quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Os idosos serão ⅓ da população brasileira em 2060

A estrutura etária da população brasileira vai virar de ponta-cabeça em 50 anos. Em 2010, os jovens de 0 a 19 anos eram 67 milhões de pessoas e representavam 34,3% da população brasileira. Os idosos – de 60 anos e mais – eram 20 milhões de pessoas e representavam apenas 10% da população total brasileira, segundo as projeções do IBGE (revisão 2013). Em meio século a reviravolta será incrível.
Em 2060, os jovens de 0 a 19 anos serão apenas 39 milhões de pessoas, devendo representar 17,8% da população brasileira. Os idosos serão 74 milhões de pessoas e representarão 33,7% da população total brasileira. Em 2010 havia 3,4 jovens para cada idoso. Em 2060, os idosos terão um volume duas vezes maior do que o montante de jovens.
Evidentemente, esta mudança demográfica vai ter um grande impacto na previdência social. Atualmente o gasto previdenciário do setor privado é de 7% do Produto Interno Bruto (PIB), e o do setor público, de 4,3% do PIB. Há também o benefício não contributivo para idosos, de 0,7% do PIB. O gasto total somado representa 12% do PIB. Proporcionalmente, as despesas previdenciárias no Brasil é maior do que em outros países.
Se o ritmo atual for mantido, o gasto previdenciário atingirá a proporção de um terço do PIB brasileiro em 2060. Mas a quantidade de pessoas em idade ativa, de 20 a 59 anos, vai passar de 55,6% da população total em 2010 para 48,4% em 2060. Desta forma, a razão entre adultos de 20-59 anos e idosos de 60 anos e mais vai cair de 5,5 em 2010, para 1,4 pessoas em idade produtiva para cada idoso, em 2060.
Sem uma profunda reforma será impossível manter o atual sistema de repartição simples que fundamenta o sistema de previdência social no Brasil. No atual modelo, a previdência é um pacto de solidariedade entre gerações e só funciona se o número de empregados representar uma proporção adequada ao número de aposentados e pensionistas. É inviável garantir os direitos previdenciários sem garantir o direito ao pleno emprego e ao trabalho decente.
Mas no Brasil há muitas pessoas em idade de trabalhar que não contribuem com a previdência (pois estão no setor informal, no meio rural, possuem alguma deficiência, etc.). A idade média de aposentadoria é muito jovem, o que agrava o desequilíbrio demográfico entre os contribuintes e beneficiários. O Brasil é um dos poucos lugares do mundo que não possui idade mínima para a aposentadoria. No caso das mulheres a idade média de saída da força de trabalho é muito baixa e elas possuem esperança de vida muito superior.
Infelizmente, os seguidos governos brasileiros têm adiado e procrastinado a solução deste grave problema social. O rombo das aposentadorias é enorme e inclui os déficits do INSS (que cobre o custo de aposentadorias e pensões dos trabalhadores do setor privado), a previdência dos servidores do setor público federal, os déficits dos servidores estaduais e o custo do saneamento dos fundos de pensão de estatais, vítimas de erros de gestão e desvios. A conta é gigantesca e é agravada pela mais longa e mais profunda recessão da história brasileira.
As pessoas que dizem que não há déficit na previdência argumentam que a Constituição garante várias receitas de taxas e impostos à seguridade social e reclamam que estes recursos estão sendo usados em outras despesas governamentais. Porém, o Brasil tem um grande déficit público global e se deslocar receitas para a previdência vai simplesmente aumentar o déficit em outro lugar.
O fato é que o Brasil já investe muito na previdência, cerca de 12% do PIB. Se esta conta subir para 20%, 25% ou 33% do PIB vai gerar lacunas em outras políticas sociais e na formação de capital fixo. Traria também um sério conflito intergeracional, pois as novas gerações não teriam os mesmos direitos das gerações idosas (como já não estão tendo atualmente). Seria uma situação inédita.
Se a questão previdenciária não for equacionada adequadamente antes do completo envelhecimento da população brasileira, o Brasil vai ficar numa situação muito difícil e não terá como manter taxas de investimento suficientes para viabilizar qualquer tipo de desenvolvimento social do país. (ecodebate)

Bônus demográfico e o envelhecimento no Brasil

Toda crise recessiva é ruim para o bem-estar humano. Mas a atual crise econômica e política do Brasil vieram, particularmente, em má hora, pois o país vive o seu melhor momento demográfico e precisava de políticas públicas corretas e adequadas para aproveitar o bônus demográfico.
No passado, todos os países tinham altas taxas de mortalidade e natalidade. Consequentemente possuíam uma estrutura etária rejuvenescida. Mas, com o processo de desenvolvimento e a melhoria das condições de vida e saúde, teve início a transição demográfica, que é o processo de redução da taxa bruta de mortalidade e natalidade.
A transição demográfica só acontece uma vez na história de cada país e é um fenômeno fundamental para a decolagem do padrão de vida e para o aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Toda nação de alta renda e alto IDH, sem exceção, passou pela transição demográfica.
Portanto, um dos principais segredos da riqueza das nações está na transição demográfica que, inescapavelmente, gera um bônus demográfico que, se bem aproveitado, pode turbinar o desenvolvimento econômico e garantir alto nível de progresso humano. O efeito puramente demográfico do bônus acontece devido à mudança na estrutura etária da população. Historicamente, o bônus também só acontece uma vez e é um fenômeno temporário.
As transformações demográficas podem ser vistas nas pirâmides populacionais do Brasil. Na pirâmide etária (homens no lado esquerdo e mulheres no lado direito) de 1970, o grupo de 0 a 14 anos representava 42,3% da população total e o grupo de idoso (considerando aqui como 65 anos e mais) representava somente 3,7%. Já a população em idade ativa (PIA) abarcava 54% da população total. Quanto o Brasil foi tricampeão do mundo, tinha uma estrutura etária muito jovem, segundo os dados da Divisão de População da ONU.
Mas, nos anos e décadas seguintes, a estrutura foi envelhecendo, isto é, a base da pirâmide foi se estreitando e os grupos etários superiores foram se alargando. Na pirâmide de 2010, a proporção do grupo de 0 a 14 anos caiu para 25,5% da população total e o grupo de idoso aumentou ligeiramente para 6,9%. O grande aumento aconteceu entre a população em idade ativa (PIA), de 15 a 64 anos, que passou para 67,6% da população total. Ou seja, cresceu a parte da população em idade potencialmente ativa e diminuiu a parte considerada inativa (ou ativa em menor proporção).
Em artigos anteriores já mostrei que o Brasil conseguiu aproveitar grande parte do seu bônus demográfico entre 1970 e 2010, pois, nesse período, houve acelerado crescimento da população economicamente ativa (PEA) e melhorias na qualidade do emprego (maior formalização), na educação, na saúde, na proteção social e na redução da pobreza.
Todavia, para o Brasil dar o saldo de país de renda média para alta renda precisaria aproveitar o restante do bônus que vai até 2030. A razão de dependência demográfica vai estar em seu nível mais baixo no quinquênio 2020-25, quando a proporção da PIA deve ficar em torno de 70% da população total.
A pirâmide etária de 2030 vai ter a mesma proporção da PIA ocorrida em 2010. A diferença entre as duas pirâmides é que a parcela de jovens diminuiu e a parcela de idosos aumentou, vinte anos depois. Portanto, a parcela da população potencialmente ativa estará nos níveis mais elevados de toda a história do Brasil entre os anos de 2010 e 2030. Esse é o auge do bônus demográfico no país.
Mas para que o bônus se transforme em melhoria da qualidade de vida é preciso haver aumento das taxas de matrícula e melhoria na qualidade da educação, redução das taxas de mortalidade e morbidade e a inserção de uma força de trabalho mais eficiente e produtiva num quadro de pleno emprego.
Isto teria de ocorrer, sem tergiversação e sem procrastinação, até 2030, pois depois desta data a estrutura etária sairá de uma situação de bônus para ônus, com o aumento da razão de dependência e a elevação da proporção de idosos. A pirâmide etária de 2060 mostra que a PIA vai voltar para a casa de 59% e a proporção de idosos com 65 anos e mais vai ultrapassar 26%.
A gravidade da crise econômica e política atual é que ela está jogando fora a última chance de o Brasil dar o salto de país de renda média para renda alta. A atual recessão está reduzindo o número de trabalhadores do país, aumentando o contingente de desempregados e frustrando uma enorme quantidade de jovens que investiram tempo e dinheiro em maiores taxas de escolaridade e agora temem fazer parte de uma geração perdida.
O desemprego aberto no território nacional ultrapassou o significativo número de 10,3 milhões de indivíduos em fevereiro de 2016, segundo a PNADc do IBGE. Além disto, existem as pessoas que nem trabalham, nem estudam e nem procuram trabalho (é a chamada “geração nem-nem-nem”). Quanto mais pessoas fora da PEA, menor é a qualidade de vida das famílias e da sociedade.
O Brasil não terá um futuro brilhante se o mercado de trabalho não incorporar os jovens e adultos que se qualificaram para fazer parte da estrutura produtiva, no sentido de contribuir com o progresso da nação. E sem o suporte da PIA, os idosos não terão como sustentar suas aposentadorias, pensões e benefícios de proteção social. Os direitos das pessoas no topo da pirâmide dependem da efetivação do direito ao trabalho das gerações que compõem a PIA. Não existe milagre que garanta a sustentabilidade do topo da pirâmide, cada vez mais alargado, quando o meio da estrutura se estreita por conta da redução do número de trabalhadores efetivos.
Os idosos só manterão um padrão de vida sustentável se as gerações mais jovens estiverem plenamente engajadas na escola e no trabalho. A pirâmide populacional é uma estrutura integrada, pois os grupos etários são interdependentes. Ou se estabelece uma solidariedade orgânica intergeracional, ou a arquitetura pode apresentar rachaduras e, sem reformas, pode colapsar. (ecodebate)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Calor abre 8.000 lagos na Antártida

