quarta-feira, 13 de abril de 2011

Difícil prever dimensão final da tragédia

Fukushima: Especialistas acham difícil prever dimensão final da tragédia
Acidente na usina nuclear de Fukushima permenece rodeado de mistério
Chernobyl, União Soviética, 26 de abril de 1986, 1h23 pelo horário local. O reator 4 da usina nuclear sofre um catastrófico aumento de potência e o núcleo explode várias vezes, liberando gás xenônio, metade da carga de iodo-131 e de césio-137 e pelo menos 5% do material radioativo restante. Os 50 mil habitantes de Pripyat são retirados às pressas, transformando-a em uma cidade-fantasma. Uma nuvem de radiação — 100 vezes maior que a das bombas de Hiroshima e Nagasaki — espalha-se sobre a Ucrânia, a Bielorrússia, a Rússia e sobre parte da Europa e da Escandinávia. Nos anos seguintes, 4 mil pessoas desenvolvem câncer de tireoide, inclusive a engenheira Natalia Manzurova, que se viu obrigada a trabalhar na descontaminação da área (leia a entrevista). Reportagem de Rodrigo Craveiro, no Correio Braziliense.
Fukushima, Japão, 11 de março de 2011, 14h46. Um terremoto de magnitude 9 na escala Richter provoca um tsunami devastador, que mata 27 mil pessoas e danifica quatro dos seis reatores da usina nuclear de Fukushima Daiichi. Três explosões nos prédios da central atômica levam ao vazamento de radioatividade na atmosfera. Especialistas temem que o combustível do núcleo do reator 2 tenha sofrido derretimento completo. Altos níveis de césio-137, iodo-131 e plutônio são detectados na água. Ainda se desconhece o impacto do acidente sobre a saúde humana. No entanto, a população num raio de 20 km foi removida às pressas. Quem vive entre 20 km e 30 km de distância da usina recebeu o conselho de deixar a região e se afastar ainda mais.
Enquanto Chernobyl ocupa o nível 7 — o máximo na Escala Internacional de Evento Nuclear (Ines, pela sigla em inglês) —, Fukushima recebeu a classificação de nível 6. Iouli Andreev também atuou na tentativa de descontaminar Chernobyl e, após o acidente, foi diretor científico do serviço de emergência nuclear russa Spetsatom. Em entrevista ao Correio, ele explica que o fato de a informação sobre Fukushima ser vaga e fragmentada torna quase impossível comparar os dois desastres. “Toda a radiação de Chernobyl foi liberada durante as duas primeiras semanas após a explosão. Em Fukushima, a radioatividade ainda é expelida e se desconhece a quantidade final”, comenta. Segundo Iouli, o padrão comum de ambos os acidentes é a tentativa de esconder a situação real do público e dos especialistas estrangeiros.
Na semana passada, o governo japonês divulgou que a quantidade de iodo radioativo na água em torno da usina de Fukushima superava em 5 milhões o limite legal. Iouli considera a medida “uma complicada tentativa de mascarar números reais”. “Até agora, a Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco) não forneceu dados sobre a distribuição de estrôncio, plutônio e outros radionucleídeos na área contaminada. Ninguém vai beber a água do mar. Os limites legais devem ser aplicados ao ar, à água encanada, aos alimentos e à radiação ambiental”, conclui o especialista.
Pior
Nos últimos dias, Natalia Mironova causou polêmica ao garantir que o incidente em Fukushima é muito pior do que o de Chernobyl. “Iodo radioativo, estrôncio, plutônio e trítio têm sido descarregados na atmosfera, por meio da evaporação da água do mar usada para cobrir os reatores e os depósitos de combustível nuclear gasto”, explica a presidente do Movimento para Segurança Nuclear da Rússia. Mironova lembra que em Fukushima houve vazamento de água radioativa para o oceano. “Ao cobrir a terra, a vegetação e os mananciais, a radiação foi incluída imediatamente na cadeia alimentar. O ar, a água potável, os vegetais e os frutos do mar estão contaminados”, alerta.
