quarta-feira, 3 de junho de 2020

Inter-relação entre as crises sanitária e climática é fundamental

Trazer à tona a inter-relação entre as crises sanitária e climática é fundamental.
A disputa pelo futuro é hoje.
Uma das principais diferenças entre as crises climática e sanitária é a escala de tempo, mais curta nesta última e, apesar de mais longa, de impactos absolutamente nocivos e mais profundos na primeira. Ambas, contudo, estão interligadas. “A pandemia atual, assim como outros surtos virais recentes, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, à degradação ambiental, à destruição de florestas e ao consumo de carne (e tudo isso, óbvio, se relaciona ao aquecimento global)”, avalia o professor doutor e pesquisador Alexandre Araújo Costa, em entrevista por telefone à IHU On-Line.
O pior cenário, no entanto, seria aquele em que houvesse, ao mesmo tempo, o cruzamento das crises. “Nesse caso, precisamos estar preparados para catástrofes bem piores, porque imagine que seremos obrigados a enviar sinais completamente contraditórios. No caso de um furacão ou evento extremo parecido, a recomendação vai ser ‘evacuem suas casas’ e no caso de uma crise similar à da pandemia de SARS-CoV-2, a orientação vai ser ‘fiquem em casa’. Como lidar com uma situação como essa quando, para salvar a vida das pessoas de um extremo climático, aglomerações são inevitáveis e, ao mesmo tempo, vão ser justamente as medidas que favoreceriam o contágio por um vírus, eventualmente tão ou mais letal do que o SARS-CoV-2”, questiona o entrevistado.
Estar atentos a estes sinais é fundamental para que possamos, a tempo de salvar vidas, desarmar as armadilhas criadas por nós mesmos. Além disso, para que haja possibilidade de um futuro em uma terra habitável, é necessário não voltar à antiga “normalidade”. A questão que se impõe é “se, de fato, aprendemos minimamente as lições, achatamos esse conjunto de curvas exponenciais e voltamos a ser seres que cabem na biosfera à qual pertencemos ou se vamos seguir nessa rota suicida e genocida”, provoca Costa. “É isso, justamente, que está em jogo. As analogias que fizemos entre pandemia e crise climática precisam ser levadas a sério. A disputa pelo futuro é hoje”, conclui.
Alexandre Araújo Costa.
Alexandre Araújo Costa é professor da Universidade Estadual do Ceará. Formado em Física, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Militante ecossocialista e ativista climático, edita o blog “O Que Você Faria se Soubesse o Que Eu Sei”, assim como o canal no YouTube de mesmo nome. É um dos coordenadores do fórum de articulação Ceará no Clima.
IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre o aquecimento global e o surgimento de pandemias como da covid-19? É possível estabelecer conexões?
Alexandre Araújo Costa – Embora sejam duas crises distintas, elas guardam diversos pontos de contato. A pandemia atual, assim como outros surtos virais recentes, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, à degradação ambiental, à destruição de florestas e ao consumo de carne (e tudo isso, óbvio, se relaciona ao aquecimento global). Ao mesmo tempo, não teria sido possível a rápida disseminação do vírus sem a hipermobilidade, que permite que quaisquer duas cidades grandes do mundo hoje estejam conectadas em no máximo 48 horas (e é justamente o uso intensivo de energias fósseis que sustenta essa hipermobilidade). A crise climática segue se agravando justamente em função de um modo de vida intensivo em carbono, desde a demanda de energia para produção de bens de consumo, passando pelo transporte, até chegar num sistema de produção alimentar altamente predatório, com desmatamento para expansão da fronteira agrícola e consumo de carne em uma quantidade cada vez mais insustentável. Então as causas, embora não sejam exatamente as mesmas, guardam ligação entre si.
A pandemia atual, assim como outros surtos virais recentes, está intrinsecamente ligada à crise ecológica, à degradação ambiental, à destruição de florestas e ao consumo de carne – Alexandre Araújo Costa.

As duas crises são também semelhantes em vários aspectos. Em ambos os casos, trata-se de uma emergência, e o entendimento da gravidade do problema e o tempo de ação fazem toda a diferença. Em vários países, a recusa e/ou a demora em agir na pandemia levaram ao colapso do sistema de saúde e à multiplicação das mortes. No que diz respeito ao clima, a recusa e a demora em agir estão cada vez mais nos levando a uma condição de desestabilização irreversível do sistema climático. Em ambos os casos é preciso “achatar a curva”, seja o gráfico de contágio do coronavírus, seja a concentração de CO2 atmosférico. As principais diferenças estão na escala de tempo (que é obviamente mais longa no caso da crise climática) e na escala dos impactos (que, no caso do clima, têm tudo para fazer a pandemia parecer um problema menor e de fácil resolução).
IHU On-Line – Como os cuidados com a covid-19, com quarentena forçada em várias partes do mundo, podem impactar o clima global?

