sexta-feira, 29 de maio de 2026

O clima mudou e a desinformação quer que você ignore isso

A desinformação climática é uma estratégia organizada para negar, atrasar ou distorcer as evidências científicas sobre a mudança do clima, visando proteger interesses econômicos. Ela paralisa a ação, desinforma a população e ignora eventos extremos que já são rotina, sendo um obstáculo crucial enfrentado por iniciativas como a COP30.

Como a Desinformação Opera (Mitos e Realidades):

Negacionismo: Nega a existência das mudanças climáticas ou a influência humana.

Dúvida/Atraso: Questiona a viabilidade de soluções ou a urgência das ações.

Narrativas Falsas: Argumentos comuns como "ondas de calor sempre existiram" visam minimizar a crise atual.

Desmobilização: Desestimula o apoio a políticas públicas e a ação de gestores, retardando a mitigação.

Impactos da Mentira Organizada:

Risco à Democracia: Impede o debate público genuíno, essencial para a ação.

Aumento de Vulnerabilidade: Informações falsas desestimulam ações de preparo, agravando desastres como as inundações no Rio Grande do Sul.

Custo Social: Desvia recursos públicos que poderiam ir para áreas como saúde e educação.

Como combater:

Checagem: Reconheça a armadilha antes de compartilhar conteúdo.

Educação: O pensamento crítico e o letramento climático são essenciais na escola.

Valorização da Ciência: Reconhecer que a ciência é sólida e a ação contra a crise climática é urgente.

A proteção da realidade é o primeiro ato de resistência contra a desinformação.

Uma reflexão pessoal sobre como a mentira organizada sobre o clima afeta nossa capacidade de agir e por que proteger a percepção da realidade é o primeiro ato de resistência.

A responsabilidade institucional é a chave para o futuro. O clima extremo virou rotina, ciência não é opinião. Reconheça a armadilha antes de compartilhar.

O clima extremo virou rotina

Tem uma coisa estranha acontecendo com a nossa percepção do tempo. Não o tempo do relógio, mas o do clima. Nos últimos cinco anos, ficou difícil lembrar qual verão foi o mais quente, qual chuva foi a mais violenta, qual seca durou mais do que devia. Eles se misturam e esse embaralhamento já é um sintoma.

Eu percebo isso nas conversas do dia a dia. “Nossa, que calor, né?”, virou quase uma saudação. O incêndio florestal que aparece no noticiário deixou de chocar. A enchente em um estado que a gente nunca associaria à enchente é comentada rapidamente antes de ir para o próximo tema. Normalizamos o extraordinário. E essa normalização silenciosa é, talvez, tão perigosa quanto a crise em si.

Escrevo este artigo, como jornalista e ambientalista, porque entendo que proteger a nossa percepção da realidade não é um exercício filosófico, é um ato político e urgente. Porque se não enxergamos o problema com clareza, não agimos. E a janela para agir está se fechando.

A ciência não é opinião

Antes de qualquer coisa, quero estabelecer um ponto inegociável: o consenso científico sobre as mudanças climáticas não é uma corrente de pensamento entre outras. É o resultado acumulado de décadas de pesquisa, dados e revisão rigorosa por pares de cientistas do mundo inteiro.

O IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, é claro ao afirmar que a influência humana no clima é a causa central das alterações que vivemos hoje. Não uma causa entre muitas. A causa central. E a ação urgente é a única saída segura que temos.

Isso tem consequências práticas que vão muito além do “meio ambiente” como um tema isolado. Eventos climáticos extremos afetaram mais de 330 mil pessoas só no Brasil em 2025, com perdas econômicas estimadas em cerca de R$ 3,9 bilhões, segundo o Cemaden. Não estamos falando de natureza em abstrato. Estamos falando de casas, famílias, meios de vida e histórias de pessoas reais.

O que a ciência também aponta, e que raramente aparece nas manchetes, é que a preservação dos ecossistemas não é o oposto do crescimento econômico, mas é o que o sustenta no longo prazo. Comunidades saudáveis dependem de ecossistemas equilibrados. Quando perdemos florestas, perdemos regulação do clima, da água e do solo. Perdemos, em última instância, as condições que tornam a vida humana viável.
Reconheça a armadilha antes de compartilhar

Agora preciso falar sobre algo que me incomoda profundamente: a maquinaria organizada de confusão que circula nas redes sociais sobre o clima.

A desinformação climática cresce de forma sistemática e ameaça a ação coletiva. Uma de suas táticas mais comuns é a escolha seletiva de dados, o chamado cherry-picking, que consiste em usar exemplos isolados para contradizer tendências globais. Um exemplo clássico é pegar um episódio de frio extremo em algum lugar do mundo e apresentá-lo como prova de que “o aquecimento global é mentira”, omitindo completamente o contexto de temperatura média global crescente.

Outra estratégia recorrente é a chamada “falsa equivalência” que consiste em colocar uma opinião sem base científica lado a lado com décadas de pesquisa rigorosa, como se os dois lados tivessem o mesmo peso. Não têm. Nunca tiveram.

Pesquisas do NetLab/UFRJ mostram que a desinformação climática no Brasil opera dentro de um ecossistema digital bem organizado, com influenciadores e plataformas que monetizam conteúdo negacionista por meio de publicidade, criando um efeito de câmara de eco que dificulta o contato com perspectivas científicas.

Essas táticas não existem para informar. Existem para semear dúvida suficiente para adiar soluções. Dúvida é lucrativa para quem tem interesse no extrativismo sem custo ambiental. Dúvida paralisa. Dúvida mata políticas públicas ainda no berço.

Colocando nomes na destruição

Há uma construção linguística que me irrita muito: “as florestas estão desaparecendo”. Passiva impessoal. Como se a Amazônia estivesse escolhendo sumir sozinha.

Florestas não desaparecem. São derrubadas. E há autores nesse processo. São decisões institucionais específicas, são grupos de interesse com nome e CNPJ, é a busca por lucro imediato que coloca o extrativismo predatório acima do bem coletivo de longo prazo.

Usar a voz ativa nessa conversa não é um detalhe estilístico. É uma escolha política. Quando dizemos que “grupos específicos empurram o desmatamento ilegal para aumentar área de pastagem”, fica claro que há escolhas envolvidas. E escolhas podem ser diferentes. Podem ser revertidas. Podem ser responsabilizadas.

