Como a Desinformação Opera
(Mitos e Realidades):
Negacionismo: Nega a
existência das mudanças climáticas ou a influência humana.
Dúvida/Atraso:
Questiona a viabilidade de soluções ou a urgência das ações.
Narrativas Falsas:
Argumentos comuns como "ondas de calor sempre existiram" visam
minimizar a crise atual.
Desmobilização: Desestimula
o apoio a políticas públicas e a ação de gestores, retardando a mitigação.
Impactos da Mentira
Organizada:
Risco à Democracia: Impede
o debate público genuíno, essencial para a ação.
Aumento de Vulnerabilidade:
Informações falsas desestimulam ações de preparo, agravando desastres como as
inundações no Rio Grande do Sul.
Custo Social: Desvia
recursos públicos que poderiam ir para áreas como saúde e educação.
Como combater:
Checagem:
Reconheça a armadilha antes de compartilhar conteúdo.
Educação: O pensamento
crítico e o letramento climático são essenciais na escola.
Valorização da Ciência:
Reconhecer que a ciência é sólida e a ação contra a crise climática é urgente.
A proteção da realidade é o
primeiro ato de resistência contra a desinformação.
Uma reflexão pessoal sobre
como a mentira organizada sobre o clima afeta nossa capacidade de agir e por
que proteger a percepção da realidade é o primeiro ato de resistência.
A responsabilidade institucional é a chave para o futuro. O clima extremo virou rotina, ciência não é opinião. Reconheça a armadilha antes de compartilhar.
O clima extremo virou rotina
Tem uma coisa estranha
acontecendo com a nossa percepção do tempo. Não o tempo do relógio, mas o do
clima. Nos últimos cinco anos, ficou difícil lembrar qual verão foi o mais
quente, qual chuva foi a mais violenta, qual seca durou mais do que devia. Eles
se misturam e esse embaralhamento já é um sintoma.
Eu percebo isso nas conversas
do dia a dia. “Nossa, que calor, né?”, virou quase uma saudação. O incêndio
florestal que aparece no noticiário deixou de chocar. A enchente em um estado
que a gente nunca associaria à enchente é comentada rapidamente antes de ir
para o próximo tema. Normalizamos o extraordinário. E essa normalização
silenciosa é, talvez, tão perigosa quanto a crise em si.
Escrevo este artigo, como jornalista e ambientalista, porque entendo que proteger a nossa percepção da realidade não é um exercício filosófico, é um ato político e urgente. Porque se não enxergamos o problema com clareza, não agimos. E a janela para agir está se fechando.
A ciência não é opinião
Antes de qualquer coisa,
quero estabelecer um ponto inegociável: o consenso científico sobre as mudanças
climáticas não é uma corrente de pensamento entre outras. É o resultado
acumulado de décadas de pesquisa, dados e revisão rigorosa por pares de
cientistas do mundo inteiro.
O IPCC, o Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, é claro ao afirmar que a
influência humana no clima é a causa central das alterações que vivemos hoje.
Não uma causa entre muitas. A causa central. E a ação urgente é a única saída
segura que temos.
Isso tem consequências
práticas que vão muito além do “meio ambiente” como um tema isolado. Eventos
climáticos extremos afetaram mais de 330 mil pessoas só no Brasil em 2025, com
perdas econômicas estimadas em cerca de R$ 3,9 bilhões, segundo o Cemaden. Não
estamos falando de natureza em abstrato. Estamos falando de casas, famílias,
meios de vida e histórias de pessoas reais.
Agora preciso falar sobre
algo que me incomoda profundamente: a maquinaria organizada de confusão que
circula nas redes sociais sobre o clima.
A desinformação climática
cresce de forma sistemática e ameaça a ação coletiva. Uma de suas táticas mais
comuns é a escolha seletiva de dados, o chamado cherry-picking, que consiste em
usar exemplos isolados para contradizer tendências globais. Um exemplo clássico
é pegar um episódio de frio extremo em algum lugar do mundo e apresentá-lo como
prova de que “o aquecimento global é mentira”, omitindo completamente o
contexto de temperatura média global crescente.
Outra estratégia recorrente é
a chamada “falsa equivalência” que consiste em colocar uma opinião sem base
científica lado a lado com décadas de pesquisa rigorosa, como se os dois lados
tivessem o mesmo peso. Não têm. Nunca tiveram.
Pesquisas do NetLab/UFRJ
mostram que a desinformação climática no Brasil opera dentro de um ecossistema
digital bem organizado, com influenciadores e plataformas que monetizam
conteúdo negacionista por meio de publicidade, criando um efeito de câmara de
eco que dificulta o contato com perspectivas científicas.
Essas táticas não existem
para informar. Existem para semear dúvida suficiente para adiar soluções.
Dúvida é lucrativa para quem tem interesse no extrativismo sem custo ambiental.
Dúvida paralisa. Dúvida mata políticas públicas ainda no berço.
Colocando nomes na destruição
Há uma construção linguística
que me irrita muito: “as florestas estão desaparecendo”. Passiva impessoal.
Como se a Amazônia estivesse escolhendo sumir sozinha.
Florestas não desaparecem.
São derrubadas. E há autores nesse processo. São decisões institucionais
específicas, são grupos de interesse com nome e CNPJ, é a busca por lucro
imediato que coloca o extrativismo predatório acima do bem coletivo de longo
prazo.
Usar a voz ativa nessa
conversa não é um detalhe estilístico. É uma escolha política. Quando dizemos
que “grupos específicos empurram o desmatamento ilegal para aumentar área de
pastagem”, fica claro que há escolhas envolvidas. E escolhas podem ser
diferentes. Podem ser revertidas. Podem ser responsabilizadas.
Não vou terminar esse texto
com catastrofismo. Não porque a situação não seja séria, ela é.
Mas porque o medo sem saída
gera paralisia e paralisia é exatamente o que a desinformação quer produzir em
você.
Existem coisas concretas que
qualquer pessoa pode fazer, hoje, sem precisar de cargo público ou plataforma
enorme:
Verificar a fonte antes de
compartilhar. Isso parece óbvio, mas a pressão do feed é real. Quando algo
parece urgente ou revoltante demais para ser verdade, é exatamente aí que vale
um segundo de pausa. Busque informações em instituições de pesquisa
reconhecidas, em órgãos científicos, em veículos que têm metodologia de
checagem transparente.
Não amplificar o erro. Esse é
contra intuitivo. A vontade de compartilhar uma mentira para “expor” é natural,
mas os algoritmos não distinguem indignação de aprovação e o que eles veem é
engajamento. Em vez de compartilhar a mentira com um comentário crítico,
compartilhe o fato correto. Essa é a ideia do “sanduíche da verdade”: contexto
→ fato correto → por que a desinformação existe. A verdade no centro.
Conectar o debate ao humano.
As mudanças climáticas não são um problema de ursos polares no Ártico distante.
São a história da família que perdeu tudo nas enchentes do Rio Grande do Sul.
São os agricultores do Nordeste enfrentando secas cada vez mais longas. São as
crianças das periferias das grandes cidades que têm menos acesso às áreas
verdes e sofrem mais com as ondas de calor. Quando a conversa ganha rosto e
nome, ela se torna impossível de ignorar.

































