de uma incerteza numérica ignora totalmente esses outros valores. Mas os negociadores, com a participação ativa do grupelho ideológico que manipula nossa agenda nesta área, se refestelam com o reducionismo no debate." No cenário político nacional, o REDD conta com o apoio de todos os governadores da Amazônia, que pressionam o governo federal no sentido de mudar a posição do Brasil para Copenhague. "Precisamos adotar uma linha de negociação mais pragmática e menos punitiva", diz o diretor da Fundação Amazonas Sustentável, Virgílio Viana. Ele coordena uma "força tarefa" montada a pedido do Fórum de Governadores da Amazônia para discutir o REDD, com a participação de vários representantes das esferas estaduais e federais. A primeira reunião ocorreu na semana passada, no Rio, e deixou Viana otimista. "Aqueles que chegaram com uma posição radicalmente contra saíram abalados. Aqueles que chegaram indecisos saíram convencidos", garante Viana. Segundo ele, todas as questões técnicas levantadas contra o REDD já têm solução.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Empresa pode recorrer a fundo

Recursos vindos de outros países serão usados em projetos de preservação da Amazônia. Criado pelo governo brasileiro para receber doações de países que queiram financiar a conservação da floresta, o Fundo Amazônia também vai repassar recursos para projetos montados por empresas privadas. Inicialmente, a previsão era atender organizações não governamentais (ONGs), populações tradicionais e instituições de pesquisa voltadas para o setor. A decisão foi tomada pelo comitê orientador do fundo (Cofa) e confirmada pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Algumas empresas com fins lucrativos podem ser beneficiadas. Mas são as pequenas que criam empregos sustentáveis. De acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), órgão executor do fundo, a proposta apresentada deve contribuir direta ou indiretamente para a redução do desmatamento na Amazônia. Segundo Minc, a ideia de incluir empresas foi levada ao comitê pelo setor não-governamental - que reúne ONGs, cientistas e indústria. O Cofa é democrático. Inclui governo federal, Estados e sociedade, e só toma uma decisão quando os três setores concordam. Ele ressalta que foram "estipulados critérios muito rígidos". "As empresas poderão receber recursos desde que suas atividades sejam sustentáveis e que elas não possam realizá-las sem o apoio do fundo", explicou. Paulo Moutinho, coordenador de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), não é contra o favorecimento de empresas pelo fundo. Na opinião dele, porém, os projetos não podem ter somente "o viés do lucro". "É preciso apoiar projetos que possam mudar a lógica atual da região de derrubar a floresta", afirmou. De acordo com Moutinho, é importante que o fundo dê certo. "Mas ele carece de discussões sobre quem tem direito de receber os recursos." Roberto Waack, presidente da empresa de produção de madeira certificada Amata, acredita que tanto iniciativas públicas como privadas devem ser contempladas para tornar possível a criação de "uma economia da floresta tropical". A Amata tem uma concessão - espécie de aluguel - para fazer manejo na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. Além disso, trabalha com o plantio de árvores nativas em áreas degradadas. "O Jamari é cercado por áreas desflorestadas e a pressão do desmatamento é muito grande. A contrapartida da empresa é ter nesse local um projeto que consiga manter a floresta em pé." PROPOSTAS Até agora, 70 propostas foram apresentadas ao fundo. E há, em caixa, US$ 110 milhões doados pela Noruega. Esse país deverá disponibilizar outro US$ 1 bilhão em sete anos, a liberação do dinheiro está condicionada à redução do desmate. Já a Alemanha se compromete a doar 18 milhões para o fundo. Em Manaus (AM), Minc anunciou que seriam beneficiados o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O BNDES afirmou que ainda não há projetos aprovados. Alguns estão em fase mais adiantada, mas ainda sob sigilo bancário. O diretor de políticas públicas do Greenpeace, Sérgio Leitão, discorda que órgãos governamentais sejam beneficiados pelo fundo. "É absurdo beneficiar iniciativas do próprio governo com doação. Isso ele tem de bancar." Leitão comparou o fundo à "porta da esperança". "Todos querem dinheiro: satélites do INPE, empresários que fazem manejo florestal, povos indígenas, ONGs. Não tem como dar conta." Essa questão nunca foi levantada, até porque não há quem seja contra apoiar o INPE a ter mais satélites. Minc ressalta que seria contraditório não apoiar governos, já que um dos objetivos do é criar mais unidades de conservação da floresta, como parques e reservas. Hoje, quem cria e implanta essas unidades são os governos municipais, estaduais e o federal. O dinheiro do fundo será usado em projetos de conservação da floresta e manejo sustentável da região amazônica. Cidades apresentarão projetos Moradores e gestores de nove cidades terão, em agosto/2009, a oportunidade de conhecer o Fundo da Amazônia e a maneira como eles podem submeter seus projetos. As apresentações estão a cargo do Serviço Florestal Brasileiro e do BNDES. E as propostas têm que estar relacionadas a áreas temáticas: expansão e conservação de florestas protegidas, estímulo a processos sustentáveis de produção, desenvolvimento de pesquisas e gestão ambiental. Não há valor predeterminado para os projetos. Os recursos variam de acordo com cada proposta, em razão das características de cada uma (como o tipo de ação que será desenvolvida). O fundo é visto como um dos instrumentos de apoio para que o Brasil consiga atingir a meta que estabeleceu no Plano Nacional de Mudança do Clima: reduzir em 70% o desmatamento até 2017. Os municípios contemplados são Belém (PA), Manaus (AM), Boa Vista (RR), Macapá (AP), Porto Velho (RO), Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Imperatriz (MA) e Palmas (TO).