A crise climática não é um acidente da história humana. É o resultado cumulativo de decisões e muitas delas tomadas em nosso nome sem nos consultar, contra nosso interesse de longo prazo. Nomear isso é o primeiro passo para mudar.
3 atitudes que qualquer pessoa pode ter

Não vou terminar esse texto com catastrofismo. Não porque a situação não seja séria, ela é.

Mas porque o medo sem saída gera paralisia e paralisia é exatamente o que a desinformação quer produzir em você.

Existem coisas concretas que qualquer pessoa pode fazer, hoje, sem precisar de cargo público ou plataforma enorme:

Verificar a fonte antes de compartilhar. Isso parece óbvio, mas a pressão do feed é real. Quando algo parece urgente ou revoltante demais para ser verdade, é exatamente aí que vale um segundo de pausa. Busque informações em instituições de pesquisa reconhecidas, em órgãos científicos, em veículos que têm metodologia de checagem transparente.

Não amplificar o erro. Esse é contra intuitivo. A vontade de compartilhar uma mentira para “expor” é natural, mas os algoritmos não distinguem indignação de aprovação e o que eles veem é engajamento. Em vez de compartilhar a mentira com um comentário crítico, compartilhe o fato correto. Essa é a ideia do “sanduíche da verdade”: contexto → fato correto → por que a desinformação existe. A verdade no centro.

Conectar o debate ao humano. As mudanças climáticas não são um problema de ursos polares no Ártico distante. São a história da família que perdeu tudo nas enchentes do Rio Grande do Sul. São os agricultores do Nordeste enfrentando secas cada vez mais longas. São as crianças das periferias das grandes cidades que têm menos acesso às áreas verdes e sofrem mais com as ondas de calor. Quando a conversa ganha rosto e nome, ela se torna impossível de ignorar.

A proteção do nosso planeta começa na proteção da nossa percepção da realidade. A ciência nos dá o mapa com precisão suficiente para agir. O que nos falta não é informação, é a coragem coletiva de olhar para ela sem desviar o olhar e a lucidez de reconhecer quando alguém está tentando nos tirar esse mapa das mãos.
Desinformação sabota a maioria dentre todas as respostas à crise climática. (ecodebate)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Queda das taxas globais de fecundidade e ao envelhecimento populacional

Respondendo à queda das taxas globais de fecundidade e ao envelhecimento populacional.
A queda global da fecundidade e o envelhecimento populacional, intensificados por melhorias na saúde e famílias menores, levarão a uma redução populacional progressiva, com o Brasil projetando declínio a partir de 2030-2048. Este fenômeno irreversível no curto prazo pressiona os sistemas de previdência e saúde, exigindo adaptações econômicas e sociais.

Desafios e Impactos Principais (2026):

Declínio Populacional e Envelhecimento: A população brasileira deve atingir 215 milhões em 2030 e cair para 209 milhões em 2040, com o envelhecimento progredindo mais rápido em países em desenvolvimento.

Crise na Previdência e Saúde: O aumento da "razão de dependência" (mais idosos para menos trabalhadores) sobrecarrega sistemas de seguridade social.

Impacto no Trabalho: A redução da força de trabalho jovem pode diminuir taxas de poupança e investimento.

Respostas e Estratégias:

Limitação das Políticas de Natalidade: Países que tentaram incentivos financeiros para aumentar a taxa de natalidade raramente obtiveram sucesso em restaurar a taxa de reposição (2,1 filhos por mulher).

Adaptação do Mercado de Trabalho: Necessidade de aumentar a idade de aposentadoria e promover a participação de idosos e mulheres no mercado de trabalho para compensar a diminuição da população ativa.

Avanços na Saúde: O aumento da expectativa de vida requer focos em saúde preventiva e qualidade de vida para garantir um envelhecimento ativo.

O envelhecimento é um componente da transição demográfica, indicando uma mudança estrutural duradoura que exige planejamento público urgente para a sustentabilidade econômica.

O debate sobre fecundidade, envelhecimento e decrescimento precisa ser resgatado do alarmismo ideológico e recolocado no terreno das evidências, dos direitos e da inovação social

A dinâmica populacional costuma despertar paixões e, historicamente, tem servido de justificativa para intervenções estatais profundas sobre as liberdades individuais, nas mais diversas formas. A China, por exemplo, instituiu em 1980 a política do filho único — talvez a política controlista mais draconiana já implementada para conter o crescimento populacional. Mas, nos anos 2020, passou a adotar políticas explicitamente pronatalistas, na tentativa de reverter o processo de decrescimento da população.

O gráfico abaixo mostra que a população mundial era de 600 milhões de habitantes em 1700, passou para 1 bilhão em 1805, para 2 bilhões em 1925, 3 bilhões em 1960 e 4 bilhões de habitantes em 1974. Neste período, a taxa de crescimento populacional anual passou de 0,5% entre 1700 e 1805, para 0,6% entre 1805 e 1925, para 1,2% entre 1925 e 1960 e 2,1% entre 1960 e 1974. Portanto, não só a população estava crescendo, mas o ritmo de crescimento estava se acelerando.

Contudo, o pico do ritmo de crescimento ocorreu na década de 1960, com mais de 2% ao ano. A partir da década de 1970 a população mundial continuou crescendo, mas em ritmo desacelerado. A taxa de crescimento populacional anual ficou em 1,7% entre 1974 e 1987, caiu para 1,5% entre 1987 e 1999, para 1,3% entre 1999 e 2011 e para 1,1% entre 2011 e 2023. Desde 2024 a taxa de crescimento está abaixo de 1% ao ano. O gráfico mostra que o pico populacional global ocorrerá em 2086, com 10,4 bilhões de habitantes. A partir daí a taxa de crescimento ficará negativa e haverá decrescimento da população.

Em meados do século passado, quando as taxas de crescimento populacional estavam crescendo de forma acelerada (devido à transição da mortalidade) se tornou comum a difusão do medo da “explosão populacional”. Agora que as taxas de fecundidade estão abaixo do nível de reposição na maioria dos países do mundo se tornou comum a difusão do medo da “implosão populacional”. Mas como mostrei em artigo publicado na virada do milênio (Alves, 2000) estas ideias de explosão e implosão não passam de mitos que não se confirmam no longo prazo e servem apenas para interesses escusos de ideologias conservadoras e autoritárias.

