terça-feira, 11 de outubro de 2011

Quem acreditaria em algo tão incômodo’

Mudança climática. ‘Quem acreditaria em algo tão incômodo’
O especialista Clive Hamilton, do Centro de Filosofia Aplicada de Canberra, Austrália, esteve em La Plata para o III Congresso Internacional sobre Mudança Climática. Em conversa com o Página/12, descreveu os interesses que impedem avanços para impedir a mudança climática.
A entrevista é de Pedro Lipcovich e está publicada no jornal argentino Página/12, 15-08-2011.
“Quem acreditaria em algo tão incômodo como a mudança climática? Sobretudo, quando há poderosos lobbies cujo trabalho consiste em desacreditar a questão”. Sobre esta pergunta, o pesquisador Clive Hamilton, professor de Ética Pública na Austrália, elabora uma dura e até cética perspectiva do problema político, ético e sociológico que considera central. Hamilton não aceita o fato de que os países desenvolvidos possam transferir sua responsabilidade aos emergentes, já que “não se trata só do comportamento atual, mas do comportamento histórico” na emissão de gases de efeito estufa. Mas observa que “os políticos que se negam a agir adquiriram mais força que nunca”, referindo-se a pressões de setores ultraconservadores como o Tea Party nos Estados Unidos. O prestigioso acadêmico ofereceu uma das conferências centrais no III Congresso Internacional sobre Mudança Climática e Desenvolvimento Sustentável, organizado pela Universidade Nacional de La Plata, e conversou com o Página/12.
“Contamos com uma extensa evidência científica; sabemos o que devemos fazer: a pergunta é por que não o fazemos. As decisões sobre mudança climática já não são uma questão científica, mas política e sociológica: por que resistimos à verdade da mudança climática”, perguntou Clive Hamilton, e respondeu: “Quem acreditaria em algo tão incômodo? Para todos é mais confortável não acreditar. O que dizem os climatólogos é desconcertante, atemorizante. E todos recorremos a mecanismos para reduzir o impacto emocional das provas científicas”.
“Mas também – acrescentou – há forças políticas poderosas que reforçam este não querer acreditar. Está documentada a ação do lobby que, especialmente nos Estados Unidos, é promovido pelas empresas de combustíveis fósseis: não se trata apenas de influir sobre os governos, mas também sobre os coletivos sociais”.
* Há antecedentes de um acordo internacional como aquele que se postula como necessário para frear a mudança climática? – perguntou Página/12.
É difícil encontrar um fato análogo. Talvez os tratados construídos no marco da ONU sobre a preservação da Antártida ou do espaço exterior, ou os tratados de redução de armamento nuclear. Mas esta é uma empresa 10 vezes mais complicada que qualquer uma daquelas.
* Também neste marco se coloca o conflito entre países desenvolvidos e em desenvolvimento…
A maior falência da ordem mundial desde a Segunda Guerra Mundial é a que tiveram os países ricos para diminuir a emissão de gases de efeito estufa. Na ordem da mudança climática também se coloca uma injustiça profunda entre países. Os países ricos deveriam ter agido antes. E a questão deve ser considerada em termos históricos. Hoje a China supera os Estados Unidos na emissão de gases de efeito estufa, mas, historicamente, a emissão dos Estados Unidos é muito maior. E ainda hoje, dada a diferença de população, a emissão per capita chinesa não ultrapassa a quarta ou quinta parte da emissão dos Estados Unidos: cada norte-americano é responsável pela mesma emissão de quatro ou cinco chineses.
* Se incidem fatores econômicos, políticos e psicossociais tão poderosos, como você dizia, que perspectivas há de que se pode chegar a um acordo frutífero?
A situação não é boa. Nos Estados Unidos, as políticas sobre o clima estão retrocedendo. Enquanto a evidência científica se acumula e se acumula, a aceitação pública da evidência diminui. Há muito tempo venho pensando que nesse país haverá uma tomada de consciência séria apenas quando começar a haver mais e mais norte-americanos mortos por eventos catastróficos decorrentes da mudança climática.
* Sua resposta transmite ceticismo?
Sim. É que os atores políticos que se negam a agir contra a mudança climática adquiriram mais força do que nunca. Por exemplo, John McCain, destacado político republicano, nas décadas de 1990 e começo da década de 2000, defendia a necessidade de agir, e agora a coloca em dúvida: está obedecendo às pressões do movimento Tea Party. Há falhas sérias na liderança. Dito de outra maneira: no mundo há muitos covardes. (EcoDebate)

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