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

REDD divide Estados e União

Região amazônica pressiona pelo uso do mecanismo. Interessados nas negociações da cúpula sobre mudanças climáticas em Copenhague, no fim do ano, os governadores da Amazônia decidiram pressionar o governo federal a aceitar um acordo em que recursos para a floresta possam chegar rapidamente. Mesmo que o Brasil tenha de ceder e permitir aos países rico trocarem dólares pelo direito de continuar emitindo carbono. A quatro meses do encontro, a diferença nas posições federal e estadual levou as negociações a um impasse. O foco da disputa entre Estados e União é o mecanismo de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD). Se aprovado, ele permitirá aos países ricos repassarem recursos ao lado mais pobre em troca de programas para diminuir a emissão de gases que ajudam a aquecer a atmosfera. O dinheiro, investido em fundos, poderia ser usado para pagar diretamente às comunidades pela preservação da Amazônia. Com o desmatamento em queda, mesmo que elevado, e milhões de hectares de floresta em pé, o Brasil é o maior cliente potencial da proposta. E a Região Norte, beneficiária direta. Mas o governo federal não enxerga apenas benefícios. Há uma pressão dos ricos para que o mecanismo possa ser usado como troca: programas contra o desmatamento são financiados entre os pobres como maneira de cumprir suas metas de redução das emissões de gases, em vez de ações efetivas de controle de poluição e mudanças para energia mais limpa. A posição oficial do País é que o REDD só vale se não puder ser usado como forma de os ricos manterem suas emissões. "As propostas de metas apresentadas por eles são baixas. Se puderem compensar, vai comprometer os próximos 30 ou 40 anos", alerta Tasso Azevedo, consultor do Ministério do Meio Ambiente. Isso porque permitiria a países que investissem em REDD manter ou construir, por exemplo, novas termelétricas. Para o governador Binho Marques (AC), "não vale ficar nos velhos conceitos de soberania nacional". A proposta dos Estados é que o REDD seja aceito como compensação de emissões, desde que além das metas de redução própria acordadas em Copenhague. Na última reunião entre os Estados e o Itamaraty, os governadores ameaçaram ir a Copenhague defender suas posições independentemente do governo federal.

sábado, 15 de agosto de 2009

Audiência pública debate mudanças na Legislação Ambiental Brasileira

Compatibilizar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação do meio ambiente. Esse é o principal objetivo da política proposta pelo novo Código Ambiental Brasileiro – PL 5367/2009 - que será discutido em audiência pública no próximo em 14/08/2009, no Centro de Eventos Pantanal, em Cuiabá/MT, a partir das 9hs. De acordo com o vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), senador Gilberto Goellner (DEM/MT), o novo código faz uma renovação de conceitos, quebra paradigmas e estabelece leis mais eficazes e condizentes com a realidade nacional. Atualmente, as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e a Reserva Legal não podem ser alteradas em razão da conservação ambiental. Com a nova proposta, a APP poderá ser computada como parte da reserva legal. Segundo o parlamentar, não é possível imputar o ônus da preservação ambiental única e exclusivamente aos produtores rurais. Ele afirma que as políticas ambientais e indigenistas no Brasil estão completamente descoladas da política agrícola, o que leva à retirada anual de milhões de hectares do processo produtivo. Para ilustrar esse desequilíbrio, enquanto as agriculturas comerciais e familiares utilizam 282 milhões de hectares (33% do território nacional), 233 milhões de hectares (27% do território nacional) são destinados a unidades de conservação e reservas indígenas. A solução para o descompasso na repartição das terras passa pelo zoneamento econômico ecológico (ZEE), previsto no novo Código Ambiental como um dos objetivos da Política Nacional de Meio Ambiente. A missão seria ordenar o uso do território nacional harmonizando em bases técnicas e científicas as relações econômicas, sociais e ambientais, bem como nortear decisões de agentes públicos e privados sobre iniciativas que utilizem recursos naturais. O representante do estado de Mato Grosso também se mostrou preocupado com a proximidade do fim do prazo para que os produtores rurais averbem as reservas legais em suas propriedades. De acordo o Decreto 6.514, o prazo limite é 11 de dezembro de 2009 para que os produtores rurais prestem contas dessa providência ao Ministério Público.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Brasil é o maior exportador de "água virtual" para a Alemanha