Formação de milhares de novos lagos na Antártida preocupam cientistas.
Aquecimento global abre 8 mil lagos na Antártida.
O evento sem precedentes chama atenção, já que pode minar a estabilidade da maior massa de gelo na Terra.
Aquecimento global abre 8 mil lagos na Antártida e preocupa cientistas.
Os cientistas acabam de descobrir que milhares de novos lagos estão aparecendo na superfície das geleiras da Antártida durante as últimas décadas. O evento sem precedentes chama atenção, já que pode minar a estabilidade da maior massa de gelo na Terra.
Os pesquisadores britânicos da Universidade de Durham analisaram centenas de imagens de satélite e dados de observações meteorológicas da geleira Langhovde, localizada na costa da Terra da Rainha Maud.
A pesquisa revelou que, entre os anos 2000 e 2013, apareceram na região cerca de 8 mil novos lagos, originados devido ao derretimento do gelo. Os resultados da pesquisa realizada foram publicados no jornal científico Geophysical Research Letters.
Os cientistas suspeitam que a água de alguns destes lagos poderia ter se infiltrado na geleira e possivelmente a tornado mais frágil, aumentando a possibilidade da sua ruptura ou até destruição.
Inicialmente, o mundo científico acreditava que a parte leste da Antártida não era afetada pelo aquecimento global, mas atualmente este local está chamando atenção e poderá mudar as concepções anteriores. Tais derretimentos de gelo entre 2011 e 2014 levaram ao degelo de 1 trilhões de toneladas métricas de geleiras na Groenlândia.
No verão, as temperaturas do ar aumentam e no topo da camada de gelo se formam lagos que podem desaparecer, ou seja, se dissolver no oceano. Essa injeção de água fresca e muito fria na água salgada pode criar um fluxo subaquático tipo tornado, provocando a destruição de novas geleiras. (ecodebate)

Relação entre eventos climáticos extremos e aquecimento global

Entenda a relação de eventos climáticos extremos e aquecimento global
Tem se tornado cada vez mais comuns manifestações climáticas extremas, como longos períodos de seca, ondas de calor, inundações, vendavais e tempestades.
Muitos desses eventos estão relacionados ao aquecimento global.
A afirmação é do especialista em Gestão Ambiental da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Reinaldo Dias.
Nesta entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional AM, ele explica que a infraestrutura urbana das cidades não está preparada para as grandes mudanças climáticas: “O escoamento das águas fluviais das cidades são infraestrutura para padrões de chuvas do passado. Só que os padrões de chuvas pós-situação de mudanças climáticas, são eventos violentos, diminui a intensidade de tempo, e são muito mais radicais”.

sábado, 27 de agosto de 2016

NASA diz que julho foi o mês mais quente a mais de 100 anos

NASA diz que julho/16 foi o mês mais quente dos últimos 136 anos.
Uma análise mensal das temperaturas globais feita por cientistas da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, mostrou que julho de 2016 foi o mês mais quente desde 1880. Este ano pode ser o mais quente da história.
“Não foi por uma margem larga, mas julho de 2016 foi o mês mais quente desde que os registros começaram a ser feitos em 1880”, disse Gavin Schmidt, diretor do Goddard Institute for Space Studies (Giss), da NASA. “Parece quase uma certeza que 2016 também será o ano mais quente da história”, afirmou o diretor em comunicado divulgado pela agência espacial.
De acordo com a NASA, o registro da temperatura global moderna começa por volta de 1880 porque as observações anteriores não cobriam suficientemente o planeta terra.
A análise feita mensalmente pela equipe do Giss é realizada a partir de dados adquiridos por cerca de 6.300 estações meteorológicas em todo o mundo, instrumentos navais e boias de medição da temperatura da superfície do mar e estações de pesquisa da Antártida.
Os números, divulgados pela NASA, acompanham uma tendência de máximas mensais registradas pelo décimo mês consecutivo, desde outubro de 2015. “Em comparação com anos anteriores, as temperaturas globais mais quentes no mês passado foram mais pronunciadas no hemisfério norte, especialmente perto da região do Ártico”, disse o comunicado.
Calor leva milhares de pessoas às praias. NASA diz que julho/2016 foi o mês mais quente dos últimos 136 anos.
Portugal
Em Portugal, julho deste ano já havia sido registrado como o segundo mês mais quente desde 1931, segundo dados do Boletim Climatológico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. O valor médio da temperatura máxima do ar no mês passado foi de 32,19 C°.
Ainda em julho, as temperaturas máximas e mínimas estiveram muito superiores ao normal. De acordo com o instituto português, os valores médios da temperatura do ar só foram maiores em 1989, ficando em 24,33 C° (em julho de 1989 foi de 24,63 C°), mais de dois graus acima do valor médio do período entre 1971 e 2000. (ecodebate)

