terça-feira, 15 de setembro de 2026

El Niño leva aquecimento dos oceanos a território desconhecido

El Niño excepcionalmente forte impulsiona aquecimento global dos oceanos e leva temperatura média da superfície do mar ao maior valor já registrado no planeta.

Os oceanos do planeta atingiram um novo recorde de temperatura agora em agosto em um sinal de que o aquecimento do sistema climático global continua avançando com o fenômeno El Niño agravando ainda mais o aquecimento.
A temperatura média da superfície do mar chegou a 21,10°C em 22/08/2026, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia. O valor supera o recorde anterior de 21,09°C, registrado em março/2024.

Os dados fazem parte da série do ERA5, produzida pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que utiliza registros desde 1979 para o acompanhamento diário no Climate Pulse.

O novo recorde chama atenção principalmente pela época do ano. As temperaturas médias globais da superfície do mar normalmente atingem os maiores valores em março e abril, depois do verão no Hemisfério Sul.

Ainda assim, em pleno mês de agosto, o planeta registrou uma temperatura superior ao recorde absoluto anterior. O valor também ficou acima do maior registro para agosto, de 20,98°C, observado em 2023.

Para os cientistas, o resultado não representa uma surpresa isolada. Ele ocorre dentro de uma tendência de longo prazo de aquecimento dos oceanos associada ao aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

“O recorde é outro sinal claro de um oceano sob crescente estresse”, afirmou Samantha Burgess, líder estratégica para o clima do ECMWF.

Segundo Burgess, o atual El Niño está acrescentando calor ao sistema climático. O fenômeno, porém, atua sobre um oceano que já apresenta temperaturas cada vez mais elevadas devido ao aquecimento observado ao longo das últimas décadas.

O momento também é marcado pelo desenvolvimento de um El Niño excepcionalmente forte no Pacífico tropical. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial e provoca alterações na circulação atmosférica em escala global.

As mudanças podem modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes continentes. Também podem alterar a distribuição e a intensidade de determinados eventos extremos.

O aquecimento do oceano, entretanto, não depende exclusivamente do El Niño. O fenômeno climático atua como um fator adicional sobre uma tendência de aquecimento que já vinha sendo observada antes de sua formação.

Essa combinação ajuda a explicar por que um recorde global de temperatura da superfície do mar foi alcançado em agosto, um mês que normalmente está distante do período de maior aquecimento médio anual dos oceanos.

O comportamento das águas oceânicas tem consequências importantes para os ecossistemas marinhos. Temperaturas mais elevadas aumentam o risco de ondas de calor marinhas, que podem persistir durante períodos prolongados e provocar impactos sobre espécies e habitats.

Recifes de coral estão entre os ambientes mais vulneráveis. O calor excessivo pode provocar branqueamento e aumentar o estresse sobre organismos que formam esses ecossistemas.

Pradarias marinhas e outras áreas costeiras também podem sofrer impactos. Alterações nesses ambientes podem afetar cadeias alimentares e espécies que dependem deles para alimentação, reprodução ou abrigo.

As consequências chegam também à atividade econômica. Pesca e aquicultura podem ser afetadas por mudanças na distribuição das espécies e pelas alterações nas condições ambientais do oceano.

Outro problema é o aumento do nível do mar. A água se expande quando fica mais quente, contribuindo para a elevação do nível dos oceanos. O processo ocorre simultaneamente ao derretimento de geleiras e mantos de gelo continentais. O resultado aumenta a vulnerabilidade de cidades costeiras e regiões de baixa altitude.

O oceano também desempenha um papel fundamental na regulação do clima porque absorve grande quantidade do excesso de calor e parte do dióxido de carbono presente na atmosfera.

Com o aumento da temperatura da água, entretanto, sua capacidade de absorver dióxido de carbono pode diminuir. Isso representa uma preocupação adicional para o equilíbrio climático.

O aquecimento oceânico também pode fornecer mais energia e umidade para a atmosfera. Em determinadas circunstâncias, isso pode favorecer chuvas mais intensas e contribuir para o fortalecimento de alguns sistemas de tempestades.

Outro indicador da mudança é o aumento das ondas de calor marinhas. De acordo com Burgess, o número de dias com ondas de calor marinhas em escala global mais que triplicou desde o início da década de 1990.

O recorde de agosto ocorre, portanto, dentro de uma sequência mais ampla de temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas. Ao longo de 2026, diferentes regiões dos oceanos fora das áreas polares permaneceram muito quentes, mantendo os valores globais em níveis elevados.

O histórico recente mostra que os recordes oceânicos têm sido superados com rapidez. O recorde anterior havia sido estabelecido em março/2024 e agora já foi ultrapassado.

Ainda não é possível afirmar quanto tempo o novo recorde permanecerá vigente. O cientista climático Zachary Labe, da Climate Central, avalia que é possível que a marca seja superada novamente nos próximos meses.

Para os pesquisadores, porém, o significado mais importante não está apenas no valor de 21,1°C. O dado representa mais um indicador de um sistema climático que vem acumulando calor.

El Niño começa a interferir na vida marinha, anuncia a NASA

El Niño já provoca redução do fitoplâncton no Pacífico, afetando a cadeia alimentar marinha e ameaçando a pesca em áreas como o litoral do Peru. (metsul)

O verão que incendiou a Europa e mudou a relação do continente com o clima

O verão de 2026 na Europa ficou marcado por ondas de calor extremas, secas históricas e incêndios devastadores que destruíram mais de 600 mil hectares e transformaram a percepção pública sobre a crise climática no continente.

Impactos Principais

• Temperaturas Recordes: Os termômetros chegaram a marcas inéditas para o século, como 48,4°C na Sardenha (Itália) e 37°C na Dinamarca.

• Crise de Mortalidade: O calor intenso resultou em dezenas de milhares de mortes adicionais em países como França, Alemanha e Espanha.

• Seca nos Rios: Rios essenciais para o transporte e energia, como o Reno e o Danúbio, registraram níveis mínimos históricos que paralisaram portos e afetaram usinas nucleares.

• Incêndios Incomuns: O fogo atingiu regiões tradicionalmente frias ou úmidas, como a Bélgica e a Escócia.

A Mudança de Relação com o Clima

• Fim da Ilusão de Refúgio: Países do norte e centros urbanos antigos, que não contavam com infraestrutura para o calor (como ar-condicionado generalizado), viram o clima extremo virar rotina.

• Ecoansiedade: Cresceu de forma drástica o número de cidadãos que sofrem de angústia psicológica e preocupação com o futuro ambiental do planeta.