Estudo do WWF afirma que o Brasil gasta 5,7 bilhões de m³ anuais de água na produção de mercadorias que serão consumidas na Alemanha, principalmente café, soja e carne A Alemanha consome por ano 159,5 bilhões de m³ de água, o equivalente a três vezes o volume do Lago de Constança. O número foi apresentado em 03/08/2009 pelo WWF, organização mundial ambientalista. Segundo o estudo, cada cidadão alemão consome em média 5.288 litros por dia do recurso natural, o que corresponde ao volume de 25 banheiras cheias. Para chegar a esse número, o estudo do WWF levou em consideração o consumo direto e também o indireto, como, por exemplo, a água usada no cultivo de alimentos e nos processos industriais. Segundo a organização, cada pessoa na Alemanha consome em média 124 litros de água por dia pelo uso direto, ao abrir a torneira. A quantidade de água consumida por uma pessoa, empresa ou país é o que os ambientalistas chamam de pegada aquática. Água virtual importada O estudo do WWF aponta que aproximadamente metade da água consumida pela Alemanha é importada, ou seja, foi utilizada em outros países no processo de produção de mercadorias compradas pela Alemanha. É o que a organização chama de água virtual. A agricultura é o setor que mais consome água: 117,6 km³, 73% do total anual. Mais da metade é importada: a maior parte da água virtual está nos produtos agrícolas importados do Brasil (5,7 bilhões m³, utilizados principalmente na produção de café, soja e carne), da Costa do Marfim (4,2 bilhões) e da França (3,5 bilhões). Só o consumo anual de café e cacau na Alemanha, por exemplo, requer 20 Km³ de água virtual. As carnes de vaca e de porco importadas também têm essa característica, além de sementes oleaginosas, como oliva, palma e algodão. Na segunda posição no ranking de consumo de água na Alemanha está a indústria, com 36,4 bilhões de m³/ano. O uso doméstico, que é de 5,5 bilhões de m³, vem em terceiro. "O consumo de água não é algo ruim, mas faz parte de uma atividade natural", explica Martin Geiger, do WWF. O ambientalista alerta, entretanto, que é preciso prestar atenção na quantidade e nas condições em que o recurso é retirado na natureza. Para o WWF, leis de responsabilidade sobre o uso da água deveriam ser criadas. Assim, cada país poderia verificar o quanto de água foi consumida nos produtos na hora de negociar a importação. Este recurso poderia, consequentemente, ajudar a Alemanha a reduzir a sua pegada aquática. Origem do conceito O conceito "água virtual" foi criado em 1990 pelo cientista inglês John Anthony Allan. O termo leva em consideração o volume de água utilizado, o quanto do recurso evapora ou fica poluído nos processos de produção. A confecção de um par de sapatos de couro, por exemplo, consome 8 mil litros de água. A produção de um hambúrguer, 2,4 mil litros. O cultivo de algodão suficiente para fabricar uma camiseta consome 4 mil litros do recurso. Cada quilograma de açúcar contém aproximadamente 1,5 mil litros de água virtual. O termo "pegada aquática" partiu do conceito água virtual e pode ser usado tanto para indivíduos como para empresas e países.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Desmate gera 2,5% das emissões globais de carbono