Mironova admite que cada acidente é único, dependente da combinação de fatores e da paisagem natural ao redor. De acordo com a engenheira termodinâmica e ativista antinuclear, o Japão precisa lidar com quatro reatores fora de controle, enquanto o problema em Chernobyl se restringia a apenas um. “Os reatores de Fukushima continuam expelindo fumaça. O processo em Chernobyl durou duas semanas”, compara. A especialista aconselha que toda a contaminação na província japonesa seja mapeada, e não apenas modelada por computador, a fim de se conhecer os danos reais. Ela reconhece a insuficiência de informações sobre o que ocorreu em Fukushima. “Em Chernobyl, década após década, as estimativas sobre os danos causados pelo desastre multiplicaram de 10 para 100 vezes”, sustenta. A russa defende uma análise criteriosa sobre o impacto na economia japonesa e na esfera dos suprimentos — finanças, alimentos, transporte, água potável, medicina e gasolina. E adverte: “As ambições nucleares destruíram a União Soviética enquanto Estado. Veremos o que ocorrerá ao Japão”.
Em Chernobyl, Iouli jamais pôde concluir as tarefas iniciadas 25 anos atrás. “Era parte de meu trabalho desenvolver os métodos de descontaminação do solo, dos reservatórios de água, dos prédios e das florestas”, relata. Até hoje, porém, a chamada Zona Chernobyl permanece contaminada.
“Era apenas mais um trabalho”
Natalia Manzurova chegou a Prypiat (atual Ucrânia) em abril de 1986. Então com 35 anos, a engenheira especialista em ecologia e radiação cumpria ordens de Moscou. Nos quatro anos e meio seguintes, atuaria como um dos 800 mil liquidadores — termo usado para se referir ao profissional responsável pela limpeza da usina nuclear de Chernobyl e pela construção do sarcófago do reator 4. Em entrevista exclusiva ao Correio, por telefone, ela contou que não imaginava o risco que correria durante o trabalho. A radioatividade deixou-lhe várias sequelas e transformou-a em uma ativista contrária à energia atômica. A sobrevivente do pior acidente nuclear da história alerta que o desastre na usina de Fukushima já se compara ao de Chernobyl.
Como a senhora enfrentou o medo da radiação, enquanto trabalhava na limpeza da área de Chernobyl?
Quando fui convocada a fazer esse trabalho, era apenas mais um trabalho. Eu fui até lá como se fosse um médico se preparando para uma intervenção cirúrgica. Não conhecíamos a proporção do acidente. A situação não estava clara quando cheguei a Chernobyl. No início, não sabíamos que havia vazamento de radiação.
Que sequelas a senhora sofreu ante a exposição excessiva à radioatividade?
Eu sofri uma deficiência no sistema imunológico, que não está funcionando bem. Também desenvolvi uma aberração cromossômica. Por causa do excesso de radiação, o DNA e os cromossomos sofreram muitos danos. Quando eu tinha 40 anos, descobri um tumor e precisei extrair a tireoide. Eu não conheço nenhum outro liquidador que tenha sobrevivido ao acidente nuclear sem apresentar todos os tipos de danos causados pela radiação. Quando olho para os jovens liquidadores de Fukushima, eu me identifico com eles.
Na sua opinião, existe o risco de Fukushima se tornar pior que Chernobyl?
Nós já temos um acidente que repete Chernobyl. Quando vejo os liquidadores de Fukushima, vejo jovens, assim como na Ucrânia. Também temos populações removidas, que sofrem profundamente com as circunstâncias do evento. São pessoas que não sabem como agir e não sabem se houve o impacto sobre o meio ambiente ou sobre elas mesmas. Os radionucleídeos descarregados de Fukushima atingiram a água e o meio ambiente, enquanto em Chernobyl eles se concentraram mais no solo. Em Fukushima, a radioatividade atinge cada vez mais fundo o oceano e o solo. A burocracia nuclear, a indústria nuclear, era muito bem organizada em Chernobyl.
De que modo o mundo deve lidar com a energia nuclear? Qual é a receita para reduzir riscos?
Não existe uma solução para garantir a segurança da energia nuclear. O que se pode fazer é aplicar dinheiro em pesquisas com energias alternativas. (EcoDebate)

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