Alexandre Araújo Costa – É verdade que a quarentena interrompeu ou reduziu diversas atividades que, além de produzirem poluentes de vida curta, como óxidos de nitrogênio ou material particulado, também implicam emissões de CO2 ou outros gases de efeito estufa. Mas é preciso reconhecer que, no que diz respeito a poluentes de vida longa, cujo efeito é cumulativo, como é o caso do CO2, a quarentena apenas arranha a superfície do problema. A analogia que gosto de fazer é com um muro: imagine que cada tijolo represente um bilhão de toneladas de CO2. Se imaginarmos que acumulamos de emissão, desde o início do período industrial, 2,4 trilhões de CO2 ou que construímos um muro com 2.400 tijolos, o que acontece na pandemia é que ao invés de colocarmos os 43 tijolos que temos colocado todo ano, colocaremos somente 40 e, portanto, não só o muro continua lá, como não diminui. Ele apenas cresce mais devagar do que vinha crescendo; não podemos ter ilusão quanto a isso.
Não dá para terceirizar o que cabe à nossa sociedade, de maneira organizada e consciente, para um vírus – Alexandre Araújo Costa.
O que é fundamental entender é que a queda projetada este ano de 6 a 7% nas emissões de CO2 é justamente aquilo que precisamos fazer ano após ano para resolver a questão do aquecimento global, ou seja, manter uma trajetória compatível com limitar o aquecimento global a 1,5°C. Nesse caso, portanto, assim como o problema é cumulativo de longas datas, a solução também vai ser cumulativa e não vai emergir de algo episódico como a pandemia. Precisamos ter políticas para garantir que ano após ano cortemos de 6 a 7% as emissões globais para chegarmos com essas emissões reduzidas à metade em 2030 e mantermos o ritmo a fim de descarbonizarmos completamente a economia global em meados do século. Fora isso não tem salvação, e não dá para terceirizar o que cabe à nossa sociedade, de maneira organizada e consciente, para um vírus.
IHU On-Line – Qual a possibilidade de termos uma desaceleração no aquecimento global em 2020, devido à diminuição de circulação de pessoas nas ruas, especialmente em países como a China e, até mesmo, o Brasil?
Alexandre Araújo Costa – Exatamente porque as emissões são cumulativas e o CO2 permanece lá, a redução delas em 2020 não vai trazer efeito apreciável sobre o aquecimento global. Nós vamos chegar ao final do ano com uma média, provavelmente, de 414 partes por milhão de CO2 na atmosfera em contraste com a previsão inicial do UK Met Office, que era de 414,2, e projeções como a feita pelo doutor Gavin Schmidt, do NASA Goddard Institute for Space Studies, segundo as quais, 2020 pode até mesmo quebrar recorde de temperatura. Então, a desaceleração é necessária, mas é apenas um início que precisa ser feito de maneira consistente e articulada com a transformação radical do sistema energético em escala global e do sistema de produção de alimentos também em escala global. Fora isso não teremos, de fato, impacto climático significativo, mesmo que a pandemia se estenda até o final de 2020 ou além.
É fundamental entender que a queda projetada este ano de 6 a 7% nas emissões de CO2 é justamente aquilo que precisamos fazer ano após ano para resolver a questão do aquecimento global – Alexandre Araújo Costa.
Crise sanitária incentiva a nos prepararmos para as mudanças climáticas.
IHU On-Line – O discurso da necessidade de retomada do crescimento é muito forte por parte de governos e de empresários dos grandes setores comerciais. Quais as consequências para o planeta de uma retomada muito intensa de atividades econômicas que são agressivas ao planeta?
Alexandre Araújo Costa – É evidente que o sonho dos executivos das corporações capitalistas e dos políticos e economistas que lhes dão suporte é a retomada da “normalidade”. Mas essa “normalidade” é tudo aquilo a que não podemos voltar. Primeiro, porque o pouco benefício ambiental que podemos de fato falar que se obteve a partir da redução das atividades econômicas na pandemia, que é a redução na concentração de poluentes de vida curta, como óxido de nitrogênio e material particulado, especialmente nos grandes centros urbanos, vai para o brejo.
Basicamente o que acontece é que uma vez retomadas as atividades de produção industrial a todo vapor, a circulação de automóveis e outros veículos nos centros urbanos, os níveis de poluição vão retornar e teremos de volta a mesma situação que perdurava antes em locais como Nova DeliBeijing e outras cidades da China, e nos centros urbanos do nosso país, como São Paulo. Além disso, essa retomada nos tira da rota de redução das emissões de CO2 em que, por este evento fortuito, nós entramos. Nesse sentido, a lógica de retorno à “normalidade” é tudo aquilo que não podemos querer. Deveríamos estar, justamente, nesse contexto de pandemia, impulsionando as bandeiras de uma retomada de outra economia, em que a garantia da vida, do emprego e respeito ao ambiente fossem os parâmetros fundamentais e em que houvesse um giro radical no que produzimos e como produzimos.
Deveríamos estar impulsionando as bandeiras de uma retomada de outra economia, em que a garantia da vida, do emprego e respeito ao ambiente fossem os parâmetros fundamentais – Alexandre Araújo Costa.