O desmatamento da Amazônia brasileira contribui com aproximadamente 2,5% das emissões globais de gases do efeito estufa (GEEs), responsáveis pelo aquecimento global, segundo um cálculo preliminar feito por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O volume de carbono emitido é enorme. Porém, proporcionalmente menor do que se imaginava, segundo o diretor do INPE, Gilberto Câmara. A estimativa inicial, diz ele, era de que o desmatamento na Amazônia brasileira respondia por 5% das emissões globais de GEEs (principalmente dióxido de carbono, ou CO2). O novo cálculo foi feito numa reunião com cientistas do instituto na sexta-feira, após uma consulta feita pela reportagem do "Grupo Estado". Câmara enfatiza que é uma estimativa preliminar, que ainda precisa ser refinada - mas que não deve desviar muito dessa ordem de grandeza. A conta foi feita com base na taxa de desmatamento de 2008, que foi de aproximadamente 13 mil Km². O diretor do INPE aproveita para questionar outra estimativa que vem sendo citada amplamente nos debates internacionais, de que o desmatamento acumulado no mundo produz 20% das emissões globais de GEEs. Esse número, segundo ele, é baseado em dados superestimados da Fundação das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que adota como média para o Brasil um desmatamento anual de 30 mil Km² - muito acima do real. Nos últimos 20 anos, segundo os dados do próprio INPE, a média anual de desmate na Amazônia brasileira foi de aproximadamente 18 mil Km². "Não há base científica confiável para esses 20%", disse Câmara. Ele acredita que uma estimativa mais realista seja em torno de 10%, conforme um trabalho publicado pelo World Resources Institute. O cálculo dos 20% é citado nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e tem servido de base para as negociações internacionais a respeito da contribuição do desmatamento (e dos países em desenvolvimento) para o aquecimento global. "O IPCC chancelou esse dado porque ninguém dos países em desenvolvimento se deu ao trabalho de ir atrás do número real", afirma Câmara - acrescentando que o INPE está empenhado em fazer esse cálculo. "Foi um dado que ninguém se interessou em contestar." Os novos números, segundo Câmara, não diminuem em nada a necessidade de estancar o desmatamento. Mas diminuem, sim, o efeito que essa redução pode ter sobre as mudanças climáticas na escala global. As implicações são grandes para a negociação do novo acordo climático que deverá ser fechado em dezembro, em Copenhague, na próxima Conferência das Partes (COP) da Convenção do Clima das Nações Unidas. "É muito conveniente para os países desenvolvidos que as emissões por desmatamento nos países em desenvolvimento sejam altas", avalia Câmara. "Quanto maior a nossa contribuição (para o aquecimento global), menor a deles." Três reuniões preparatórias ainda serão realizadas antes de Copenhague. A primeira começa amanhã (10) em Bonn, na Alemanha. Desmatamento evitado - Os novos cálculos apresentados por Câmara alteram também o cenário das discussões sobre Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD), que é um dos temas críticos na agenda do Brasil para Copenhague. O REDD é um mecanismo proposto que permitiria aos países desenvolvidos receber créditos de carbono pelo financiamento de projetos de conservação que reduzam o desmatamento nos países em desenvolvimento. O governo brasileiro aceita negociar o REDD como um mecanismo auxiliar de financiamento, mas não como um mecanismo compensatório. Ou seja: os países desenvolvidos poderiam financiar projetos de conservação e até obter créditos de carbono, mas não usar esses créditos para compensar suas próprias emissões. Na visão do Itamaraty e de representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia que participam das negociações, isso daria uma saída fácil para os países desenvolvidos cumprirem suas metas sem precisar reduzir substancialmente suas emissões por queima de combustíveis fósseis - que é o maior problema global. "Não adianta querer salvar o clima com florestas; não adianta mesmo", diz a diretora de Relações Internacionais do INPE, Thelma Krug, uma das principais representantes do Brasil na Convenção do Clima. "A floresta preserva estoques de carbono, mas não reduz emissões", diz o diplomata André Odenbreit, do Itamaraty. "Se dermos créditos de carbono para conservação aqui, alguém vai emitira mais em outro lugar. A conta simplesmente não fecha." Além disso, diz ele, se o Brasil exigir compensações para não desmatar suas florestas, outros países poderão exigir o mesmo para não explorar suas reservas de petróleo. Mudança de uso da terra Como o desmatamento produz emissões de gás carbônico para a atmosfera. Floresta Intacta – As florestas guardam enormes quantidades de carbono, que é um componente básico da matéria orgânica (biomassa). O carbono está embutido na vegetação. Desmatamento – Quando a vegetação é queimada, o carbono da biomassa é liberado para a atmosfera na forma de gás. Agropecuária – Se a área é convertida em pastos ou plantações, a vegetação não rebrota e o carbono não é reabsorvido. Reflorestamento – Se a floresta rebrota ou é replantada, o carbono é reabsorvido pela vegetação e transformado novamente em biomassa. A proposta REDD Hoje, pelas regras do protocolo de Kyoto, países em desenvolvimento podem obter créditos de carbono pelo reflorestamento de áreas já desmatadas, mas não pelo “desmatamento evitado” de áreas ainda com floresta nativa. Desmatamento Evitado - Pelo mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), países desenvolvidos que financiassem projetos de proteção florestal no Brasil poderiam obter créditos pelo carbono que deixou de ser emitido para a atmosfera.

