terça-feira, 31 de outubro de 2017

Plástico e acrílico com nanofibras de celulose

Pesquisa produz poliestireno (plástico) e polimetacrilato de metila (acrílico) com nanofibras de celulose.
Inovação vai permitir ampliação do uso de polímeros comerciais - poliestireno e polimetacrilato - largamente utilizados na indústria.
Fibras de celulose

Pesquisar novos materiais – mais resistentes, leves, baratos, sustentáveis ou com qualquer característica que os tornem mais convenientes para a indústria e consumidores. Isso é o que faz a engenharia de materiais. Uma pesquisa uniu duas das tecnologias mais férteis nessa área ao trabalhar com compostos em escala extremamente reduzida (nanométrica) e, ao mesmo tempo, biodegradável. A inovação vem da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, onde pesquisadores desenvolveram um método para produção de poliestireno (plástico) e polimetacrilato de metila (acrílico) utilizando fibras e nanofibras de celulose de eucalipto, bagaço de cana e outros vegetais.
O método pode ser utilizado para produzir materiais que, além de elevada resistência mecânica, têm baixo custo – já que as substâncias empregadas no processo são derivadas de fontes renováveis (celulose).  Os poliestirenos e os acrílicos são largamente utilizados na construção civil, automobilística e em componentes eletrônicos. A Agência USP de Inovação já patenteou o produto.
O Brasil é um dos líderes mundiais de produção de celulose e as inovações tecnológicas feitas a partir de derivados de fontes renováveis têm recebido atenção dos cientistas nos últimos anos. Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), o País ocupa o quarto lugar no ranking dos produtores de celulose de todos os tipos e o primeiro produtor mundial de celulose de eucalipto. Dessa forma, as fibras de celulose vêm sendo estudadas como potencial material para substituição das fibras convencionais.
Devido à importância comercial do poliestireno (resina do grupo dos termoplásticos) e por ele ter origem em fontes finitas da natureza (petróleo), a substância foi o foco das pesquisas do Departamento de Engenharia de Materiais da EESC. Sob orientação do professor Antonio José Félix de Carvalho, pesquisadores adicionaram fibras e nanofibras de celulose no poliestireno para saber o que resultava dessa composição.
Embora a ideia fosse promissora, por se tratar de um produto biodegradável, e se soubesse que as propriedades mecânicas da celulose a tornam tão rígida quanto o próprio aço, a proposta não era tão simples assim. Segundo Carvalho, o problema residia em como dispersar as fibras nos termoplásticos de poliestireno e acrílico, uma vez que as fibras de polpas celulósicas ou nanofibras de celulose tendem a formar aglomerados, o que impedia a sua distribuição nas substâncias sintéticas da matriz principal (o poliestireno).”
A celulose, por sua afinidade com água, não se misturava à resina (matriz sintética). Isso levava à separação entre os componentes no momento de prepararão do compósito final. “O problema era ainda maior quando a celulose era utilizada de forma seca, o que tornava praticamente impossível a manipulação dos materiais”, relata o pesquisador.
A solução consistiu no desenvolvimento de um novo método para a “preparação dos materiais compósitos baseado em um processo de coprecipitação (separação das substâncias sólidas do líquido)”. O objetivo era impedir a aglomeração e garantir uma boa dispersão das fibras na matriz polimérica para se obter no final um material homogêneo e com propriedades mecânicas superiores aos produtos convencionais já existentes no mercado.
Uma vez resolvida a questão que inviabilizava o emprego das fibras celulósicas, o trabalho de pesquisa resultou em um compósito com propriedades mecânicas bastante melhoradas, comparáveis a outros compósitos produzidos a partir de fibras sintéticas.
Compósitos
Os materiais compósitos estão presentes na natureza, no corpo humano ou em qualquer outro lugar. São produzidos a partir da junção de dois ou mais materiais distintos, que combinados resultam em um produto com propriedades de melhor qualidade do que os materiais de partida. A ciência inova criando compósitos sob medida para atender à demanda de fabricação de determinados produtos que substituem os materiais convencionais (aço, ferro, alumínio), que possuem aplicações limitadas. Os compósitos produzidos em laboratório possuem características singulares e mais satisfatórias: leveza, resistência mecânica e tolerância a mudanças de temperaturas e ao contato de compostos químicos e água.
Poliestireno e polimetacrilato de metila
O poliestireno é uma resina do grupo dos termoplásticos que tem como característica principal a flexibilidade sob a ação do calor. Não é biodegradável e demora cerca de 100 anos para se decompor na natureza. O material é produzido a partir de fibra de vidro ou de carbono. É matéria-prima para fabricação de diversos produtos: embalagens, copos descartáveis, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, brinquedos, componentes e peças da indústria naval, automobilística e construção civil. O polimetacrilato de metila é um tipo de acrílico. É transparente, rígido e de fácil polimento. Substitui materiais como vidro, madeira e metais leves. (ecodebate)

Microplásticos ameaçam centenas de espécies marinhas mundial

Microplásticos ameaçam centenas de espécies da fauna marinha em todo o mundo.
Em alguns lugares do mundo a poluição por plásticos é simplesmente catastrófica, como nesta praia em Mumbai, na Índia.
Centenas de espécies da fauna marinha, como peixes, moluscos e outras, estão sendo ameaças pela ingestão do lixo que se acumula no mar em forma de microplásticos, sem que até o momento se saiba a fundo suas causas e consequências. Os últimos estudos apontam que até 529 espécies selvagens já foram afetadas pelos resíduos, um risco mortal que se soma aos outros já enfrentados por dezenas delas em perigo de extinção. A informação é da EFE.
Por menores que sejam, os microplásticos (de até cinco milímetros de diâmetro e presentes em vários produtos, como os cosméticos) representam uma ameaça para as mais de 220 espécies que os absorvem, algumas delas muito importantes no comércio mundial, como os mexilhões, as lagostas, os camarões, as sardinhas e o bacalhau.
Relatório recente da Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alertou para as consequências desses resíduos para a pesca e a aquicultura. “Ainda que nos preocupe a ingestão de microplásticos por parte das pessoas através dos frutos do mar, ainda não temos evidências científicas que confirmem os efeitos prejudiciais em animais selvagens”, explicou à Agência EFE uma das autoras do estudo, a pesquisadora Amy Lusher.
Ela acredita que ainda faltam muitos anos de estudos, dado o vazio de informação que existe sobre o assunto e as muitas inconsistências nos dados disponíveis. Para contribuir com o debate, uma revista especializada em biologia da Royal Society, de Londres, publicou recentemente um estudo que sugere que certos peixes estão predispostos a confundir o plástico com o alimento, por terem um cheiro parecido.
Matthew Savoca, líder de um trabalho realizado em colaboração com um aquário de San Francisco (Estados Unidos), explica que foram apresentadas a vários grupos de anchovas substâncias com o cheiro de resíduos plásticos recolhidos do mar e outras com o cheiro de plásticos limpos.
As anchovas reagiram ao lixo de forma similar à que fariam com o alimento, já que esses resíduos estão cobertos de material biológico, como algas, que têm cheiro de comida.
“Muitos animais marítimos dependem muito do seu olfato para encontrar comida, muito mais que os humanos”, afirmou Savoca, ressaltando que o plástico “parece enganar” os animais que o encontram no mar, sendo “muito difícil para eles ver que não é um alimento”.
A FAO lembra que os efeitos adversos dos microplásticos na fauna marinha são observados em experiências em laboratórios, normalmente com um grau de exposição a estas substâncias “muito maior” que o encontrado no ambiente.
Até então, estas partículas só apareceram no aparelho digestivo dos animais, que as pessoas “costumam retirar antes de consumir”, apontou a pesquisadora Amy Lusher.
No pior dos cenários, o problema seria a presença de substâncias contaminantes e de aditivos que são acrescentados aos plásticos durante sua fabricação ou são absorvidos no mar, ainda que não se saiba muito sobre o seu impacto e o dos plásticos menores na alimentação.
Para os cientistas, é preciso estudar mais a fundo a distribuição desses resíduos a nível global, por mais que se movam de um lado a outro, e o processo de acumulação de lixo, ao qual contribuem a pesca e a aquicultura quando seus equipamentos de plástico acabam perdidos ou abandonados nos oceanos.