IHU On-Line – Dentre as muitas consequências do aquecimento global, o derretimento das calotas polares é uma delas. Há o risco de os seres humanos entrarem em contato com vírus da era glacial aos quais nossas espécies não estão imunes? Do ponto de vista geológico, o que pode acontecer?
Alexandre Araújo Costa – O eventual despertar de bactérias e vírus adormecidos há milhares de anos por conta do derretimento de geleiras e do permafrost é apenas uma das facetas através da qual nós conectamos a possibilidade de aquecimento global com o risco de novas pandemias. Há outros fatores aí em jogo: um deles é o fato de que o aquecimento global impulsiona a migração de espécies. Por que isso é grave? Porque hoje espécies que não tinham contato no passado, passam a ter, por conta dessa migração. Aí os vírus podem saltar de uma espécie para outra, algo que não era possível na condição anterior. O que isso significa? Que podemos passar a ter um fluxo viral entre espécies cada vez maior e, eventualmente, isso abre e aumenta a possibilidade de transmissão para a própria espécie humana. Esse é um aspecto. O outro, como sabemos, é a mudança ou expansão da área de atuação de vetores de doenças infecciosas, como o caso do Aedes aegypti e da dengue, que cada vez mais penetram em latitudes médias.
Precisamos estar preparados para catástrofes bem piores, porque imagine que seremos obrigados a enviar sinais completamente contraditórios diante de uma crise ao mesmo tempo sanitária e climática – Alexandre Araújo Costa.
Outro aspecto ainda é o risco de cruzamento das duas crises. Nesse caso, precisamos estar preparados para catástrofes bem piores, porque imagine que seremos obrigados a enviar sinais completamente contraditórios diante de uma crise ao mesmo tempo sanitária e climática. No caso de um furacão ou evento extremo parecido, a recomendação vai ser ‘evacuem suas casas’ e no caso de uma crise similar à da pandemia de SARS-CoV-2, a orientação vai ser ‘fiquem em casa’. Como lidar com uma situação como essa quando, para salvar a vida das pessoas de um extremo climático, aglomerações são inevitáveis e, ao mesmo tempo, vão ser justamente as medidas que favoreceriam o contágio por um vírus, eventualmente tão ou mais letal do que o SARS-CoV-2?
É esse tipo de pergunta que fica em aberto quando a sociedade se recusa a enfrentar, de fato, com a devida profundidade, os dois tipos de crises que vão ameaçar a nossa própria existência enquanto civilização ao longo do século XXI.
IHU On-Line – O senhor costuma dizer, em suas entrevistas e conferências, que não há “Plano B” em relação ao clima do planeta? Por quê?
Alexandre Araújo Costa – Não há Plano B porque é impossível negociar com as leis físicas que regem o clima planetário. Não podemos chegar na natureza e pedir um desconto na “constante de Stephan-Boltzmann” ou implorar para que as moléculas de CO2 absorvam menos radiação infravermelha do que o fazem. Exatamente por isso, nós precisamos seguir a única rota compatível com aquilo que as leis da Física nos impõem, que é a de que justamente não há como resolver a crise climática sem primeiro reduzir as emissões de gases de efeito estufa e, depois, iniciar uma longa batalha – por conta das futuras gerações – de remoção do excedente de dióxido de carbono da atmosfera.
Isso implica, portanto, que a nossa tarefa imediata seja a do plano “A”, que é o único: reduzir drasticamente essas emissões. A fim de que, pegando o embalo, as gerações futuras possam herdar o planeta com outro sistema energético, muito menos intensivo em carbono e muito mais reduzido, enxuto e destinado apenas para demandas de fato essenciais, para que se possa seguir num rumo de avanço da agroecologia, da recuperação de biomas, de reflorestamento com ou sem ajuda de soluções tecnológicas para a remoção de carbono. Fora disso, não dá para esperar uma solução mágica.
De novo, existe uma analogia com a pandemia. Como não há vacina disponível, medicamento disponível no momento, o que podemos fazer? A única maneira, de fato, é garantir o isolamento social até achatar a curva. Como não há solução mágica, não existe “cloroclima”, nós não podemos simplesmente seguir como seguíamos antes com relação às emissões de gases de efeito estufa. É preciso achatar a curva, ou as curvas, sejam elas as da concentração de CO2 ou de aumento de temperatura global. Isso para assegurar que as gerações futuras não arquem com todo o ônus da sobrecarga sobre o sistema climático.
A única certeza que temos até agora, é que as mudanças já estão causando efeitos catastróficos em algumas partes do mundo, e causarão ainda mais. A conta já está alta e uma hora vai chegar com maior força. Cabe a nós decidirmos o quão grande será a conta que virá.
IHU On-Line – Que lição a covid-19 pode nos ensinar? Em suma, qual a importância de não voltarmos às formas de exploração ambiental e humana antes da covid-19?
Alexandre Araújo Costa – A pandemia deixa diversas lições que deveriam ser de fato apreendidas pela nossa sociedade. Uma delas é o fato de que boa parte da produção e circulação de mercadorias e boa parte da demanda de energia associada a elas é absolutamente predatória, perdulária e supérflua, podendo ser naturalmente dispensada. Mostra, também, que a hipermobilidade humana é um risco imenso e que é um desastre a conjunção de degradação ambiental, desmatamento (que nos expõe ao contato com os vírus abrigados em outras espécies) e – não no caso da covid-19, mas de outras pandemias como as de H1N1H5N1H7N9 etc. – o boom de pandemias ligadas à indústria da carne. Essa é a primeira lição, precisamos pensar que atividades econômicas de fato precisam subsistir e que atividades econômicas precisam desaparecer para garantir a segurança à humanidade.