• Revisão de Políticas: Governos locais passaram a tratar o calor não mais como um incômodo sazonal, mas como uma emergência de saúde pública e segurança nacional.

Entre recordes de calor, rios secos e quase 600 mil hectares em chamas, o continente descobriu que o verão dourado da infância de gerações virou coisa do passado

Enquanto termômetros bateram 42°C e milhares de pessoas fugiram de casa por causa do fogo, a Europa também enfrenta uma epidemia silenciosa: a ecoansiedade que já afeta milhões e muda para sempre a relação do continente com suas próprias estações.

(Esquerda) Anomalias e extremos na temperatura do ar superficial em junho-julho/2026. As categorias de cores referem-se aos percentis das distribuições de temperatura para o período de referência de 1991-2020. As categorias “mais frias” e “mais quentes” identificam áreas onde as temperaturas foram as mais baixas ou mais altas para junho-julho durante 1979-2026. (À direita) Anomalias de temperatura média do ar da superfície de junho a julho para a Europa Ocidental (11°W–15°E, 37°S–55°N). As anomalias são relativas à média de junho a julho para o período 1991-2020.

Eu ouvi meus avós contarem sobre os verões europeus, como quem descreve um quadro pintado a óleo. Dias compridos, brisa suave, tardes agradáveis e o som distante de cigarras cantando ao entardecer. Essa imagem romântica, que alimentou gerações de viajantes, poetas e cineastas, parecia eterna, quase intocável pelo tempo. Mas 2026 chegou e rasgou a tela.

Maio ainda não tinha acabado quando as primeiras ondas de calor começaram a assar o continente. E não era aquele calor “gostoso” de praia, o tipo que convida para um mergulho e um sorvete. Era um ar sufocante, dos que grudam a roupa na pele e fazem o asfalto parecer que treme diante dos olhos. Os termômetros dispararam para 40°C, e não apenas na Espanha ou na Itália, países já acostumados com altas temperaturas no verão.

Nações que sempre foram sinônimos de frescor e céu nublado, como a Dinamarca, viram os termômetros baterem 37°C. Já a Eslováquia chegou a impressionantes 42,2°C. Recordes que ninguém queria comemorar, mas que entraram para a história mesmo assim.

Um verão sem trégua

E o pior é que esse sufoco não dava descanso. Até meados de agosto, a França já tinha vivido 52 dias em condições de onda de calor desde junho. Para se ter uma ideia da gravidade, os dias mais amenos foram tão raros que dava para contar nos dedos de uma mão. Em Paris, onde o ar-condicionado ainda é considerado um luxo em muitos lares antigos, moradores passaram a cobrir as janelas com mantas térmicas de sobrevivência, como se estivessem se preparando para enfrentar um cerco. E, de certa forma, era mesmo uma guerra, só que travada contra a temperatura.

Mas o problema não era apenas o desconforto do dia. O calor noturno, que se recusava a baixar mesmo depois da meia-noite, transformou o verão num pesadelo silencioso para milhões de pessoas. Entre junho e agosto/2026, estima-se que 32 mil mortes em excesso tenham ocorrido na Europa em razão das temperaturas extremas. São números frios no papel, mas que escondem histórias muito humanas: idosos que morreram sozinhos em apartamentos sem ventilação, famílias que não conseguiram proteger os mais frágeis a tempo, vizinhos que só perceberam a ausência dias depois.

As cicatrizes que não aparecem no termômetro

E mesmo quem sobreviveu fisicamente ao calor carregou marcas invisíveis. Um estudo francês revelou que 2,6 milhões de pessoas no país sofrem hoje de “ecoansiedade”, um misto de pessimismo, angústia existencial e isolamento social diante da certeza cada vez mais concreta de que o planeta está mudando para pior.

Não é exagero, é diagnóstico. E é um retrato de como o clima extremo já não afeta só o corpo, mas também a mente e o modo como as pessoas imaginam o próprio futuro.

Quando a terra pega fogo

Quando a natureza já parece estar de mau humor, ela não para por aí. O calor implacável secou rios, rachou o solo e forneceu combustível de sobra para incêndios devastadores. Até 12/08/2026, o fogo já tinha consumido quase 600 mil hectares em todo o continente, uma área maior do que o estado brasileiro de Sergipe inteiro.

Na França e na Espanha, dezenas de milhares de pessoas tiveram que abandonar suas casas às pressas, levando apenas o que conseguiam carregar nos braços. Até países como a Bélgica e a Escócia, conhecidos historicamente pela chuva constante e pelo céu cinza, viram chamas como nunca antes. A Bélgica, inclusive, viveu seu maior incêndio florestal em um século, um recorde triste para um país que raramente associava o verão ao medo do fogo.

A seca que ninguém via chegar

Enquanto colunas de fumaça subiam aos céus como sinistros sinais de alerta, outra catástrofe se espalhava devagar, quase invisível aos olhos de quem não presta atenção: a seca. No fim de julho, metade do continente já estava em estado de alerta hídrico. França, Suíça, Áustria e Eslovênia registraram os níveis mais baixos de umidade no solo já vistos em décadas.

A terra pedia água, e a água, ironicamente, também esquentava. O Mar Mediterrâneo bateu recordes de temperatura superficial em julho, chegando a 27°C. Em algumas áreas, durante as duas semanas mais quentes do verão, a água ficou até seis graus acima do normal histórico. Quem entrava no mar em busca de um refresco sentia menos um mergulho revigorante e mais um banho morno, quase incômodo.

Cientistas já sabiam, mas muitas pessoas ainda não queriam acreditar

E o que dizer dos cientistas que acompanham tudo isso com a calma de quem já previa o roteiro há tempos? Para eles, não houve surpresa alguma. Os modelos climáticos já desenhavam um verão como esse há anos, quase como um aviso ignorado.

A verdadeira surpresa, talvez, tenha a de quem ainda insistia em acreditar que o verão europeu seria sempre aquela tela dourada e serena, pintada por Van Gogh e reforçada por décadas de cartões-postais.

O que fica depois das cinzas

Agora, enquanto o continente tenta se reerguer entre cinzas e racionamento de água, fica a pergunta que ecoa em cada conversa de bar, em cada olhar perdido no metrô, em cada família que precisou recomeçar longe de casa: o que vem depois do verão que queimou a Europa?

Porque se 2026 nos mostrou alguma coisa, é que o sonho de um verão ameno e romântico chegou ao fim. E a realidade, essa sim, veio para ficar.