10 ilhas que podem desaparecer

Elas vão sumir!!!
Veja ilhas em risco pelo aquecimento global.
Elevação do nível do mar e aumento da temperatura ameaça afundar nações inteiras.
Confira a lista:
1 - A Antártica perde 100 km3; de gelo por ano desde 2002, o que afeta dezenas de ilhas no continente. Até 2100, o IPCC acredita em uma elevação de 50 centímetros do nível do mar.
2 - A maior área da República de Kiribati, ilha no Pacífico, está a apenas três metros acima do nível do mar. Autoridades estudam regiões do entorno para mover a população.
3 - A parte mais alta da República das Maldivas está a apenas 2,4 metros acima do nível do mar. O arquipélago tem risco de desaparecer do mapa e deixar mais de 400 mil pessoas sem lar.
4 - Fiji é uma ilha no Pacífico com montanhas de mais de 1.200 metros de altura. A ilha, porém, deve enfrentar problemas com mudanças climáticas e doenças transmitidas pela água.
5 - O nível do mar ao redor das ilhas da República de Palau subiu entre duas e três vezes mais do que em outras partes do mundo. Um comitê foi criado para tratar a situação de risco nas ilhas.
6 - A Micronésia tem mais de 600 ilhas ameaçadas pelo aumento do nível do mar. As ondas já atingem coqueiros nas praias e o nível do oceano deve subir quase um metro nos próximos 90 anos.
7 - A situação da República do Cabo Verde, arquipélago na África, é alarmante e foi tema de discussão em um painel sobre gases de efeito estufa em Nova York. As 10 ilhas podem desaparecer.
8 - Parte de Ilhas Salomão já foi encoberta pelo mar. Cinco ilhas sumiram e seis perderam 20% do território. O nível do oceano sobe sete milímetros por ano na região.
9 - A ilha Tangier já perdeu dois terços de território devido a consequências do aquecimento global. Especialistas estimam que moradores devem deixar a o local em até 50 anos.
10 - Veneza afunda cerca de dois milímetros por ano. Em uma década, mais de dois centímetros estarão sob o mar. A elevação do nível do oceano é uma ameaça para o arquipélago. (yahoo)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Degelo pode expor resíduos tóxicos

Degelo pode liberar resíduos tóxicos da Guerra Fria.
Groenlândia abrigava base secreta que poderia lançar mísseis contra União Soviética.
Resíduos tóxicos da Guerra Fria podem ser liberados com derretimento de gelo na Groenlândia.
Este pode até parecer um enredo digno de filme de ficção científica, mas faz parte da nossa realidade atual. Pesquisadores alertam que o lixo tóxico abandonado há décadas em um acampamento da época da Guerra Fria pode chegar a ecossistemas próximos como resultado do aumento das temperaturas na Groenlândia.
A entrada nordeste do Acampamento Century durante sua construção em 1959.
Acreditava-se que os resíduos perigosos ficariam enterrados e congelados sob o manto de gelo da Groenlândia, mas as mudanças climáticas estão aquecendo o Ártico e fazendo com que porções desta camada derretam, conforme pesquisadores relataram em um novo estudo.
“No passado, os militares, a indústria e até os cientistas não se preocupavam muito com os efeitos em longo prazo de suas atividades, incluindo resíduos perigosos deixados para trás,” disse ao Live Science por e-mail, Laurence Smith, professor do Departamento de Geografia da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e autor de ‘The World in 2050: Four Forces Shaping Civilization’s Northern Future’ ('O mundo em 2050: quatro forças moldando o futuro do norte da população,’) . “Esta atitude está mudando, mas ainda não foi erradicada, e o estudo mostra como as atividades do passado ainda estão conosco.”
De acordo com o novo estudo, os resíduos do acampamento existente na época da Guerra Fria, conhecido como Acampamento Century, cobrem 0,55 Km2, aproximadamente o tamanho de 100 campos de futebol. Isso inclui aproximadamente 200 mil litros de diesel, materiais de construção, e 240 mil litros de águas residuais, contendo uma grande quantidade de esgoto.
“Ficou muito claro que nenhum destes locais havia sido desativado da maneira apropriada,” disse o autor líder do estudo William Colgan, professor no Departamento de Ciências da Terra e do Espaço e Engenharia na Universidade York em Toronto, no Canadá. A base deve também conter uma pequena quantidade de lixo nuclear, mas Colgan explica que este fato não é tão preocupante quanto alguns dos outros materiais tóxicos presentes.
O mais preocupante talvez seja o fato de que o local contém bifenilos policlorados (PCBs), produtos químicos que, segundo os pesquisadores, eram amplamente usados em estruturas e equipamentos elétricos. Em estudos realizados com animais, estes produtos químicos se mostraram prejudiciais para o sistema imunológico, sistema reprodutor, sistema nervoso e sistema endócrino, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). É provável que efeitos similares ocorram também em seres humanos, e os PCBs podem aumentar o risco de desenvolver diversos problemas de saúde, incluindo o câncer, de acordo com estudos da EPA.
Colgan e seus colegas alertam que, se as alterações climáticas causadas pelos humanos continuarem no ritmo atual, o gelo cobrindo o local pode começar a derreter em cerca de 75 anos. Demoraria muito mais tempo até que a base em si se tornasse exposta, mas os pesquisadores afirmam que enquanto isso a água derretida pode se mover pelo gelo, saturando estruturas e carregando resíduos tóxicos até a costa.
História da Guerra Fria
O novo estudo detalha a história do Acampamento Century, uma base militar do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos que foi construída no manto de gelo da Groenlândia em 1959. A base, localizada a 200 Km da costa noroeste da Groenlândia, foi chamada de “cidade sob o gelo”, pois toda a infraestrutura foi enterrada sob mais de oito metros de gelo para garantir sua proteção e camuflagem. De acordo com os pesquisadores o Acampamento Century abrigava até 200 soldados e obtinha energia através de um reator nuclear portátil, que segundo Colgan foi removido durante a desativação.
A área, embora desolada, era estratégica, pois o Ártico oferecia a rota mais curta entre os Estados Unidos e a União Soviética. O Acampamento Century foi um dos muitos acampamentos construídos sob um acordo com a Dinamarca com o objetivo de defender a Groenlândia.
Oficialmente o acampamento foi usado para conduzir pesquisas científicas e testar estratégias de construção no Ártico. No entanto, extraoficialmente ele era uma prova secreta do conceito de construir bases de lançamento de mísseis nucleares no gelo. Este programa era conhecido como “Project Iceworm” (minhoca de gelo), pois envolvia a escavação de um túnel de 4 mil quilômetros pelo gelo, a partir do qual até 600 mísseis poderiam ser lançados. O túnel nunca chegou a ser construído, mas algo semelhante a um protótipo foi criado na forma de uma ferrovia subterrânea de 1,6 Km, de acordo com os pesquisadores.
O projeto não foi aprovado pelo governo dinamarquês e acabou sendo rejeitado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em 1963. O Acampamento Century foi desativado em 1967.
Efeitos ambientais
A possibilidade de que estes químicos possam vazar da base abandonada é agravada por outro problema: Segundo Colgan, o Ártico já está lidando com uma carga desproporcional de PCBs devido a um fenômeno chamado “efeito gafanhoto.” Isso ocorre quando os poluentes são liberados e evaporam em áreas quentes, mas são carregados pelos ventos para regiões frias do planeta.
Embora a área ao redor do Acampamento Century seja isolada, o ambiente da Groenlândia e as pessoas que dependem dele para viver podem sofrer sérias consequências, diz Colgan.
“O ecossistema da Groenlândia — o ecossistema do Ártico, em geral — é bem frágil,” explica Colgan. “Ele está somente se mantendo vivo.” Embora a população humana seja relativamente pequena, há pessoas na Groenlândia e em áreas próximas do Ártico que caçam para obter comida, o que significa que elas podem ser expostas a estes produtos químicos através de fontes de alimento cruciais para o seu estilo de vida, ele acrescentou.
De acordo com os cientistas, o Acampamento Century é uma lição a respeito das alterações climáticas que por décadas foi amplamente ignorada. Embora somente agora os problemas da base estejam sendo examinados detalhadamente, o local já era conhecido como fonte de preocupação para cientistas climáticos. Na verdade, ele foi o primeiro lugar onde, em 1966, uma amostra de núcleo de gelo foi retirada da Groenlândia, para monitorar os efeitos das mudanças climáticas, diz Colgan.
“Este estudo chama a atenção para um problema crônico no Ártico,” disse Smith. “O Ártico é uma região fascinante onde ocorrem rápidas mudanças climáticas, e a sensibilidade ambiental e geopolítica convergem.” (yahoo)