Outra lição evidente é que boa parte dos combustíveis fósseis efetivamente pode ficar no subsolo. A crise do petróleo com preços negativos, com navios petroleiros estacionados ao redor do mundo e estruturas de armazenamento de petróleo em terra saturadas demonstra o quanto esse combustível poderia ter permanecido justamente no chão. Nós temos que seguir o que a ciência revela: 88% do carbono fóssil precisa permanecer exatamente onde está se quisermos preservar o estoque de carbono para que não ultrapassemos o aquecimento de um grau e meio.
Outro ponto é que a pandemia nos trouxe evidências de que é possível haver políticas públicas que incidam diretamente nas condições de subsistência e sustento das famílias de trabalhadores e trabalhadoras que ficaram sem emprego. Surgiu quase um consenso, com exceção dos “pensadores” ultraliberais, de que a renda universal mínima – no caso, emergencial – é uma necessidade e uma possibilidade real. E por que não usar desse expediente para garantir a dignidade, o sustento de famílias de trabalhadores e trabalhadoras num processo de transição, para não desaparecer a possibilidade de futuro? Falamos, claro, de mineiros, de petroleiros, de trabalhadores de frigoríficos. Por que não garantir que essas famílias tenham a sua dignidade assegurada enquanto nós convertemos a indústria suja dos combustíveis fósseis em indústrias de energia limpa, enquanto os petroleiros são retreinados para deixar de lidar com venenos fósseis e passem a produzir e instalar painéis solares, para que os trabalhadores que lidam com a carnificina de 70 bilhões de animais todos os anos para dar vazão à nossa fome enlouquecida de carne possam aprender outras atividades como, por exemplo, agroecologia, agricultura urbana e periurbana, garantindo a produção e circulação de alimentos saudáveis e sustentáveis? Há várias lições nesse sentido.
É fundamental que para desarmar as bombas-relógio de novas pandemias e da crise climática e ambiental, nós não voltemos à normalidade de antes – Alexandre Araújo Costa.
Outra questão que nós precisamos imediatamente abordar é a reconversão e adaptação das estruturas industriais para produzir bens que não sejam bens supérfluos. Indústria de armas, por exemplo. Não vamos querer essa produção de armas. Então, vamos ter que falar que essas indústrias terão que reconverter suas estruturas para produzir outras coisas. Ao invés de produzirem revólveres, que produzam camas, leitos de UTI. Ao invés de produzirem morte, salvem vidas. Ao invés de indústrias que produzam uma multiplicidade de aparelhos eletrônicos supérfluos, sempre sujeitos à obsolescência programada e ao descarte rápido, que estejam voltadas para a produção de equipamentos como respiradores, monitores de sinais vitais e outros tantos bens essenciais, além de equipamentos duráveis. Que nós possamos falar de indústrias como a automobilística, que ao invés de continuar colocando carcaças de uma tonelada de aço nas ruas para transportar uma ou duas pessoas, possam estar voltadas à produção de bens que de fato sejam necessários, incluindo transporte público eletrificado.
Que possamos falar muito diretamente que a maioria do trabalho realizado hoje na sociedade é perdulário e dispensável! Além de emitir muito menos, podemos ainda trabalhar muito menos. Por que não falar de jornadas de trabalho bem mais curtas, até por conta da produtividade do trabalho que nós temos hoje? Por que não falar de jornadas de trabalho semanais de 20 horas, fim de semana de três dias, dois períodos de férias de 45 dias no ano? Isso é perfeitamente viável, mantendo, ao mesmo tempo, todo mundo empregado e produzindo de fato os bens necessários à nossa sociedade. É fundamental que, portanto, para desarmar as bombas-relógio de novas pandemias e da crise climática e ambiental, nós não voltemos à normalidade de antes. Isso é tudo que não pode acontecer e essa disputa precisa ser travada desde já.
IHU On-Line – Há mundo por vir? Que mundo?
Alexandre Araújo Costa – Todo crescimento exponencial produz crise, instabilidade e ruptura. É por isso que o contágio em progressão geométrica dentro da pandemia nos trouxe esse quadro tão alarmante. Isso vale para todas as outras crises de crescimento exponencial que estão sendo impulsionadas pela sede expansionista do modo de produção do sistema econômico vigente, seja o aumento acelerado da concentração dos gases de efeito estufa, seja a curva de extinção de espécies, sejam os demais processos de degradação ambiental.
Há, sim, um mundo por vir, cujas características estão em aberto – Alexandre Araújo Costa.
Dito isto, há, sim, um mundo por vir, cujas características estão em aberto. Certamente será um mundo com uma biosfera mais empobrecida em relação àquela que tivemos acesso durante todo o Holoceno, será um mundo com temperaturas mais altas – o quanto ainda é uma questão em aberto –, será um mundo em que nós teremos menos bens naturais à nossa disposição.

