quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Diferenças regionais entre fecundidade e expectativa de vida no Brasil

No Brasil, há uma clara diferença regional: regiões mais desenvolvidas (Sul, Sudeste) têm menor fecundidade e maior expectativa de vida, enquanto Norte e Nordeste mostram o inverso, com taxas de natalidade mais altas e menor longevidade, refletindo desigualdades socioeconômicas, acesso à saúde e educação, com Roraima sendo destaque pela alta fecundidade e Maranhão pela baixa expectativa de vida. Essas tendências seguem a transição demográfica brasileira, onde a queda na mortalidade infantil leva à redução de nascimentos e ao envelhecimento populacional.

Expectativa de Vida Regional (2024/2025)

Mais Alta ( Maior Longevidade): Sudeste (~78,6 anos), Sul (~78,1 anos).

Média: Centro-Oeste (~77,2 anos).

Mais Baixa ( Menor Longevidade): Nordeste (~74,8 anos).

Destaque (UF): Maranhão (menor, ~69,7 anos).

Fecundidade Regional (Taxa de Fecundidade Total - TFT)

Mais Baixa: Sudeste (1,41), Sul (1,50).

Média/Alta: Centro-Oeste (1,64), Nordeste (1,60), Norte (1,89).

Destaque (UF): Roraima (mais alta, ~2,19 filhos por mulher), Rio de Janeiro (mais baixa).

Relação e Causas das Diferenças

Transição Demográfica: A queda da mortalidade infantil permite que famílias tenham menos filhos, aumentando a expectativa de vida e impulsionando o desenvolvimento.

Desenvolvimento Socioeconômico: Regiões com melhor infraestrutura, acesso à saúde, educação e maior urbanização (Sul/Sudeste) apresentam menor fecundidade e maior longevidade.

Fatores Culturais e Sociais: A maior inserção da mulher no mercado de trabalho, o acesso a métodos contraceptivos e o custo de vida urbano reduzem a fecundidade.

Envelhecimento Diferenciado: Regiões como Sul e Sudeste estão mais envelhecidas (mais idosos que jovens), enquanto Norte/Nordeste (como Roraima) possuem estruturas etárias mais jovens, indicando estágios diferentes da transição demográfica.

Em resumo, as regiões mais desenvolvidas do Brasil avançaram mais na queda da fecundidade e no aumento da expectativa de vida, enquanto Norte e Nordeste ainda enfrentam desafios socioeconômicos que resultam em taxas de natalidade mais altas e longevidade menor, apesar de também estarem no processo de transição.

A queda da fecundidade e o aumento da longevidade impulsionam o desenvolvimento econômico e a melhoria do bem-estar social.

No Brasil, em meados do século passado, a Taxa de Fecundidade Total (TFT) era superior a 6 filhos por mulher e a expectativa de vida ao nascer (Eo) estava em torno de 50 anos. No ano 2000, a TFT estava em 2,25 filhos por mulher e a Eo em 69,5 anos. Em 2024, o Brasil registrou uma TFT de cerca de 1,6 filho por mulher e uma Eo de 76 anos.

As duas taxas seguiram trajetórias inversas, com a redução da taxa de fecundidade incentivando o aumento da expectativa de vida. Esta relação inversa ocorre tanto no Brasil, quanto no plano regional. De modo geral, as maiores expectativas de vida ao nascer ocorrem nas Unidades da Federação (UFs) com as menores taxas de fecundidade. Em 2024, o Distrito Federal (DF) possuía a segunda menor taxa de fecundidade e a maior expectativa de vida ao nascer, enquanto Roraima (RR) possuía a maior TFT e a menor Expectativa de vida (Eo).