Julho/16 foi o mês mais quente

Julho foi o mês mais quente já registrado, segundo a NASA.
Este o mais quente desde o início dos registros que começaram em 1880; cientistas dizem que futuro do planeta é preocupante.
Dados divulgados em 15/08/16 pela Agência Espacial Americana (Nasa) revelam que o mês de julho passado atingiu alta recorde de temperatura.
Mesmo após o enfraquecimento do fenômeno “El Niño”, que eleva as temperaturas globais em conjunto com as mudanças climáticas, o mês de julho de 2016 foi 0,84ºC mais quente do que a média registrada entre 1950 e 1980, e 0,11ºC acima dos meses de julho mais quentes até então registrados, em 2011 e 2015.
O diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da NASA, Gavin Schmidt, divulgou através do Twitter um gráfico com o aumento da temperatura em julho de 2016, afirmando ser este o mais quente desde o início dos registros.
Os cientistas atribuem a alta das temperaturas principalmente às mudanças climáticas provocadas pela queima de combustíveis fósseis, além de uma intensificação do El Niño, que, com intervalo de alguns anos, provoca um aquecimento natural em regiões do Oceano Pacífico, modificando as temperaturas em todo o mundo.
Crianças aproveitam temperaturas quentes em praia de Marselha, no sul da França, em foto de 20/07/2016.
Segundo a NASA, este é o décimo mês mais quente registrado em sequência. “O mais assustador é que entramos numa era onde será surpreendente quando cada novo mês de um ano não for o mais quente já registrado”, observa Chris Field, cientista do clima da Universidade de Stanford e do Instituto Carnegie.
Gavin Schmidt diz que o novo recorde, juntamente com todos os outros que foram quebrados recentemente, contam uma mesma história: “O planeta está aquecendo. Isso é importante pelo que nos diz em relação ao futuro”, afirmou. Os registros da temperatura global foram iniciados em 1880. (yahoo)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Pegada ecológica no mundo, Canadá e Índia: o que fazer?