Área de incêndios florestais na Europa pode triplicar com mudança climática. (ecodebate)

domingo, 13 de setembro de 2026

A infraestrutura verde que o planejamento urbano deixou de reconhecer

A infraestrutura verde que o planejamento urbano frequentemente deixa de reconhecer abrange a vegetação espontânea, os quintais particulares e os vazios urbanos que prestam serviços ecossistêmicos vitais.

O que o planejamento tradicional ignora

Vegetação espontânea (plantas ruderais):

Nascem sem plantio em frestas de calçadas, muros e beiradas de ruas.

Resistem a solos secos e reduzem o calor local.

São tratadas como mato ou sujeira pelos órgãos de limpeza.

Quintais e jardins privados:

Formam grandes manchas verdes contínuas nos bairros residenciais.

Infiltram a água da chuva no solo e abrigam pássaros e insetos.

Ficam fora dos mapas oficiais de áreas verdes públicas.

Terrenos vazios ou baldios:

Funcionam como esponjas naturais que evitam enchentes.

Permitem a troca de calor e o resfriamento do ar na vizinhança.

Sofrem com a pressão para receber construções de concreto.

Córregos canalizados e soterrados:

Rios escondidos sob o asfalto que ainda mantêm umidade no subsolo.

Poderiam ser abertos para criar corredores de vento e biodiversidade.

Continuam invisíveis nos planos de drenagem que priorizam tubos de cimento.

Por que isso importa

Serviços invisíveis: Essas áreas regulam a temperatura e a água sem custo para a prefeitura.

Visão cinza: O urbanismo clássico valoriza apenas parques desenhados e praças limpas.

Perda gradual: A eliminação desses espaços aumenta os alagamentos e o calor nas cidades.

Soluções baseadas na natureza abrangem a proteção, a recuperação e o manejo de ecossistemas para enfrentar problemas sociais e ambientais, produzindo benefícios para a população e para a biodiversidade

Em julho/2026, ao discutir a preparação do Estado brasileiro para um novo ciclo de eventos climáticos extremos, o Tribunal de Contas da União reuniu órgãos públicos, instituições científicas e representantes municipais diante de uma sequência já conhecida de ameaças: secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e incêndios florestais. O encontro expôs uma realidade que ultrapassa a capacidade de resposta da defesa civil. O país ainda administra grande parte dos desastres depois que eles acontecem, enquanto ocupa várzeas, canaliza rios, remove vegetação, impermeabiliza o solo e reduz justamente os sistemas naturais que poderiam diminuir a intensidade dos danos.

Florestas urbanas, matas ciliares, manguezais, áreas úmidas, dunas, várzeas e solos permeáveis cumprem funções coletivas comparáveis às de obras construídas pelo poder público. Retêm água, estabilizam encostas e margens, reduzem temperaturas, protegem a costa, filtram poluentes e oferecem abrigo à biodiversidade. Essas funções não transformam a natureza em uma máquina nem autorizam reduzir seu valor a cálculos econômicos. Reconhecê-las como infraestrutura pública significa admitir que a segurança de uma cidade ou de uma região depende tanto de pontes, galerias e reservatórios quanto da integridade dos ecossistemas que regulam a água, o clima e o solo.

O significado e a importância das soluções baseadas na natureza

A urbanização brasileira consolidou uma concepção de infraestrutura associada quase exclusivamente ao concreto, ao asfalto e à canalização. Rios foram retificados e confinados, áreas alagáveis receberam avenidas e empreendimentos, encostas perderam vegetação e extensas superfícies passaram a impedir a infiltração da chuva. Esse modelo ampliou a circulação de pessoas e mercadorias, mas também acelerou o escoamento da água, transferiu alagamentos para outros pontos das bacias hidrográficas e elevou a temperatura dos bairros mais densamente ocupados.

A natureza opera por conexões. Uma mata ciliar protegida reduz erosão, retém sedimentos e contribui para a qualidade da água. Uma várzea preservada recebe temporariamente o excesso de chuva que, em uma área inteiramente ocupada, alcançaria ruas e moradias. Árvores maduras proporcionam sombra e liberam umidade, amenizando o calor; solos vegetados absorvem parte da precipitação; manguezais dissipam a energia das ondas e reduzem a erosão costeira. Cada elemento oferece mais de um serviço ao mesmo tempo, algo que a obra convencional, geralmente desenhada para uma finalidade específica, nem sempre consegue fazer.

Essa diferença explica o avanço das chamadas soluções baseadas na natureza. O conceito abrange a proteção, a recuperação e o manejo de ecossistemas para enfrentar problemas sociais e ambientais, produzindo benefícios para a população e para a biodiversidade. No espaço urbano, inclui parques lineares, jardins de chuva, biovaletas, arborização, recuperação de rios, corredores ecológicos e restauração de áreas úmidas. Fora das cidades, envolve a conservação de manguezais, florestas, restingas, dunas e nascentes. O termo é recente, mas muitas dessas práticas recuperam conhecimentos acumulados por comunidades que sempre compreenderam as dinâmicas da água e do território.

Proteção climática com várias funções públicas

O valor dessa infraestrutura torna-se mais evidente quando os riscos são examinados em conjunto. Parques e corredores arborizados ajudam a reduzir ilhas de calor, oferecem áreas de convivência e favorecem a circulação de espécies. Jardins de chuva recebem a água das ruas, retardam seu deslocamento e aliviam redes de drenagem. A restauração de cursos d’água pode recuperar margens, melhorar a qualidade ambiental e criar espaços públicos. Manguezais e restingas protegem zonas costeiras, sustentam a reprodução de espécies aquáticas e contribuem para atividades econômicas de comunidades tradicionais.

Em São Paulo, a expansão dos jardins de chuva mostra como dispositivos relativamente pequenos podem integrar uma estratégia maior de drenagem sustentável. A cidade informou, no final de 2025, que passaria de 427 para 530 unidades. As estruturas são distribuídas de acordo com a topografia, o histórico de alagamentos e a capacidade de infiltração do solo. Seu alcance, porém, depende da articulação com outras medidas. Centenas de jardins não compensam a impermeabilização contínua de uma metrópole, a ocupação inadequada de fundos de vale ou a insuficiência das redes de drenagem. Eles ganham relevância quando fazem parte de uma política territorial que combina prevenção, manutenção e redução das áreas impermeáveis.