Taxa de fecundidade total (TFT) e Expectativa de vida ao nascer (Eo)

Brasil e Unidades da Federação (UFs): 2024

Brasil/UFs

Eo

TFT

RJ

75,6

1,38

DF

79,7

1,44

SP

77,0

1,46

MG

77,5

1,46

BA

75,8

1,46

RN

77,8

1,47

RS

77,2

1,47

CE

77,3

1,50

SE

76,4

1,52

PE

75,5

1,54

PR

76,8

1,55

Brasil

76,6

1,55

GO

76,8

1,56

SC

78,3

1,57

PI

77,0

1,59

PB

76,8

1,59

MA

75,6

1,66

ES

77,2

1,68

RO

76,0

1,72

PA

76,3

1,72

AL

74,4

1,75

TO

76,7

1,80

MS

75,4

1,81

AC

75,9

1,87

AP

74,3

1,94

MT

75,7

1,95

AM

75,5

1,96

RR

74,3

2,26

Fonte: IBGE, projeções populacionais (revisão 2024)

O gráfico abaixo apresenta a correlação entre a Taxa de Fecundidade Total (TFT) e a Expectativa de Vida ao nascer (Eo), para as Unidades da Federação do Brasil, em 2024. A reta de tendência linear entre as duas variáveis indica que 40,5% do aumento da expectativa de vida ao nascer está diretamente associado aos valores mais baixos da TFT. Existe uma correlação negativa entre as duas variáveis da transição demográfica, com o aumento da expectativa de vida ocorrendo de forma sincrônica à redução das taxas de fecundidade.

Relação entre a Taxa de fecundidade total (TFT) e Expectativa de vida ao nascer (Eo)

Unidades da Federação (UFs): 2024

Fonte: IBGE, projeções populacionais (revisão 2024)

Essas duas variáveis são componentes essenciais da dinâmica populacional: a queda da fecundidade reduz o ritmo de crescimento da população e o aumento da longevidade amplia o tempo médio de vida das pessoas. As Unidades da Federação mais avançadas na transição demográfica são aquelas com maiores Índices de Envelhecimento.

Quando a mortalidade infantil cai, as famílias tendem a ter menos filhos, pois a sobrevivência das crianças se torna mais provável. Com menos filhos, as pessoas e as famílias podem investir mais em saúde, educação e bem-estar, o que eleva a expectativa de vida.

A queda da fecundidade e o aumento da longevidade impulsionam o desenvolvimento econômico e a melhoria do bem-estar social. (ecodebate)

Crise climática reduziu a renda nos EUA em 12%

Crise climática reduziu a renda nos EUA em 12%, calcula estudo.
Presidente dos EUA, Donald Trump e Elon Musk posam na plateia de luta do UFC em Nova York.

Enquanto Trump nega, o clima cobra caro no bolso: renda nos EUA já encolheu 12%, aponta estudo.

Análise de dados mostra que mudanças médias de temperatura afetam produtividade, preços e comércio nos EUA.

O custo atual da mudança climática

No entanto, quando ele levou em conta a persistência da mudança climática ano após ano, seu alcance nacional e as conexões entre as economias regionais, a perda de renda saltou para cerca de 12%. Essa perda é comparável a uma grande mudança na política nacional.

Novo estudo revela que o impacto econômico do aquecimento global não é mais uma projeção, mas uma realidade manifestada em perdas de receita por mudanças de temperatura.

Economistas alertam que o custo real está na persistência e na forma como as mudanças climáticas rotineiras se propagam pela cadeia de produção e comércio. Entenda por que medir o que já está acontecendo é crucial para a resiliência e a adaptação no Brasil.

Por décadas, economistas se concentraram em como a mudança climática impactará o futuro. No entanto, uma nova pesquisa de Derek Lemoine, Professor de Economia na Eller College of Management, Universidade do Arizona, demonstra que o impacto já está presente: a mudança climática reduziu a renda dos Estados Unidos em cerca de 12%.

Lemoine, um dos codiretores do Consórcio para Negócios Ambientalmente Resilientes da universidade, enfatiza que, a menos que se possa medir o que a mudança climática já está custando, projetar o futuro se torna “quase inútil”.
O custo atual da mudança climática

Tradicionalmente, muitas pesquisas focavam apenas em mudanças climáticas locais e de curto prazo. Segundo o modelo de Lemoine, quando consideradas isoladamente, essas mudanças tinham um impacto negativo na renda dos EUA de menos de 1%. No entanto, quando ele levou em conta a persistência da mudança climática ano após ano, seu alcance nacional e as conexões entre as economias regionais, a perda de renda saltou para cerca de 12%. Essa perda é comparável a uma grande mudança na política nacional.