“O lema do debate sobre população e desenvolvimento no século XXI deveria ser: menos gente, menos consumo, menor desigualdade social e maior qualidade de vida humana e ambiental” - Alves, 20/07/2016.
O Canadá e a Índia são dois grandes países, com ampla disponibilidade de recursos naturais, e uma biocapacidade total de aproximadamente 560 milhões de hectares globais. Porém, o Canadá possui superávit ambiental e a Índia possui déficit ambiental.
Vamos recordar os conceitos da Global Footprint Network. A Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais, permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta. A biocapacidade é a área que um país tem para satisfazer as necessidades de consumo e assimilação dos resíduos dos seus habitantes, correspondendo à capacidade de geração e regeneração dos serviços ecossistêmicos.
A população mundial tinha uma Pegada Ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) em 2012. A Pegada do Canadá era de 8,2 gha e a da Índia era de 1,2 gha. Assim, a maior Pegada Ecológica do Canadá reflete o maior padrão de consumo do país. Os canadenses, em média, consumiam quase 7 vezes mais do que os indianos, em 2012. Se o padrão de consumo fosse o único problema a situação ecológica do Canadá seria muito pior do que a da Índia.
Porém, a Pegada per capita é só parte do problema. Para se calcular a Pegada Ecológica total é preciso multiplicar a Pegada per capita pela população. Fazendo estas contas achamos que a Pegada total da população canadense (de 35 milhões de habitantes) era de 284 milhões de gha. Como a biocapacidade era de 560 milhões de gha, então o Canadá apresentou superávit ambiental. A biocapacidade era o dobro da Pegada Ecológica total.
A Pegada Ecológica total da Índia (população de 1,237 bilhão de habitantes) era de 1,435 bilhão de gha. Como a biocapacidade era de 560 milhões de gha, então a Índia apresentou grande déficit ambiental. A Pegada Ecológica total da índia era mais do dobro da biocapacidade total e o déficit ambiental está crescendo e tende a aumentar ainda mais com o crescimento demoeconômico do país, que inclusive vai passar a China como a nação mais populosa do mundo a partir de 2025.
O que estes números mostram é que o alto padrão de consumo não gera déficit ambiental se o volume da população é pequeno em relação à biocapacidade. E um padrão de consumo baixo, como na Índia, pode levar ao déficit ambiental se a população for muito grande em relação à biocapacidade.
Nos últimos 45 anos a Pegada Ecológica mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta. Desde o início dos anos 1970, o déficit ambiental vem subindo constantemente. Em 2012, o mundo tinha uma população 7,1 bilhões de pessoas, com uma pegada ecológica per capita de 2,84 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 1,73 gha, como mostra o gráfico abaixo.
O mundo tinha em 2012 uma biocapacidade total de 12,2 bilhões de hectares globais, mas tinha uma pegada ecológica de 20,1 bilhões de hectares globais. Portanto, a pegada ecológica ultrapassava a biocapacidade em 64%. Ou dito de outra maneira, o mundo estava consumindo o equivalente a 1,64 planetas. Portanto, a população mundial vive no vermelho e provoca um déficit ambiental que cresce a cada ano.
O planeta Terra é único. Não dá para usar mais de um planeta, no longo prazo, sem destruir toda a herança acumulada pela natureza durante milhões de anos. Portanto, é preciso decrescer do uso de 1,64 planetas para 1 planeta. Existem três alternativas:
1) diminuir o padrão de consumo dos habitantes do globo (principalmente o consumo conspícuo e os tipos de consumo mais poluidores e degradadores do meio ambiente);
2) diminuir o volume da população mundial;
3) diminuir o consumo e a população ao mesmo tempo.
Evidentemente a terceira alternativa é a mais rápida. Acontece que não dá para reduzir o volume da população mundial no curto prazo, pois a estrutura da pirâmide etária mundial é ainda jovem. Atualmente, a taxa de fecundidade total (TFT), na média mundial, está em torno de 2,5 filhos por mulher e na tendência de queda lenta da TFT a população mundial chegaria a mais de 11 bilhões de habitantes em 2100. Se a taxa de fecundidade cair em ritmo mais rápido nos próximos anos, para algo em torno de 1,7 ou 1,8 filhos por mulher, então a população mundial começaria a diminuir em meados do século XXI e poderia ficar abaixo de 7 bilhões de habitantes em 2100. Se o mundo atuar agora poderá reduzir o ritmo do crescimento atual e iniciar um decrescimento na segunda metade do século XXI.
Assim, a Terra pode ter 4 bilhões de pessoas a menos do que o previsto em 2100. Serão 4 bilhões a menos de pessoas a sofrer as consequências deixadas pelos seus antepassados na destruição da biocapacidade e no aumento das emissões de gases de efeito estufa. Como disse Condorcet, em 1794: “não é racional colocar filhos no mundo para serem infelizes”. Lembrando que a Índia caminha para ser a nação mais populosa do mundo e já ocupa o terceiro lugar entre os país mais poluidores do Planeta.
Desta forma, de imediato o que se pode fazer é garantir os direitos sexuais e reprodutivos, possibilitando a redução do número médio de filhos dos casais e das pessoas solteiras. Ao invés de nascer 140 milhões de bebês por ano, o mundo pode reduzir este número para, por exemplo, 100 milhões. Seria, de imediato, uma redução de 40 milhões de pessoas por ano e 400 milhões de pessoas em uma década. Porém, mesmo que esta diminuição imediata, a redução da população total (redução do volume do número de habitantes) só aconteceria na segunda metade do século XXI.
Assim, paralelamente ao avanço da transição demográfica, a redução do consumo necessita ser imediata. Segue abaixo uma série de medidas que poderiam ser colocadas em prática instantaneamente para reduzir a Pegada Ecológica.
A alternativa mais impactante e inadiável para mudar o padrão de produção e consumo é a transformação da matriz energética, saindo dos combustíveis fósseis para as energias alternativas, o que reduziria muito as emissões de carbono. Outra tarefa urgente é reduzir o tamanho dos rebanhos bovino e de outros animais (escravizados pela humanidade) que são grandes emissores de metano que acirra o efeito estufa e o aquecimento global. Para tanto é urgente mudar a dieta alimentar, abandonando o consumo de carnes e produtos animais para uma dieta vegetariana e/ou vegana. A alternativa é mudar a forma “petroficada” de produção agrícola, reduzindo significativamente o uso dos fertilizantes químicos, dos defensivos e dos agrotóxicos, avançando com a agricultura orgânica e a permacultura. Reduzir os desperdícios de comida, energia e mudar a cultura da “obsolescência programada”.
Não menos importante é reconfigurar a organização das cidades incentivando o transporte coletivo, a eficiência energética e a reciclagem de materiais, lixo e resíduos sólidos. A alternativa são os enterros e cemitérios sustentáveis com a substituição dos túmulos por capsulas biodegradáveis que gerem árvores e florestas (cada morto uma árvore e cada cemitério uma floresta). Por fim, e não menos importante, reduzir o máximo possível os gastos militares e as despesas de guerra e violência, etc.
Portanto, existem muitas alternativas para reduzir a Pegada Ecológica e para eliminar o déficit ambiental mundial. Falta se chegar a um consenso ideacional e político. O fato é que o mundo precisa alcançar uma sustentabilidade econômica, entendida como a capacidade de suportar um determinado nível de produção econômica indefinidamente em equilíbrio com a natureza; e uma sustentabilidade social, entendida como a capacidade de um sistema social funcionar plenamente e indefinidamente em um determinado nível de bem-estar social. Tudo isto com respeito às demais espécies vivas da Terra e sem mudar a química da atmosfera e degradar os ecossistemas. (ecodebate)