O que está muito mais em aberto, no entanto, além desses aspectos objetivos, será a nossa maneira de existir neste mundo. Se, de fato, aprendemos minimamente as lições e achatamos esse conjunto de curvas exponenciais e voltamos a ser seres que cabem na biosfera à qual pertencemos ou se vamos seguir nessa rota suicida e genocida, dado que a desigualdade de nossa sociedade impõe que os impactos de qualquer pandemia sejam sempre desiguais. É isso, justamente, que está em jogo. As analogias que fizemos entre pandemia e crise climática precisam ser levadas a sério. A disputa pelo futuro é hoje.
As analogias que fizemos entre pandemia e crise climática precisam ser levadas a sério. A disputa pelo futuro é hoje – Alexandre Araújo Costa. (ecodebate)

The Ocean Day discute a preservação dos oceanos e o combate ao lixo marinho

The Ocean Day – Evento on-line discute a preservação dos oceanos e o combate do lixo no mar.
The Ocean Day será realizado entre os dias 6 e 8 de junho com palestras de especialistas nacionais e internacionais. Programação será 100% on-line e gratuita.
O período entre os anos de 2021 a 2030 foi instituído pela ONU como a Década dos Oceanos com o objetivo de elevar a consciência das pessoas sobre a extrema importância da conservação e uso sustentável dos oceanos. E foi inspirado neste objetivo que a Route Global, ao lado de parceiros estratégicos, realiza o seminário on-line “The Ocean Day”, entre os dias 6 e 8 de junho, com a participação de especialistas convidados.
Dentre as diretrizes do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14 da Agenda 2030 da ONU estão temas como a conservação e uso sustentável dos oceanos, tema motor da Route que em 2019 reuniu mais de 18 mil pessoas para abraçar o Oceano no Rio de Janeiro, no Dia Mundial dos Oceanos. Porém, em decorrência da pandemia da Covid-19 e a necessidade de distanciamento social, o evento Aquele Abraço de 2020 passa a ser virtual e coloca em pauta assuntos que precisam ser abordados e discutidos no presente. “É muito importante para esta nova década que eventos dessa natureza façam as pessoas refletirem e atuarem para a limpeza e preservação dos Oceanos. Ainda mais iniciando esse movimento na cidade do Rio de Janeiro que é uma referência mundial em praia, mar e oceano e onde o Dia Mundial dos Oceanos foi criado, durante a Rio-92”, destaca Simão Felippe, Presidente da Route Brasil.
Os painéis e palestras do The Ocean Day serão divididos em três blocos: temas de âmbito global, nacional e local, abordando áreas como “Nossa relação com a terra e o impacto nos oceanos”, “Gestão pública para um oceano azul”, “Negócios que estão regenerando nossos oceanos”, “O saneamento é básico”, etc.
Já entre os convidados confirmados, destaque para a participação de Celine Cousteau, defensora socioambiental, David Schurmann, diretor de cinema, e Adalberto Marques Bezerra, diretor técnico da IS8 (empresa que irá montar e operar as usinas de desintegração de massa), dentre outros. Para Arthur Cumplido, da empresa Stone House e parceiro na realização do evento, cada um dos temas que serão abordados são essenciais para diminuir o distanciamento da sociedade sobre o conhecimento dos oceanos e suas problemáticas. “Hoje a poluição dos oceanos não afeta apenas o ecossistema marinho, mas também prejudica uma das principais fontes de recursos para a humanidade. Entender sobre o mar, traz uma percepção de pertencimento e cada vez mais o ser humano, como indivíduo, precisa prestar atenção nisto”, destaca.
Evento on-line discute a preservação dos oceanos e o combate do lixo no mar.
De acordo com Simão, esta é uma oportunidade única de reunir especialistas do Brasil e do exterior, profissionais e amantes do Oceano para discutir caminhos comuns para a sua preservação. “Com o isolamento social dos últimos meses pudemos ver a real influência dos hábitos da sociedade na poluição dos oceanos e isso destaca ainda mais a necessidade de encontrar medidas para reduzir esse impacto”.
“Por isso, a grande expectativa com o The Ocean Day é reunir todos esses pilares e entender como é possível viver do mar e protegê-lo”, destaca Simão. “Por isso, toda a programação foi pensada com o objetivo de promover a cultura oceânica e fortalecer os compromissos necessários para a implementação do ODS 14”, completa.
A programação completa e a ordem das palestras serão divulgadas nos próximos dias. O The Ocean Day será transmitido pelo site https://theoceanday.org/ e as atividades ocorrem nos dias 06/06 (sábado) e 07/06 (domingo), das 10h às 21h e no dia 08/06 (segunda-feira), das 10h30 às 22h. “Serão cerca de 30 horas de programação on-line e com foco integral nos Oceanos. Nosso intuito é, de fato, levar toda a energia do “Aquele Abraço” de 2019 para o virtual e deste encontro sair com medidas efetivas para a preservação dos Oceanos”, destaca Renzo Simoni, CEO da Agência Água e responsável pela produção do evento.
O The Ocean Day é uma realização da Route Global e Agência Água em parceria com a Stone House. Acompanhe a programação e mais informações através das redes sociais @theoceanday2020.
Confira a programação completa **
Sábado – 06/06/2020
10h às 12h – Painel: Gestão pública para um oceano azul
13h30 às 14h30 – Entrevista documental
14h40 às 16h10 – Painel: ODS 6, 11 e 14 e a Década do Oceano
16h20 às 17h50 – Painel: Mar Morto
18h até 19:30 – Painel: A terra e o mar – nossa relação com a terra e o impacto nos oceanos
20h10 às 21h50 – Negócios do oceano azul – negócios que estão regenerando nossos oceanos
22h – Atração musical
Domingo – 07/06/2020
10h às 12h – Oficina
13h30 às 15h – Painel: Criação de projetos de conservação da Vida Marinha
15h10 às 16h40 – Painel: Combate do lixo ao mar
16h50 às 18h20 – Painel: Meu escritório é na praia – Esportistas que dependem do mar
18h30 às 20h – Painel: O Saneamento é básico
20h30 às 21h – Atração musical
Segunda-feira – 08/06/2020
10h30 às 12h – Painel: A Raiz
13h às 14h30 – Painel: a confirmar
15h às 16h30 – Painel: Mangue Vivo
16h40 às 18h10 – Painel: Vida Náutica
19h às 20h – Documentário
Evento discute soluções para lixo plástico nos oceanos.
** Programação sujeita à alteração. (ecodebate)

