O rápido avanço dos data
centers no Brasil, impulsionado pela IA, gera alertas sobre o alto consumo de
água para resfriamento de servidores, especialmente em regiões com estresse
hídrico como São Paulo e Ceará. A falta de transparência, o uso de água potável
e a ausência de licenciamentos ambientais rigorosos ameaçam a segurança hídrica
local.
Alertas Principais sobre o
Impacto Hídrico:
Alto Consumo em Áreas de
Risco: Data centers operam intensamente em regiões com crises de abastecimento,
como Vinhedo (SP), intensificando a disputa pelo recurso.
Ameaça à Segurança Hídrica:
No Ceará, um projeto teve o uso de água autorizado aumentado em sete vezes durante
o licenciamento, gerando preocupações sobre o consumo de água potável.
Falta de Transparência e
Regulação: Muitas empresas subestimam ou não divulgam seus consumos hídricos
reais, operando sem regras nacionais claras de licenciamento ambiental.
Risco de Justiça Ambiental: A
instalação desses centros, frequentemente com apoio governamental, pode
sobrecarregar comunidades locais, quilombolas e pequenos produtores.
Necessidade de Alternativas:
Especialistas e ambientalistas pressionam por tecnologias de resfriamento mais
eficientes, que não dependam excessivamente da água, para evitar que o
progresso digital comprometa o futuro hídrico.
A expansão dos data centers avança sem estudos aprofundados de impacto ambiental, criando um cenário de "injustiça ambiental" e riscos de racionamento, alertam especialistas.
Data centers crescem com IA e levantam alerta sobre consumo de água
Cientistas apontam que, para
além do uso de energia renovável, políticas públicas que tenham em seu escopo
grandes centros de dados devem considerar de forma ampla o impacto hídrico
dessas estruturas.
Especialistas alertam para
alto consumo de água por data centers em meio a incentivos do governo para
atração de projetos.
Estruturas são essenciais para aplicações em inteligência artificial e para o desenvolvimento da economia digital. Pesquisadores apontam que, para além do uso de energia renovável, políticas públicas devem considerar condições locais para a segurança hídrica e transparência nas informações.
Com a ampla popularização dos recursos de inteligência artificial, cresce também a demanda pelo armazenamento e processamento de quantidades massivas de dados necessários para essas atividades. Nesse cenário, grandes projetos de data centers têm se expandido pelo mundo, frequentemente vinculados a importantes empresas de tecnologia, as big techs.
Por serem estruturas com
consumo intensivo de energia, o Brasil desponta como um potencial destino para
esses projetos, principalmente em virtude da sua matriz elétrica
predominantemente renovável. De olho na expansão da economia digital no país, o
governo federal se mobiliza para elaborar incentivos e atrair esses
investimentos. Especialistas alertam que, se por um lado o alto consumo
energético dos data centers seja conhecido e amplamente discutido pela opinião
pública, o impacto hídrico dessas estruturas não tem recebido a mesma atenção,
mas é igualmente preocupante.
Na visão de alguns desses
especialistas ouvidos pelo Jornal da Unesp, debater as condições e as consequências
da instalação dessas estruturas é essencial para orientar a atração de
investimentos, especialmente em um contexto de incertezas climáticas e de
recorrentes períodos de estiagem e crises hídricas observadas em diferentes
regiões do Brasil, nos últimos anos.
De fato, estimativas sobre o
consumo hídrico de grandes servidores apresentadas por pesquisadores em
diferentes regiões do mundo impressionam. Em um artigo publicado na revista
Applied Energy, no ano passado, cientistas da Beijing Normal University
calcularam que os data centers da China consumiram, em 2022, o equivalente a
15,7 bilhões de litros de água, o que representou 2,7% do total da água
consumida no país naquele ano. Para fins de comparação, esse volume equivale a
aproximadamente metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu.
Na mesma linha, a Agência
Internacional de Energia aponta que o consumo global de água por data centers
está atualmente em 560 bilhões de litros por ano. O relatório do órgão
internacional publicado no ano passado vai além, prevendo que, em virtude da
crescente demanda pelos recursos de IA, essa cifra deve alcançar 1,2 trilhões
de litros até 2030.
Incentivos para atração de
data centers
O Brasil ainda aparece como
um mercado discreto para esses projetos. De acordo com o Data Center Map,
plataforma que mapeia essas instalações em todo o mundo, o país possui cerca de
200 data centers, mas a maior parte de pequeno e médio porte, que costumam
atender às necessidades internas de uma empresa ou fornecer serviços de
processamento e armazenagem para clientes externos. As estruturas de grande
porte, chamados hyperscale, estão presentes em menor número, e costumam estar
vinculados a projetos de processamento de dados para a inteligência artificial
e serviços de armazenamento em nuvem oferecidos pelas big techs.
Este cenário, entretanto,
pode mudar em breve. Os data centers hyperscale estão no foco dos esforços do
governo federal para criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento da
economia digital no país, o que inclui incentivos para a atração de empresas
multinacionais do setor. No final de 2025, foi assinada uma medida provisória
que concedia isenção de impostos (PIS/Pasep, Cofins e IPI) para a aquisição de
equipamentos destinados à implantação, ampliação e manutenção de data centers,
chamada Redata.