Os gráficos abaixo são das projeções populacionais da Divisão de População da ONU (revisão 2024). A Taxa de Fecundidade Total (TFT) – gráfico da esquerda – estava em torno de 5 filhos por mulher em meados do século passado, deve cair para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) em meados do atual século e ficar abaixo de 2 filhos por mulher entre 2050 e 2100. Em decorrência da baixa TFT, a população mundial vai começar a decrescer a partir da década de 2080.

Em paralelo, haverá um rápido e profundo processo de mudança da estrutura etária, com o aumento da proporção de idosos, como mostra o gráfico abaixo (da direita). A proporção de idosos de 60 anos e mais estava em torno de 6% em meados do século passado e deve chegar a cerca de 30% em 2100. No final do atual século a população total vai diminuir, mas a população idosa continuará crescendo.

A queda das taxas de fecundidade, o envelhecimento populacional e o decrescimento demográfico se tornaram assuntos banais na mídia mundial e figuras da extrema direita como Viktor Orbán, Elon Musk, J. D. Vance e Donald Trump estão em constante campanha contra o chamado “inverno demográfico”. Eles atacam os direitos sexuais e reprodutivos das pessoas em nome de um suposto “colapso demográfico” e de uma inevitável “crise fiscal” que provocaria o fim da civilização humana.

Contra estas visões escatológicas sobre o envelhecimento populacional e o esvaziamento demográfico, a revista acadêmica The Lancet fez um editorial com o título: “Responding to declining global fertility rates” (2026), dizendo “A consequência extrema dessas tendências, segundo alguns, é o colapso populacional. Muitos etnonacionalistas acrescentam uma dimensão racial a esses temores. Mas existem preocupações mais compreensíveis sobre mudanças sociais, diminuição do número de pessoas empregadas, redução da arrecadação de impostos e aumento dos encargos previdenciários. Prevê-se que os custos com saúde e assistência social disparem com o crescente número de pessoas com deficiência cognitiva e outras doenças não transmissíveis”.

O editorial da The Lancet se contrapõe ao catastrofismo: “Grande parte da retórica em torno das mudanças demográficas é permeada por um sentimento antienvelhecimento implícito ou explícito. Os idosos não podem ser considerados simplesmente um fardo para a economia. Os governos precisam adotar uma mentalidade de envelhecimento saudável; idosos fisicamente mais aptos podem trabalhar por mais tempo e têm uma necessidade reduzida de serviços de saúde e assistência social. A medicina geriátrica e de reabilitação precisa de investimentos. O acesso aos serviços para idosos precisa ser melhorado, incluindo aqueles focados em prevenção e promoção da saúde. Os avanços tecnológicos e a inteligência artificial prometem melhorar as capacidades dos idosos e auxiliar a inovação e o desenvolvimento. A flexibilização das políticas migratórias restritivas também aumentaria o número de jovens adultos em países com uma força de trabalho em declínio”.

O fim do 1º bônus demográfico não é o fim do progresso, pois há ainda o 2º bônus demográfico (bônus da produtividade) e o 3º bônus demográfico (bônus da longevidade). Como mostrei no artigo “O envelhecimento populacional deve ser acolhido e não temido” (Alves, 01/10/2025):

“O envelhecimento populacional não é o prenúncio de um colapso, mas a expressão de uma vitória civilizatória. Viver mais é um privilégio que deve ser acompanhado por políticas públicas inovadoras, adaptações institucionais e uma mudança de mentalidade coletiva. Em vez de temer o “Apocalipse demográfico”, é hora de abraçar a construção de uma sociedade da longevidade, capaz de transformar anos extras em saúde, aprendizado, produtividade e bem-estar”.
Os ataques aos direitos reprodutivos estão se ampliando. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA divulgou recentemente novas diretrizes que delineiam uma grande reformulação dos programas federais de planejamento familiar — priorizando o parto em detrimento da contracepção e privilegiando o “planejamento familiar natural”, como aplicativos de monitoramento do ciclo menstrual, em detrimento de métodos muito mais eficazes, como a pílula anticoncepcional. O governo Trump também está prestes a estabelecer novas regulamentações que acabariam com o financiamento de unidades da Planned Parenthood, como mostra Mary Ziegler – professora de direito na UC Davis e autora do livro “Personhood: The New Civil War over Reproduction” (2024).

Em síntese, o debate sobre fecundidade, envelhecimento e decrescimento precisa ser resgatado do alarmismo ideológico e recolocado no terreno das evidências, dos direitos e da inovação social. Como aponta The Lancet, não se trata de negar os desafios fiscais e institucionais, mas de enfrentá-los sem estigmatizar a velhice nem restringir liberdades reprodutivas. O verdadeiro risco não está em viver mais ou ter menos filhos, mas em insistir em modelos econômicos, trabalhistas e de bem-estar desenhados para uma demografia que já não existe.

Ao investir no envelhecimento saudável, na produtividade ao longo do ciclo de vida, na tecnologia, na requalificação permanente e em políticas migratórias mais racionais, é possível converter a transição demográfica em vetor de desenvolvimento. O futuro não será determinado pelo número de nascimentos, mas pela capacidade das sociedades de transformar longevidade em prosperidade compartilhada, justiça social e sustentabilidade.

Fecundidade fica abaixo do nível de reposição em 20 das 22 maiores economias do mundo.

Para termos um mundo mais sustentável, tendência de redução do crescimento populacional precisa vir acompanhada de queda no consumismo e na exploração dos recursos naturais. (ecodebate)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Nova tecnologia de irrigação ajuda a reduzir o consumo de água em sistemas agrivoltaicos

Pesquisadores espanhóis descobriram que a combinação de sistemas agrivoltaicos com um tipo específico de irrigação pode reduzir o consumo de água para irrigação de tomates em cerca de 50%, ao mesmo tempo que melhora a eficiência do uso da terra por meio da produção simultânea de energia solar e da produção agrícola.
Os terrenos agrivoltaicos em Sevilha (a, b) e Madrid (c, d).

Um grupo de pesquisa da Espanha utilizou irrigação deficitária controlada (RDI, na sigla em inglês) em sistemas agrivoltaicos para cultivar tomates em Madri e Sevilha.

A RDI é uma técnica utilizada para reduzir o consumo de água de irrigação, fornecendo intencionalmente menos água às plantas durante os estágios de crescimento menos sensíveis, enquanto se monitora o potencial hídrico das folhas para evitar estresse excessivo e manter a produtividade.