O estudo baseou-se na simulação de modelos climáticos que comparavam o mundo com e sem emissões humanas, combinando isso com dados de renda pessoal per capita em nível municipal abrangendo de 1969 a 2019. Ao analisar como a renda mudou historicamente com mais dias quentes e menos dias frios, tanto localmente quanto em todo o país, Lemoine conseguiu obter uma imagem mais detalhada dos efeitos econômicos das mudanças nos padrões de temperatura.

O efeito dominó: por que o clima local afeta a renda nacional

É crucial medir o impacto da mudança climática em nível nacional, e não apenas local. Lemoine explica que os efeitos se tornam muito maiores porque a mudança climática opera por meio de toda a economia.

O verdadeiro custo reside em como as alterações de temperatura em todo o país se propagam através dos preços e do comércio. Quando todas as regiões são afetadas simultaneamente, as consequências econômicas se somam rapidamente. Por exemplo, as temperaturas na Califórnia ou Iowa podem influenciar a renda no Arizona, demonstrando que essas conexões entre estados transformam mudanças climáticas locais em impactos econômicos de alcance nacional.

Essas mudanças rotineiras de temperatura – como mais dias quentes e menos dias frios – afetam a renda pessoal, a produtividade, os preços, o comércio regional e a demanda por energia, fatores que influenciam os custos empresariais.

É importante notar que o estudo de Lemoine não mede o impacto econômico de eventos climáticos extremos, como inundações, incêndios florestais ou furacões, mas sim o efeito das mudanças rotineiras de temperatura no rendimento pessoal.

A importância da medição para a política e os negócios

Abordar a mudança climática como um fator econômico contínuo, em vez de focar apenas em projeções futuras, pode remodelar a forma como as empresas gerenciam o cenário financeiro. O reconhecimento das perdas econômicas que já ocorreram reforça a importância do planejamento de resiliência para as empresas. Este planejamento pode orientar decisões importantes, desde a escolha da localização de negócios até a cobertura de seguros.

Lemoine sugere que ter uma visão clara de como a mudança climática está afetando a economia agora permite que os formuladores de políticas tomem decisões mais informadas sobre onde o financiamento de adaptação é mais necessário e quais indústrias e regiões estão sendo mais atingidas. O autor acredita que agências poderiam usar uma estrutura como a sua para publicar regularmente o custo econômico da mudança climática, de maneira semelhante ao rastreamento de outros indicadores econômicos importantes, como emprego ou inflação.
Impacto da mudança climática na economia é 6 vezes pior que o esperado

Resiliência e adaptação: o contexto brasileiro

Embora o estudo de Lemoine se concentre nos EUA, a metodologia e a conclusão sobre a propagação dos custos econômicos são de relevância global. No Brasil, a população e a economia enfrentam a intensidade crescente de eventos como enchentes, longas secas e ondas de calor.

As perdas patrimoniais decorrentes de eventos climáticos extremos – como a destruição de moradias, infraestrutura e plantações causadas por inundações ou estiagens – somam-se aos custos de produtividade gerados pelas alterações de temperatura rotineiras, como as observadas na pesquisa.

O entendimento de que a temperatura afeta a produtividade, os preços e o comércio regional é fundamental para que o Brasil desenvolva estratégias. Ao saber o que já está acontecendo “no local”, é possível decidir onde direcionar os recursos de adaptação. Publicar regularmente o custo econômico da mudança climática pode ajudar a identificar onde o financiamento de adaptação é mais necessário para regiões atingidas por desastres ou indústrias críticas afetadas pela persistência de temperaturas elevadas.

A medição contínua e institucionalizada desses custos, proposta pelo pesquisador, oferece uma maneira nova e baseada em dados para entender os danos climáticos à medida que ocorrem. Essa visão em tempo real é vital para planejar a resiliência contra as múltiplas ameaças que o clima impõe à renda e ao emprego, desde as flutuações de temperatura que afetam a produção agrícola até os eventos extremos que causam perdas patrimoniais devastadoras.
Região de Wall Street, em Nova York, concentra as sedes de diversas instituições financeiras

Estados nos EUA avançam com leis que cobram das empresas petrolíferas pagamento dos 'estragos' da crise climática.