Em um mundo onde há cada vez mais plástico (322 milhões de toneladas produzidas em 2015), estima-se que a poluição continuará aumentando nos oceanos, onde em 2010 foram despejados entre 4,8 milhões e 12,7 milhões de toneladas desse tipo de lixo. (ecodebate)

domingo, 29 de outubro de 2017

Tragédias climáticas em USA custaram em 10 anos US$ 350 bilhões

Tragédias naturais relacionadas ao clima nos Estados Unidos custaram US$ 350 bilhões na última década.
O relatório divulgado em 24/10/17 pelo governo dos Estados Unidos afirma que tragédias naturais relacionadas ao clima já impactam no orçamento federal norte-americano. Na última década, o país gastou U$ 350 bilhões para responder a tragédias naturais, como furacões e incêndios.
Segundo o GAO, esse total ainda não contabiliza as consequências dos três grandes furacões deste ano, Harvey, Irma e Maria, nem as do incêndio florestal na Califórnia, que deve ser o mais caro na história do país.
Segundo o Government Accountability Office (GAO, sigla em inglês para Agência de Prestação de Contas do governo, livre tradução), a projeção é de que o custo para recuperar danos decorrentes de fenômenos causados por climas extremos deve aumentar no curto e médio prazo.
Bombeiros trabalham no combate ao fogo próximo a Sonoma, na Califórnia.
O relatório prevê que os custos podem chegar a atingir um orçamento anual de US$ 35 bilhões até 2050. O texto diz se o governo norte-americano não se planejar para estes custos recorrentes de problemas climáticos,  eles podem ser um alto risco para as finanças do governo.
“O governo federal não realizou planejamento estratégico.  Isso precisa ser feito para mensurar os efeitos econômicos das alterações climáticas e identificar riscos significativos, além de dimensionar respostas federais apropriados”, conclui o texto.
 
O GAO recomendou que o departamento econômico identifique riscos climáticos significativos, para que o governo possa dar respostas apropriadas e planejar os recursos necessários.  A agência advertiu que o país terá de gastar muito, caso as emissões globais de monóxido de carbono não diminuam.
A agência recomendou à administração federal que crie respostas apropriadas. Depois de assumir a Casa Branca em Janeiro, o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo sobre as mudanças climáticas firmado pelas Nações Unidas em Paris. Desde a campanha, o presidente norte-americano argumenta não estar convencido de que a interferência humana faça diferença no aquecimento global.
Internamente, Trump anulou decretos que limitavam a geração de energia fóssil e suspendeu restrições à indústria petrolífera.
Gastos com tragédias
A estimativa de U$350 bilhões gastos nos últimos dez anos com prejuízos causados por tragédias naturais inclui o custeio de programas de assistência a desastres, seguro agrícola e perdas por inundações.
O texto diz se o governo norte-americano não se planejar para estes custos recorrentes de problemas climáticos.
O relatório diz que os impactos fiscais causados pelas mudanças climáticas variam conforme a região. No Sudeste, onde está a Flórida e o Texas, o maior impacto será nas áreas costeiras, devido a possíveis inundações por tempestades e à elevação do nível do mar. O Centro-Oeste sofrerá impacto agrícola e a Costa Oeste, os gastos para contornar os efeitos da seca, calor e incêndios. (ecodebate)

Precisaremos de mais um planeta?

Voltando ao livro de Kevin Ashton, A História Secreta da Criatividade (Sextante, 2016) e a Thomas Malthus vamos refletir sobre o seguinte:
A população humana dobrou entre 1970 e 2010. Em 1970, as pessoas viviam em media até os 52 anos. Em 2010, até os 70 anos. Não somente somos o dobro de pessoas, cada qual vivendo um terço a mais: o consumo dos recursos naturais por parte de cada indivíduo está crescendo. A ingestão de alimentos era de oitocentas mil calorias por pessoa por ano em 1970 e mais de um milhão de calorias por ano em 2010. O consumo de água por pessoa por ano mais que dobrou de 1970 para 2010. Apesar do crescimento da internet e dos computadores e do declínio dos jornais e livros impressos, o uso de papel aumentou de 25 quilos por pessoa por ano em 1970 para 55 quilos em 2010.
Temos tecnologias mais eficientes energeticamente do que em 1970, mas também temos mais tecnologia, e uma parte maior do mundo tem acesso à eletricidade. Assim, enquanto usávamos 1.200 quilowatts-hora por pessoa por ano em 1970, utilizávamos 2.900 quilowatts-hora em 2010.
Essas mudanças são boas para os indivíduos nesse momento: elas indicam que um número maior de nós vive mais tempo, tem vida mais saudável com o suficiente para comer e beber e uma chance melhor de evitar ou sobreviver a doenças ou ferimentos. O mesmo provavelmente se aplica aos nossos filhos. Mas o consumo crescente significará uma crise para toda a nossa espécie num futuro próximo. O que cresce não é apenas o número de seres humanos e do consumo; a taxa de crescimento desses números também está aumentando. Estamos indo mais depressa e continuamos acelerando.
Nossos recursos naturais não podem crescer tão rápido quanto nossas necessidades. Se nada mudar, chegará o dia que nossa espécie vai pedir mais do que o planeta pode dar; a única incógnita é quando (acho que já chegamos lá!). Essas preocupações não são novas. Em 1798, um livro chamado Ensaio Sobre o Princípio da População foi publicado na Inglaterra. O autor, Thomas Malthus (escreveu sob pseudônimo), alertou sobre o possível desastre, dizendo exatamente assim:
“O poder de crescimento da população é maior que o poder da Terra de produzir meios de subsistência para o homem. A população, se não for controlada, cresce em progressão geométrica. A produção de alimentos aumenta apenas em progressão aritmética. Um pequeno conhecimento sobre números mostrará a enormidade do poder do primeiro em comparação com o segundo. De acordo com a lei da nossa natureza, que torna o alimento necessário para a vida do homem, os efeitos desses dois poderes desiguais devem ser equiparados. Isso implica uma contenção forte e constante da população diante da dificuldade de subsistência. Essa dificuldade deve ser sentida de modo severo por uma grande parcela da humanidade.”
Malthus estava certo com relação ao crescimento da população, mas estava errado com relação às consequências. Na época de Malthus – final do século dezoito – havia quase um bilhão de pessoas no mundo e a população dobrara em três séculos. Isso era alarmante para ele, mas no século vinte a população dobrou duas vezes mais, chegando a dois bilhões em 1925 e quatro bilhões em 1975. Hoje estamos chegando aos nove bilhões! Isso, segundo Malthus, deveria provocar uma enorme fome no mundo, mas na verdade a fome declinou no século XX. Excetuando a África, praticamente a fome foi erradicada no mundo, graças à tecnologia. (ecodebate)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crise hídrica no Nordeste e a seca no São Francisco