“Essa combinação inovadora visa reduzir a demanda evaporativa das plantas por meio da sombra proporcionada pelos painéis fotovoltaicos, permitindo um uso mais eficiente da terra e da água”, afirmaram os pesquisadores em um comunicado. “Nossos resultados indicam que, embora a sombra dos painéis reduza a radiação disponível, o projeto do sistema permite que o desenvolvimento adequado das plantas seja mantido na maioria das fases do ciclo da cultura”.

Tanto em Madrid quanto em Sevilha, os experimentos ocorreram durante a safra de primavera de 2024. As temperaturas máximas foram frequentemente mais altas em Sevilha do que em Madrid durante a maior parte da estação, e as variedades específicas de sementes de tomate foram selecionadas com base nas condições climáticas. Os sistemas agrivoltaicos nos dois locais consistiam em uma estrutura de 2 monopostes por talhão, suportando 5 módulos de silício monocristalino com potência nominal de 450 W cada.

As estruturas tinham 2,5 m de altura em Madrid e 3 m de altura em Sevilha, com espaçamento de 5 m e 4,5 m, respectivamente. O ângulo de inclinação era de 17° em Madrid e 20° em Sevilha, enquanto a orientação era de 25° e 15° em relação ao eixo norte-sul, respectivamente. Além disso, ambos os locais incluíam uma parcela utilizando apenas irrigação por desidratação programada (RDI), sem sistema agrivoltaico, bem como uma parcela de controle que recebia irrigação plena para atender às necessidades hídricas da cultura e evitar o estresse hídrico.

Com lançamento previsto para 2027, a nova tecnologia de irrigação agrícola desenvolvida no Brasil une IA e IoT para otimizar custos e preservar recursos hídricos.

Os pesquisadores avaliaram três tratamentos de irrigação com três repetições sob diferentes condições de sombreamento e manejo da água. Os talhões de controle receberam irrigação plena com base na evapotranspiração da cultura (ETc) para evitar o estresse hídrico, enquanto a irrigação deficitária controlada (RDI) aplicou estresse hídrico controlado de acordo com os estágios de crescimento da planta e os limiares de potencial hídrico foliar ao meio-dia. Os níveis de irrigação na RDI variaram dinamicamente entre 25% e 125% da ETc, dependendo das medições de estresse das plantas. A parcela agrivoltaica combinou a mesma estratégia de irrigação da RDI com o cultivo da cultura sob estruturas fotovoltaicas. As medições foram realizadas apenas em plantas localizadas centralmente dentro de cada talhão para minimizar os efeitos de borda.

A análise mostrou que o projeto agrovoltaico e a latitude influenciaram fortemente a distribuição da radiação e o microclima das culturas em Madri e Sevilha. Em ambos os locais, as parcelas agrovoltaicas receberam níveis de radiação semelhantes aos dos talhões de controle, enquanto os talhões sombreados apresentaram reduções significativas na radiação fotossinteticamente ativa (PAR), especialmente ao meio-dia. Em Madri, os efeitos do sombreamento persistiram ao longo da estação, com reduções de PAR ao meio-dia de cerca de 90% e valores de integral de luz diária (DLI) em torno de 70% dos valores observados em campo aberto. Em Sevilha, os impactos do sombreamento foram limitados principalmente aos estágios iniciais de crescimento, e as diferenças de DLI praticamente desapareceram no final da estação.

Além disso, os cientistas descobriram que as temperaturas do ar aumentaram progressivamente durante os experimentos, com temperaturas máximas próximas a 40°C em ambos os locais. As parcelas agrivoltaicas apresentaram temperaturas médias ligeiramente mais altas do que as parcelas de controle, principalmente durante os dias quentes e à noite. Durante o dia, no entanto, o sombreamento proporcionado pela agrivoltaica reduziu as temperaturas em Madri, mas não em Sevilha, onde as parcelas agrivoltaicas geralmente apresentaram temperaturas um pouco mais elevadas.
As respostas da temperatura do solo também variaram conforme a localização: o sombreamento proporcionado pelos sistemas agrivoltaicos reduziu a temperatura do solo em Madri no início da estação, enquanto a irrigação deficitária controlada (RDI) aumentou a temperatura do solo posteriormente devido à redução da irrigação e da cobertura vegetal. Em Sevilha, os talhões de controle permaneceram mais frios devido à maior irrigação, enquanto os talhões com sistemas agrivoltaicos tornaram-se as mais quentes devido ao sombreamento limitado e ao calor liberado pelos painéis fotovoltaicos.

“Uma das descobertas mais notáveis ​​é que a estratégia de irrigação deficitária reduziu o consumo de água em aproximadamente 50% em comparação com a irrigação tradicional”, afirmaram os cientistas. “No entanto, essa drástica redução no consumo de água levou a uma queda na produtividade de cerca de 20% no tratamento com irrigação deficitária controlada (RDI), atribuída principalmente às severas condições de estresse hídrico durante a fase de maturação. Apesar dessa queda na produção total de tomate, a produtividade da água de irrigação aumentou significativamente nos tratamentos em Sevilha, demonstrando que é possível obter mais frutos para cada gota de água investida”.

Além disso, o desempenho geral do sistema agrovoltaico foi validado pela taxa de equivalência de área (LER, na sigla em inglês), que combina a eficiência da produção agrícola e da produção de eletricidade. Em Madri, o valor de LER obtido foi de 1,54, enquanto em Sevilha foi de 1,67, confirmando que a produção combinada é mais eficiente do que cultivar tomates e gerar energia em talhões separados. “Isso implica que, embora a produção de tomates diminua sob os painéis, a rentabilidade e a sustentabilidade do sistema aumentam graças à geração de energia limpa no mesmo espaço”, afirmaram os pesquisadores.

Os resultados foram apresentados no artigo “Irrigação deficitária regulada com base no estado hídrico da planta e sistemas agrivoltaicos como possíveis melhorias na gestão de recursos hídricos no cultivo de tomate”, publicado na revista Agricultural Water Management. Participaram do estudo cientistas do Centro de Pesquisa para a Gestão de Riscos Agrícolas e Ambientais (CEIGRAM), da Universidade Politécnica de Madrid, da Universidade de Sevilha, do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) e da Universidade de Castilla-La Mancha.
Novas e revolucionárias soluções inovadoras reduz o consumo de água no setor agrícola. (pv-magazine-brasil)

sábado, 23 de maio de 2026

Taiwan: alto crescimento econômico com decrescimento populacional

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de Taiwan, em 2025, foi muito acima da média mundial, enquanto a população apresentou declínio, ao contrário do ritmo médio global que apresenta aumento.

