quinta-feira, 15 de abril de 2010

Adequação ecológica

Adequação ecológica é a única forma de garantir a sustentabilidade.
Baseada nas lições que teve com o ambientalista José Lutzenberger, falecido em 2002, a jornalista Lilian Dreyer alerta que “o planeta, sem a interferência humana, rapidamente recuperaria seus equilíbrios. Mas os humanos, sem os equilíbrios do planeta, rapidamente perderão seu futuro. Ou, na melhor das hipóteses (talvez na pior), perderão o que entendemos como vida civilizada”. Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ela defende que “hoje qualquer leigo pode atestar, porque é visível a olho nu, que a biodiversidade está em redução acelerada, e que isso é consequência direta do modelo de desenvolvimento econômico que começou a tornar-se global por volta da metade do século passado”. Jornalista, formada pela UFRGS, e escritora, Lilian é diretora da Vidicom Edições, com atuação na área de produção audiovisual e desenvolvimento cultural. Vinculada ao cooperativismo e ecologia, atuou no Conselho Educativo da Cooperativa Ecológica Coolméia, de Porto Alegre, e, em 1996, assumiu o cargo de presidente do Conselho de Administração, permanecendo na função (eletiva e não-remunerada) até junho de 1999. É autora de, entre outros, Sinfonia Inacabada – A Vida de José Lutzenberger (Porto Alegre: Vidicom Audiovisuais Edições, 2004) e, junto com Maria Elena Johannpeter, O Quinto Poder- Consciência Social de uma Nação (Porto Alegre: L&PM, 2008). IHU On-Line – O que Lutzenberger ensinou de mais relevante em relação à biodiversidade? Qual seu maior legado quando o assunto é a preservação da diversidade das espécies? Lilian Dreyer – Mesmo tendo editado três de seus livros e escrito sua biografia, mal me atrevo a responder a essa questão. Lutzenberger tinha uma capacidade prodigiosa de perceber conexões, e tentou como pôde levar seus companheiros de espécie a percebê-las também. Ele foi um dos primeiros ecólogos de projeção mundial a insistir, incansavelmente, na urgência de compreendermos que os processos da natureza se complementam uns aos outros e que cada espécie, mesmo a mais localizada ou “insignificante”, desempenha um papel importante na manutenção do equilíbrio desse sistema. Por que essa compreensão seria urgente? Porque o equilíbrio é muito delicado, e porque os humanos interferem nele com uma tecnologia poderosa – e bem pouco sábia. Toda vez que desestabilizamos uma espécie, toda vez que interferimos em ecossistemas e biomas cuja funcionalidade ainda nem compreendemos, acabamos por causar transtornos que se acumulam e que acabarão por alcançar dimensões planetárias. Um exemplo? Já faz quase quarenta anos que Lutzenberger e um punhado de outros visionários começaram a alertar para uma perigosa alteração no clima da Terra – e, a propósito, com as informações de que dispunha até próximo do ano de 2002, quando morreu, ele se alinhava entre os que tinham dúvidas sobre se a Terra estaria caminhando para um aquecimento ou para um novo ciclo de resfriamento, mas tinha certeza de que, qualquer que fosse a tendência natural, estávamos exercendo sobre ela uma pressão que em nenhuma das hipóteses traria resultados favoráveis para nós. Nós, quem? Quem sai prejudicado por esses desequilíbrios impostos à natureza? O planeta Terra? Lutzenberger bem pouco se preocupava com o futuro do planeta. “A Terra tem muito tempo”, ele costumava dizer. O planeta, sem a interferência humana, rapidamente recuperaria seus equilíbrios. Mas os humanos, sem os equilíbrios do planeta, rapidamente perderão seu futuro. Ou, na melhor das hipóteses (talvez na pior), perderão o que entendemos como vida civilizada. IHU On-Line – A biodiversidade está mesmo se reduzindo como resultado da sociedade capitalista e consumista, ou esse é apenas um discurso midiático, e a biodiversidade se altera naturalmente, dentro do ciclo natural da vida? Lilian Dreyer – A biodiversidade se altera naturalmente ao longo do tempo? É claro que sim. Mas hoje ela não está apenas se alterando, muito menos por causa de sua própria dinâmica. Hoje qualquer leigo pode atestar, porque é visível a olho nu, que a biodiversidade está em redução acelerada, e que isso é consequência