domingo, 9 de agosto de 2009

A ''tragédia ambiental'' sob a ótica do paisagista

Burle Marx relata destruição após viagem à Amazônia. Após expedição à Amazônia, um paisagista denuncia "verdadeira tragédia ambiental" presenciada ao longo de 11 mil quilômetros de rodovia, tomado por sentimento de "frustração e impotência". Diante da "catástrofe" provocada pela "devastação imediatista", ele defende a criação de leis que possam, rapidamente, "deter o processo suicida de eliminação sumária de um patrimônio muito maior do que a nossa dívida externa, do que nosso pluripartidarismo, do que as eleições diretas para presidente, problemas importantes apenas enquanto houver um Brasil pelo qual ainda valha a pena lutar". A denúncia não foi feita nos últimos meses, mas continua atual. Foi escrita em 1983 por Roberto Burle Marx em uma carta para o jornalista Carlos Castello Branco, então colunista político do Jornal do Brasil. O chefe do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa, Eduardo Coelho, encontrou o documento durante a preparação de um inventário sobre Castello Branco e ficou surpreso com sua atualidade. É um texto absolutamente contemporâneo, que realça o vanguardismo de Burle Marx. Ele já estava preocupado com a questão da legislação ambiental. Vinte e seis anos depois, a discussão é a mesma. A carta foi publicada na coluna de 16 de dezembro de 1983, oito dias após ter sido enviada pelo correio. Ex-sócio-colaborador e um dos herdeiros de Burle Marx (1909-1994), o arquiteto e paisagista Haruyoshi Ono disse que ele foi "um dos primeiros a se insurgir contra o desmatamento e as queimadas na Amazônia. Não se falava nada na ocasião. Depois surgiram outras vozes, mas o problema ambiental se agravou. Burle Marx começa a carta contando que havia retornado de expedição à Amazônia e que se sentia "na obrigação de denunciar". O objetivo inicial era coletar plantas potencialmente utilizáveis em projetos de paisagismo. Mas a viagem teve outros resultados. "Parti do Rio já preparado para constatar a devastação imediatista, a cupidez com que nossos recursos naturais são vilipendiados. Entretanto, confesso que errei em minha avaliação. E, lamentavelmente, meu erro foi o de subdimensionar a extensão dessa catástrofe", escreveu. "Onde está o homem, está a destruição. Pretender retratar, com palavras, um desastre de tais proporções é tarefa impossível. Após essa viagem, vi confirmadas algumas afirmações e conceitos meus que, tendo sido publicados, foram taxados de românticos, de verborréia estéril e outras qualificações depreciativas. Entretanto, depreciar um conceito, criticando sua forma, sem contra-argumentos em relação ao conteúdo, é prática costumeira dos que, instalados em seus gabinetes refrigerados de Brasília, pretendem ditar as leis de intervenção na natureza, sem o menor conhecimento da realidade amazônica." Ele avalia que o mais grave era o fato de não serem ouvidos moradores e cientistas especializados no estudo do bioma. "Admitir uma legislação genérica para uma formação natural com uma infinidade de matizes e circunstâncias tão específicas é, no mínimo, ingênuo ou tendencioso", comentou. "Permitir aos donos da terra que derrubem a metade da floresta em sua propriedade, independentemente das potencialidades do solo, das condições topográficas, das possibilidades de escoamento da produção e de uma infinidade de outros aspectos nos levará irreversivelmente à perda do patrimônio." O paisagista afirma que incentivar a remoção da capa vegetal, baixando os impostos por considerar a eliminação da floresta como benfeitoria, é crime de lesa-pátria. Para ele, enquanto a discussão dos problemas estivesse restrita aos gabinetes, o País teria verdadeiros abortos sob a forma de leis inadequadas e mesmo ridículas, porque emanadas da vaidade, da ignorância e, o que é pior, da necessidade do faturamento político eficiente no angariar prestígio, porém gerando dispositivos legais estéreis como, por exemplo, a lei que proíbe a derrubada da castanheira do Pará. Burle Marx conta que seu propósito, ao fazer a denúncia, não era o de que frutificassem só as castanheiras, mas também leis nascidas do conhecimento real dos problemas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Chance de proposta funcionar é de apenas 25%; corte tem de ser maior

O objetivo proposto pelo G-8 para evitar os piores efeitos das mudanças climáticas - redução média de 50% para todos os países nas emissões de gases-estufa - está defasado. A intenção é tentar conter em até 2°C o aumento da temperatura do planeta em relação à era pré-industrial. Os dados mais novos, debatidos neste ano, mostram que o esforço tem de ser maior. A chance de se limitar a 2°C com o corte proposto é de 25%. É preciso reduzir ainda mais a quantidade de carbono lançada. "Se quisermos ter certeza de que vamos ter aquecimento de 2°C, o corte tem de ser de 80%", explica o climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Como a Terra já esquentou 0,8°C, a faixa de atuação é pequena. Para o especialista Luiz Gylvan Meira Filho, estabilizar a concentração de gases-estufa - e, portanto, a temperatura - exigiria um corte nas emissões de pelo menos 60% em relação aos índices de 1990. "Os países industrializados respondem por três quartos das emissões, então teriam um corte maior." Os gases-estufa são liberados pelas atividades humanas. A principal contribuição é do setor de energia, com a queima de combustíveis fósseis - carvão e petróleo, por exemplo -, que gera 6,4 bilhões de toneladas de carbono por ano. Nobre afirma que o custo calculado para evitar que as economias emergentes sigam o mesmo caminho das industrializadas é de US$ 130 bilhões a US$ 300 bilhões por ano, por 20 anos, pago pelos ricos aos pobres. O documento do G-8 não trouxe esse cálculo - o único valor que aparece são US$ 250 bilhões em créditos para fomentar exportações. "Os países do G-8 não definem valores a serem investidos em adaptação, transferência de tecnologia e no combate ao desmatamento nos países em desenvolvimento", diz o Greenpeace Brasil em nota.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