No Recife, um edital federal destinou R$ 2,5 milhões, em 2025, à implantação de soluções como jardins de chuva, biovaletas, canteiros drenantes, sombreamento arbóreo e pequenas intervenções de microdrenagem em áreas periféricas. O caso é importante porque desloca a infraestrutura verde das regiões centrais, onde costuma acompanhar projetos de embelezamento, para territórios com maior vulnerabilidade social e climática. A experiência também evidencia que adaptação não se resume a plantar árvores. É necessário escolher espécies adequadas, assegurar espaço para seu desenvolvimento, cuidar do solo, garantir drenagem e prever recursos permanentes para manejo.

Em escala internacional, um projeto apoiado pelo Banco Mundial recuperou o rio Chiveve e manguezais na cidade de Beira, em Moçambique, integrando um parque urbano à função de retenção de cheias. A iniciativa passou a proteger cerca de 50 mil pessoas, além de criar áreas de lazer e oportunidades econômicas. O exemplo não oferece uma fórmula a ser copiada, mas demonstra que a recuperação ecológica pode ser concebida desde o início como parte de um sistema de segurança urbana, e não como decoração acrescentada depois da obra principal.
A desigualdade também determina quem recebe proteção

Os benefícios proporcionados pela natureza estão distribuídos de forma profundamente desigual nas cidades brasileiras. Bairros de maior renda costumam concentrar árvores, parques, praças bem cuidadas, solos mais permeáveis e melhores condições de drenagem, enquanto periferias densamente ocupadas convivem com pouca vegetação, cursos d’água poluídos, encostas instáveis e longos deslocamentos sob calor intenso. Nessas áreas, a ausência de infraestrutura verde se soma à precariedade do saneamento, da moradia e do transporte. Ondas de calor e chuvas extremas atingem, portanto, territórios nos quais a população já dispõe de menor capacidade de proteção e recuperação.

Essa desigualdade não resulta apenas de diferenças naturais entre os territórios. Ela foi construída por políticas urbanas que concentraram investimentos em determinadas regiões e permitiram que as populações de menor renda fossem empurradas para encostas, margens de rios, várzeas e outros espaços mais expostos. Em muitos desses locais, a ocupação ocorreu sem redes adequadas de esgoto, drenagem, coleta de resíduos e equipamentos públicos. Quando um evento extremo acontece, seus efeitos revelam uma estrutura urbana que distribui de maneira desigual tanto os riscos quanto os recursos necessários para enfrentá-los.

A implantação de parques, corredores arborizados, jardins de chuva e áreas de retenção hídrica deve, por isso, priorizar os territórios com maior vulnerabilidade social e climática. Essa prioridade não significa apenas levar vegetação às periferias, mas integrar a infraestrutura verde às políticas de habitação, saneamento, mobilidade, saúde e redução de riscos. Um parque linear implantado às margens de um rio, por exemplo, terá alcance limitado se o curso d’água continuar recebendo esgoto ou se as famílias residentes na área permanecerem ameaçadas por remoções sem alternativa habitacional adequada.

A participação dos moradores é igualmente necessária desde a identificação dos problemas até a definição dos usos e das formas de conservação dos espaços recuperados. O conhecimento local ajuda a reconhecer pontos de alagamento, trajetos cotidianos, áreas utilizadas pela comunidade e conflitos que nem sempre aparecem nos diagnósticos técnicos. Essa participação, entretanto, não pode servir para transferir às comunidades responsabilidades que pertencem ao Estado. Financiamento, assistência técnica, fiscalização, manejo da vegetação e manutenção das estruturas devem permanecer como obrigações do poder público.

A melhoria ambiental também pode produzir efeitos contraditórios. Parques, rios recuperados e corredores verdes valorizam o entorno, atraem investimentos imobiliários e podem elevar aluguéis e preços da terra. Quando esse processo não é acompanhado por políticas de habitação, regularização fundiária e proteção das comunidades tradicionais, os moradores que conviveram durante décadas com a degradação correm o risco de ser afastados justamente quando o território começa a receber investimentos. A adaptação climática pode, assim, criar uma nova forma de exclusão, na qual os benefícios ambientais são apropriados por grupos com maior poder econômico.

A infraestrutura verde somente cumpre uma função verdadeiramente pública quando reduz a exposição aos riscos, melhora as condições de vida e assegura à população o direito de permanecer no território. A justiça climática depende não apenas da quantidade de árvores plantadas ou de parques construídos, mas da escolha dos lugares que receberão os investimentos, das pessoas efetivamente protegidas e das condições sociais que permitem conservar os benefícios alcançados.
Os limites das soluções baseadas na natureza e a necessidade de infraestrutura híbrida

A incorporação da natureza ao planejamento não significa que todos os riscos climáticos possam ser enfrentados exclusivamente por meio da restauração ecológica. Cidades precisam de redes de saneamento e drenagem, contenção de encostas, sistemas de alerta, moradias seguras e, em determinadas situações, obras de engenharia de grande porte. Manguezais, matas ciliares, várzeas e áreas permeáveis reduzem a intensidade de muitos impactos, mas não eliminam os problemas produzidos por ocupações inadequadas, redes insuficientes e décadas de ausência de investimentos públicos.

A resposta mais consistente costuma combinar infraestrutura natural e infraestrutura construída. Jardins de chuva e solos permeáveis podem diminuir o volume de água que chega às galerias, mas dependem de um sistema de drenagem capaz de receber o fluxo restante. Matas ciliares estabilizam margens e reduzem a entrada de sedimentos nos rios, mas não substituem a coleta e o tratamento de esgoto. A vegetação de encostas contribui para a estabilidade do solo, porém não dispensa obras de contenção quando existem moradias ameaçadas por movimentos de massa. Cada intervenção precisa ser definida a partir das características da bacia hidrográfica, da encosta ou da faixa costeira e da intensidade dos riscos enfrentados.

Essa combinação, conhecida como infraestrutura híbrida, permite aproveitar as diferentes capacidades de proteção. Enquanto obras convencionais são projetadas para responder a determinados volumes de água ou níveis de pressão, os ecossistemas ajudam a desacelerar os fluxos, distribuir impactos e recuperar funções ambientais perdidas. A integração entre essas duas formas de infraestrutura pode reduzir a sobrecarga dos sistemas construídos e ampliar os benefícios oferecidos à população. Para funcionar, entretanto, ela exige planejamento territorial e coordenação entre órgãos responsáveis pelo meio ambiente, pelo saneamento, pela habitação, pelas obras públicas e pela defesa civil.