direta do modelo de desenvolvimento econômico que começou a tornar-se global por volta da metade do século passado. Eu mesma posso afirmar que, quando era criança, existiam, em meu ambiente, mais córregos e matas, maior número e variedade de peixes, pássaros e sapos, e que hoje encontro no meu ambiente muito mais lixo, plásticos e poluentes, e a ameaça, antes inexistente, de dengue e febre amarela. Não estou dizendo que a industrialização e a tecnologia não trouxeram benefícios, estou apenas constatando que a relação existente entre esses dados é autoexplicativa. IHU On-Line – Quais as implicações da abundância da biodiversidade brasileira para os outros setores da nossa sociedade, como a economia, por exemplo? Lilian Dreyer – A biodiversidade do território brasileiro ainda é tão espetacular que só pode despertar admiração e, provavelmente, cobiça entre aqueles que entendem o seu valor. É uma lástima que, até hoje, em praticamente nenhum nível da administração pública do nosso país, nem no imaginário da população, essa riqueza seja em primeiro lugar reverenciada e, em segundo, vista como um incomparável trunfo. Com poucas exceções, ainda falamos da nossa natureza como algo que atrapalha o progresso econômico, algo que deve ser arredado ou então explorado até a exaustão. Entretanto, no dizer de Lutzenberger, a pobreza não será erradicada pelo nosso modelo de progresso. A pobreza é causada pelo nosso modelo de progresso. IHU On-Line – É possível falarmos em uma outra economia, que tome em consideração a preservação da biodiversidade e o desenvolvimento sustentável? Lilian Dreyer – Não só é possível como indispensável. É o tema do livro póstumo de Lutzenberger, que acaba de ser lançado. Chama-se Garimpo ou Gestão – Crítica Ecológica ao Pensamento Econômico . Ele começa por restabelecer a noção de que a Economia é um aspecto parcial da Ecologia, de que a atividade humana é, na verdade, apenas uma parte dos “negócios da Natureza”. Para ele, o PIB, como hoje o medimos, é um engodo, porque não faz contas completas, não leva em conta o depauperamento da biosfera e suas consequências, seu impacto sobre as contas públicas. Em função disso, uma nação pode ter a impressão de que está mais rica, quando, na verdade, ficou mais pobre. Deveríamos então estagnar, parar o desenvolvimento? Não, deveríamos deslocar o foco, em vez de avanço quantitativo, buscar avanço qualitativo. O livro explora essa visão em detalhes. Lutzenberger sustenta que, com o uso inteligente da tecnologia de que hoje dispomos, a maior parte dos estragos que causamos poderia ser facilmente evitada, sem que isso significasse privações. Na verdade, diz ele, “a maioria das pessoas poderia divertir-se muito mais”. IHU On-Line – Qual é o maior legado da Cooperativa Coolméia em termos de construir uma trajetória de respeito à biodiversidade no Rio Grande do Sul? Lilian Dreyer – Acredito que existe uma afinidade natural entre Ecologia e Cooperativismo. Como nas sociedades cooperativas o alvo não é o lucro, mas o atendimento de necessidades, é lógico que elas acabem se interessando por modelos de produção e consumo eficientes sob o ponto de vista ecológico. A adequação ecológica é a única forma de garantir a tal da sustentabilidade, de garantir que, ao longo do tempo, as necessidades da comunidade humana continuem sendo atendidas. A Coolméia surgiu desta percepção, numa época em que eram muito atuantes, no Rio Grande do Sul, grupos visionários, no melhor sentido da palavra. Mas, entre a possibilidade e a realidade, existe um hiato que só se resolve na medida em que as pessoas se resolvem. No meu modo de ver, a Coolméia sofreu muito por ser pioneira, em especial, por ter de tocar com corações e mentes do século XX uma visão para o século XXI. Ainda assim, apenas a cooperativa como empresa desapareceu. Sua função se cumpriu, sua influência persiste. Ela demonstrou que há interesse e viabilidade nesses novos modelos de convivência da sociedade humana com o conjunto da natureza, modelos em que as necessidades humanas são atendidas e, ao mesmo tempo, a biodiversidade encontra condições de se manter e de continuarem evoluindo.

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