IBAMA faz 15 operações de combate ao desmatamento na Amazônia

O IBAMA realiza 15 grandes operações simultâneas na Amazônia para combater o desmatamento ilegal e atingir a meta do Plano Nacional de Mudanças Climáticas de reduzir a 9.200 quilômetros quadrados a área de floresta derrubada entre agosto de 2008 e julho de 2009. Mais da metade da fiscalização do IBAMA está na Amazônia, fiscais lotados em superintendências e escritórios de vários pontos do Brasil reforçam as equipes que trabalham dobrando hora até no sábado e domingo. Historicamente, o desmatamento aumenta no período de seca na região amazônica, entre junho e novembro, e as ações de fiscalização precisam ser intensificadas para evitar a destruição criminosa da floresta. As principais frentes de combate concentram-se em Mato Grosso, Rondônia, Pará e Maranhão. Os pontos mais dramáticos do desmatamento foram mapeados a partir do monitoramento utilizando imagens de satélites, de um intenso trabalho de inteligência e da análise do fluxo de madeira registrado pelo Documento de Origem Florestal – DOF ou pelo Sisflora, respectivamente sistemas do IBAMA e dos estados para controlar o transporte desse produto no país. No início de 2.009, as operações do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAM) em curso na região resultaram na aplicação de 1574 autos de infração, somando mais de R$ 1,4 bilhão em multas. Foram embargadas atividades em 298.381 hectares de áreas desmatadas ilegalmente, e apreendidos cerca de 150 mil metros cúbicos de madeira e nove mil metros de carvão. Além disso, a fiscalização apreendeu 208 caminhões, 39 tratores e embargou 66 serrarias, que deixaram de destruir a floresta e de explorar madeira ilegal. As operações estão sendo desenvolvidas em parceria com a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, as Polícias Militares, a Força Nacional de Segurança e o Exército Brasileiro. Em terras indígenas, as ações também contam com o apoio da FUNAI.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Mais espaço para os orgânicos em Curitiba