Também é necessário impedir que a expressão “solução baseada na natureza” seja utilizada como rótulo para projetos de paisagismo sem relação comprovada com os riscos locais. A criação de pequenos espaços verdes pode melhorar a paisagem, mas não deve ser apresentada como resposta suficiente para enchentes, erosão ou ondas de calor quando sua escala é incompatível com o problema. Sem diagnóstico, metas e avaliação, iniciativas pontuais podem produzir boas imagens institucionais e reduzida capacidade de proteção.

O conceito tampouco pode servir como compensação simbólica para novas degradações. Plantar mudas não substitui a conservação de uma floresta madura, cuja biodiversidade e cujas funções ecológicas resultam de processos formados ao longo de décadas. Criar um pequeno parque não neutraliza a ocupação de uma várzea, assim como recuperar um trecho de margem não justifica destruir manguezais em outro local. A primeira medida de adaptação baseada na natureza deve ser proteger os ecossistemas que permanecem preservados, pois sua recuperação posterior é lenta, incerta e, em alguns casos, incapaz de restabelecer integralmente as condições anteriores.

Projetos dessa natureza exigem acompanhamento permanente. É necessário avaliar a quantidade de água retida, a redução da temperatura, a melhoria da qualidade ambiental, a conectividade entre áreas verdes e o número de pessoas efetivamente protegidas. A análise também deve considerar a sobrevivência das árvores, a manutenção das estruturas, a segurança, o acesso público e os efeitos sobre a moradia e a renda. Esses critérios permitem distinguir intervenções capazes de ampliar a resiliência territorial de projetos que utilizam a natureza apenas como elemento decorativo ou argumento de promoção institucional.

Reconhecer os limites das soluções baseadas na natureza não diminui sua importância. Ao contrário, permite incorporá-las de maneira mais responsável às políticas públicas. A natureza oferece formas de proteção que a engenharia convencional, isoladamente, não consegue reproduzir, mas sua contribuição depende da escala das intervenções, da conservação contínua e da integração com outros sistemas urbanos. O objetivo não é escolher entre ecossistemas e obras construídas, mas organizar ambos dentro de uma política preventiva capaz de responder às características de cada território.
Do programa federal à política permanente

O Brasil começou a construir instrumentos capazes de levar essa abordagem a uma escala mais ampla. A Lei nº 14.904, de 2024, estabeleceu diretrizes para planos de adaptação climática, e o Programa Cidades Verdes Resilientes, instituído no mesmo ano, passou a articular políticas urbanas, ambientais e climáticas. Seu planejamento prevê apoiar o registro e a implementação de soluções baseadas na natureza em 487 municípios até 2030 e em 974 até 2035, com prioridade para regiões metropolitanas, localidades vulneráveis e municípios pequenos, que dispõem de menos recursos técnicos e financeiros.

As metas representam um avanço, mas seu cumprimento dependerá de orçamento estável, coordenação federativa e capacidade municipal. Muitas prefeituras não possuem equipes para mapear riscos, elaborar projetos, disputar financiamentos e acompanhar resultados. Programas federais e estaduais precisam oferecer assistência técnica continuada, bases de dados acessíveis e mecanismos de financiamento que não se limitem a editais isolados. O Plano Clima deve integrar essa agenda ao saneamento, à habitação, à mobilidade, à saúde e à proteção da biodiversidade, evitando que a adaptação permaneça confinada aos órgãos ambientais.

Tratar a natureza como infraestrutura pública também modifica as prioridades orçamentárias. A conservação de uma várzea, a restauração de uma mata ciliar e o manejo de uma floresta urbana devem ser reconhecidos como investimentos em prevenção, com custos de implantação, equipes responsáveis e manutenção assegurada. Isso exige revisar critérios de obras públicas, incluir serviços ecossistêmicos nas análises de custo e benefício e impedir que recursos para adaptação sejam consumidos apenas pela reconstrução posterior aos desastres.

A mudança decisiva ocorre quando florestas, rios e manguezais deixam de ser vistos como espaços disponíveis para ocupação ou obstáculos ao crescimento urbano. Eles formam sistemas de proteção que sustentam a vida coletiva e reduzem riscos que o concreto, sozinho, não consegue controlar. Preservá-los e recuperá-los não dispensa engenharia, planejamento ou política social. Ao contrário, exige que esses campos atuem de forma integrada e reconheçam que a segurança climática começa antes da emergência, no modo como o território é ocupado, protegido e compartilhado.

Infraestrutura verde – Soluções Sustentáveis para Cidades do Futuro. Soluções baseadas na natureza e infraestrutura verde no estatuto da cidade. (ecodebate)

Estudo coloca litoral brasileiro na mira da elevação do mar

Pesquisa da Universidade McGill revela que capitais como Rio, Recife e Florianópolis estão entre as áreas mais vulneráveis das Américas; cenário exige planejamento urbano urgente

O aumento do nível do mar pode inundar mais de 100 milhões de imóveis no Sul Global até o fim do século, alerta estudo da McGill. Com um litoral extenso e cidades densamente povoadas ao nível do mar, o Brasil figura como um dos epicentros da crise climática, colocando em risco milhões de pessoas e infraestruturas essenciais.

O aumento do nível do mar pode colocar mais de 100 milhões de edifícios em todo o Sul Global em risco de inundações regulares se as emissões de combustíveis fósseis não forem reduzidas rapidamente, de acordo com um novo estudo liderado pela McGill publicado na npj Urban Sustainability.

O estudo trouxe um alerta global que soa com especial urgência para o Brasil. A pesquisa, uma das mais abrangentes já realizadas sobre o tema, mapeou quantos edifícios em todo o mundo estarão expostos a inundações anuais e crônicas no futuro devido à elevação do nível do mar.

As conclusões apontam para um risco iminente para cidades costeiras e o extenso litoral brasileiro, com capitais densamente povoadas praticamente ao nível do mar, aparece como uma das áreas mais vulneráveis das Américas.

O estudo considerou cenários entre 0,5 e 20 metros de elevação do nível do mar. Descobriu que, com um aumento de apenas 0,5 metros, um nível projetado para ocorrer mesmo sob cortes ambiciosos de emissões, aproximadamente três milhões de edifícios poderiam ser inundados.

Em cenários com cinco metros ou mais de ascensão, como poderia ser esperado dentro de algumas centenas de anos se as emissões não terminarem em breve, a exposição aumenta acentuadamente, com mais de 100 milhões de edifícios em risco.

Muitos desses edifícios estão em áreas densamente povoadas e baixas, o que significa que bairros inteiros e infraestrutura crítica, incluindo portos, refinarias e patrimônios culturais, seriam afetados.