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Reações entre mudanças climáticas e coronavírus?

O que aconteceria se o mundo reagisse às mudanças climáticas como reage ao coronavírus?
Como seria uma resposta rápida, coordenada e coletiva às mudanças climáticas?
O coronavírus transformou a vida cotidiana de maneira tão significativa que os efeitos já são visíveis do espaço. Na China, onde centenas de milhões de pessoas foram colocadas em quarentena para ajudar a impedir a propagação da doença, fotos de satélite antes e depois mostram a poluição desaparecendo à medida que o trabalho parava. Nos EUA, como o número de casos de coronavírus cresceu rapidamente, as empresas estão pedindo aos funcionários que trabalhem em casa e cancelem as conferências. As escolas estão cancelando as aulas. Na Itália, outra quarentena maciça está em andamento. As mudanças foram repentinas, impulsionadas pelo amplo reconhecimento de que é uma emergência de saúde pública – e, embora a janela de oportunidade já esteja fechada, a chance de impedir que outra doença mortal como a gripe se torne um problema permanente e permanente.
A escala da resposta levanta outra questão: como seria se o mundo respondesse à crise climática com um senso de urgência semelhante? A resposta do coronavírus pode não ter sido tão rápida quanto deveria; se o governo chinês tivesse agido mais rapidamente, o vírus poderia não ter se espalhado para outros países. E as táticas autoritárias do governo chinês não deveriam – e não podiam – ser imitadas em grandes partes do resto do mundo. Mas em países de todo o mundo, governos e cidadãos foram rápidos em mudar hábitos diários. O mesmo não aconteceu no clima da crise climática.

“Vimos que os governos podem agir e as pessoas podem mudar seu comportamento, em um período muito curto”, diz May Boeve, diretor executivo do grupo de defesa do clima 350.org . “E é exatamente isso que o movimento climático pede aos governos e às pessoas que façam há anos diante de um tipo diferente de ameaça – a crise climática – e não vemos uma ação proporcional. Por um lado, mostra que é possível fazer isso, e é possível que esse tipo de mobilização de recursos ocorra em um curto espaço de tempo. Nesse sentido, isso é encorajador. Mas nunca duvidamos desse aspecto”. Em vez disso, ela diz, era uma questão de saber se havia vontade política para mudanças rápidas.
Existem semelhanças entre as situações – em ambos os casos, a comunidade científica está oferecendo avisos claros sobre o que fazer. Ambos envolvem saúde pública. A mudança climática já está matando pessoas em ondas de calor extremas e outros desastres; também está piorando a escassez de comida e água e deslocará centenas de milhões de pessoas. Os mesmos poluentes que contribuem fortemente para a mudança climática também causam poluição do ar que mata milhões de pessoas a cada ano. Doenças como a malária e a dengue podem se espalhar à medida que os mosquitos se deslocam para novas regiões. E, como no caso do coronavírus, as pessoas que vivem em áreas com menos recursos são as mais afetadas pelas mudanças climáticas. “As mudanças climáticas também afetam os mais vulneráveis ​​primeiro e pior, diz Boeve. “Então vemos que esse padrão também se desenrola,