De onde vem a crise hídrica que seca a bacia do rio São Francisco.
Com morte de afluentes perenes e invasão da água do mar em sua foz, uma das principais bacias hidrográficas do Brasil vive seca recorde que se estende desde 2012.
Reservatório de Sobradinho já apresentava sinais da seca em 2015.Reservatório de Sobradinho já apresentava sinais da seca em 2015
Reservatório de Sobradinho já apresentava sinais da seca em 2015Cobrindo 7,5% de todo o território nacional e espalhada por seis estados do país além do Distrito Federal, a bacia do rio São Francisco é uma das mais importantes fontes de água, história e cultura do Brasil. Hoje, o Velho Chico e seus subsidiários atravessam uma das piores secas da história.
Somando os quatro reservatórios que alimentam usinas hidrelétricas na bacia e que são administrados pela ANA (Agência Nacional de Águas, do governo federal), o sistema operava em 08/10/17  com apenas 6,99% de seu volume útil.
A falta de chuvas é uma das causas para a falta de água. A atual seca vem se acumulando desde 2012. Mas esse não é o único fator. A ação humana ao longo da calha do rio e de seus principais afluentes e o uso mal-planejado dos recursos hídricos da região também são apontados por estudos e especialistas como fatores preponderantes para a seca.
A estrutura da bacia do São Francisco
O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e atravessa o sul nordestino até desembocar no oceano Atlântico. Sua foz marca a divisão entre os estados de Sergipe e Alagoas. Mas a bacia é mais do que seu rio principal, e engloba também os afluentes.
O sistema completo é dividido em quatro partes: alto, médio, submédio e baixo São Francisco. A maior parte da água que abastece o rio chega dos afluentes de Minas Gerais e da Bahia: mais especificamente 98,5% de sua vazão total, segundo dados coletados entre 1976 e 2000 por um estudo publicado em 2007 na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola Ambiental.
Em % da vazão total do São Francisco.
As origens da crise hídrica
A falta d’água passou a ficar mais aguda a partir de 2012. O gráfico abaixo mostra as vezes em que municípios decretaram estado de emergência por causa de seca e estiagem entre 2003 e 2015.
Declarações de estado de calamidade, por seca e estiagem, entre 2003 e 2015.
Sul e Nordeste são as regiões mais afetadas, e praticamente toda a bacia do São Francisco está inclusa na mancha vermelha. Neste gráfico do Nexo é possível ver a evolução mês a mês das emergências. A partir de 2012, as regiões central e noroeste de Minas Gerais e do centro baiano passaram a ter secas mais constantes.
Água que falta no início do curso do rio é problema para todo o resto de seu leito. E a questão é agravada com a presença das barragens de hidrelétricas, que controlam a vazão natural do rio para garantir a produção constante de energia.
O papel das barragens
Quantas são
Quatro controladas pela ANA, sendo três delas no rio São Francisco: Três Marias (MG), Sobradinho (BA) e Itaparica (fronteira entre BA e PE). Além delas, há o complexo Paulo Afonso (PE) e a represa de Xingó (AL), hidrelétricas que operam a fio d’água.
Como funcionam
As barragens seguram as águas do rio para garantir que haverá vazão constante e controlável. De manhã, por exemplo, quando há maior demanda por energia elétrica, a vazão aumenta para gerar mais energia. De tarde, diminui.
Qual o impacto
Ao alterar o fluxo natural do rio, a oscilação do volume de água gera deslize de terras na calha fluvial. Os sedimentos que seriam levados naturalmente pela água, e os outros que chegaram pelos deslizes, se acumulam com o fluxo menor de água e ficam depositados no fundo, causando assoreamento.
Com o atual cenário de seca e o assoreamento de vários rios afluentes da bacia, a vazão do São Francisco está bem abaixo do normal.
Segundo Paulo Ricardo Petter Medeiros, professor doutor do Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal do Alagoas, a vazão normal fica em torno de 2.000 a 2.500 m³/s. Hoje, o São Francisco está fluindo com uma vazão próxima a 600 m³/s.
As barragens também estão secas, e qualquer chuva que vier servirá para recuperar o nível das represas. Por isso, “vai ter que ter uns dois ou três anos de chuvas muito boas para voltar à situação normal”, diz Medeiros. A época de chuvas na região começa em novembro.
Represas secas
Com a água sendo retida pelas barragens, a região da foz fica ainda mais prejudicada. A vazão abaixo do normal tira a força da água do rio que chega no mar, e permite que a água salgada do oceano faça o caminho inverso e entre no curso fluvial, o que trata-se de um processo de salinização da foz.
Impacto da seca
Peixes mortos pela seca na barragem de Sobradinho, no Rio São Francisco.
Medeiros cita como consequências desse processo de salinização da foz:
Problemas no abastecimento de água doméstica, que fica salobra e imprópria para consumo;
Destruição da vegetação de água doce;
Salinização dos lençóis freáticos, impossibilitando a plantação de culturas agrícolas;
Substituição da fauna aquática, com o desaparecimento de peixes de água doce.
“Os pescadores, ao longo da vida, se adaptam a pescar um tipo de peixe. A rede de pesca, a técnica é para uma ou duas espécies de peixe. No momento que troca a fauna, eles têm dificuldades de se adaptar, gerando dificuldades econômicas”, diz o professor.
“A situação aqui da foz está bem crítica, principalmente se considerarmos o aspecto humano. Tem cidades próximas à foz que já têm notícias do aumento nos casos de pressão arterial por causa do consumo de água salgada”
Paulo Ricardo Petter Medeiros
Professor do IGDEMA/Ufal
São 453 municípios com sede na região da bacia do rio São Francisco, que abrigam uma população de mais de 14 milhões de pessoas segundo o censo de 2010.
Como a situação chegou a esse ponto
Barragem de Sobradinho, em Pernambuco. Água represada ajuda a assorear os rios.
Segundo Medeiros, os problemas com a vazão do rio têm duas origens principais: a falta de chuva e o mau gerenciamento do fluxo d’água nas hidrelétricas. Para ele, o projeto de transposição em curso não tem impacto direto na seca.
“O volume [de captação] da transposição quando estiver totalmente pronta é em torno de 100 m³/s. Se a vazão do rio estiver normal, em torno de 2.000 a 2.500 m³/s, o retirado não é grande coisa. Mas como agora está em 600 m³/s, retirar 100 m³/s faz falta. Isso depende da vazão total do rio”, disse.
Ao Nexo, o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, Anivaldo Miranda, concorda que a má gestão é ponto central na construção desse quadro, mas acredita que o controle da vazão é bem gerido desde 2013, quando a seca começou. Segundo ele, “os instrumentos de gestão hídrica não foram implantados, sobretudo pelos governos estaduais”.
O presidente do CBHSF disse que os comitês locais de gestão dos recursos hídricos, que incluem setores da sociedade civil, do governo e das empresas que utilizam as águas represadas para fins econômicos, “estão morrendo por falta de recursos e de vontade política”, o que indica o descaso com a participação da sociedade civil na administração desses recursos.
Região normalmente coberta por 6m de água do Rio São Francisco, completamente seca, já em 2014.
Miranda ressalta ainda a falha na criação de sistemas de outorga do direito de uso das águas da bacia, a insuficiência dos planos de gestão hídrica das bacias dos afluentes e a ausência de um sistema de cobrança pelo uso das águas subterrâneas, que permite a retirada abusiva de recursos do lençol freático.
A degradação do lençol freático mata as nascentes — um exemplo é o rio Jequitaí (MG), perene, que hoje está completamente seco. A retirada da mata auxiliar ainda aumenta o assoreamento, uma vez que a vegetação conseguiria segurar os detritos que vão para o rio.
Segundo estudo de 2013 divulgado pela ANA, os biomas da caatinga e do cerrado têm pouco mais de 50% remanescentes na região da bacia. Já da Mata Atlântica originária, só resta 29%.
O projeto de revitalização da bacia
Trabalhadores abastecem caminhão-pipa com água desviada do Rio São Francisco.
Tramita na Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal o projeto de lei 345/2014, de autoria de Kaká Andrade (PDT-SE, atual segundo suplente de Eduardo Amorim, do PSDB), que prevê a destinação de recursos federais para revitalizar a calha do rio e preservar os empregos que dependem de suas águas.
O texto já foi aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos, com voto favorável do relator Otto Alencar (PSD-BA), e sugere ainda que os recursos acumulados com a privatização da Eletrobrás sejam destinados para um fundo de revitalização da bacia do São Francisco.
Além da proposta do legislativo, o governo de Michel Temer lançou em agosto de 2016 o “Plano Novo Chico”, que facilita a destinação de verba federal para ações nas áreas de meio ambiente, saneamento e infraestrutura na região da bacia. O plano também inclui criar novas áreas de proteção ambiental, melhorar o saneamento e aumentar a fiscalização.
A iniciativa não é inédita. Pelo contrário, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, a verba destinada para ações de revitalização da bacia durante o governo de Michel Temer fica abaixo da de 2015, ainda no mandato de Dilma Rousseff. A previsão para 2017 é, também, menor que a de 2016.
R$ 30 bilhões
até 2025 é o orçamento solicitado ao governo federal pelo CBHSF para garantir a revitalização completa da bacia
O CBHSF ainda advoga, segundo Medeiros, pela mudança na matriz energética da região — pede o uso de energia solar na região do semi-árido e mais turbinas de geração eólica, para fazer dos reservatórios, hoje dedicados exclusivamente às hidrelétricas, águas de uso misto. (nexojornal)