De acordo com a modelagem da McGill, o Brasil possui milhões de metros quadrados de área construída e inúmeros edifícios localizados em zonas costeiras de baixa altitude. A situação é particularmente crítica para cidades como:

Rio de Janeiro: A icônica orla da Zona Sul, bairros como a Urca e partes da região portuária, áreas de alto valor imobiliário e simbólico, estão na linha de frente da ameaça.

Recife: Conhecida como a “Veneza Brasileira” por sua geografia cortada por rios e canais, a capital pernambucana é frequentemente citada como uma das mais vulneráveis do mundo. Bairros baixos e a própria estrutura urbana da cidade a colocam em risco extremo.

Florianópolis: A ilha, que depende fortemente do turismo, vê suas praias, restingas e a região central da capital ameaçadas, o que pode impactar diretamente a economia local e a segurança da população.

Além das praias: Ameaça a infraestruturas vitais

O risco, no entanto, vai muito além da inundação de residências. O estudo ressalta que infraestruturas críticas – como usinas de energia, redes de água e esgoto, hospitais e rodovias costeiras – também estão na zona de perigo. A interrupção desses serviços essenciais em eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, pode paralisar cidades inteiras e gerar custos econômicos e sociais incalculáveis.

“A elevação do nível do mar não é mais uma projeção distante. É uma realidade que já está moldando riscos reais para as economias costeiras, e o Brasil, com sua forte dependência do litoral, precisa encarar isso com a máxima seriedade”, analisa um especialista em climatologia urbana, ecoando a urgência transmitida pelo relatório canadense.

Estudo aponta vulnerabilidades na costa brasileira

Um futuro que depende das emissões

A pesquisa da McGill apresenta diferentes cenários, que dependem diretamente das ações globais para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Em um cenário mais pessimista, com altas emissões, o número de edifícios afetados globalmente pode ser o dobro daquele em um cenário de baixas emissões. Isso significa que as políticas climáticas adotadas hoje pelo Brasil e pelo mundo serão decisivas para determinar a magnitude do prejuízo nas próximas décadas.

A necessidade de uma resposta urgente

O estudo serve como um aviso claro para que o planejamento urbano e as políticas públicas no Brasil incorporem, de forma imediata, a variável climática.

Medidas como a criação de zonas de amortecimento costeiro, a restrição de novas construções em áreas de risco muito alto, o investimento em infraestrutura verde e a elaboração de planos robustos de adaptação e resposta a desastres deixaram de ser opcionais.

A beleza e a prosperidade das cidades litorâneas brasileiras, que atraem milhões de turistas e concentram uma parcela significativa do PIB nacional, estão sob ameaça.

A janela para agir e evitar os piores cenários, conforme demonstrado pela ciência da Universidade McGill, está se fechando rapidamente.

Aumento no nível dos oceanos coloca 5 áreas costeiras do Brasil em estado de alerta. Segundo pesquisa realizada pela Climate Central, organização focada na análise e comunicação dos impactos da crise climática global, nas próximas décadas as seguintes áreas podem ficar embaixo d’água:

1. Rio de Janeiro e região: além da capital, outras cidades podem ser atingidas, chegando até Cabo Frio.

2. Belém e região: além da capital do Pará, também pode ficar submersa a maior parte da Ilha do Marajó.

3. Macapá, Oiapoque e Ilha do Maracá: costeiro, o estado do Amapá tem dois grandes corpos de água, sendo limitado pelo Oceano Atlântico a nordeste e pela foz do Rio Amazonas a leste.

4. São Luís e as Ilhas de Santana, no Maranhão, assim como o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, podem ficar parcialmente encobertos pelo aumento do nível do oceano.

5. Rio Grande do Sul: conforme já estamos presenciando na atual crise, a área costeira de Porto Alegre até Pelotas pode ficar submersa nas próximas décadas.

Exposição à inundação de edifícios

Em (a), a cor de cada célula de grade de 50 km representa a quantidade de SLR que faz com que > 25% da contagem total de edifícios da célula seja inundada na maré alta. Exibição de painéis de inserção (b) ~ 3 km e (c) ~ 250 m regiões. Em (b) e (c), os edifícios individuais são coloridos de acordo com o valor da LSLR em que o nível do solo do edifício está em contato com a água na maré alta. Esses painéis esclarecem que, embora o resultado geral da grade em (a) seja bastante grosseiro, a variabilidade dentro de uma célula de grade pode ser alta e bem capturada pelo conjunto de dados. (ecodebate)

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Projetamos casas, escritórios e fábricas para um clima que já se foi

Esta frase reflete a urgência de adaptar a arquitetura e a engenharia ao aquecimento global, pois grande parte dos edifícios modernos ainda é concebida com base em dados climáticos do século passado.

O impacto nas construções

• Calor e energia: O aumento das temperaturas sobrecarrega sistemas de refrigeração, elevando o consumo de energia e os custos operacionais.

• Conforto e saúde: Ambientes mal ventilados ou sem isolamento térmico adequado afetam a produtividade em escritórios e a saúde de moradores e trabalhadores.

• Eventos extremos: Tempestades severas e ondas de calor exigem estruturas mais resistentes e resilientes.

O caminho para a adaptação

• Arquitetura bioclimática: Priorizar a ventilação cruzada, a iluminação natural e o sombreamento adequado.

• Saberes tradicionais: Resgatar soluções da arquitetura vernacular, como beirais amplos e materiais que mantêm o frescor interno.

• Materiais eficientes: Utilizar blocos de solo-cimento, isolantes térmicos e telhados verdes.

Construção civil.

Do apartamento ao galpão industrial, a conta do aquecimento global chega em forma de energia, produtividade e saúde. E o tempo para corrigir a rota está se esgotando.

Residências, torres comerciais e plantas industriais foram erguidos com base em conceitos e arquivos meteorológicos do século passado. Hoje, isto ameaça trabalhadores, moradores e a própria economia.

Quando entrei em casa naquela tarde, o termômetro marcava 38°C lá fora. Dentro, parecia mais quente ainda. As paredes, que deveriam me proteger, devolviam o calor acumulado durante o dia. O ventilador trabalhava sem parar e eu sabia que, no fim do mês, a conta de luz viria como um lembrete amargo: meu apartamento não foi feito para o clima que estou vivendo.

Mas essa sensação de impotência diante do termômetro não é um privilégio exclusivo dos lares. Ela se repete no escritório onde passo oito horas por dia, com o vidro da fachada transformando o ambiente numa estufa. E se agrava ainda mais nas visitas que faço a galpões industriais, onde o calor gerado pelas máquinas encontra nas telhas metálicas um aliado perverso para tornar o ambiente hostil, muitas vezes com temperaturas internas superiores em até 10°C em relação ao lado de fora.