Mesmo sob pressão judicial e com oposição do governo Trump, Vermont e Nova York lideram movimento que já inspira outros estados a propor leis que exigem que as empresas de petróleo e gás paguem pelos custos de desastres e adaptação relacionados ao clima (ecodebate)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

La Niña é confirmado até fev/26 e entra de vez na rota do agro

La Niña é confirmado até fevereiro de 2026 e entra de vez na rota do agro.
A confirmação de que o La Niña pode persistir até fevereiro/26 tem gerado preocupações entre os produtores rurais brasileiros, já que o fenômeno climático pode impactar a produção agrícola do país, sobretudo a soja e o milho de segunda safra.

Embora a previsão de um La Niña curto e fraco sugira efeitos climáticos menos intensos, o padrão de chuva tradicional pode não se concretizar, criando incertezas para o setor, avalia Willians Bini, meteorologista e chefe de novos negócios da Metos Brasil.

“O problema é que, por ser curta e fraca, a atmosfera pode não ter tempo suficiente para se ajustar a essa condição climática global, o que pode impedir que os efeitos tradicionais ocorram como esperado – ou seja, com menos chuva no sul e mais no norte e nordeste. Esse é um dos principais pontos a ser considerado”, afirma Bini.

Em 04/12/25 a Organização Meteorológica Mundial (OMM) anunciou uma probabilidade de 55% de que um La Niña fraco se concretize a partir deste mês até fevereiro do próximo ano.

Em meados de novembro/25, os indicadores oceânicos e atmosféricos mostraram condições limítrofes de La Niña e a OMM acrescentou que há uma chance de 65% a 75% de que condições neutras prevaleçam de janeiro a março e fevereiro a abril/26.

Embora o padrão La Niña envolva o resfriamento temporário das temperaturas no Oceano Pacífico central e oriental, muitas regiões ainda devem registrar temperaturas mais altas que o normal, o que aumenta as chances de enchentes e secas, impactando as colheitas, segundo a entidade.

O La Niña é um evento climático caracterizado pelo resfriamento das temperaturas no Oceano Pacífico tropical, o que provoca uma série de efeitos climáticos, como chuvas mais intensas na Ásia e condições mais secas em algumas áreas da América do Sul.

O clima incerto já está no radar dos agricultores. Um levantamento da consultoria agrícola AgRural mostra que o plantio da soja no Brasil atingiu 89%, um volume ligeiramente inferior aos 91% registrados no mesmo período do ano passado.

Segundo a consultoria, embora as chuvas tenham melhorado no Cerrado, o padrão irregular das precipitações ainda resulta em pontos de estiagem, com destaque para Mato Grosso, Goiás, Maranhão e Piauí.

No Rio Grande do Sul, que iniciou a safra com excesso de chuvas, a redução da umidade também entra no radar dos produtores, mas “ainda não se pode falar em perdas de produtividade”, diz a AgRural.

Há também o impacto da inflação. Na avaliação do BTG, a inflação dos alimentos deve voltar a acelerar no próximo ano, passando de 1,3% para 5,0%, impulsionada pelo ciclo da pecuária e pelos riscos climáticos relacionados ao fenômeno La Niña.

La Niña no Brasil

O ponto de consenso entre os meteorologistas, contudo, não é se o La Niña vai ocorrer, mas sim quais serão seus reais impactos no agronegócio.

No caso do Brasil, as atenções estão voltadas para o Centro-Oeste e o Sul, regiões que, juntas, são responsáveis por mais de 80% da produção de soja, com destaque para Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul.

“A expectativa é de menos chuva no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e Oeste de Santa Catarina, o que pode prejudicar a safra 2025/26. Apesar disso, as previsões iniciais para o Centro-Oeste e Sudeste apontavam chuvas dentro da média, mas as projeções mais recentes indicam que essas regiões também poderão enfrentar déficits hídricos”, afirma Bini.

Segundo as estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos no Brasil em 2025/26 deve superar o recorde da temporada anterior, alcançando 355 milhões de toneladas.