Reservatórios do Sul operam com 43,4% da capacidade

Segundo o ONS, submercado SE/CO opera abaixo de 20% da capacidade.
Os reservatórios do Sul diminuíram em 0,3% os níveis em relação ao dia anterior e se encontram com 43,4% da capacidade, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico relativos em 18/10/17. A energia armazenada no dia ficou em 8.729 MW mês e a energia afluente está em 65% da MLT. A usina de Passo Fundo opera com 81,68% da capacidade.
Na região Sudeste/Centro-Oeste houve diminuição de 0,3% e os reservatórios operam com 19,9% da capacidade. A energia armazenada está em 40.378 MW mês e a energia afluente em 66% da MLT. A usina de Furnas trabalha com 14,19% da capacidade e Nova Ponte, com 17,36%.
No submercado Nordeste os níveis recuaram em 0,2%, deixando os reservatórios com 7,4% da capacidade. A energia armazenada ficou em 3.859 MW mês no dia e a energia afluente está em 18% da média de longo termo armazenável acumulada no mês. A hidrelétrica Sobradinho apresenta 3,71% da sua capacidade.
No Norte do país os reservatórios abaixaram 0,4% para 24,8% da capacidade. A energia armazenada chegou a 3.737 MW mês e a ENA ficou em 51% da MLT. A hidrelétrica Tucuruí se encontra com 37,98% da capacidade. (sinenergia)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Crise econômica diminui geração de lixo

Crise econômica diminui geração de lixo pela primeira vez em 13 anos
A geração de lixo no Brasil reduziu 2,04% em 2016 na comparação com 2015, segundo panorama divulgado ontem (31) pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Foram gerados 78,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos no ano passado.
Carlos Silva Filho, presidente da Abrelpe, não atribuiu a redução do lixo à conscientização ambiental da população, mas à crise. “É a primeira vez que temos decréscimo de resíduos sólidos no Brasil desde 2003, fruto da crise econômica, que afetou diretamente o poder de compra da população e trouxe, como consequência, o menor descarte de resíduos sólidos.”
Outro aspecto negativo atribuído à recessão econômica foi o aumento do uso de lixões, com 2.976 ainda presentes em todo o país. Tiveram destinação inadequada, em 2016, 81 mil toneladas de lixo. O uso de lixões a céu aberto cresceu de 17,2% em 2015 para 17,4% no ano passado.
Os aterros controlados, que ainda existem no país, são semelhantes a lixões, por vezes cercados, com cobertura de terra para esconder os resíduos, mas sem captação de gás e chorume. Houve ligeiro aumento, passando de 24,1% em 2015 para 24,2% no ano passado. O tratamento de lixo ideal, em aterro sanitário, feito em ambiente confinado para reduzir o volume de resíduos conforme os anos, caiu de 58,7% para 58,4%.
Sete municípios, não revelados pelo panorama, abandonaram o uso de aterros sanitários e passaram a usar lixões, em razão da redução de receitas municipais. O custo do uso de aterro gira em torno de R$ 90 a R$ 100 por tonelada. “É uma economia burra, pois deixa de pagar o aterro, mas, automaticamente, vai contaminar o meio ambiente e a pessoas, vai pagar mais no Sistema Único de Saúde”, disse o presidente da Abrelpe.
Segundo o panorama, 96 milhões de pessoas terão a saúde afetada por contaminação dos lixões. “São doenças como alergias, infecções estomacais, doenças causadas por vetores que se proliferam no lixo como dengue, zika, chikungunya, câncer, pressão arterial. Bastante preocupante.”
A coleta seletiva no Brasil estava presente em 69,3% em 2015, e registrou ligeiro aumento em 2016, passando a 69,6%. Entre as regiões brasileiras, o Sul foi o que mais implementou coleta seletiva (89,8%), seguido pelo Sudeste (87,2%), Norte (58,4%), Nordeste (49,6%) e Centro-Oeste (43,3%). (ecodebate)

7 anos da PNRS: Como tirar o Brasil do lixo?

7 anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS): Como tirar o Brasil do lixo?
Política Nacional de Resíduos Sólidos: Como tirar o Brasil do lixo?