O gráfico abaixo, com dados do relatório WEO do FMI de abril de 2026 mostra que, em 2025, o crescimento do PIB taiwanês foi de 8,7% e a variação populacional foi negativa em 0,5%. Ou seja, Taiwan apresentou alto crescimento econômico com decrescimento demográfico. O contraste com o Brasil é marcante. Em terras tupiniquins, em 2025, o crescimento do PIB foi de 2,3% e o crescimento populacional foi de 0,5%.
Estas características econômicas e demográficas de Taiwan, em 2025, não foram um ponto fora da curva, mas refletem uma realidade que tem se materializado ao longo de cinco décadas.

Em 1980, a população brasileira era 120 milhões de habitantes e deve chegar a 216 milhões em 2030, um crescimento de 82% em 50 anos. A população taiwanesa passou de 17,9 milhões de habitantes em 1980 para 23,7 milhões em 2019 (atingindo o pico populacional) e deve cair para 23,3 milhões. Em 50 anos o crescimento foi de 30%.

Portanto, o Brasil é um país muito mais populoso e que apresentou um crescimento demográfico significativo em cinco décadas. Na teoria dos economistas populacionistas era para o maior país latino-americano ter apresentado melhores resultados de progresso e bem-estar. Mas aconteceu o contrário.

O gráfico abaixo, também com dados do WEO/IMF, mostra a renda per capita, em preços constantes e em poder de paridade de compra (ppp), para o Brasil e Taiwan. Nota-se que o Brasil tinha uma renda per capita maior no início da década de 1980, mas apresentou desempenho pífio perto de Taiwan nas décadas seguintes.

Em 1980, a renda per capita brasileira era de US$ 13,7 mil e deve chegar a US$ 22 mil em 2030, um crescimento de 60% em 50 anos. No mesmo período, a renda per capita de Taiwan passou de US$ 9,1 mil para US$ 81 mil, um crescimento de 9 vezes em 50 anos.

O crescimento da renda per capita taiwanesa foi acompanhado pela melhoria da qualidade de vida e a redução da pobreza e da mortalidade infantil. Em 1950, a expectativa de vida ao nascer era de 56 anos e deve chegar a 82 anos em 2030 em Taiwan. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer era de 49 anos em 1950 e deve atingir 77 anos em 2030. Taiwan já superou os EUA e foi além da barreira de 80 anos na conquista da longevidade da população.

Desta forma, a ideia de que “mais gente gera mais riqueza” não se sustenta quando olhamos para a experiência comparada. O caso de Taiwan mostra justamente o oposto: o fator decisivo não foi o crescimento demográfico, mas a qualidade das instituições, das políticas públicas e da estrutura social e produtiva. Cabe destacar alguns mecanismos centrais:

1) Capital humano e educação de alta qualidade

Taiwan investiu pesadamente em educação básica universal e, sobretudo, em ensino técnico e superior voltado à indústria. O país formou uma força de trabalho altamente qualificada, especialmente em engenharia e tecnologia. O Brasil ampliou o acesso educacional, mas com problemas persistentes de qualidade e forte desigualdade.

2) Estratégia de industrialização e inserção externa

Desde os anos 1960–70, Taiwan adotou uma estratégia clara de industrialização voltada à exportação, com foco crescente em setores de alta tecnologia (como semicondutores). Empresas como a TSMC são hoje centrais na economia global. Já o Brasil teve uma industrialização mais voltada ao mercado interno, perdeu dinamismo a partir dos anos 1980 e passou por um processo de desindustrialização precoce.

3) Estado desenvolvimentista eficiente

O Estado taiwanês atuou de forma coordenada, com políticas industriais, tecnológicas e financeiras consistentes ao longo do tempo. Houve continuidade estratégica. No Brasil, a política econômica foi mais volátil, com ciclos de expansão e crise, inflação elevada até os anos 1990 e menor coordenação de longo prazo.

4) Demografia: bônus vs. armadilha da renda média

O crescimento populacional só gera benefícios quando há emprego produtivo e aumento de produtividade. Taiwan aproveitou bem seu “bônus demográfico” no passado e, mesmo com o envelhecimento atual, já atingiu alta renda. O Brasil também teve bônus demográfico, mas o aproveitou parcialmente — com baixa produtividade e grande informalidade. Resultado: mais população não se traduziu automaticamente em mais renda per capita.

5) Produtividade como variável-chave

O crescimento de longo prazo depende fundamentalmente da produtividade (quanto cada trabalhador produz), não do número de trabalhadores. Taiwan conseguiu elevar rapidamente sua produtividade ao migrar para setores intensivos em tecnologia. O Brasil ficou preso a setores de menor valor agregado e com ganhos de produtividade limitados.

6) Instituições, desigualdade e ambiente de negócios

Taiwan combinou reformas agrárias, redução de desigualdades iniciais e forte apoio à pequena e média empresa exportadora. O Brasil manteve níveis elevados de desigualdade, o que limita o potencial de crescimento sustentado e a difusão de oportunidades.

A divergência no ritmo de progresso entre Brasil e Taiwan demonstra que o tamanho e o crescimento populacional, por si só, não determinam o sucesso econômico. O caso taiwanês evidencia que o crescimento sustentado depende fundamentalmente de ganhos de produtividade, impulsionados por educação de qualidade, políticas industriais consistentes e inserção competitiva no comércio internacional.
Enquanto Taiwan transformou sua estrutura produtiva e consolidou um modelo exportador de alta tecnologia, o Brasil apresentou trajetória mais instável, com baixa produtividade e perda de dinamismo industrial e perda de competitividade internacional. Assim, mais do que um “gigante demográfico”, o desenvolvimento requer um projeto nacional capaz de converter população em capital humano e inovação. (ecodebate)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Limitar aquecimento em 1,5°C evita 75% dos impactos na vida selvagem

Limitar o aquecimento a 1,5°C pode evitar 75% dos impactos extremos à vida selvagem.
Limitar o aquecimento global a 1,5°C é crucial, podendo evitar cerca de 75% dos impactos extremos na vida selvagem e ecossistemas até 2085, segundo estudos. Manter essa meta reduz significativamente a exposição de habitats a ondas de calor, incêndios e inundações, protegendo a biodiversidade da Amazônia e de outras regiões vulneráveis.