Os riscos ambientais e a queda da natalidade

“Certo ar de falência, certa estrela na testa, certa sorte bifronte, certos objetos entesourados no fundo de uma mala, certa mágoa ambígua, o som de certos ambientes, a impressão incerta de estar numa travessia sem freios, a defesa de certos itens na lembrança caolha, certos calafrios sem causa, o grau de inocência e tristeza em certas horas sombrias, a importância de certos detalhes, a pergunta não-feita e sua certa resposta incerta, o brilho anterior a certos sinais dados pela palavra espanto” - Leonardo Fróes.
O sociólogo Ulrich Beck, no livro “Sociedade de Risco: rumo a outra modernidade” (Editora 34, 2010) faz uma distinção entre a “modernidade clássica” (ou primeira modernidade) e a modernidade tardia (ou segunda modernidade). No primeiro caso, quando prevalecia a “sociedade industrial” ou “sociedade de classes” a dinâmica econômica e demográfica girava em torno da questão de como a riqueza socialmente produzida poderia ser distribuída de forma socialmente desigual e ao mesmo tempo “legítima”: “O pensamento e a ação das pessoas eram dominados pela evidência da carência material, pela ‘ditadura da escassez’”.
Mas na modernidade tardia surge um novo paradigma da sociedade de risco. Assim como no século XIX a modernização dissolveu a esclerosada sociedade agrária estamental e, ao depurá-la, extraiu a imagem estrutural da sociedade industrial, hoje a modernização dissolve os contornos da sociedade industrial e, na continuidade da modernidade, surge outra configuração social.
Beck diz: “Enquanto na sociedade industrial, a ‘lógica’ da produção de riquezas domina a ‘lógica’ da produção de riscos, na sociedade de risco, essa relação se inverte”. Na reflexividade dos processos de modernização, as forças produtivas perderam a inocência. “O acúmulo de poder do progresso tecnológico-econômico é cada vez mais ofuscado pela produção de riscos”. Entre os principais riscos da modernidade radicalizada estão a degradação ambiental e o aquecimento global. Nesses novos conflitos ecológicos, o que está em jogo são negatividades: “perdas, devastação e ameaças”.
Faço a revisão acima, para refletir sobre a questão populacional no quadro atual da modernidade tardia e da sociedade de risco. Em especial, pretendo questionar a validade do bordão “O desenvolvimento é o melhor contraceptivo” lançado na Conferência Mundial de População, ocorrida em 1974, na cidade de Bucareste. Como se sabe, este bordão foi lançado para combater as visões neomalthusianas que defendiam uma aceleração da transição da fecundidade no mundo e para marcar a defesa do desenvolvimentismo como forma de solucionar os problemas da pobreza e do engrandecimento das nações do “Terceiro Mundo”.
Os dois países mais populosos do mundo (China e Índia), com apoio dos demais países do movimento dos “não alinhados” (inclusive Brasil) colocaram o crescimento econômico como prioridade da agenda nacional e internacional. O que a Conferência de População de Bucareste fez foi reforçar a intenção de mimetizar o processo de desenvolvimento da sociedade industrial do “Primeiro Mundo”, como se o modelo da primeira modernidade fosse um evento positivo (a la Augusto Comte) que mereceria ser globalizado, generalizado e absorvido por todos os países do Planeta. O desenvolvimento é encarado como a utopia da grandeza econômica, nacional, cultural, religiosa, militar, etc.
A ideologia desenvolvimentista no campo de população e da acumulação de capital, em geral, ignora ou subestima os riscos ambientais globais e minimiza os desafios do crescimento demoeconômico em nome da escalada do progresso industrial e do avanço das forças produtivas capazes de dominar e controlar a natureza. Ou seja, a Conferência de Bucareste (e de certa forma o ODM, do ano 2000 e o ODS, da agenda 2015-2030) estabeleceu uma prioridade em relação à transição da economia agrária e rural para a economia urbano-industrial em detrimento da transição demográfica. Como disse o Papa Paulo VI, no espírito da encíclica Humanae Vitae, com seus princípios natalistas e populacionistas: “Precisamos aumentar o banquete e não diminuir os comensais”.
Mas em 1960, o mundo tinha uma população de 3 bilhões de habitantes. Em 2016 já são 7,4 bilhões de habitantes. Um aumento de 4,4 bilhões em apenas 56 anos. A projeção média para o final do século é de 11,2 bilhões de habitantes em 2100. Serão, portanto, acrescidos outros 4 bilhões. Se fosse na lógica da segurança da “modernidade sólida” (expressão de Bauman) a questão central seria como produzir riquezas e como repartir os seus frutos. Mas na lógica da sociedade de riscos, este crescimento populacional pode simplesmente estar colocando pessoas no mundo para sofrer com as inseguranças da modernidade tardia e colocar ainda mais estresse sobre o meio ambiente. Na primeira modernidade cada indivíduo era uma fonte de capital humano e um potencial consumidor. Na segunda modernidade, cada nova pessoa é fonte de risco para si e para o planeta, pois os riscos são globalizados e não possuem fronteiras.
Como mostra Herman Daly (2014), a primeira modernidade avançou sobre um mundo antropicamente vazio, em que a escala de produção de bens e serviços era pequena, o elemento escasso ou fator limitante da produção era o capital manufaturado, enquanto os recursos naturais e ambientais (capital natural) eram abundantes. Havia milhões de rios e florestas e nenhum assentamento humano próximo a eles; assim, o custo de oportunidade do uso desses rios era praticamente zero e o conceito de externalidade negativa tinha pouca importância.
Mas no mundo cheio – superpovoado, superconsumista e superexplorador da natureza – em que o tamanho da economia passa a sufocar a capacidade de sobrevivência do capital natural fica difícil gerar os serviços ambientais necessários para o bem-estar humano. O custo de oportunidade no uso dos recursos naturais é alto e o conceito de externalidade negativa adquire importância elevada. Não por acaso, neste mundo, os novos projetos precisam demonstrar que geram muito mais benefícios que custos. No mundo cheio há excesso, e não escassez, tanto de capital manufaturado como de mão-de-obra. Nele, o fator limitante da produção material passou a ser o capital natural, tanto no que se refere à disponibilidade de recursos naturais e de serviços ambientais (sources) como em capacidade de acúmulo e absorção de resíduos (sinks).
O panorama descrito acima mostra que as condições econômicas, sociais, demográficas e ambientais do século XXI são muito diferentes das condições existentes nos séculos anteriores. A humanidade já provocou grandes danos nos ecossistemas do Planeta. Desmatou florestas para explorar a agricultura e a pecuária; represou rios, drenou pântanos, alterou a paisagem natural e está provocando a 6ª extinção em massa de espécies. Revolveu a terra para extrair minérios, foi buscar petróleo no fundo do subsolo e emitiu gases de efeito estufa que alteram a química da atmosfera, provocando o aquecimento global e a acidificação dos solos e das águas. A degradação da biodiversidade e o aquecimento global são os grandes riscos colocados à civilização e à vida na Terra.
Desta forma, é preciso repensar o crescimento populacional na sociedade de risco, de Ulrich Beck, e no mundo cheio, de Herman Daly. Não faz mais sentido manter taxas positivas de crescimento demográfico, quando as condições ambientais apresentam taxas negativas e o colapso ambiental está desenhado no horizonte. Ou seja, não dá para manter o progresso humano às custas do regresso ambiental. Existe um sobrecarga da Terra que nos alertam as metodologias da Pegada Ecológica e das Fronteiras Planetárias, que mostram que a humanidade já ultrapassou os limites da sustentabilidade da capacidade de carga Terra. Não dá para continuar com o crescimento demoeconômico às custas do empobrecimento e da degradação da biocapacidade do meio ambiente.