Se o mundo estivesse respondendo às mudanças climáticas como o coronavírus – o nível de urgência que a ciência diz ser necessário – as coisas pareceriam dramaticamente diferentes. “Veríamos muitas coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo”, diz Boeve.
Mudança climática provoca aumento de mortes, doenças e fome no planeta.
Os governos inventariam os fundos para construir a infraestrutura necessária para implantar totalmente a energia renovável. “É barato o suficiente e está disponível, mas os sistemas regulatórios que permitiriam às pessoas de todos os lugares obter energia limpa exigiriam investimentos maciços do governo”, diz ela. “Veríamos esses tipos de pacotes de emergência que levariam as pessoas para fora da grade de combustíveis fósseis e para uma grade limpa imediatamente”.

Após incêndios florestais e inundações extremas, os pacotes de ajuda reconheceriam o papel do clima. Nas cidades, as regras de desenvolvimento mudariam para exigir construção de baixo carbono. As fazendas mudariam para a agricultura regenerativa. Assim como o setor aéreo está lutando por causa do coronavírus, alguns setores terão impactos reais. “Provavelmente ainda não teríamos uma indústria de petróleo, carvão e gás que prosperasse em nossa economia”, diz Boeve. Teríamos que encontrar maneiras de apoiar os trabalhadores dessas indústrias também.
“É um monte de coisas diferentes, que podem acontecer muito rapidamente, porque realmente sabemos o que precisa acontecer”, diz ela. “E isso é incrível. Mas a mudança na qual, e é isso que é tão interessante sobre o que está acontecendo com uma emergência de saúde pública, é que acho que há uma confiança na comunidade de saúde pública em dizer, essas são as medidas que precisamos que você coloque em prática agora. Eles estão prontos para ir e os formuladores de políticas estão agindo. E o mesmo acontece com as mudanças climáticas. Temos essas políticas, elas foram elaboradas. Eles estavam esperando para serem promulgados.
Um número crescente de cidades e países declarou formalmente uma emergência climática. Alguns estão agindo mais rapidamente do que outros. Mas a mobilização geral não se parece em nada com a resposta ao coronavírus. Em parte, isso ocorre porque a mudança climática ainda parece um problema um tanto distante, apesar do número crescente de desastres relacionados ao clima que acontecem todos os anos. Outro desafio óbvio: na crise climática, empresas poderosas têm muito a perder se o mundo agir de maneira decisiva e, com o vírus, embora muitas pessoas estejam perdendo dinheiro, não há oposição igualmente maciça para tentar resolver o problema.

“O poder entrincheirado e a permanência no status quo é o que diferencia a mudança climática dessa crise em particular”, diz Boeve. “Isso é algo no qual muitas pessoas estão trabalhando e isso está mudando”. Está se tornando cada vez mais difícil politicamente justificar receber doações de empresas de combustíveis fósseis, por exemplo. Isso está começando a mudar. (envolverde)

Tecnologias sustentáveis e design biofílico

Tecnologias sustentáveis e design biofílico transformarão a arquitetura e construção pós-pandemia.
O Design Biofílico é uma forma inovadora de criar ambientes naturais que melhoram nossa saúde e bem-estar. A palavra “biofílico” vem de “biofilia”, que pode ser definida como o amor à vida ou aos sistemas vivos.
Estratégias para cidades menos poluídas e mais resilientes.
Projeto Figueiredo Ficher Arquitetos, jardim vertical Ecotelhado.
A pandemia Covid-19 causou danos massivos à saúde humana e trouxe à tona fragilidades nas cidades. Este é um importante momento para entender o papel da infraestrutura verde nos centros urbanos do mundo. Com estratégias para tornar as cidades menos poluídas e mais resilientes, as tecnologias sustentáveis e o design biofílico transformarão a arquitetura e construção pós-pandemia.
Isso é o que afirma João Manuel Feijó, engenheiro agrônomo e especialista em infraestrutura verde da Ecotelhado. Ele aponta que pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde já mostrou que cerca de 7 milhões de pessoas morreram no mundo por ano devido à poluição.
“Ao longo do tempo, a fumaça causa problemas cardiovasculares e pulmonares. O material particulado que é dissolvido na atmosfera também pode espalhar vírus. Reduzir a poluição minimiza doenças respiratórias já existentes e outras epidemias. Um desafio que podemos encarar ampliando áreas verdes”, explica Feijó.
A recomendação não é mudar de região para fugir da poluição. É mudar a cidade por meio de projetos verdes. Segundo ele, nesse contexto, a arquitetura e construção devem criar espaços resilientes e biofílicos. A biofilia significa amor à vida. É promover a reconexão com a natureza. Para isso, existem tecnologias sustentáveis focadas em melhorar a qualidade de vida das pessoas e do planeta.