Principais Impactos de 1,5°C vs. Cenários Superiores:

Biodiversidade: O limite de 1,5°C salva 70% a 90% dos recifes de corais, enquanto um aumento de 2°C dizimaria mais de 99% deles.

Habitats em Risco: Sem contenção, até 36% dos habitats de espécies terrestres enfrentarão múltiplos eventos climáticos extremos até 2085.

Ondas de Calor: A limitação a 1,5°C reduz drasticamente a frequência de calores extremos que atingem ecossistemas frágeis.

Ação Climática: A meta estabelecida no Acordo de Paris (2015) exige cortes profundos de emissões, pois a falta de ação acelera a perda de biodiversidade.

Estudos indicam que, embora o mundo já enfrente um aquecimento próximo desse limite, atingi-lo ainda é o cenário preferível para evitar um colapso ecológico mais amplo.
Amazônia aparece entre áreas mais vulneráveis; estudo aponta que quase todos os habitats podem enfrentar calor extremo até o final do século.

Até 2085, 36% dos habitats de espécies em terra poderão estar expostos a múltiplos eventos climáticos extremos, como ondas de calor, incêndios e inundações, caso o aquecimento global continue avançando. O dado é de um estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution, conduzido por uma equipe internacional de 18 cientistas e que aponta a Amazônia como uma das regiões mais vulneráveis a esses impactos.

Ondas de calor, por si só, já devem atingir quase todos os ecossistemas do planeta. Até 2050, cerca de 74% dos habitats estarão expostos a esse tipo de evento extremo — percentual que pode chegar a 93% até 2085 no cenário atual de aquecimento. No ano 2000, esse índice era de apenas 18%, evidenciando a rápida intensificação desses eventos.

O estudo também identifica a bacia amazônica, o sul da África e o Sudeste Asiático como pontos críticos globais para o aumento da frequência de incêndios florestais, reforçando o risco crescente sobre regiões de alta biodiversidade.

Esse cenário, no entanto, ainda pode ser revertido, segundo o estudo. Se o mundo reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis e cumprir as metas do Acordo de Paris, a exposição de habitats a múltiplos eventos extremos cairia para menos de 10% até 2085 — o equivalente a evitar cerca de 75% dos impactos mais severos sobre a biodiversidade global.

Os dados vêm de uma análise que abrange quase 34 mil espécies de vertebrados terrestres, mapeando impactos sobre anfíbios, aves, mamíferos e répteis em escala global. A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional de 18 cientistas e liderado pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK).

“As mudanças climáticas, e em particular os eventos extremos, ainda estão sendo muito subestimados quando se trata de planejamento de conservação. Não será apenas uma mudança gradual de temperatura ao longo de muitos anos”, afirma Stefanie Heinicke, autora principal do estudo.

A Amazônia aparece como um dos principais hotspots globais para o aumento de eventos extremos, especialmente incêndios florestais e ondas de calor — hoje considerados o segundo maior risco climático para a biodiversidade. Em 2020, incêndios no Pantanal mataram cerca de 17 milhões de animais vertebrados, um dos episódios mais severos já registrados.

Segundo o artigo, uma onda de calor, inundação ou incêndio pode devastar populações animais. Estudos anteriores já sinalizaram esse fenômeno: 57% dos registros científicos indicam impactos negativos de eventos extremos sobre espécies; há 100 casos documentados de queda populacional acima de 25% e 31 registros de extinção local.

Mas cortar rapidamente as emissões pode evitar grande parte desses impactos. Em um cenário em que o aquecimento começa a reduzir na segunda metade do século, a parcela de habitats de animais terrestres exposta a múltiplos eventos até 2085 seria limitada a apenas 9%. “Ainda podemos fazer muita diferença se reduzirmos as emissões o mais rápido possível a partir de agora”, acrescentou Heinicke.

Eventos combinados ampliam danos

O principal alerta dos pesquisadores é o efeito combinado dos extremos. Hoje, eventos como seca, calor e incêndios já ocorrem de forma encadeada em diversas regiões. Quando múltiplos tipos de eventos extremos ocorrem em sequência, os impactos sobre espécies e habitats se acumulam. Até 2050, cerca de 14% dos habitats já enfrentarão múltiplos eventos, proporção que sobe para 36% até 2085.

Quando esses eventos acontecem em sequência, os impactos podem ser até 40% mais severos, acelerando perdas populacionais e degradando habitats. Estudos anteriores mostraram que, após os incêndios de 2019–2020 na Austrália, houve quedas entre 27% e 40% maiores em espécies de plantas e animais em áreas que haviam enfrentado seca imediatamente antes.
Como salvar a Amazônia!!!

Impactos sobre espécies

O estudo é um dos primeiros a quantificar a exposição da fauna a incêndios florestais em escala global. No ano 2000, apenas 11 espécies de anfíbios tinham mais de 25% de seus habitats expostos ao fogo. Esse número pode chegar a quase 500 até 2085 no cenário de baixa emissão, mas ultrapassa 3.400 espécies na trajetória atual — quase sete vezes mais.

Espécies com áreas de distribuição pequenas enfrentam riscos particularmente elevados. O cacatua-negra-de-Carnaby perdeu cerca de 60% da população após uma onda de calor na Austrália.

Até 2085, quase 3.800 espécies de aves poderão ter mais de 75% de seus habitats expostos a ondas de calor no cenário do Acordo de Paris — número que ultrapassa 9.800 espécies na trajetória atual. Reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis reduziria mais da metade desse impacto.

Modelagem de impactos para a biodiversidade

O artigo adota uma abordagem nova para analisar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade. Ele utiliza resultados de modelos de impacto climático, que fornecem dados sobre efeitos mais complexos além do aumento da temperatura, como áreas inundadas e projeções de incêndios florestais.

Para exemplificar: os autores conseguiram mostrar que, até 2050, em um cenário em que o aquecimento continua a aumentar na segunda metade do século, 74% dos habitats atuais de animais em terra estarão expostos a ondas de calor, 16% a incêndios florestais, 8% a secas e 3% a inundações fluviais.

“As projeções de incêndios florestais serem tão significativas é algo realmente notável. Não conheço outro estudo que tenha projetado a exposição de animais a incêndios dessa forma, então ver que há uma ameaça maior de incêndios do que, por exemplo, de secas, revela um ponto cego importante”, disse Katja Frieler, coautora do estudo, que lidera o Inter-Sectoral Impact Model Intercomparison Project e é chefe de departamento de pesquisa no PIK.
Aquecimento global: mudanças podem ser irreversíveis entre 2040 e 2050.

Limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C requer ação mais ampla e rápida.

Todo o planeta TERRA sofre em demasia com a maioria dentre todas as mudanças climáticas geradas pelo aquecimento global, principalmente pela emissão exagerada dos gases de efeito estufa (GEE)). (ecodebate)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia.
Super El Niño com mais de 80% de chance pode devastar lavouras em todas as regiões do Brasil na segunda metade de 2026 e especialistas avisam que quem não se preparar agora vai sofrer perdas enormes.

A consolidação do El Niño no segundo semestre de 2026 deve aumentar a influência da região Sul na formação dos preços de energia no Brasil, relata a Tempo OK. Com previsão de maior volume de chuvas no Sul, o subsistema ganha peso na redução da pressão sobre os custos, enquanto outras regiões podem enfrentar escassez.

Impactos do El Niño 2026 no Setor Elétrico:

Protagonismo do Sul: O aumento das chuvas na região Sul tende a aumentar o armazenamento hídrico, tornando-o um fator determinante para os preços (PLD - Preço de Liquidação das Diferenças).

Volatilidade e Contraste: Enquanto o Sul pode ter chuvas acima da média, o fenômeno pode gerar seca no Norte/Nordeste, exigindo maior despacho termelétrico e gerando volatilidade.

Formação de Preços: A definição dos preços ainda dependerá do nível dos reservatórios no Sudeste e do comportamento da carga, mas o Sul assume papel central no monitoramento.

Alternativas Renováveis: A incerteza climática impulsiona a busca por diversificação, com destaque para a energia solar como alternativa para mitigar riscos de preços elevados.

Apesar do alívio hídrico no Sul, a Aneel projeta desafios nos custos gerais de energia para 2026 devido a encargos setoriais.

El Niño deve impactar a distribuição de chuvas e a dinâmica de preços do setor elétrico brasileiro em 2026, ampliando diferenças regionais e reforçando o papel do Sul na formação de preços.

O subsistema elétrico Sul pode ganhar maior relevância na dinâmica de preços da energia, especialmente em cenários de maior contraste hidrológico regional nos próximos meses com a tendência de consolidação do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026, segundo análise da consultoria meteorológica Tempo OK.

“O aumento das chuvas na região pode contribuir para aliviar parte da pressão sobre os preços da energia. No entanto, a formação de preços ainda depende de outros fatores estruturais, como os níveis de armazenamento no Sudeste, o despacho de termelétricas, o comportamento da carga e eventuais restrições operativas do sistema”, afirma o meteorologista Mateus Nunes, da Tempo OK.

O El Niño deve alterar o regime de chuvas no país, com concentração de precipitações no Sul e maior frequência de episódios intensos, enquanto o Norte das regiões Norte e Nordeste tende a registrar redução de chuvas. O fenômeno também está associado a temperaturas acima da média em grande parte do país, especialmente no centro-leste e interior, o que pode elevar a demanda por energia.

No sistema elétrico, a dinâmica do Sul é influenciada pelas características de seu parque hidrelétrico, composto majoritariamente por usinas a fio d’água, com baixa capacidade de armazenamento e resposta rápida às variações de vazão. Esse perfil permite recuperação mais acelerada em períodos chuvosos.

Inflação em 2026: El Niño pode levar bandeira vermelha, subir conta de luz e pressionar alimentos.

Além da guerra com o Irã, El Niño forte pode apertar a inflação no Brasil em 2026: energia mais cara, risco para alimentos e alerta sobre bandeiras vermelhas colocam o governo em atenção máxima já.

Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a energia armazenada (EAR) no subsistema Sul estava em 29,35% em 23/04/2026. “Mesmo após um março menos favorável, a recuperação pode ocorrer em poucas semanas com a consolidação do El Niño”, diz o meteorologista.

Esse comportamento tende a ampliar a volatilidade e gerar diferenças mais marcadas entre os submercados. “Devemos observar um descolamento de preços do Sul em relação às demais regiões, refletindo as diferenças hidrológicas ao longo do período”, afirma o meteorologista.

Com isso, o intercâmbio energético entre submercados pode ganhar relevância, condicionado à disponibilidade de transmissão e à otimização operativa do sistema. O Sul pode assumir papel mais ativo no atendimento da demanda do Sudeste em momentos de maior pressão sobre a carga. Ainda assim, a resposta rápida dos reservatórios também pode intensificar oscilações de curto prazo. “Dependendo da evolução das chuvas, o Sul pode contribuir pontualmente para moderação de preços, mas seus efeitos dependem da integração operativa com o restante do SIN, especialmente das condições estruturais do Sudeste/CO.”, acrescenta.

Economia brasileira sente El Niño entre exportações, trigo e turismo, com reflexos no campo, nos preços e na atividade regional.

Pouca gente sabe, mas El Niño, chuvas intensas e extremos climáticos podem mexer diretamente com a economia brasileira em 2026, influenciando safras de commodities como soja, milho e trigo, afetando exportações, preços dos alimentos e até o ritmo de setores como turismo.

Apesar de o oceano ainda se encontrar em condição de neutralidade, já há sinais consistentes de formação do El Niño, com o aquecimento das águas do Pacífico equatorial, especialmente em sua porção leste, próximo à América do Sul. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a probabilidade do fenômeno é de 61% entre maio e julho.

A Tempo OK projeta que o evento ganhe força ao longo do segundo semestre, atingindo intensidade forte a muito forte, com pico previsto para novembro.

O meteorologista destaca eventos recentes têm ocorrido em intervalos relativamente menores, embora sua recorrência continue sujeita à variabilidade climática natural. “Tivemos El Niños em 1982/83, 1997/98, 2015/16 e 2023/24. Agora, há expectativa de um novo evento em 2026/27, indicando um intervalo mais curto entre ocorrências recentes”, afirma.

O cenário ainda é incerto e depende da forma como o El Niño se consolidará nos próximos meses, além da interação com outros sistemas climáticos, como o comportamento do Oceano Atlântico. “Por isso, o acompanhamento contínuo das atualizações meteorológicas é essencial para reduzir incertezas e apoiar a avaliação de possíveis impactos no setor elétrico”, completa o meteorologista.

Entre junho e agosto/2026, o Oceano Pacífico Equatorial deve entrar em processo de aquecimento, abrindo espaço para a possibilidade de atuação do El Niño. A chance de ocorrência do fenômeno aumenta gradualmente e pode superar 60% entre agosto e outubro/2026.