No último dia 02 de agosto completaram 7 anos da sanção da lei federal 12.305/10 que instituiu a PNRS – Política Nacional de Resíduos Sólidos, que por 20 anos tramitou no Congresso Nacional.
No último levantamento realizado pela ABRELPE – Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais – realizado entre 2014 e 2015 e publicado na edição de 2016 do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, talvez principal radiografia da gestão de resíduos sólidos no Brasil, verificou-se que o total de RSU – resíduos sólidos urbanos – o que, comumente, chamamos de lixo – gerado no Brasil aumentou 1,7%, de 78,6 milhões de toneladas para 79,9 milhões de toneladas, em um período em que a população brasileira cresceu 0,8% e a atividade econômica (PIB) retraiu 3,8%!!!
Mesmo com a queda no consumo deste período (2014-2015) houve um aumento na geração de lixo no País, contrariando expectativas de que com a queda no consumo cairia a produção de lixo. Considerando os números acima cada brasileiro gerou por dia um pouco mais de um quilo (1kg) de lixo por dia.
Mas é preciso considerar que a ABRELPE trabalha com os dados fornecidos pelas empresas públicas e privadas responsáveis pelos serviços de coleta e destinação de lixo comum e alguns resíduos especiais. Nesse computo ela não considera, obviamente, o lixo atirado pelas encostas, nos rios, nos oceanos. Também resíduos de construção civil, em grande parte aterrados irregularmente também não são computados. Também não entram nesse computo um lado positivo: os resíduos recicláveis descartados ou colocados nas ruas e coletados pelos catadores informais e que, corretamente, voltam à cadeia produtiva através da reciclagem. Por isso a média da quantidade de lixo ou resíduos sólidos em peso (quilos), gerados por dia por cada brasileiro ou brasileira é certamente muito mais que um quilo por dia. Mas é a média usada pelas empresas de coleta de lixo para suas operações. Uma média que vem crescendo. Há cerca de duas décadas quando se incrementaram as pesquisas sobre essa temática (resíduos sólidos), a média der de meio quilo per capita; ou seja, meio quilo por dia por pessoa.
Mas, a barbárie com que tratamos os recursos naturais terrenos – cada dia mais escassos porque ainda não descobrimos – e vai demorar, hein! – outra(s) Terra(s) para explorarmos – transformando-os em lixo, revela-se no fato de que ainda:
1) Cerca de 1/3 de todo lixo gerado no Brasil (30 milhões de toneladas) são descartados em lixões a céu aberto, colocando em risco população e meio ambiente;
2) Cerca de 90% do lixo descartado em lixões ou em aterro ou vala sanitária, poderia e deveria ser reaproveitado (desde que corretamente segregado na fone) pois cerca de 50 a 60% são resíduos orgânicos compostáveis, i.é, passíveis de, com tratamento adequado, se transformarem em fertilizantes que promovam a recuperação de nossos desgastados solos; e outros 30% são constituídos por materiais recicláveis feitos a base de papel, plástico, metal ou vidro que deveriam voltar à indústria pra reduzirmos o consumo de bens minerais cujos estoques naturais se esgotam em alguns em poucas décadas (como o petróleo) e outros em um, dois ou três séculos (cobre, bauxita, etc);
3) Os custos para coleta, destinação e operação de lixo nos aterros ou lixões são enormes, variando de acordo com circunstâncias locais, entre R$ 200,00 a R$ 500,00 a tonelada. Municípios com 200.000 habitantes, no Estado de São Paulo, gastam pelo menos R$ 12 milhões por ano com estes serviços. E, ainda, mesmo que dispondo em aterro sanitário, gastamos muito e de forma errada, pois a Política Nacional de Resíduos Sólidos, determina que só deve ir para aterro sanitário os ‘rejeitos’, i.é, aquele resíduo que por sua natureza não pode ser recuperado para reciclagem;
4) Gasta-se muito e mal, porque além de não reaproveitarmos recursos que podem faltar no futuro, criamos passivos ambientais (porque um aterro por melhor que seja administrado vai exigir monitoramento por muitas décadas) e ambientes poluídos com grandes restrições de uso;
5) Além do desperdício de recursos econômicos e naturais, perdemos a oportunidade de promover a educação de nossas comunidades para o exercício da cidadania ecológica: a fácil e até lúdica segregação dos resíduos em nossas casas para posterior reaproveitamento. Prática que, se exercida coletivamente, trará enormes e necessários benefícios a toda coletividade humana, biológica e planetária.
O que Precisamos Fazer?
1. Acabar com o lixo-livre
A Política Nacional de Resíduos Sólidos – lei federal 12.305/10, aprovada em agosto de 2010 e regulamentada pelo Decreto 7404/10 no dia 23 de dezembro de 2010 pelo Presidente Lula em cerimônia junto com catadores e moradores de rua que todo fim de ano é realizado na cidade de São Paulo – é uma boa receita para sairmos da barbárie que em praticamente todo o país se encontra a gestão dos resíduos sólidos.
Mas é preciso superarmos a inércia dos hábitos culturais e dos interesses econômicos vinculados a gestão do lixo no País. Como ocorre com a gestão de outros serviços públicos – de transporte, por exemplo – o setor de limpeza urbana é dominado por um oligopólio (pequeno conjunto de empresas) que constituem cartéis, que estão acomodados com um status quo que, em conjunto com a maioria da população, contentam-se (quando efetivamente conseguem) em manter a cidade limpa. Coletando o lixo da frente de nossas casas e afastando-os de nossas vistas para aterros ou rincões longínquos. À civilização moderna interessa a limpeza, estéril de preferência, e o lixo para debaixo do tapete da natureza.
Mas é tempo de transparência e os recursos tanto naturais como econômicos escasseiam. Precisamos acabar com a farra do lixo!!!
Sim, sim farra do lixo!!! Porque hoje, na prática – ao contrário do que acontece com outros serviços públicos básicos ofertados à sociedade como fornecimento de água, energia elétrica, transporte público – podemos gerar em nossas casas ou comércios qualquer quantidade de lixo, deixar do lado de fora da porta de nossas casas, – e de qualquer jeito, tudo misturado, desde que acondicionados em sacos de plásticos – que o ‘caminhão do lixo’ passa, leva embora e nós, aparentemente, não pagamos nada por isso.
Se eu sou ‘ecologicamente correto’ – como muita gente já é – e separo os recicláveis para entregar para cooperativa de catadores ou um catador autônomo, faço compostagem com os restos de alimentos e folhagens e coloco lixo para o serviço de coleta retirar, apenas uma vez por semana; e meu vizinho coloca todo dia 100 quilos de lixo na rua; com certeza eu estarei ajudando a pagar os custos exorbitantes e perdulários da falta de consciência ecológica de meu vizinho.
Quando alguns movimentos sociais reivindicam ‘passe-livre’ para todos os usuários do transporte público, grande parte da população acha que a proposta é radical e populista, argumentando que tudo tem custos que devem ser de alguma forma cobertos: “alguém tem que pagar a conta”. Eu acho que nossas cidades poderiam melhorar muito se trocássemos o ‘lixo-livre’ que temos hoje, por passe livre, cujos custos poderiam ser cobertos com um adicional ao preço da gasolina, porque, afinal, os grandes beneficiários do de um bom e gratuito serviço de transporte público seriam os que usam transporte individual que trafegariam em ruas com menos trânsito e engarrafamentos.
Ora, dirão muitos, esse sujeito está propondo criar a taxa ou tarifa de lixo!!1 Mais contas para o cidadão pagar!!! Ué, mas não somos nós que estamos pagando? É justo um pagar pelo desperdício e gastança alheia? Imagine que ‘maravilha’ seria se em vez de termos as ‘contas-de-água’ individualizadas como é hoje, fosse feita a medida apenas de toda água retirada do rio ou do poço e os custos de tratamento e serviços de fornecimento de água para cada um fossem divididos por igual para todos consumidores! O que vocês acham? O consumo de água diminuiria ou aumentaria? Imagine a farra que seria se o cidadão ou cidadã soubesse que tanto faz deixar a torneira aberta ou fechada que no fim do mês ele(a) vai pagar a mesma conta no fim do mês?
Pois é assim que acontece com os pedacinhos de nossa Terra que que tornamos inúteis para nós (é isso que é lixo, efetivamente) e jogamos fora para não serem reaproveitados e poluir nossos solos.
A cobrança pelos serviços de coleta, tratamento e disposição final de resíduos sólidos está prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos e precisa ser implementada. Sem medo e – fundamental – com participação popular INTENSIVA. Para não cair nas malhas da máfia do lixo! Todos serviço público tem que ter controle público efetivo e independente. Existem diferentes e muito simples formas de realizar essa cobrança. Aliada a um bom processo de sensibilização, educação e comunicação social ela poderia ser implantada com muito sucesso se os interesses econômicos aliados aos políticos não tornasse difícil, complexo e quase impossível o que é simples, necessário e de bom senso.
2. Botar a logística reversa para funcionar
A lógica utilitarista da produção industrial, que busca eficiência baseada apenas na maximização dos lucros, através da redução dos custos de produção (redução os custos com matéria-prima, equipamentos e mão-de-obra) e agregação de valor econômico aos produtos através de várias estratégias ente ela a do marketing; recebe altíssimo investimentos em pesquisa nas próprias empresas e em toda a institucionalidade acadêmica que no Brasil é predominantemente pública.
Pois é preciso que também nossas universidades e centros de pesquisa invistam pesadamente no desenvolvimento de tecnologias que incrementem a logística reversa, aquela que busca restituir valor à matéria-prima que foi usada, abusada e indevidamente descartada. É preciso pesquisa no desenvolvimentos de materiais que sejam facilmente recicláveis e para que isso aconteça é preciso proibir ou taxar fortemente – para cobrir os custos com proteção e recuperação ambiental – de produtos ou embalagens que não sejam reaproveitáveis ou recicláveis. Essa farra de privatizar os lucros (gerados na produção) e socializar os prejuízos gerados pela degradação ambiental também tem que acabar, para fazermos justiça socioambiental.