Em quase todo o planeta, todos os tipos de edificação foram projetados para um clima que já não existe mais. E essa é uma crise silenciosa que atravessa paredes, fachadas e estruturas de aço.

Engenheiros e arquitetos sempre usaram arquivos meteorológicos elaborados a partir de décadas de medições históricas, muitas vezes com dados de mais de 30 anos. O problema é que um prédio projetado hoje precisa ter um bom desempenho em 2080 e, idealmente, além disso. Projetar para o clima do passado é como navegar olhando para trás, enquanto a tempestade já está sobre nós.

Os efeitos já são sentidos em toda a cadeia. Estudos mostram que 37% dos imóveis residenciais em cidades como Florianópolis podem sofrer superaquecimento já em 2050. Nos escritórios, a realidade é igualmente alarmante. Fachadas totalmente envidraçadas, ausência de brises e sistemas de ventilação ineficientes transformam torres comerciais em verdadeiras fornalhas urbanas, agravando o fenômeno das ilhas de calor.

Nas indústrias, o cenário é ainda mais crítico. Galpões logísticos e fábricas, muitas vezes construídos com coberturas metálicas escuras e sem isolamento térmico, acumulam calor de forma avassaladora, colocando em risco não apenas a integridade dos equipamentos sensíveis, mas principalmente a saúde dos trabalhadores da linha de produção.

O preço vai muito além do desconforto

Essa inadequação não é apenas uma questão de conforto. Ela ameaça nossa saúde, nossa produtividade e o próprio planeta.

A demanda global por resfriamento deve triplicar até 2050, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Mais ar-condicionado significa mais consumo de energia e mais emissões de gases de efeito estufa, num ciclo vicioso que aquece ainda mais o planeta. Nas residências, o impacto recai sobre as contas familiares.

Nos escritórios, o consumo excessivo de energia para climatização já representa, em média, mais da metade dos gastos operacionais de um edifício comercial. Nas indústrias, o custo é exponencial, pois além da refrigeração dos ambientes, muitos processos fabris exigem controle térmico rigoroso para não comprometer a qualidade dos produtos.

Mas o impacto mais imediato e doloroso recai sobre as pessoas. Crianças e idosos são especialmente vulneráveis ao estresse térmico dentro de casa. Nos ambientes corporativos, a chamada síndrome do edifício doente provoca queda de produtividade, aumento de faltas e erros operacionais. Já nos chãos de fábrica, o calor extremo combinado ao esforço físico eleva drasticamente o risco de acidentes de trabalho, desmaios e problemas cardiovasculares graves entre os operários, que muitas vezes não contam com pausas regulamentadas para hidratação em dias de pico térmico.

O que fazer com o que já está de pé e o que ainda vai ser construído?

Para construções com mais de dez anos, seja uma casa, um edifício corporativo ou uma planta fabril, as soluções passam por reformas e adaptações pontuais, ainda que custosas. Nos lares, isso significa investir em isolamento de paredes e telhados. Nos escritórios, a aplicação de películas reflexivas nos vidros, a instalação de brises externos e o uso de sensores de presença para otimizar o ar condicionado já trazem alívio significativo. Nas indústrias, a aposta em telhas termo acústicas, exaustores eólicos e sistemas de resfriamento evaporativo pode reduzir a temperatura interna em até 8°C, sem o custo proibitivo de grandes sistemas de refrigeração artificial.

Para os projetos de hoje, no entanto, o momento é de repensar tudo. O Brasil tem um déficit habitacional estimado em 6 milhões de domicílios, além de um avanço contínuo na construção de novos centros logísticos e parques fabris. Cada uma dessas novas unidades, se erguida com os padrões de ontem, será mais um problema para o amanhã.

É preciso incorporar critérios de adaptação climática desde a concepção dos projetos. Isso significa optar por cores claras em todas as fachadas e coberturas, que absorvem menos radiação. Significa evitar o excesso de vidros sem sombreamento em torres comerciais e priorizar o resfriamento passivo em galpões, com ventilação cruzada e grandes aberturas estrategicamente posicionadas. Significa, acima de tudo, entender que a arquitetura e a engenharia precisam dialogar com o clima real, e não com as médias amenas do século passado.

A sobrevivência passa pelas paredes, sejam elas de alvenaria, vidro ou aço

Mesmo que o cenário pareça desalentador, há esperança. Arquitetos e engenheiros já testam técnicas construtivas inovadoras e resgatam ensinamentos da arquitetura vernacular, que por séculos soube lidar com o clima local sem depender de energia elétrica.

O que está em jogo não é apenas o conforto térmico de um morador, de um funcionário ou de um operário. É a saúde de nossas crianças, a dignidade dos trabalhadores que mantêm a economia girando e a sobrevivência de nossas cidades.

Projetar e adaptar residências, escritórios e instalações industriais às mudanças climáticas não é mais uma opção de mercado ou uma tendência sustentável. É uma questão de sobrevivência coletiva, de resiliência econômica e de humanidade.

E o tempo para agir é agora. Porque, daqui a algumas décadas, quando olharmos para trás, não queremos descobrir que construímos todos os nossos ambientes para um mundo que já se foi, enquanto o mundo real, lá fora, seguia em frente, mais quente e mais hostil a cada verão. (ecodebate)

Impactos socioambientais e econômicos dos eventos climáticos extremos

Os eventos climáticos extremos causam perdas humanas severas, destruição de infraestruturas e prejuízos bilionários à economia global.

Impactos Sociais e Humanos

• Deslocamentos e Refugiados: Enchentes, tempestades e incêndios forçam famílias a abandonar suas casas para sobreviver.

• Saúde Física e Mental: Ondas de calor e poluição do ar por queimadas geram problemas respiratórios, estresse térmico e aumento da ansiedade ou adoecimento mental.

• Fome e Desigualdade: A desestabilização da agricultura agrava a pobreza e a insegurança alimentar, atingindo com mais força populações marginalizadas, periferias, idosos e povos indígenas.

Impactos Ambientais

• Colapso de Ecossistemas: Secas e calor excessivo reduzem áreas de pastagem, secam rios e aceleram a desertificação de regiões inteiras.

• Perda de Biodiversidade: Mudanças drásticas na temperatura e a acidificação dos oceanos ameaçam fauna, flora e recursos pesqueiros fundamentais.