Desses 355 milhões, 178 milhões de toneladas devem ser de soja, enquanto o milho deve somar 139 milhões de toneladas. (biodieselbr)

Cemvita quer fazer dos resíduos do agro um negócio

Do lixo ao SAF: Como a Cemvita quer fazer dos resíduos do agro um negócio.
O agro gera muitos resíduos. E a Cemvita quer fazer deles um grande negócio.

Com a tese de aplicar biotecnologia para transformar subprodutos em matérias-primas, a empresa se define como “a peça que faltava no quebra-cabeças da bioeconomia circular”.

Sua proposta é explorar as integrações da agropecuária com o setor industrial para reaproveitar suas sobras, com ganhos de produtividade e de sustentabilidade. Para isso, a empresa utiliza microrganismos criados em laboratório. Por meio deles, despejos podem virar biofertilizantes, rações animais e óleos capazes de gerar biocombustíveis, entre outros.

“A Cemvita quer acomodar todo o resíduo das agroindústrias no Brasil. O potencial de agregar valor para coisas que hoje são descartadas, muitas vezes com passivos ambientais ou vendidas a valor baixo é imenso”, explica Luciano Zamberlan, vice-presidente de operações.

Além da produtividade, a tese tem um pilar ambiental. A circularidade pode ter papel fundamental para ajudar o País e o mundo a diminuírem emissões ao mesmo tempo em que aumentam a produção de alimentos para dar conta da crescente população global.

“Nossa proposta não resolve todos os problemas, mas é uma solução complementar para ajudar a descarbonização”, explica Fernando Borba, vice-presidente de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios.

“Na atual transição energética, não há uma bala de prata, é preciso combinar várias tecnologias. A Cemvita pode otimizar a descarbonização, não no campo, mas na etapa posterior, do processamento dos bens agrícolas”, complementa Zamberlan.

O primeiro alvo da empresa são os resíduos dos biocombustíveis, uma agroindústria que passa por um momento de pujança no Brasil.

Mas essas sobras não são as únicas na mira. A startup quer extrapolar sua plataforma para outras cadeias, da pecuária aos bioinsumos. “O biodiesel é o precursor, mas estamos analisando outros resíduos. Já temos prospecções nas áreas sucroalcooleira e de laticínios, além de frutas, etanol de milho e biogás”, explica Borba.
Do zero ao SAF

Há 3 meses à frente da empresa no Brasil, Zamberlan tem passagens por gigantes de alimentos e agroindústria, como Ajinomoto e Raízen, com foco em biotecnologia e experiência em levantar projetos do zero, ou quase.

“Está sendo assim na Cemvita: pegar um conceito e uma pesquisa em estágio laboratorial e, com base neles, estruturar uma operação”.

O primeiro desafio do executivo será colocar de pé a pioneira fábrica no País, vizinha à da Be8, em Passo Fundo (RS), um projeto de US$ 70 milhões (R$ 370,6 milhões).

A Cemvita também assinou um termo de engajamento com o governo do Rio Grande do Sul para aplicar um total ainda maior, de US$ 100 milhões (R$ 529,4 milhões), por meio da Invest RS — a agência gaúcha de promoção de investimentos fornece inteligência de mercado, promoção comercial e serviços para exportadores.

A perspectiva de conclusão da planta é no primeiro trimestre de 2028. Uma vez em operação, ela vai transformar 100% da glicerina bruta gerada pela fabricante gaúcha de biocombustíveis em um óleo — que a empresa patenteou com o nome FermOil.

Esse óleo será matéria-prima para produzir combustível sustentável para aviação, com ganhos de produtividade e ambiental.

Conhecido por SAF, o substituto do querosene fóssil é a aposta do setor para atingir suas metas de descarbonização. E pode ser produzido com várias matérias-primas, de gordura animal e óleo de cozinha usado até culturas como macaúba, soja e milho.

No caso do FermOil produzido pela Cemvita a partir da glicerina, a conversão em SAF se dá pela rota HEFA, baseada em óleos vegetais. Outras rotas usam outras matérias-primas, como etanol, óleos animais e hidrogênio verde.