Avaliar apenas a eficiência
não é o suficiente
“As atividades de
processamento desses data centers geram muito calor, ao mesmo tempo, esses
dispositivos são extremamente sensíveis à alta temperatura. O recurso hídrico
aparece como a principal estratégia de resfriamento para a maioria dessas
estruturas”, explica Leopoldo Lusquino, cientista da computação e professor do
Departamento de Engenharia de Controle e Automação da Unesp, no câmpus de
Sorocaba. Entre suas áreas de atuação, o docente elabora modelos para tornar a
IA mais eficiente e, portanto, mais “verde”. Segundo ele, as empresas estão
atentas ao impacto das suas atividades sobre os recursos naturais e têm
investido no desenvolvimento de tecnologias de resfriamento mais eficientes,
mas atualmente as principais opções envolvem o resfriamento a seco, com o uso
de ar condicionado, por exemplo. “Isso pode ser útil em países frios, mas em países
mais quentes, como o Brasil, isso aumentaria ainda mais o consumo energético”,
explica.
A proposta do Redata
elaborada pelo governo federal não ignora a pegada hídrica dos data centers.
Segundo o texto, para ser elegível aos benefícios fiscais, a empresa deve
apresentar um Índice de Eficiência Hídrica (WUE) igual ou inferior a 0,05 L/kWh
por ano, além de apresentar esses dados em seus respectivos relatórios de
sustentabilidade. O cálculo do volume de água dividido pelo consumo de energia
é a principal métrica usada pela indústria para quantificar a eficiência
hídrica de um data center. A exigência apresentada pelo governo federal,
entretanto, parece fora dos padrões praticados pelas principais empresas do
setor, atualmente. Em 2025, a Microsoft reportou uma média anual de 0,3 L/kWh
em suas estruturas de processamento e armazenamento de dados, enquanto a Amazon
publicou que seu WUE foi de 0,15 L/kWh, em 2024. A Meta, por sua vez, reportou
que em 2023 obteve um WUE de 0,18 L/kWh. Nos três casos, o índice foi celebrado
como uma melhora em relação aos resultados dos anos anteriores, um objetivo
alcançado devido à adoção de novas tecnologias de resfriamento.
Embora seja a métrica mais
usada pela indústria, especialistas apontam que o WUE, isoladamente, não deve
ser o único instrumento regulatório para se determinar a pegada hídrica de um
data center, sob o risco de subestimar os verdadeiros riscos sobre a água e
direcionar políticas de forma inadequada. Isso porque outros fatores como uma
redução esporádica no consumo de energia ou o funcionamento durante as estações
mais frias do ano (que demandam menos resfriamento) podem ajudar a mascarar
este índice.
Disputa por imagem: como o
setor de data center tenta reconquistar a opinião pública diante da resistência
das comunidades.
Alto consumo em uma região em
estresse hídrico
Atualmente, dos cerca de 200
data centers em funcionamento no Brasil, mais de 80 estão em um eixo entre São
Paulo e Campinas. A proximidade dessas estruturas a grandes empresas e
indústrias e a disponibilidade de mão de obra qualificada ajudam a entender a
escolha desses projetos pela região. Ao mesmo tempo, com 59% de sua energia
produzida a partir de fontes renováveis, o estado de São Paulo atende às
exigências do Redata que demandam fontes de energia limpas para abastecer os
projetos.
Ainda assim, a presença de
novos empreendimentos em regiões localizadas nas bacias hidrográficas do
Alto-Tietê e Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) pode ser preocupante. As duas
bacias estão entre as mais populosas e mais pressionadas do Brasil em termos de
recursos hídricos, e viveram episódios de restrição de consumo nos últimos anos
em virtudes de períodos de estiagem. “No caso da bacia do PCJ, ela já é
naturalmente uma bacia deficitária porque ela transfere água para o sistema
Cantareira, que abastece boa parte da população da cidade de São Paulo”,
explica o hidrólogo Rodrigo Manzione.
Docente
no Departamento de Geografia e Planejamento da Unesp, no câmpus de Ourinhos,
Manzione chama a atenção ainda para o perfil de consumo desses data centers,
que precisam do fornecimento contínuo de água para o resfriamento dos
processadores. “Como seria possível, numa região de intenso consumo de água,
garantir a segurança hídrica para um empreendimento como esse? Somente por meio
da exploração de água subterrânea”, afirma. “Nesse contexto, retirar do solo
uma água de altíssima qualidade que foi naturalmente filtrada ao longo de 15
mil anos para resfriar um data center não me parece um fim muito nobre para
esse recurso”, questiona.
Se pedir para ele gerar uma
foto, uma pesquisa realizada pelo MIT Technology Review em 2023 estimou que o
gasto de recursos pode ser 30 vezes maior do que isso nos data centers da
inteligência artificial. É o mesmo tanto de água que gastamos para dar uma
carga completa em nossos celulares. (jornal.unesp)






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