• Eventos Hidrometeorológicos: O ciclo da água fica desregulado, alternando períodos de estiagem severa com chuvas intensas e enxurradas.

Impactos Econômicos

• Quebra na Produção de Alimentos: A destruição de lavouras e a morte de gado reduzem a oferta e elevam os preços dos alimentos no mercado.

• Gastos Públicos Emergenciais: Governos precisam direcionar verbas bilionárias para reconstruir estradas, cidades destruídas e atender desabrigados.

• Prejuízos Empresariais: Cortes de energia, paralisação de comércios e danos materiais aumentam a busca por seguros patrimoniais e elevam os custos operacionais.

Neste artigo, vamos sintetizar quais são os principais tipos de eventos climáticos extremos, como eles são influenciados pelas mudanças climáticas e quais são os seus impactos.

Resumo: Este artigo aborda os impactos dos eventos climáticos extremos na população e na economia, considerando os principais tipos de eventos, a influência das mudanças climáticas e as consequências diretas e indiretas desses fenômenos. São apresentados exemplos de como os eventos extremos podem causar mortes, ferimentos, deslocamentos, migrações, prejuízos econômicos, problemas de saúde e conflitos sociais e, também, discute as possíveis formas de prevenção e adaptação aos eventos extremos, bem como as políticas públicas necessárias para enfrentar esse desafio global.

Tipos de eventos climáticos extremos

Os eventos climáticos extremos podem ser classificados em quatro categorias, de acordo com a sua origem:

– Hidrológicos: são aqueles relacionados à água, como inundações, alagamentos, enchentes, deslizamentos e secas.

– Geológicos ou geofísicos: são aqueles relacionados à terra, como processos erosivos, movimentação de massa e terremotos.

– Meteorológicos: são aqueles relacionados ao ar, como raios, ciclones, tornados, vendavais e granizo.

– Climatológicos: são aqueles relacionados à temperatura, como ondas de calor, ondas de frio, geadas e incêndios florestais.

Influência das mudanças climáticas

As mudanças climáticas são alterações no clima da Terra causadas principalmente pela emissão de gases de efeito estufa provenientes das atividades humanas. Essas alterações afetam o equilíbrio do sistema climático e podem aumentar a frequência, a intensidade e a duração dos eventos climáticos extremos.

Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), há evidências científicas de que as mudanças climáticas já estão influenciando alguns tipos de eventos extremos, como ondas de calor, secas, chuvas intensas e ciclones tropicais. Além disso, o IPCC projeta que esses eventos se tornarão mais frequentes e severos com o aumento do aquecimento global.

Impactos dos eventos climáticos extremos na população

Os eventos climáticos extremos podem causar diversos impactos na população, como:

– Mortes e ferimentos: muitas pessoas podem perder a vida ou ficar feridas por causa dos eventos extremos, seja por afogamento, soterramento, choque elétrico, hipotermia ou hipertermia.

– Deslocamentos e migrações: muitas pessoas podem ser obrigadas a deixar suas casas ou regiões por causa dos eventos extremos, seja por perda de moradia, infraestrutura, serviços ou meios de subsistência.

– Prejuízos econômicos: muitas pessoas podem perder seus bens ou fontes de renda por causa dos eventos extremos, seja por danos à agricultura, indústria, comércio ou turismo.

– Problemas de saúde: muitas pessoas podem desenvolver ou agravar problemas de saúde por causa dos eventos extremos, seja por doenças infecciosas, respiratórias, cardiovasculares ou mentais.

– Conflitos sociais: muitas pessoas podem entrar em conflito por causa dos eventos extremos, seja por disputa de recursos naturais, territórios ou direitos humanos.

Impactos dos eventos climáticos extremos na economia

Esses eventos têm causado não apenas danos ambientais e humanos, mas também impactos econômicos significativos em diversas regiões do mundo.

Segundo um relatório da ONG Christian Aid, em 2021 ocorreram 10 eventos climáticos extremos que provocaram mortes, deslocamentos e prejuízos bilionários em vários países. O furacão Ida, que atingiu os Estados Unidos em agosto, foi o mais destrutivo em termos financeiros, causando cerca de US$ 95 bilhões em danos. As enchentes na Europa em julho também foram devastadoras, com um custo estimado de US$ 30 bilhões. Outros eventos citados no relatório foram o ciclone Yaas na Índia e Bangladesh, a onda de calor na América do Norte, as inundações na China e as queimadas na Sibéria.

Além desses casos, a América Latina também sofreu com os efeitos das mudanças climáticas em 2021. A seca do Rio Paraná, que atinge Argentina, Brasil e Paraguai, afetou a navegação, a agricultura, a geração de energia e o abastecimento de água. As enchentes na Bahia deixaram milhares de desabrigados e provocaram deslizamentos de terra. Os incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal continuaram a consumir a biodiversidade e a liberar mais carbono na atmosfera.

Os eventos climáticos extremos têm consequências econômicas diretas e indiretas. Os danos diretos são aqueles que afetam a infraestrutura, os bens e os serviços essenciais. Os danos indiretos são aqueles que afetam a produção, o consumo, o emprego, a renda e o bem-estar das populações. Ambos os tipos de danos podem gerar efeitos multiplicadores negativos na economia, reduzindo o crescimento potencial e aumentando a pobreza e a desigualdade.

Para evitar ou minimizar esses impactos, é preciso adotar medidas de adaptação e mitigação às mudanças climáticas. A adaptação consiste em aumentar a resiliência dos sistemas naturais e humanos aos eventos climáticos extremos, por meio de planejamento, prevenção, proteção e recuperação. A mitigação consiste em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e aumentar os sumidouros de carbono, por meio de transição energética, eficiência, inovação e cooperação.

A recuperação verde é uma oportunidade para aliar essas medidas com a retomada econômica pós-pandemia. Investir em setores baixos ou neutros em carbono pode gerar empregos, renda e desenvolvimento sustentável. Além disso, é preciso integrar os riscos climáticos nas decisões financeiras públicas e privadas, para evitar perdas futuras e incentivar a transição para uma economia de baixo carbono.

Os eventos climáticos extremos são fenômenos que podem trazer graves consequências para a sociedade. Por isso, é importante entender as suas causas e efeitos, bem como buscar formas de prevenção, adaptação e mitigação. A ação conjunta dos governos, das empresas e da sociedade civil é fundamental para enfrentar esse desafio global.

Ocorrência de eventos climáticos extremos se multiplicou por 5 nos últimos 50 anos. (ecodebate)

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