A Política Nacional de resíduos Sólidos prevê a logística reversa – já existente com relativo sucesso para resíduos de embalagens de agrotóxicos e pneus inservíveis – como um instrumento de gerenciamento dos resíduos sólidos, dando prioridade aos resíduos tóxicos. Os acordos setoriais que reúnem empresas e governo devem regular a gestão de cada tipo de resíduos.
Mas até agora, sete anos passados (e 20 de Congresso) apenas um acordo setorial foi estabelecido: o dos resíduos das lâmpadas fluorescentes de vapor de sódio, mercúrio e luz mista, através do Acordo Setorial (http://www.sinir.gov.br/documents/10180/23979/02+-+Acordo+Setorial+de+L%C3%A2mpadas.pdf/477cd170-4078-4ff0-a23a-9acf67bf523a) das empresas (produtoras e importadoras) firmado com o Governo Federal através do Ministério do Meio Ambiente publicado no Diário Oficial da União em 03 de março de 2015. Como prevê a PNRS os fabricantes e importadores devem arcar com os custos das operações de recolhimento, tratamento e destinação final dos resíduos (que logicamente serão repassados aos consumidores) e, mediante o princípio da responsabilidade compartilhada o consumidor deve entregar a lâmpada inservível a um posto de coleta que deverá ser um revendedor do produto.
Mas, como tudo foi acordado entre as empresas e sem efetiva participação social, o Acordo é – face ao tempo que os consumidores brasileiros conscientes, que acompanham as políticas de gestão de resíduos em países civilizados, esperam soluções – é vergonhoso em suas metas: propõe em cinco anos – até 2020 – prevê recolher para tratamento e reciclagem apenas 20% das lâmpadas colocadas no mercado a partir de 2012. Caso as metas não sejam cumpridas o que acontece? Nada!!! As empresas irão avaliar porque as metas não foram atingidas. Até o momento, agosto de 20, dois anos e meio após a publicação do Acordo, notícias veiculadas pela grande imprensa dão conta que apenas 5% das lâmpadas estão sendo devidamente recolhidas. Sobram lâmpadas fluorescentes tóxicas no ambiente, faltam consciências luminosas e acesas que pressionem pra que nossos empresários e gestores públicos tenham maior compromisso e respeito com a qualidade ambiental.
A infinidade de tipos de resíduos e sua crescente quantidade, exige intenso desenvolvimento de tecnologias de informação e aplicativos que facilitem a identificação, rastreabilidade, localização, disposição, coleta, armazenamento, transporte, tratamento e o reaproveitamento de toda sorte de resíduos sólidos. Nossas empresas e universidades devem dar mais atenção ao que está indo pra o lixo e que deveria, pelo contrário, continuarem a terem valor em nossas vidas.
3. Apoio às Catadoras e Catadores de Resíduos Recicláveis
Apesar da relevância que a PNRS dá à participação dos catadores e catadoras de recicláveis na gestão dos resíduos e dos incentivos que estabelece para que isso ocorra, ainda são muitos poucos municípios que contratam cooperativas de catadores para efetiva implementação de programas de coleta seletiva.
Uma tonelada de resíduos que deixa de ir para um aterro sanitário evita o gasto direto de cerca de R$ 300,00 com coleta, transporte e operação no aterro. Mais uns R$ 25,00 para construção, manutenção e monitoramento do aterro. Além disso essa tonelada de resíduos recicláveis podem gerar novos produtos (se for vidro é 1:1, ou seja, uma tonelada de resíduo de vidro irá gerar uma tonelada de garrafas de vidro), com significativas reduções de custos com energia elétrica e água. Parte desse custos economizados são utilizados no maior emprego de mão-de-obra, já que a reciclagem de materiais e intensiva em mão-de-obra. Mas isso é bom, porque gera emprego e renda. E para que a qualidade do reciclável seja boa é preciso investir na educação do gerador, para que ele descare seus resíduos de forma adequada.
Já em 2007, a Política Nacional de Saneamento, Lei Federal nª 11.445/o7 previu em seu último artigo a possibilidade do Poder Público contratar sem licitação pública cooperativa de catadores organizados para realização de coleta, tratamento e comercialização de resíduos recicláveis. Mas 10 anos passados ainda são poucos municípios que contratam os catadores para evitar que continuemos jogar recursos no lixo, poluindo nosso solo e deixamos de gerar renda para eliminação da miséria e pobreza, e deixamos de evitar o consumo de bens energéticos e mineiras que farão falta a nossos descendentes.
O Poder Público, especialmente os municípios, constitucionalmente responsáveis pela gestão da limpeza pública e da coleta e destinação do lixo urbano, perdem grande oportunidade suas cidades e suas populações ao não adotar as catadoras (normalmente são a maioria) e catadores como parceiros efetivos na política de limpeza urbana. Esse distanciamento revela o quanto o ‘stabilishment’ ainda está distante do dia-a-dia da cidadã e do cidadão comum e é manipulado (e manipula) por grandes corporações empresariais.
4. Planejar para Reduzir, Recuperar e Reciclar
A PNRS previu que União, Estados e Municípios devam elaborar seus Planos Integrados de Gestão de Resíduos Sólidos e estabeleceu um prazo, inicialmente até 2012, já prorrogado até 2014 e de 2014 a 2017, e agora já com projeto de lei aprovado pelo Senado Federal, aguardando aprovação na Câmara dos Deputados, que amplia os prazos de forma escalonada (de acordo com a população do município entre os anos de 2018 e 2021.
5. Acabar com o Lixo e a Corrupção e Não Jogar para Debaixo do Tapete
A metodologia para elaboração dos planos de gestão de resíduos sólidos prevista na PNFS exige a participação da sociedade me sua construção. Contudo, além de a grande maioria dos municípios não terem cumprido a tarefa de casa, os que o fizeram, muitos, mascararam os processos participativos com reuniões com poucos convidados e fotografias feitas de forma a parecer um número maior de participantes. O papel e o tapetão da natureza, aparentemente, aceitam qualquer coisa. Mas sempre haveremos um dia de nos defrontar com nosso lixo, nossos restos, nossos rastros.
A faxina moral que o Brasil precisa fazer para mitigar a corrupção – acabar é, sendo realistas, impossível – que suga relevantes recursos e energia para realizarmos nosso destino de uma nação rica, próspera e generosa com seu povo e todos os povos do Planeta, como se revela nosso território; é preciso, tanto de forma concreta como metafórica, deixar de enganação e auto enganações. A pior corrupção não está naqueles que roubam de forma ilegal, contrariando a lei. Pior é aquela feita de forma legal, aprovada por lei que é, em si, iníqua, corrupta e corruptora, porque contraria princípios morais universais e muitos até mesmo constitucionais. Ou permitir que em um país onde ainda milhões vivem miseravelmente em favelas ou em rincões desprovidos de saneamento, aceso a serviços de saúde, etc; existam pessoas que, seja no setor público ou no setor privado, ganhem salários dezenas, centenas e até milhares de vezes maior que outras, é condizente com sociedades democráticas, signatárias da Declaração dos Direitos Humanos? Ou cobrar impostos sobre salários a partir de acima de apenas R$ 2.000,00 e não cobrar NADA de lucros de milhões de reais, uma iniquidade aprovada e 1996 pelo governo FHC? É ou não iníqua a lei que permite que enquanto cobra-se impostos até sobre arroz e feijão consumidos no país, franquia que os lucros gerados por estrangeiros no Brasil também sejam remetidos ao exterior sem cobrar NADA impostos? E ainda assim temos muita sonegação de impostos no Brasil. E remunerar, farta e legalmente, os banqueiros, pelo dinheiro, nosso!!!, que largamos diariamente nos bancos, tornando, com essa operação do Banco Central, mais caro o dinheiro que eventualmente (e tragicamente) porventura tenhamos que emprestar dos bancos? Essa é a corrupção legal não anunciada pela grande e corrupta mídia comercial paga com o dinheiro das corrupções legais e ilegais.
E os salários inconstitucionais – porque pela Constituição Federal nenhum servidor público (e juízes e procuradores, é mister lembrar, são servidores públicos, ou deveriam sê-lo, né?) pode, ou poderia, ganhar acima do chamado teto constitucional que é o salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal, hoje por volta de R$ 36.000,00 – de magistrados, como Sérgio Moro, e promotores que chegam a R$ 60, 70, 90, às vezes, 100, 120 mil reais mensais? E, quase trinta anos passados, não há pressa – e, é claro, nem o STF cobra – do congresso nacional (atualmente ele é minúsculo mesmo!!) em regulamentar o item XI do artigo 37 da CF.
A sujeira que agora está sendo combatida – e deve ser combatida – com a prisão de grandes empreiteiros e diretores de grandes estatais, é aquela que interessa ser revelada, para que sujeiras, roubos, corrupções continuem, e novos e mais imundas e ‘lixentas’ corrupções sejam perpetradas contra nosso país e nosso povo como vemos acontecer com a entrega do petróleo do pré-sal; na possibilidade do aumento da compra de terras brasileiras por estrangeiros, etc.
Estamos esperando a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário usarem sua inteligência contra os cartéis e as máfias do transporte público e do lixo que todos sabemos – como sabíamos dos cartéis das empreiteiras – existem no país todo. Estamos esperando.
Enquanto isso continuamos aterrando dinheiro público e recursos naturais, criando passivos ambientais e sociais, riquezas e paraísos de supérfluos para poucos, dificuldades vitais para muitos.
Corrupção é também uma embalagem de vidro, metal, papel ou plástico misturada a um resto de comida já inservível, juntas destinadas ao lixo, daí para um lixão ou aterro. Fácil e devidamente segregados = por cada um de nós em nossas casas – deveriam gerar um bom condicionante (adub0) para o solo e algum novo produto ou nova embalagem industrial, gerando trabalho, renda e preservação ambiental. Mas, ao invés de sermos educados, preferimos usar parcos recursos públicos, carentes na saúde, educação e cultura públicas, para tornar mais ricas grandes e mafiosas corporações. De sobra contaminamos e degradamos o ambiente.
Quando, coletivamente, compreendermos que é preciso, com efetivo controle público, darmos absoluta transparência (que vá dos portais eletrônicos para nossas casas) à arrecadação e aos gastos públicos; como também aos resíduos sólidos que enterramos sem tal necessidade, estaremos, possivelmente, caminhando para tirar o Brasil do lixo em que estamos metidos. (ecodebate)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Período úmido está atrasado e final de 2018 já preocupa