A questão demográfica deve ser estudada, atualmente, dentro deste contexto da sociedade de risco e do mundo cheio, ou seja, numa situação global de déficit ambiental. Nascem, nos dias atuais, 140 milhões de bebês todos os anos no mundo. Se este número ficar estável e a esperança de vida ao nascer alcançar 80 anos, então a população mundial chegaria a 11,2 bilhões de habitantes (140 milhões vezes 80), em 2100, e ficaria estável em torno deste número se a natalidade e a esperança de vida permanecessem nesses patamares durante as próximas décadas. Isto significaria que a população mundial de 6 bilhões de habitantes, em 1999, teria um acréscimo de 5,2 bilhões de pessoas no século XXI.
Acontece que a pegada ecológica já superava a biocapacidade da Terra em 64% em 2012 (a humanidade está utilizando 1,64 planetas). No ritmo das últimas décadas chegaríamos em 2100 consumindo mais de 5 planetas. Seria uma coisa totalmente insustentável, o que poderia levar a civilização e os ecossistemas ao colapso. O déficit ambiental ocorre devido ao aumento do consumo médio (pegada ecológica) dos habitantes do globo e da diminuição da biocapacidade (devido ao aumento da população). Evidentemente, são as parcelas mais ricas da população mundial que mais contribuem para o aumento do consumo. Mas mesmo que houvesse uma hipotética distribuição justa do consumo, assim mesmo o déficit permaneceria elevado e os riscos teriam efeitos globais.
Portanto, é preciso diminuir o consumo e a população. Acontece que a população vai continuar crescendo devido à inercia demográfica. Por conta disto, há quem diga que só dá para mexer no consumo e não na população. Mas essa visão é fruto de um equívoco. Realmente não dá para diminuir o tamanho da população imediatamente, mas dá para reduzir desde já o ritmo de crescimento e determinar, no presente, a queda futura do decrescimento demográfico.
Queda na taxa de fecundidade se deu em todas as regiões brasileiras.
Portanto, mesmo não dando para diminuir a população imediatamente, dá para reduzir o ritmo de crescimento. Basta reduzir a natalidade mundial. Ao invés do nascimento de 140 milhões de bebês todos os anos, poderia haver uma diminuição da natalidade para 130, 120, 110 ou 100 milhões de nascimentos. Por exemplo, se a natalidade mundial diminuir para 100 milhões de bebês até 2030 (e ficar neste patamar) e a esperança de vida subir para 80 anos, então teríamos uma população estável de 8 bilhões ao invés de 11,2 bilhões de habitantes no mundo.
O gráfico acima mostra que o número de nascimentos no mundo passou de 97 milhões de bebês, na média do quinquênio 1950-55, para 140 milhões na média do quinquênio 2015-20. A projeção média da ONU indica que este número de nascimentos deve se manter aproximadamente neste nível até o final do século, gerando uma população de 11,2 bilhões em 2100.
Porém, na hipótese de uma queda mais rápida da natalidade, o número de nascimentos poderia cair para 70 milhões de bebês até 2100. Se este número ficar estável e a esperança de vida ficar em 80 anos, então a população poderia se estabilizar em 5,6 bilhões ao invés dos 11,2 bilhões de habitantes. O número de pessoas sujeitas aos riscos ecológicos se reduziria pela metade.
Além do mais, a queda da natalidade poderia gerar outros efeitos benéficos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem mais de 220 milhões de mulheres em período reprodutivo sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade. O número de gravidez indesejada é alto. A meta # 5B dos ODMs dizia: “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”. Esta meta não foi alcançada. Agora, os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) também colocam como meta a universalização dos serviços de saúde sexual e reprodutiva até 2030. Evidentemente, esta procrastinação não é boa para a saúde das mulheres e nem para os bebês que nascem de uma gravidez indesejada e vão correr riscos cada vez maiores diante dos desafios econômicos, sociais e ambientais. Por exemplo, o surto dos casos de microcefalia, diante da epidemia de zika, poderia ser evitado se houvesse bons serviços de saúde reprodutiva no país.
Segundo o International Food Policy Research Institute (IFPRI), o Índice Global da Fome (IGF) apresenta as categorias alarmante e extremamente alarmante, especialmente naqueles países onde existem altas taxas de fecundidade. Também as taxas de mortalidade materna são mais altas onde é menor o acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Além disto, muitas mulheres são vítimas de violência sexual e da segregação de gênero, o que impede que elas tenham autonomia social e capacidade de autodeterminação reprodutiva. Além disto, alta dependência demográfica nas famílias aumenta a competição por alimento entre os filhos, o que prejudica os mais fracos e necessitados. O fim da gravidez indesejada ajudaria a reduzir a fome, reduziria os níveis de mortalidade materna e fortaleceria o bônus demográfico feminino.
Para Beck, a natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade e a sociedade (e a população) não mais sem a natureza. A destruição da natureza passa “a ser elemento constitutivo da dinâmica social, econômica e política. O imprevisto efeito colateral da socialização da natureza é a socialização das destruições e ameaças incidentes sobre a natureza”. Ou seja, a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga e está explorando o meio ambiente a uma taxa mais alta do que a capacidade de regeneração. O crescimento ficou deseconômico, como mostra Herman Daly e o mundo caminha para uma estagnação secular, como mostra Larry Summers. Neste quadro, seria irresponsabilidade as políticas públicas continuar apoiando o crescimento demoeconômico.
O mundo precisa de decrescimento, pois já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. Mesmo, em uma situação hipotética em que houvesse uma justa distribuição de renda no mundo, ainda assim nosso modelo de produção e consumo seria insustentável. Portanto, não basta combater a desigualdade é preciso decrescer o tamanho da economia e do impacto humano sobre o Planeta, pois o problema não é simplesmente o consumo dos ricos, mas sim o volume do consumo global (Alves, 29/08/2014; Mantilla, 07/07/2016).
Estas ideias não são novas e já foram antecipadas no livro “O Declínio Próspero” de H. T. Odum, conforme pode ser consultado em Ortega (2015). Diante da possibilidade do colapso das condições que sustentam a Economia, a População e o Meio Ambiente em escala planetária, “o livro coloca a possibilidade de um declínio com prosperidade apesar das condições desfavoráveis existentes, e oferece ideias para promover a sustentabilidade e, ao mesmo tempo, cuidar da mitigação das mudanças climáticas e das mazelas sociais”.
Como escrevi em outro artigo (Alves, 11/07/2016): “A natureza não depende da sociedade, a sociedade depende da natureza. O lema do debate sobre população e desenvolvimento no século XXI deveria ser: menos gente, menos consumo, menor desigualdade social e maior qualidade de vida humana e ambiental”. Os direitos humanos devem estar em sintonia com os direitos ambientais e o bem-estar das espécies não humanas.
Portanto, pode-se considerar o debate entre população, economia e ambiente com parâmetros diferentes daqueles estabelecidos na velha dicotomia entre controlismo versus natalismo. Numa perspectiva que integre os direitos humanos com os direitos ambientais, a queda da natalidade pode ser vista como uma forma de evitar o aumento do sofrimento humano na sociedade de risco e uma forma de reduzir a degradação ambiental e a perda de biodiversidade.
Assim, avançar na implementação dos direitos sexuais e reprodutivos é uma forma de melhorar a qualidade de vida do ser humano, especialmente para as mulheres que mais sofrem com as relações patriarcais, diminuir os riscos e a população em risco, e evitar uma catástrofe ecológica nos tempos do acirramento das externalidades negativas do “mundo cheio” da hipermodernidade. (ecodebate)