Ao mesmo tempo, a expectativa para o Brasil é de um inverno menos rigoroso, mais quente do que o de anos anteriores e com aumento na frequência de chuvas. Esse conjunto já basta para colocar o setor produtivo em alerta. (pv-magazine-brasil)

Futuro do Pantanal depende da restauração de áreas degradadas

O Mercado de Carbono e a Recuperação de Áreas Degradadas em Projetos de Mineração no Brasil.

A restauração de áreas degradadas é vital para a sobrevivência do Pantanal, focando na recuperação de nascentes, controle de incêndios e manejo sustentável para conter a savanização e a perda de biodiversidade. Ações nas cabeceiras e a conservação do ciclo hídrico são essenciais para manter o maior bioma úmido do mundo.

Prioridades de Restauração: O foco principal está nas cabeceiras do Pantanal para aumentar a disponibilidade hídrica, evitar o assoreamento de rios como o Taquari e proteger o solo.

Ameaças e Impactos: Com 46% da área antropizada e baixo potencial de regeneração natural em certas regiões, o bioma enfrenta ameaças críticas de queimadas e secas severas, tornando a intervenção técnica necessária.

Projetos Ativos: Iniciativas como o "[Restaura Pantanal]" realizam plantio de espécies nativas e conservação na Estação Ecológica de Taiamã e em nascentes.

Soluções Baseadas em Ciência: Estudos da Embrapa e parcerias com a Mupan/Wetlands International Brasil fornecem guias para a restauração ecológica, aliando o conhecimento técnico às práticas tradicionais de pecuária sustentável.

A recuperação do Pantanal exige esforços conjuntos de governos, produtores e ONGs para reverter o colapso ambiental e assegurar o futuro da região.
Estudos mostram que restaurar áreas degradadas nas Cabeceiras do Pantanal é o caminho para termos mais água, menos perda de solo e segurança produtiva.

Com as chuvas cada vez mais irregulares nas Cabeceiras do Pantanal, devido aos impactos das mudanças e variabilidades climáticas, garantir a disponibilidade e a qualidade de água depende de ações imediatas.

3 estudos realizados pelo WWF-Brasil em parceria com a Aegea, lançados em junho/2025, evidenciam que ações de restauração, além de recuperarem áreas degradadas, melhoram a infiltração de água no solo, reduzem o assoreamento de rios e garantem mais água de qualidade para a população da paisagem, além de evitarem prejuízos econômicos.

O diagnóstico é importante e urgente. Até 2023, 59% da paisagem já foi modificada pelas atividades humanas e 67% das pastagens estavam degradadas.

O objetivo dos estudos é mostrar que ter vegetação no solo não representa perda da área produtiva, mas sim um investimento com retorno econômico — especialmente quando se consideram custos com adubação, tratamento de água e perda de produtividade em áreas degradadas.

Recuperação do Pantanal “demandará esforços e custos elevados”

Restauração é chave para resiliência hídrica e sustentabilidade no Pantanal.

Áreas com vegetação nativa, assim como pastagem com boa cobertura de gramíneas e arborizadas, geram muitos benefícios para a paisagem, especialmente na proteção e manutenção dos recursos hídricos das Cabeceiras, que têm influência direta na resiliência hídrica do Pantanal.

“Os estudos mostram o que já víamos no campo. Que ter vegetação no solo é essencial para garantir água, produtividade e viabilidade para agropecuária. Os dados deixam evidente que investir em restauração custa menos do que remediar os danos depois”, explica Veronica Maioli, especialista em Conservação no WWF-Brasil.

Os resultados obtidos pelos estudos oferecem subsídios valiosos para orientar ações práticas no campo e apoiar estratégias de atuação de diferentes atores na paisagem, como proprietários rurais, empresas e a população em geral. Entre as evidências levantadas, destaca-se que a restauração da vegetação nativa reduz significativamente os riscos de erosão e enchentes, melhora a qualidade da água e gera retornos financeiros positivos, além de preservar a saúde dos corpos hídricos.

Pastagens bem manejadas e arborizadas podem reduzir em até 40% a perda de água e em até 59% a perda de solo, em comparação com áreas degradadas, como solo exposto. Além disso, o investimento em restauração e em boas práticas agropecuárias que conservem o solo mostra-se economicamente vantajoso: cada R$ 1 aplicado pode gerar até R$ 8 em retorno, tornando essa uma estratégia eficaz tanto para a resiliência ambiental quanto para o desenvolvimento sustentável da região.

A realização dos estudos contou com o apoio da Aegea, e foi fundamental para viabilizar a produção de conhecimento técnico e científico sobre a região. A iniciativa reforça o quanto é essencial que o setor privado apoie ações que geram evidências e orientam decisões mais estratégicas, sustentáveis e eficazes.

“O apoio ao WWF-Brasil reforça o compromisso da Aegea com soluções para o enfrentamento dos desafios impostos ao saneamento nas regiões onde atuamos. O restauro da paisagem na área das Cabeceiras do Pantanal é muito valioso para nós como uma empresa de saneamento, garantindo maior resiliência hídrica num cenário onde o regime de chuvas é cada vez mais incerto.

Prezar pela qualidade da água, reduzindo custos no tratamento e na distribuição, e protegendo um dos maiores patrimônios naturais do país, é como gostamos de encarar a sustentabilidade nos negócios”, comenta Édison Carlos, Presidente do Instituto Aegea.

“As chuvas são influenciadas por diferentes fatores e eventos climáticos. Os estudos mostram que, frente às variações do clima e à crescente transformação da paisagem, a tendência é de diminuição das chuvas e, consequentemente, das vazões dos rios.

Recuperação do Pantanal “demandará esforços e custos elevados”

Nesse cenário, as Soluções Baseadas na Natureza, como a restauração da vegetação nativa e a conservação do solo, desempenham um papel fundamental para amortecer e minimizar os impactos de eventos extremos, promovendo a infiltração da água, a redução da erosão e a manutenção (ou aumento) da recarga de água subterrânea, que mantêm o fluxo dos rios na época de estiagem, comenta Maria Eduarda Coelho, analista de Conservação no WWF-Brasil. (ecodebate)

2°C de aquecimento global é mais perigoso do que imaginamos

Um aquecimento global de 2°C é muito mais perigoso do que se imaginava, ameaçando o futuro da humanidade. Esse cenário aumenta drasticamente...