A capital paranaense tem ótimas opções para quem quer se alimentar de forma saudável busca no paladar. Poucas quadras separam dois dos restaurantes orgânicos mais conhecidos de Curitiba, o Green Life e o Chauá. Ficam na Carlos de Carvalho, uma simpática alameda que está ganhando fama pelos cafés, bares, lojas de decoração e bistrôs que abriga. O ponto de partida desse conjunto de lojinhas e restaurantes charmosos é o Green Life. Pioneiro na oferta de produtos orgânicos, o restaurante funciona no mesmo local há 17 anos. Subindo a rua, em outra esquina da mesma rua - na região da capital paranaense que ganhou a polêmica denominação de Batel Soho (referência ao Soho de Nova York), está o Chauá, inaugurado há dois anos. Além de oferecer produtos sem agrotóxicos ou aditivos químicos, as duas casas superaram o desafio de transformar uma alimentação saudável e orgânica em comida saborosa. E ganham cada vez mais adeptos por isso. Mas nem sempre foi assim, salienta Rafael Konzen, um dos proprietários do Green Life. Somente nos últimos cinco anos, os orgânicos têm conquistado mais espaço no mercado. É uma mudança de cultura. O mercado da gastronomia vem superando o preconceito de que comida naturista e orgânica é comida insossa. "Pelo contrário, quando você se acostuma, percebe o verdadeiro sabor dos alimentos e não troca mais pelos convencionais. Eu não consigo comer outro tipo de verdura que não seja orgânica. Parece um isopor", defende. Além de oferecer um cardápio variado no buffet - diariamente são 15 tipos de salada, 12 pratos quentes, além das sobremesas - o restaurante também oferece cursos de culinária ministrado pela chef Iglair Konzen. São pratos como estrogonofe de glúten ou assados de legumes orgânicos, preparados com ingredientes que variam de acordo com a época. A lasanha de espinafre com molho branco, feito com a verdura fresquinha (e orgânica) que utiliza massa integral preparada com farinha orgânica é um dos carros chefes da casa. O cardápio parece agradar. Diariamente são servidas 300 refeições por dia, além das marmitas que podem ser levadas e dos produtos que são comercializados no local, a maioria com produção própria. São frutas, verduras e legumes, além de uma variedade de produtos de panificação, produzidos pela família Konzen numa área de três alqueires na Colônia Faria, em Colombo, Região Metropolitana de Curitiba. A família mudou-se para lá na década de 80, já com a proposta de cultivar hortaliças de uma maneira diferenciada, o que significa preocupação com o ambiente e ausência de agrotóxicos. “No começo era mais difícil. Vendíamos de porta em porta numa época em que a cultura dos orgânicos não era valorizada”, conta Rafael Konzen, lembrando as dificuldades iniciais em competir com o mercado convencional. “É um produto mais difícil de produzir e, portanto, mais caro”, admite. Hoje, além de produzir para o próprio restaurante, a família ainda fornece verduras orgânicas para outras empresas. A questão do preço é algo que está sendo superado. As pessoas estão mais preocupadas com a saúde e querem consumir ingredientes isentos de produtos químicos, mesmo que tenham que pagar mais por isso. Para o engenheiro Rogério Chimionatu, essa mudança cultural foi também uma oportunidade de negócio. Há cinco anos, de olho na demanda do mercado, que registrava aumento crescente na procura por orgânicos, ele e o sócio Marcelo Suguimati decidiram abrir um restaurante voltado para esse tipo de alimentação. “Existia a demanda, mas não existia a oferta. Então abrimos o primeiro Chauá, no bairro Juvevê, focado apenas em alimentos orgânicos e oferecendo uma alimentação mais saudável”, conta. O nome do restaurante é uma referência a um dos nomes que o Papagaio da Cara-Roxa, ave típica do litoral paranaense, é chamada. Há dois, os sócios ampliaram os negócios e abriram o segundo restaurante, na Alameda Carlos de Carvalho. O Chauá também trabalha com buffet por quilo e oferece pelo menos 15 pratos de saladas e 15 pratos quentes por dia, mas também serve lanches, opções a la carte e vende produtos orgânicos comprados de produtores certificados. Um diferencial do restaurante é que ele está longe de ser considerado vegetariano. Também tem carnes, peixes e frango no cardápio cada vez mais diversificado. Vai um churrasquinho orgânico? Sim, você leu corretamente. Embora com pouco espaço no mercado, as carnes orgânicas são a estrela da vez. Podem custar até 40% mais caras do que as convencionais, mas ganha cada vez mais adeptos por aliar sabor e saúde. A carne bovina e caprina orgânica, assim como a de frango, é obtida com a criação de animais soltos, comendo ração vegetal ou pasto. Para se ter uma idéia da preocupação com os bichinhos, para serem abatidos, eles não podem ser transportados mais do que 100 quilômetros, pois podem emagrecer (o que significa perda de carne) e ficar estressados, o que também altera o sabor da carne. “Muita gente ainda se espanta com a carne orgânica, mas é um produto muito saboroso. É a carne com o sabor da carne, sem nenhum efeito externo”, opina o veterinário Luis Ary Radünz Gosch. Consumidor da carne orgânica desde criança, já que a família tinha fazenda e mantinha gados e caprinos, o veterinário decidiu montar um açougue especializado em carnes orgânicas. Abriu o Taurinos Organic no Mercado de Orgânicos de Curitiba, que inaugurou na cidade em fevereiro deste ano. O ambiente não podia ser mais propício para o negócio, ainda encarado como novidade para muita gente. “Noventa por cento dos clientes que entram no açougue não conhecem o processo de produção da carne orgânica. Por isso, treinamos todos os funcionários para que expliquem a origem da carne, os cortes e os benefícios do produto”, diz. E o veterinário dá a dica para quem quer preparar um delicioso churrasco de contra filé orgânico. Três quilos de contra-filé (que no Taurinos Organic pode ser encontrado a R$ 18, 40 o quilo) e sal grosso. “Para realçar o sabor da carne, o tempero deve ser apenas sal e nada mais”, ensina. A dica é substituir o carvão pela lenha de eucalipto. “Fogo alto para quem gosta da carne mal passada e fogo baixo para quem gosta mais ao ponto”. Depois é só saborear. Sem culpa. Espaço reservado Inaugurado há cinco meses, o Mercado Municipal de Orgânicos de Curitiba é o primeiro mercado do gênero no país. Fica ao lado do Mercado Municipal, numa área com 3,7 mil metros quadrados. Reúne 22 lojas de produtos orgânicos que oferecem, juntas, mais de 1 mil produtos com selo de certificação que garantem que são livres de agrotóxico e aditivos químicos. Um espaço para atender tanto o consumidor, que pode encontrar num mesmo local uma variedade de produtos orgânicos, até o produtor, já que de acordo com o Instituto Paranaense de Assistência Técnica em Extensão Rural (EMATER-PR), a produção de produtos orgânicos está crescendo cerca de 2.000% ao ano no estado. Mercado Municipal de Orgânicos. R. da Paz, S/N, ao lado do Mercado Municipal Restaurante Green Life. Alameda Dr. Carlos de Carvalho, 271, (41) 3223-8490 Restaurante Chauá. Alameda Dr. Carlos de Carvalho 1120, (41) 3015-3020