Período úmido está atrasado e final de 2018 já preocupa, aponta Climatempo.
O período úmido de 2017/2018 não começou do ponto de vista técnico para os modelos meteorológicos. Até o momento há um atraso de cerca de 20 dias no seu início que é representado pela umidade da Amazônia avançando pelo Centro-Oeste do país. Até o momento, segundo as imagens do satélite Goes esse fator indica que há atraso. E a tendência é de que as chuvas deste período possam ficar abaixo da média histórica o que levanta dúvidas sobre as perspectivas de abastecimento para o segundo semestre de 2018.
De acordo com a meteorologista e diretora da Climatempo, Patrícia Madeira, essa métrica técnica deveria ter sido alcançada em 15 de outubro, o que não aconteceu. O pior indicativo é que medições e projeções do NOAAA, dos Estados Unidos, é de que as águas do pacífico indicam que a perspectiva é de que haja a ocorrência de La Niña em meados do ano que vem. Essa anomalia climática é marca pela redução de chuvas no Brasil enquanto o El Niño pelo efeito contrário. “Com isso a tendência de chuvas para o período úmido do ano que vem é de um novo atraso, o que traz preocupação até mesmo para questões de abastecimento”, afirmou a executiva em sua apresentação no 5º Fórum Nacional dos Consumidores Livres, evento realizado pelo Grupo CanalEnergia e que faz parte da 1ª edição do Energy Expo Forum, em São Paulo.
A estimativa preocupante deve-se ao fato de que a tendência de chuvas desse período úmido ficar abaixo da média. As projeções da Climatempo apontam para que os reservatórios alcancem ao final de março níveis abaixo do necessário para sua manutenção ao longo do ano. Patrícia afirmou que a estimativa é de que no Nordeste esse índice de armazenamento fique em 27%, em 35% no Sudeste, 51% no Sul e 78% no Norte, este sim o único que mostra certa tranquilidade.
O cenário hídrico brasileiro, lembrou a executiva, assemelha-se muito ao que o país viveu em 2012. Segundo seu relato, em 2010 houve dois anos de La Niña antes da crise naquele ano. Hoje, continuou, falta um driver da atmosfera quanto às anomalias que serão vistas no hemisfério sul. No ano passado houve El Niño, mas acontece que este evento não foi o suficiente para encher os reservatórios.
Em termos de chuvas para esse período úmido a tendência é de que as chuvas no sudeste possam chegar a partir de meados de novembro. Contudo, a estimativa é de que no geral não seja um ano de grandes volumes ao ponto de reverter o quadro atual que demandaria um volume muito acima da média para que o país recuperasse o índice de armazenamento. No geral o Nordeste continuará com problemas por conta da falta de umidade no solo e a irregularidade é que deverá marcar esse período, com pancadas, mas que podem ocorrer – ou não – no local necessário para o seu esperado replecionamento. (abinee)