Segundo a empresa, o FermOil é 5,2 vezes mais eficiente em reduzir a pegada de carbono do que o SAF feito a partir do óleo fruto do esmagamento da soja, e pode gerar um ganho de cerca de US$ 4,14 (R$ 21,9) por litro na mesma comparação.

A Cemvita tem desde 2022 uma parceria com a petroleira Occidental Petroleum e a United Airlines, ambas americanas, para desenvolver sua produção de SAF.

A companhia aérea que é investidora na empresa por meio de seu CVC, o United Airlines Ventures, também fechou um acordo para comprar 3,7 bilhões de litros de SAF feito de FermOil até 2042. Isso equivale a quase 600 mil voos de duas horas em um Airbus A320.

A fábrica no Brasil será a primeira no mundo a usar essa tecnologia de conversão, diz Zamberlan. A capacidade de processamento será de 150 toneladas de glicerina bruta por dia — a empresa não divulga o quanto isso vai gerar de óleo ou de SAF.
A Importância da Gestão de Resíduos no Agronegócio para um Futuro Sustentável

Banco de micróbios

A lista de resíduos possíveis de serem convertidos em matérias-primas ou produtos é imensa, diretamente ligada às regulações, e em constante evolução, diz Zamberlan.

“Para escolher quais focar, acompanhamos as certificações de fabricação de produtos. No caso do SAF, as regras da Corsia (o programa de redução de emissões da Organização da Aviação Civil Internacional). Também monitoramos as legislações nacionais, como da União Europeia e do Brasil, ou estaduais, no caso da Califórnia”.

Existe ainda a possibilidade de submeter novos resíduos à aprovação desses órgãos, ele explica. “Finalizado o filtro regulatório, avaliamos a viabilidade técnico-econômica para escolher quais desenvolver em escala”.

Segundo Zamberlan, a Cemvita tem uma base com mais de 500 resíduos certificados, cada qual com seu microrganismo correspondente — a empresa tem um banco de micróbios na sede nos Estados Unidos.

O Brasil como ensaio

A Cemvita está iniciando sua atuação pelo Brasil — nos Estados Unidos, a operação ainda está em estágio laboratorial. A ideia é fazer da operação local uma plataforma para as ambições globais.

“Nossa biotecnologia precisa ser tropicalizada. Não só nos aspectos administrativos e fiscais, mas também na disponibilidade de estoques de matérias-primas e nas certificações ambientais. E tudo isso com um baixo custo operacional”, diz Zamberlan.

Para isso, a empresa vem montando uma equipe que deve ficar em torno de 35 funcionários. Borba foi um dos primeiros reforços. Com experiência em empresas como Braskem e Yara, ele é há um ano vice-presidente de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios.

O executivo explica que a Cemvita foi criada em 2017 em Houston, no Texas. Desde então, fez investimentos que permitiram escalar pesquisas em soluções industriais.

Em 2021, a startup teve uma rodada seed da qual participaram o United Airlines Ventures e o Oxy Low Carbon Ventures. No mesmo ano, fez uma rodada Série A envolvendo de novo o Oxy e outros fundos de venture capital, como Climate Capital, Mitsubishi Heavy Industries e Sumitomo Corporation.

Em 2024, veio uma rodada Série B com follow-ons dos investidores anteriores. A Cemvita informa já ter captado US$ 55 milhões (R$ 291,2 milhões) em venture capital, e atualmente prepara uma rodada Série C.

Nessa trajetória, a empresa já gerou duas spin-offs. Uma delas é a Endolith, focada em mineração — mais especificamente, em aplicar micróbios no subterrâneo para recuperar minérios valiosos, como lítio e cobre. A outra é a Eclipse Energy, que cria microrganismos para capturar hidrogênio em poços de petróleo desativados.

No Brasil desde o fim de 2024, a empresa tem interagido com entidades públicas de pesquisa. Por exemplo, o sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais.
Também foi uma das 10 escolhidas no programa Invest in Brasil Net-Zero Solutions, da ApexBrasil e do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás. A iniciativa visa acelerar a entrada no mercado brasileiro de empresas estrangeiras com soluções inovadoras para reduzir a pegada de carbono na indústria. (biodieselbr)

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