sábado, 1 de agosto de 2009

Garimpeiros verdes

A oferta é insuficiente e é preciso garimpar com fornecedores. Fora de época, os produtos somem das prateleiras. Devagar, porém, folhas, legumes, vegetais, carnes e aves orgânicos ganham espaço entre chefs, cobrados por clientes exigentes. Para aproveitar melhor os orgânicos, os chefs privilegiam pratos em que eles são as estrelas. - No início, orgânico era uma palavra que sujeitos bem alternativos sussurravam enquanto negociavam minguados pés de alface e talos de bardana, plantados por eles mesmos, com cuidados ecológicos e servidos em restaurantes naturebas. Ninguém acreditava que na era do gigantismo dos supermercados e do abastecimento em escala fosse possível pensar em cultivar alimentos sem fertilizantes químicos, ou criar rebanhos sem antibióticos. Mas isso aconteceu. Pelo mundo todo, feiras, lojas, supermercados e restaurantes oferecem os mais variados ingredientes produzidos com métodos naturais e respeito ao meio ambiente. A Bio Brazil Fair, que começa hoje e vai até domingo, no prédio da Bienal, no Ibirapuera, em São Paulo, comprova o crescimento no País do setor, que já vai muito além dos alimentos. No exterior, os orgânicos já entraram com força também na alta gastronomia. No Brasil, o movimento ainda está tomando forma nos restaurantes. E um dos principais problemas é a irregularidade do abastecimento. Ou seja, os chefs que se dispõem a usá-los têm receio de ficar com a geladeira vazia. José Barattino, do Emiliano, só usa tomates orgânicos em sua vellutata, a sopa fria vencedora do Prêmio Paladar 2008 como a melhor entrada. "O sabor é muito melhor, não há comparação", explica o chef. Mas, devido à falta de fornecedores regulares, os orgânicos ainda são minoria no cardápio. E mesmo os poucos que chegam precisam ser usados com moderação. "O tomate orgânico só supre metade da demanda e por isso é reservado apenas para os pratos em que ele é a atração principal." Para aumentar a oferta, o chef está firmando uma parceria com uma cooperativa orgânica. Paola Carosella, do Arturito, recebe regularmente algumas folhas, frutas e condimentos orgânicos. Bel Coelho colocou carne bovina, suína, frango, ovos, brotos, legumes e frutas no menu de seu novo Dui. Outro adepto é o francês Laurent Hervé, do Eau. Steak tartare, risoto, sopa, filé grelhado e legumes ali são biologiques. Alex Atala e Alain Poletto preparam na rôtissoire do Dalva e Dito frango orgânico da marca Korin. A dona do Julia Gastronomia, Anayde Lima, se desdobra em busca de fornecedores. Viaja, visita, telefona, vai às feiras e mercados e, com isso, apesar de ter poucos itens certificados, seu cardápio é um dos mais "orgânicos" da cidade. A semana de Anayde começa sábado, quando visita a feirinha orgânica da Água Branca, de onde sai com a base da "sugestão do dia" do menu do Julia. A restauratrice ainda recorre a uma lista de fornecedores e aos supermercados Casa Santa Luzia e Empório Santa Maria em busca de reforços para o menu. De suas incursões ao interior à procura de novos fornecedores saem os produtos de exceção - que permanecem no cardápio, seja em um prato ou sobremesa, até o término do suprimento. Numa viagem à comunidade quilombola do Vale do Ribeira encontrou bananas e mandioca, sem certificado, mas produzidos segundo critérios orgânicos, ou seja, sem pesticidas e fertilizantes químicos. E assim, Anayde se destaca como uma garimpeira verde. PIONEIROS Os primeiros restaurantes de São Paulo a adotar orgânicos foram vegetarianos como Fulô (95% - 3081-7769) e Galleria Orgânica (100% - 3804-8365). Lojas e mercados naturais com restaurantes, como os clássicos Alternativa (3816-0706) e Moinho de Pedra (5181-0581), também vendem orgânicos há vários anos. O Le Manjue Bistrô, na Vila Madalena (3034-0631), deve ser o primeiro restaurante da cidade com certificado de 100% orgânico. Não é vegetariano e tem forte sotaque natureba. Infelizmente, sua cozinha ainda não se acertou. BIO BRAZIL FAIR Começa hoje a 5.ª edição da feira que conta com 150 expositores de produtos orgânicos e agroecologia. Todos os produtos, não apenas os alimentos, que estarão expostos ali de hoje até domingo são cultivados ou elaborados de acordo com os fundamentos do plantio sustentável e sem aditivos químicos.