Seca, a velha inimiga

Com a redução do apoio federal, os estados apostam na inovação para vencer a longa estiagem.

 A estiagem causa prejuízos bilionários
Situada na Chapada Diamantina, no Semiárido baiano, Itaberaba, com seus 65 mil habitantes, é um importante centro de abastecimento da região central da maior economia do Nordeste. Uma parceria entre técnicos e produtores transformou a zona rural do município no maior produtor estadual de abacaxi, com mais de 2 mil hectares de área plantada, 6 mil empregos diretos e indiretos e receita anual de 30 milhões de reais.
O abacaxi é destinado às feiras e aos pequenos supermercados baianos e parte dessa produção é vendida para São Paulo, o maior mercado consumidor. A mais longa estiagem da história, que persiste há cinco anos, tem alterado, no entanto, a dinâmica local, o que prejudica os agricultores familiares, reduz as plantações e aumenta os custos de produção com a aquisição de caminhões-pipa.
A menor oferta de abacaxi do tipo pérola provocou a redução do tráfego de caminhoneiros e carregadores na cidade. Resultado: a economia local sofre os efeitos da seca. “As vendas estão em queda, produtos como iogurtes e refrigerantes são trocados por outros mais baratos e de primeira necessidade, os hábitos mudaram com a seca”, afirma Florisvaldo Oliveira, gestor de uma central de negócios que reúne 20 supermercados de Itaberaba.
A união dos empresários foi a saída para sobreviver. O grupo compartilha despesas de marketing e usa a escala para comprar produtos em grandes quantidades a preços mais baixos.
No Agreste de Pernambuco, Toritama ganhou espaço nas últimas duas décadas ao se consolidar como um dos principais polos de produção de jeans no Brasil, atrás apenas de São Paulo. A seca mudou a paisagem: no lugar de ônibus com turistas em busca de peças, hoje se veem caminhões-pipa a abastecer a população e as confecções, que precisam do insumo para a lavagem desse tecido.
Mais de 20 lavanderias fecharam as portas nos últimos dois anos, a produção caiu 60% e os custos aumentaram. Mas a indústria da seca prosperou. Alguns empresários investiram na compra de caminhões-pipa e na logística de distribuição de água. A esperança é de que uma barragem, construída em caráter emergencial pelo governo, possa melhorar a situação.
“Se tivermos água a cada 15 dias, que era o normal, poderemos nos organizar”, afirma Edilson Tavares, prefeito da cidade. Um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios aponta que, entre 2013 e 2015, a estiagem causou um prejuízo de 103,5 bilhões de reais na região, cifra que tende a crescer, pois a seca continua.
Nos próximos meses, principalmente a partir de novembro, quando se inicia o período das chuvas, a atenção estará em São Pedro. Chuvas acima da média serão fundamentais para a região começar a regularizar seus reservatórios. No curto prazo, campanhas de racionalização estão em vigor em várias capitais, enquanto no interior dos estados o drama é mais intenso. O sinal amarelo está aceso. Para João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, a crise é resultado da falta de chuvas combinada à de planejamento, gestão e a influências políticas.
 Barragem hidrelétrica
Há dez anos, o açude de Boqueirão de Cabaças, na Paraíba, atendia à cidade de Campina Grande e outros oito municípios ao redor. Hoje são 18 cidades atendidas. A represa de Castanhão, no Ceará, que opera abaixo de 10% da sua capacidade, tem um volume de 6,7 bilhões m3 por dia.
Com pouco mais de 35 bilhões m3 de água, volume que poderia encher por 14 vezes a Baía de Guanabara, a represa de Sobradinho, na Bahia, opera com cerca de 10% de sua capacidade e corre o risco de ingressar no volume morto em novembro.
No Ceará, foi construído um canal de interligação entre a represa de Castanhão e o distrito industrial do Porto do Pecém para ampliar o abastecimento para as indústrias instaladas, como a Companhia Siderúrgica do Pecém, cujo consumo se iguala ao de uma cidade de 90 mil habitantes. “Com a piora da crise hídrica, o conflito sobre o uso da água e seus fins crescerá”, observa Suassuna.
A transposição do Rio São Francisco, principal obra federal para abastecer o Nordeste, ainda não foi concluída. O Eixo Leste, entregue em abril, vai beneficiar 4,5 milhões de habitantes em 168 municípios que sofrem com o longo período de seca e estiagem nos estados de Pernambuco e Paraíba.
O Eixo Norte, que ampliará o abastecimento no Ceará e no Rio Grande do Norte, está em construção e deverá ser inaugurado em 2018. O Canal do Sertão Baiano (transposição do Eixo Sul do São Francisco), com 312 quilômetros de extensão, de Juazeiro à Barragem de São José do Jacuípe, reivindicação principalmente do governo da Bahia, teve seu estudo de viabilidade econômica e técnica concluído em 2013, mas faltam recursos para a obra.
“Bancamos o projeto, que está em Brasília há alguns anos”, afirma Bruno Dauster, secretário da Casa Civil da Bahia. Para que a água possa ampliar o abastecimento da população, faltam obras de quilômetros de adutoras dos estados, boa parte delas financiada com recursos da União.
Um exemplo está em Pernambuco, que conta com a construção dos pouco mais de 1,3 mil quilômetros de adutoras que farão o projeto de transposição do São Francisco atender 2 milhões de moradores. A primeira etapa, que recebe 90% de recursos da União e 10% do governo estadual, prevê investimentos de R$ 1,4 bilhão. Hoje, com a conclusão do Eixo Leste, são atendidos pouco mais de 35 mil pernambucanos em apenas um município.
Faltam ainda 580 milhões de reais para o término da primeira etapa da obra, prevista para ser entregue nos próximos meses e que poderia ampliar o abastecimento para 17 cidades e 800 mil pernambucanos. “Há um risco de paralisação. Essa primeira etapa é essencial para a construção da tubulação e o tratamento de água, só assim poderemos deslanchar a segunda fase, que ampliaria o abastecimento para 45 cidades e para 2 milhões de pernambucanos”, destaca Roberto Tavares, presidente da Compesa, companhia estadual que atua em Pernambuco.
O governo estadual tenta liberar 40 milhões de reais para o projeto. Dos 560 quilômetros de adutoras na primeira fase, 360 quilômetros estão enterrados.
Ramal da transposição
A construção da segunda etapa é pauta de conversas entre os governos federal e de Pernambuco e mostra os desafios que, mesmo após sua conclusão, terão de ser transpostos. Tavares lembra o pacto assinado em 2005 entre a União, Paraíba, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.
Os estados comprometiam-se a pagar pela água e recebiam algumas contrapartidas. No caso de Pernambuco, a construção das adutoras do Agreste, financiada em sua maioria por recursos do governo federal. “A conclusão é essencial para melhorar o abastecimento hídrico e a transposição fazer sentido para a população”, acrescenta Tavares.
Os termos do pacto têm outro peso. A União estuda lançar uma PPP para a operação e manutenção das obras de transposição do Rio São Francisco. Boa parte dos municípios tem baixa renda per capita e baixo Índice de Desenvolvimento Humano, o que exigiria a existência de subsídios cruzados. “É preciso discutir o modelo a ser aplicado e os preços”, aponta Tavares.
O pagamento da água pelos estados também dependeria da execução do acordo de 2005, ou seja, da conclusão das obras federais e daquelas tocadas pelos governos locais que contam com financiamento da União. Isso pode abrir um debate entre os governadores e Brasília no momento em que a crise fiscal aperta as contas de ambos os lados.
Operar e manter as obras de transposição, depois de concluídas, será um desafio. “Fazer a obra é fácil, manter e operar é o mais importante”, explica Tavares. Na Paraíba, técnicos detectaram em agosto que 20 milhões de metros cúbicos de água não chegaram aos reservatórios. Foram perdidos no caminho, provavelmente captados por fazendas próximas à obra.
“O abastecimento humano é prioridade, mas isso mostra os desafios que a transposição terá. Quem irá geri-la será obrigado a fazê-lo com critérios e indicadores, o que exigirá profissionalismo”, afirma João Abner, assessor da Caern, empresa estadual do Rio Grande do Norte. Segundo suas estimativas, dos 9 milhões m3 por segundo retirados em Itaparica, apenas entre 600 mil e 1,3 milhão têm chegado à represa do Boqueirão. Culpa das infiltrações, da evaporação exacerbada e dos furtos.
Há outro desafio: a interdependência com o setor elétrico. A vazão dos reservatórios das hidrelétricas de Sobradinho (BA) e Xingó (AL), no Rio São Francisco, que chegou a 1,3 milhão m3 por segundo, hoje está na metade. A redução dos volumes teria sido mais rápida se, em vez de priorizar a geração de energia das hidrelétricas, que demandam maior volume de água para rodar suas turbinas, se optasse pelo abastecimento da população.
A mudança da matriz elétrica aumentará o eventual conflito. Entre 2013 e 2018, é prevista a entrada de 20 mil megawatts de capacidade hídrica no sistema. Destes, 99% serão produzidos em usinas sem reservatórios. Os benefícios de investimentos do setor para outros segmentos, como navegação de rios, a captação de água ou a irrigação em bacias, ficarão mais restritos.
Os estados movimentam-se para reduzir os efeitos da crise. No Maranhão, o governo estruturou um programa para distribuição de milhares de cisternas para escolas rurais e agricultores familiares. Um dos desafios foi criar sistemas de armazenamento que pudessem ser instalados em residências cobertas em sua maioria por telhados de palha, o que impediu que fossem usadas caixas-d’água nos tetos.
No Maranhão, o governo estruturou um programa para distribuição de milhares de cisternas para escolas rurais e agricultores familiares.
“Tivemos de desenvolver uma nova tecnologia que pudesse ser usada no interior”, diz Adelmo Soares, secretário de Agricultura Familiar do Maranhão. Outro programa fortalecido é o Mais Feira, que distribui um kit composto de barracas, balanças, jalecos, caixa de isopor, gaiola plástica para aves e treinamento de comercialização e higiene. Estimulam-se os municípios a realizar feiras de alimentos. A cidade de Santa Filomena realizou sua quarta feira neste ano. Anteriormente, os habitantes tinham de se deslocar às comunidades vizinhas para fazer compras.
Desde 2015, o governo do Ceará investiu mais de R$ 1 bilhão em obras para evitar racionamento de água na Região Metropolitana de Fortaleza. Um dos principais projetos é o Cinturão das Águas, que vai permitir a transferência de volumes excedentes da transposição do São Francisco para o Açude Castanhão e o Açude Orós, melhorando o abastecimento para 3,5 milhões de habitantes da capital e do entorno.
Com grande parte de recursos do governo federal, a obra, cujo investimento é estimado em R$ 2 bilhões e vai se interligar com o Eixo Norte da transposição, deverá ser concluída nos próximos meses. O secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira, destacou, em evento recente, a necessidade de obras de grande porte para a convivência com a seca.
“Infelizmente, a chuva desses últimos meses caiu de forma irregular, mais na Região Centro-Norte e menos para o Sul do Ceará. Os maiores açudes não tiveram recarga significativa. O sistema metropolitano aumentou de 14% para 49%, garantindo o abastecimento até o segundo semestre de 2018 na Região Metropolitana de Fortaleza, mas a situação é crítica ainda.”
Outra ação é a perfuração de poços no interior. Nos últimos dois anos, foram abertos perto de 3,8 mil poços para beneficiar famílias em zonas rurais e urbanas no interior. Muitas cidades e distritos, de até 30 mil habitantes, hoje têm sido abastecidos com poços profundos. Novas máquinas, que poderão perfurar profundidades de até 400 metros, devem chegar até outubro, além de uma frota de três caminhões.
A meta do governo cearense é perfurar cerca de 1,8 mil poços até o fim do ano. Outra novidade foi o lançamento de um edital de PPP para a construção de uma estação de dessalinização de água do mar para a Região Metropolitana. O projeto, o maior do tipo no País, deve ser erguido em Mucuripe ou Pecém e é estimado em mais de 500 milhões de reais.
A Bahia avança com obras em duas barragens. A do Rio Colônia, em Itapé, no sul do estado, tem previsão de entrega até o fim do ano. Com isso, aumenta a garantia do abastecimento de água para 350 mil habitantes de Itabuna. A barragem do Catolé, que será responsável pelo abastecimento da região de Vitória da Conquista (sudoeste), terceiro maior município baiano e que sofre com racionamento de água, teve seu projeto aprovado pelo Ministério das Cidades. O empreendimento deve ficar pronto até o fim da década. (cartacapital)