domingo, 25 de dezembro de 2016

Rio debaixo d’água e o fim da praia de Copacabana

O aquecimento global é uma realidade cada vez mais impactante. Uma elevação de 50 cm nas águas do mar terá efeitos danosos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que é a maior e mais complexa aglomeração urbana da zona costeira brasileira, com mais de 12 milhões de habitantes. Os problemas já se acumulam e derrubada de um trecho da ciclovia Tim Maia, no dia 21/04/2016, é apenas um exemplo.

Mas se as previsões mais recentes dos cientistas se confirmarem e o nível do mar subir entre 1,8 metros (6 pés) a 2,1 metros (7 pés) até o ano 2100 (Alves, 30/11/2016), então grande parte da cidade do Rio de Janeiro vai ficar debaixo d’água e as áreas de areia das principais praias das cidades – como Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, etc. – vão desaparecer (primeiro na maré alta e depois na maré baixa) engolidas pelas ondas e o avanço das águas salgadas.

A ocupação demoeconômica da cidade do Rio de Janeiro se propagou pelas três baixadas litorâneas: a baixada da Guanabara, a de Jacarepaguá e a de Sepetiba, que são delimitadas pelas elevações de três maciços costeiros: o maciço da Tijuca, o da Pedra Branca e o do Gericinó-Medanha. A combinação de montanhas com a elevação do nível do mar torna as áreas baixas da cidade muito vulneráveis às inundações e enchentes. Se o nível do mar subir não haverá como escoar as águas das chuvas e tempestades.

A região oeste da cidade do Rio de Janeiro deve ser a mais afetada pelos resultados das mudanças climáticas. Toda a Baia de Sepetiba e área que vai de Grumari até a Barra da Tijuca deve ficar coberta de d’água (na preia-mar e nas marés de sigízia) se o nível do mar subir mais do que 1 metro. Os prejuízos econômicos serão colossais.

Assim, grande parte da zona norte da cidade do Rio de Janeiro também pode ficar debaixo d’água e a enorme poluição da Baia da Guanabara vai se voltar contra a população mais pobre e os poluidores. A ilha do Fundão, que abriga a UFRJ, e até os aeroportos do Santos Dumont e do Galeão também devem ficar debaixo d’água ou ter suas operações paralisadas nos momentos de ressaca e elevação das ondas.

As cidades de Duque de Caxias, Guapimirim e São Gonçalo (com milhões de habitantes) serão as mais afetadas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ). Todo o sistema de transporte pode ficar paralisado e as rodovias ficarem fora de circulação afetando a mobilidade urbana e afetando gravemente as atividades econômicas da RMRJ.

É claro que este processo de naufrágio de amplas áreas da região metropolitana e o fim das principais praias da “cidade maravilhosa” vai acontecer de forma lenta, contínua e progressiva. Primeiro o mar deve ocupar as partes de areia das praias, inviabilizando a sua utilização nos momentos de maré alta. Quanto mais subir o nível do mar, mais difícil será o escoamento das águas da chuva nos momentos de temporais que são frequentes no verão carioca.

Mas os desastres já estão acontecendo. Duas pessoas morreram quando um trecho da ciclovia Tim Maia foi derrubado pela fúria das ondas, no feriado de Tiradentes, em 21/04/16. Em 29/10/16 a translação do mar destruiu um trecho do calçadão do Leblon e invadiu a avenida Delfim Moreira, levando areia e entulho até a calçada dos prédios, gerando prejuízos nas garagens dos edifícios de um dos bairros mais ricos da cidade. A estrutura do Mirante do Leblon foi atingida e danificada.

Nos momentos de turbulência climática (ventos fortes, ressaca e chuva forte), a inundação das principais ruas da cidade podem paralisar todas as atividades econômicas e causar grande prejuízo patrimonial e humano. Mas em vez de se preparar para os riscos futuros, a Prefeitura do Rio apostou na gentrificação do Porto Maravilha. A maior parte das obras olímpicas e dos bilhões de Reais gastos na revitalização do centro do Rio poderá ficar debaixo d’água. O futuro do Museu do Amanhã pode ficar submerso.
A praia de Copacabana é um símbolo da cidade do Rio de Janeiro. A “Princesinha do Mar” pode ficar inundada nos momentos de maré alta, até meados do século XXI e desaparecer totalmente até o início do século XXII. Para evitar a inundação da avenida Atlântica pode ser que a prefeitura erga um muro para conter o avanço do mar. Mas isto vai significar a ruptura entre a cidade e o oceano, mostrando uma cidade apartada e afastada de sua base natural. Seria um “apartheid geográfico”, com a população sem a sua maior e mais democrática área de lazer.
O fim da praia de Copacabana significaria dizer que os cariocas não terão o “maior réveillon do mundo”. O Rio de Janeiro é uma cidade que depende do setor de serviços e que conta com o fluxo de turistas para manter a sua economia. Portanto, sem as praias do Leme ao Pontal a “Cidade Maravilhosa” pode sucumbir e terá grande dificuldade para se reinventar.
Estudo da Firjan, mostra que o tempo que as pessoas perdem atualmente para ir e vir do trabalho na Região Metropolitana do Rio de Janeiro gera um prejuízo de R$ 24,3 bilhões. O levantamento considera como o custo do deslocamento de três milhões de moradores que levam mais de 30 minutos no trajeto de ida e volta para o trabalho afeta a produção. Em média, cada um gasta 2 horas e 21 minutos por dia. Imaginem a imobilidade urbana quando a avenida Brasil, o aterro do Flamengo, a avenida Atlântica, avenida Lúcio Costa e tantas outras vias ficarem debaixo d’água!
Este é o cenário mais provável se o aquecimento global não for revertido e se o mundo não for além das propostas aprovadas no Acordo de Paris, da COP-21. Artigo de Nicola Jones, no site e360 Yale, coloca com clareza as tendências mais recentes. Ela começa dizendo que 99% do gelo de água doce do planeta está preso nas calotas da Antártica e da Groenlândia e que o degelo, especialmente desta última, poderá fazer o nível do mar aumentar 1,8 metros (6 pés) no século XXI e muito mais no século XXII. Isto é suficiente para colocar o litoral do Rio debaixo d’água.
Mas antes mesmo do aumento significativo do nível do mar, as inundações tendem a ficar cada vez mais constante, como nesta foto de enchente em frente ao Copacabana Palace.
Poucos dias antes das Olimpíadas de 2016, a ressaca invadiu o calçadão de Copacabana, como pode ser visto nas fotos e nos links dos vídeos das referências abaixo. Esta situação, no futuro, tenderá a se repetir várias vezes por ano e poderá chegar a algumas vezes por mês dependendo do ritmo de subida do mar. Seria o começo do fim.
No atual ritmo, grandes cidades do mundo, e até nações insulares, vão desaparecer ou serem amplamente afetadas. Assim, é bom aproveitar o réveillon de 2016, mas tendo consciência de que a existência do réveillon das futuras gerações, em Copacabana, pode estar com os dias contados e em grande perigo. (ecodebate)

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