domingo, 21 de agosto de 2016

Reuso da água é essencial para gestão dos recursos hídricos

“Pode-se afirmar que 60% da água utilizada para abastecimento no Brasil é perdida pela incapacidade de reutilização”, constata o pesquisador.
“A gestão das águas por bacias hidrográficas é atualmente o grande desafio”, diz José Galizia Tundisi à IHU On-Line, ao comentar a atual situação dos recursos hídricos no Brasil. Segundo ele, se fosse realizada uma gestão “bem executada”, seria possível “assegurar um controle mais efetivo às reservas de água e maior eficiência no uso”.
Outro fator que contribui para a má gestão dos recursos hídricos no país, frisa, é o não tratamento de esgoto. A ineficiência desse serviço, explica, faz com que a perda de água chegue a “quantidades abundantes pela incapacidade de reuso”, chegando a um total de 60%.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Tundisi pontua ainda que o “reuso de água implica técnicas avançadas para melhorar a qualidade das águas já tratadas. Por exemplo, pode-se melhorar muito a qualidade da água ao utilizar membranas especiais para filtrar água do esgoto já tratada”.
José Galizia Tundisi é graduado em História Natural, mestre em Oceanografia pela University of Southampton e doutor em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor titular aposentado da USP e professor titular do curso de Qualidade Ambiental da Feevale, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul.
IHU On-Line - Em artigo recente o senhor afirma que o ciclo hidrológico foi alterado para um ciclo hidrossocial. Em que consiste essa mudança e o que entende por hidrossocial?
José Galizia Tundisi – Ciclo hidrossocial refere-se a todas as atividades humanas relacionadas com o ciclo da água. Podemos dizer que o ciclo hidrossocial é a expressão da atividade humana no ciclo hidrológico.
IHU On-Line - De que modo o crescimento populacional, a urbanização e o aumento na produção de alimentos têm impactado nos recursos hídricos?
José Galizia Tundisi - Crescimento populacional, produção de alimentos e urbanização impactam o ciclo da água pelo uso excessivo da água superficial e água subterrânea e pela degradação produzida por resíduos. Como a quantidade de água é sempre a mesma, o uso excessivo de água leva à depleção. Além disso, a poluição e a degradação pelo uso do solo, e esgotos não tratados impedem o uso de águas superficiais e subterrâneas.
IHU On-Line - Como deveria se pensar a gestão da água na atual configuração social em que vivemos, com aumento populacional e maior produção de alimentos?
José Galizia Tundisi – A gestão da água deve ser feita por bacias hidrográficas. Os usos da água na área urbana devem ser estritamente controlados. A utilização da água na produção dos alimentos deve ter tecnologias mais avançadas. Se a gestão for bem executada em nível de bacias hidrográficas, pode-se assegurar um controle mais efetivo às reservas de águas e maior eficiência no uso.
“Há riscos de esgotamento de recursos hídricos por bacias hidrográficas e uso excessivo do recurso”
IHU On-Line - Quais são os riscos em torno da segurança hídrica nos nossos dias?
José Galizia Tundisi - Os riscos principais referentes à segurança hídrica são: mudanças globais e falta de água; contaminação e poluição que impedem abastecimento efetivo; incapacidade de ministrar água suficiente de boa qualidade para a população humana e para manter o funcionamento dos ecossistemas.
IHU On-Line - Há riscos de esgotamento dos recursos hídricos dados o aumento do uso desses recursos nas últimas décadas?
José Galizia Tundisi - Sim. Há riscos de esgotamento de recursos hídricos por bacias hidrográficas e uso excessivo do recurso. Como a reciclagem é ainda pouco utilizada, há riscos de se esgotarem as reservas devido ao desequilíbrio: precipitação — uso excessivo.
IHU On-Line - O que é o fenômeno de eutrofização e de que modo ele impacta o tratamento da água?
José Galizia Tundisi - A eutrofização é um fenômeno resultante da intensa carga de nitrogênio e fósforo para lagos, represas e rios. É resultado de atividades humanas como a agricultura, urbanização e despejos de esgotos não tratados nos corpos de água. Quanto maiores os graus de eutrofização, maior é o custo do tratamento de água para torná-la potável.
IHU On-Line - Quando se trata de sugerir o reuso de água tratada, que práticas já têm sido implementadas nesse sentido e de que maneira é possível avançar para ampliar o reuso?
José Galizia Tundisi – O reuso de água implica técnicas avançadas para melhorar a qualidade das águas já tratadas. Por exemplo, pode-se melhorar muito a qualidade da água ao utilizar membranas especiais para filtrar água do esgoto já tratada. Este tipo de tratamento já vem sendo realizado por pesquisadores da Universidade FEEVALE com coordenação do professor Marco Antonio Siqueira Rodrigues. Um novo Centro de Pesquisa em tecnologias Limpas foi criado só para tratar deste problema do uso de membranas para reúso de água. Isto permitirá ampliar o reuso. O Centro Internacional de Referência em Reuso de Água da Escola Politécnica da USP, em São Paulo, vai na mesma linha.
“Para uma gestão integrada, preditiva e de alto nível é necessário utilizar tecnologias avançadas, participação comunitária e integração de processos econômicos, ecológicos e sociais”
IHU On-Line - O não tratamento do esgoto provoca a perda de recursos hídricos. Considerando que no país somente 40% do esgoto é tratado, é possível estimar quanto se perde em termos de recursos hídricos por conta desse percentual de tratamento?
José Galizia Tundisi - O não tratamento de esgoto perde quantidades abundantes de água pela impossibilidade de reúso. Portanto, perdem-se recursos hídricos pela incapacidade de reuso. Pode-se afirmar que 60% da água utilizada para abastecimento no Brasil é perdida pela incapacidade de reutilização.
IHU On-Line – Há risco de crise de abastecimento hoje no Brasil?
José Galizia Tundisi - Há problemas localizados de abastecimento no Brasil que podem se agravar em função do ciclo hidrológico comprometido e pelo uso excessivo de água. Problemas de impactos de mudanças climáticas podem ocorrer dependendo da região, latitude e longitude. Crise de abastecimento pode ocorrer em grandes regiões metropolitanas que usam muita água sem gestão adequada.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
José Galizia Tundisi - A gestão das águas por bacias hidrográficas é atualmente o grande desafio. Para uma gestão integrada, preditiva e de alto nível é necessário utilizar tecnologias avançadas, participação comunitária e integração de processos econômicos, ecológicos e sociais.
(ecodebate)

Brasil concentra 20% de toda água doce e ½ da população não recebe saneamento

Brasil concentra 20% da água doce do mundo, mas menos da metade da população tem acesso a saneamento.
Apenas 39% das residências têm seus rejeitos tratados adequadamente. Falta de tratamento afeta saúde da população e polui fontes de recursos hídricos. No Brasil, água é fundamental para agricultura e setor de energia.
Existem 100 milhões de pessoas sem acesso a sistemas adequados de saneamento na América Latina e 70 milhões não tem água encanada, segundo dados da ONU. No Brasil, menos da metade da população tem acesso a redes de esgoto.
O Brasil abriga um quinto das reservas hídricas do mundo, mas a abundância não significa acesso universal a água própria para o consumo, nem a saneamento. Menos da metade — cerca de 48,6% — da população brasileira é atendida por serviços de esgoto e apenas 39% das residências têm seus rejeitos tratados.
Os números são do Banco Mundial, que alertou para as desigualdades na distribuição de água entre a população, a indústria e a agricultura no Brasil, além de detalhar a importância dos recursos hídricos para a economia brasileira.
Embora 82,5% dos brasileiros tenham acesso a água, apenas 43% dos domicílios entre os 40% mais pobres do país têm vasos sanitários ligados à rede de esgoto, segundo dados de 2013.
Existem 100 milhões de pessoas sem acesso a sistemas adequados de saneamento na América Latina e 70 milhões não têm água encanada, segundo dados da ONU. No Brasil, menos da metade da população tem acesso a redes de esgoto.
A falta de tratamento faz com que poluentes sejam jogados diretamente na água ou processados em tanques sépticos desregulados, com graves consequências para a qualidade dos recursos hídricos, bem como para o bem-estar da população.
O Banco Mundial chama atenção ainda para o desperdício registrado nas empresas de abastecimento — perdas chegam a 37%.
De acordo com a agência da ONU, o financiamento e subsídios do setor são baseados em uma estrutura tarifária ultrapassada que, somada ao excesso de pessoa e elevados custos operacionais, encarecem a oferta para os consumidores.
Os gastos com a produção inviabilizam novos investimentos, capazes de tornar a infraestrutura mais resistente a eventos climáticos extremos como secas e inundações.
Alerta: gestão insustentável da água e outros recursos naturais podem causar graves danos às economias.
Economia brasileira depende da água
O organismo financeiro destaca que 62% da energia do país são geradas em usinas hidrelétricas e 72% da água disponível para o consumo é destinada à irrigação na agricultura.
O Banco Mundial lembra que o Brasil é o segundo maior exportador de alimentos do mundo — sendo a agricultura e o agronegócio responsáveis por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Atualmente, apenas pouco menos de 20% da área de terras irrigáveis não contam com sistemas de água para o cultivo.
Segundo a agência da ONU, mesmo com a diversificação das fontes de energia prevista para as próximas duas décadas, as usinas hidrelétricas continuarão entregando 57% da eletricidade usada no Brasil.
Tamanha dependência significa que, em tempos de crise – como a vivida por São Paulo em 2014 e 2015 –, a produtividade de diversos setores econômicos pode ser ameaçada.
“Em São Paulo, por alguns meses, não ficou claro se as indústrias, como a de alumínio, grande consumidora de água, poderiam continuar produzindo no ritmo anterior à crise hídrica”, lembra o líder do programa de desenvolvimento sustentável do Banco Mundial no Brasil, Gregor Wolf. (ecodebate)