quarta-feira, 1 de junho de 2016

A destruição da Mata Atlântica

“A floresta precede os povos. E o deserto os segue” - Chateaubriand
Na chegada dos Portugueses ao Brasil, a primeira vítima (o pecado original) foi uma árvore derrubada para a construção da cruz que serviu de símbolo para a primeira missa, rezada por Frei Henrique de Coimbra, no dia 26 de abril de 1500, um domingo, na praia da Coroa Vermelha, em Santa Cruz de Cabrália, no litoral sul da Bahia. Muitas outras árvores foram abatidas posteriormente para o comércio do Pau-Brasil, enquanto o bioma como um todo ia definhando e desaparecendo com o progresso da nova civilização luso-brasileira.
Antes da chegada de Pedro Álvares Cabral (ver vídeo do Porta dos Fundos), a Mata Atlântica cobria cerca de 1,3 milhão de quilômetros quadrados (km²) do território nacional, abarcando todo o litoral do país entre o Chuí, no Rio Grande do Sul, ao Piauí, além de se espalhar pelo interior até partes do Mato Grosso do Sul e Goiás.
Nos primeiros séculos da colonização lusitana houve o genocídio da população indígena e, ao longo do período, aconteceu o repetitivo e prolongado “estupro coletivo seguido de morte” da floresta virgem. Atualmente restam apenas cerca de 163 mil km², ou pouco mais de 12%, da floresta original. E esses remanescentes estão espalhados em áreas de difícil acesso e sem a existência de corredores ecológicos para facilitar o intercâmbio da biodiversidade e a mobilidade dos poucos animais sobreviventes. A Mata Atlântica, em sua grandeza, é o bioma mais devastado da História do país.
A Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgaram, na semana passada, os novos dados do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, no período de 2014 a 2015. Por incrível que pareça, o desmatamento continua a ferro e fogo. O estudo apontou o desmatamento de 18.433 hectares (ha), ou 184 Km², de remanescentes florestais nos 17 Estados da Mata Atlântica no período de 2014 a 2015, um aumento de 1% em relação ao período anterior (2013-2014).
O relatório mostra que o estado de Minas Gerais, que vinha de dois anos de queda nos níveis de desmatamento, voltou a liderar o desmatamento no país, com decréscimo de 7.702 ha (alta de 37% na perda da floresta). A vice-liderança ficou com a Bahia, com 3.997 ha desmatados, 14% a menos do que o período anterior. Já o Piauí, campeão de desmatamento entre 2013 e 2014, ocupa agora o terceiro lugar, após reduzir o desmatamento em 48%, caindo de 5.626 ha para 2.926 ha.
A Fundação SOS Mata Atlântica mostra que a exemplo dos últimos anos, esses três estados se destacam no ranking por conta do desmatamento identificado nos limites do Cerrado. O Piauí abriga o município Alvorada do Gurguéia, responsável pela maior área desmatada entre todas as cidades do Brasil. Entre 2014 e 2015, foi identificado decremento florestal de 1.972 hectares no local. Os municípios baianos de Baianópolis (824 ha) e Brejolândia (498 ha) vêm logo atrás, seguidos pelas cidades mineiras de Curral de Dentro (492 ha) e Jequitinhonha (370 ha), localizadas na região conhecida como triângulo do desmatamento, que abriga ainda Águas Vermelhas (338 ha), Ponto dos Volantes (208 ha) e Pedra Azul (73).
O gráfico abaixo indica que a taxa de desflorestamento anual da Mata Atlântica está caindo, mas está longe de chegar ao desmatamento zero, sendo que o ideal seria o desmatamento negativo, ou seja, que houvesse um aumento da cobertura florestal. No ritmo atual, o Brasil deve chegar ao desflorestamento zero somente quando todo o bioma for destruído!
O Brasil e o mundo possuem uma grande dívida com a Mata Atlântica e precisam reparar o sofrimento que causaram a milhões de milhões de seres inocentes e indefesos da biodiversidade existentes nos 1,3 milhão de km² da área original. Além dos cortes, a perda de cobertura vegetal está relacionada com a degradação das nascentes dos rios e com o assoreamento e perda dos recursos hídricos. O desastre da Samarco/Vale/BHP que provocou tantos danos em Mariana, Minas Gerais, e em todo o rio Doce é mais um elemento que se soma à catástrofe secular que atinge toda a Mata Atlântica. Os rios São Francisco e Paraíba do Sul são outros grandes rios que sofrem com e conjuntamente à destruição da Mata Atlântica.
Evidentemente existem alternativas para reverter o assassinato em massa da Mata Atlântica. Uma iniciativa interessante ocorre com o projeto Olhos D’água, do Instituto Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado, que busca recuperar áreas da Mata Atlântica, concomitantemente à recuperação das nascentes. O trabalho de recuperação hídrico-florestal promovido pelo Instituto começou na fazenda da família do fotógrafo, onde a terra foi arrasada para garantir a sobrevivência e o progresso da família Salgado. Há 16 anos, a mata não existia e no local só tinha pasto.
Numa atitude autocrítica e afinada com os ideais ecocêntricos, Sebastião Salgado conseguiu recuperar 700 hectares de Mata Atlântica. O local fica em Aimorés, em Minas Gerais, perto da divisa do Espírito Santo. Ele havia viajado o mundo inteiro fotografando e, quando voltou ao local de nascimento, comprou a fazenda do pai e junto com a esposa, decidiu reflorestar o local. Agora, o Instituto espalha o conhecimento, fornece materiais e financia o projeto para toda a bacia do Rio Doce. Este é um exemplo que pode ser copiado e ampliado, inclusive como alternativa ao desastre da Samarco/Vale/BHP de 2015.
Outra iniciativa é a criação do corredor ecológico Rio das Velhas-Paraopeba, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A Associação Comunitária Promutuca defende a manutenção e ampliação de uma faixa de mata em torno do Ribeirão do Mutuca ligando os importantes remanescentes florestais separados pelas atividades antrópicas dos dois grandes rios que cortam a RMBH. Isto propiciaria a livre mobilidade e o deslocamento entre as espécies animais e a permuta genética entre a fauna e a flora da região. Seria uma forma de reverter, pelo menos em parte, a perda da biodiversidade e o empobrecimento ambiental desta rica área de montanha e fonte de inúmeras nascentes dos afluentes da bacia do rio São Francisco.
O estado de Minas Gerais, grande explorador de minérios, foi o líder do desmatamento do que restou da Mata Atlântica, no período 2014-2015. Mas os exemplos do Instituto Terra e do Promutuca mostram que o estado pode se tornar o líder do reflorestamento, da recuperação das nascentes e da revitalização dos rios. Quem sabe, em um futuro próximo, o Estado mude de nome e ao invés de Minas Gerais (MG), passe a se chamar Matas Gerais (MG)! (ecodebate)

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