quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Torrentes e desastres naturais

Foi publicado pelo Portal EcoDebate, em 18/01/2001, um artigo de minha autoria falando sobre florestas e deslizamentos de encostas, inspirado na tragédia que se abateu sobre a região da Serra fluminense. Disse, naquela oportunidade, que tudo começou quando as chuvas fortes provocaram o escorregamento de grandes volumes de terra de morros, mesmo que cobertos de florestas. Expliquei a origem e a formação dos deslizamentos, mas não deu para fazer, no mesmo artigo, uma discussão um pouco mais detalhada dos mecanismos que se seguiram aos escorregamentos e que promoveram todos aqueles estragos mostrados pelas redes de televisão, pelos jornais e pelas revistas. Imagens é que não faltaram para expressar o montante dos estragos. Estivemos, na verdade, diante de fenômenos naturais conhecidos por torrentes. Por isso estou de volta para falar sobre elas.
Em primeiro lugar, dois conceitos:
1) Torrente é uma enxurrada que corre em grandes volumes durante tempestades, com violência e transportando grandes volumes de materiais sólidos.
2) Área torrencial é uma pequena bacia hidrográfica com conformação e constituição propícias à formação de torrentes.
A torrente tem uma constituição que a torna facilmente adaptada às condições encontradas nas regiões de relevos acentuados, com grotas (pequenas bacias hidrográficas) de encostas íngremes e vales onde correm córregos permanentes ou efêmeros com acentuadas declividades. A Figura mostra um esquema típico de área torrencial, ou seja, grotas em forma de pera, com saídas estreitas. Quanto mais arredondadas, mais perigosas se tornam, pois as enxurradas (linhas sinuosas em azul) provenientes das encostas chegam quase ao mesmo tempo no trecho do córrego, entre os pontos 1 e 2, no exemplo da Figura. Se não houver deslizamentos e as encostas estiverem protegidas com vegetação, as enxurradas chegarão ao fundo do vale trazendo pouco material sólido, o córrego subirá de nível e poderá provocar inundações, principalmente onde houver estreitamento, como entre as linhas AB e CD. Pela definição acima, não seria uma torrente. Mas se houver deslizamentos, como os que ocorreram em profusão na Região da Serra fluminense, as enxurradas das encostas trarão um grande volume de terra, misturada com troncos de árvores, galhos e folhas, se as encostas estiverem cobertas de florestas. A partir daí, vão ocorrendo momentâneos represamentos e rompimentos, aumentando cada vez mais a massa de lama que se movimenta na unidade de tempo. Essas massas passarão a ter energia suficiente para derrubar tudo que estiver em seus caminhos. Derrubarão barrancos, casas, pontes, matas ciliares e quaisquer outros obstáculos. Tudo agravado se o córrego apresentar declividade acima de 5%, como é comum em tais situações. Serão as torrentes em atividade e é melhor não ficar em suas rotas.

As torrentes são compostas de três partes: a bacia de captação, que está representada pela área acima da linha AB, da Figura; o canal de escoamento, entre as linhas AB e CD; e o cone de deposição ou de dejeção, abaixo da linha CD. A bacia de captação alimenta a torrente, o canal transporta tudo e, ao chegar às partes mais baixas, com a queda da declividade, a capacidade de transporte cai e começa a deposição do material retirado acima. Na bacia de captação os danos são provocados pela retirada e arraste de materiais, no canal de escoamento a maior ação é provocada pela violência da massa arrastada e, no cone de deposição, pelo aterramento dos obstáculos (casas, ruas etc.).
Quando a chuva é muito intensa, acima de 50 litros por metro quadrado e por hora, e mantém essa intensidade por mais de duas horas, pode acontecer que essa duração seja maior do que o tempo que as enxurradas formadas nas extremidades da bacia de captação levam para chegar à região da linha AB, por exemplo. Se isso acontecer, toda a bacia de captação já estará contribuindo para os volumes que entram no canal de escoamento e a chuva ainda estará sustentando o sistema. Hidrologicamente, será o pior dos mundos.
As áreas torrenciais estão presentes tanto nas cidades como nos campos. Nas cidades, ou nos campos aos seus redores, as torrentes têm maior poder de destruição, pela presença de maior densidade de casas e ruas. Funcionam como se fossem uma grande bomba enterrada, mas que o homem, de tanto futricar, acaba um dia provocando a sua explosão.
As áreas torrenciais estão muito presentes na paisagem brasileira e, por isso, A Hidráulica Torrencial, ensinada em vários países, deveria fazer parte do currículo de vários profissionais relacionados com engenharia e planejamento de uso da terra no Brasil. Sem profissionais qualificados e sem tecnologias apropriadas, ficará difícil evitar que sistemas naturais se transformem em tragédias humanas. (Ecodebate)

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