“Desenvolver hortas urbanas, telhados verdes com captação de água da chuva, paredes verdes em fachadas, cisterna para drenagem urbana, vegetação para pets em varandas é planejar ambientes prontos para lidar com fatores que fogem do nosso controle. Essas são algumas técnicas de design biofílico importantes no presente e serão ainda mais no futuro”, acrescenta.
Em sua casa, em Porto Alegre, o engenheiro tem telhado verde que capta e reusa água da chuva, onde também colhe hortaliças para o consumo da família. Faz tratamento de esgoto e decomposição de material orgânico usando a compostagem, uma forma de reduzir lixo. Há paredes verdes que atraem insetos, como borboletas e joaninhas, criando um ambiente agradável e resiliente. Outros benefícios dos sistemas verdes é conforto térmico e eficiência energética.
“Com certeza, o mundo não será mais o mesmo depois dessa pandemia. As pessoas estão vivenciando outras experiências de trabalho e estudo em casa. Nessa nova realidade, precisamos transformar áreas comuns e telhados em espaços verdes que nos conectam com a natureza e o bem-estar”.
Edifícios comerciais e residenciais novos e antigos podem fornecer reciclagem e coleta de água, gerenciamento de resíduos, limpeza ou filtragem de ar. Esses conceitos, diz ele, não são novos! Agora, a necessidade de boas práticas faz mais sentido com a mudança de consciência que muitos já estão tendo.
A praça da Apple em Macau forma um oásis de tranquilidade. É uma sala urbana que atrai pessoas para o local.
“Estamos ampliando a nossa conscientização de que os recursos naturais são escassos. Precisamos cuidar do meio ambiente e ser resilientes. Assim, teremos mais saúde e estaremos mais preparados para outros desafios da vida moderna”, finaliza o engenheiro João Manuel Feijó. (ecodebate)

Sem a Floresta Amazônica, agronegócio e geração de energia entram em colapso no Brasil

Ultrapassar o ponto de inflexão que transformaria a Floresta Amazônica em uma savana seria “catastrófico” para os principais setores da economia brasileira, alertam especialistas. Os impactos alcançariam, sobretudo, o agronegócio e a geração de energia, e poderiam repercutir na segurança alimentar internacional.
A abundância natural de água no bioma amazônico beneficia com regularidade a agricultura, o transporte de commodities pelos rios brasileiros e a produção de energia elétrica em inúmeras usinas ao longo dos rios que cortam a vasta região. Agora, porém, o ciclo hidrológico da Amazônia está sob ameaça.
A água sempre foi o sangue que dá vida à floresta tropical. Ela se infiltra no solo e nos aquíferos, flui pelos rios, sobe pelas árvores e se desloca pelo céu. O Rio Amazonas, alimentado por seus afluentes, derrama impressionantes 17 bilhões de toneladas de água no Oceano Atlântico por dia. E, num dia de sol, as árvores da região lançam outras 20 bilhões de toneladas no ar por meio da evaporação – um fluxo de umidade apelidado de “rios voadores”. É assim que a floresta úmida garante o regime pluviométrico em enormes áreas da América do Sul, inclusive nas sedentas metrópoles brasileiras.
Os cientistas há tempos vêm alertando, porém, que, se passarmos do limiar crítico – um ponto de inflexão causado pelas mudanças climáticas regionais e globais, o aumento do desmatamento e a intensificação dos incêndios florestais –, as florestas podem começar a se autodestruir. Estudos revelam que há risco de até 70% da Floresta Amazônica se transformar em área seca e degradada de savana ou vegetação rasteira num prazo de 50 anos.
Principais pontos de degradação florestal na Amazônia em 2019.
Ponto de inflexão deve impactar ecossistemas e economias
A Floresta Amazônica e sua biodiversidade dependem de uma quantidade assombrosa de chuva para prosperar. Por isso, o agravamento das secas afeta boa parte da economia brasileira, baseada em commodities. A morte da maior floresta tropical do planeta teria imensas repercussões econômicas para o agronegócio e as usinas hidrelétricas. A Mongabay conversou com importantes cientistas que estudaram os efeitos de uma mudança épica no maior ciclo hidrológico do mundo. O cenário é preocupante.
Em primeiro lugar, alguns rios importantes da Bacia Amazônica - Xingu, Tapajós e Madeira entre eles - podem ter sua vazão reduzida drasticamente na estação seca, o que não impactaria apenas projetos ambiciosos de hidrelétricas, mas também operações de mineração que dependem das usinas para obter energia. Além disso, os cursos d’água se tornariam menos navegáveis para o transporte de minério e soja. As economias regionais seriam igualmente afetadas, prejudicando comunidades indígenas e tradicionais que dependem dos rios para pescar, beber água e se deslocar.
Área desmatada (em km2) em períodos entre agosto e janeiro nos últimos 12 anos.
No longo prazo, a economia do país pode sofrer bastante se medidas não forem tomadas com urgência para evitar o ponto de inflexão. Em 2019, as exportações agrícolas do Brasil ultrapassaram US$ 80 bilhões, com soja e açúcar entre os produtos mais vendidos. O agravamento das secas pode fazer com que as lavouras de soja em áreas de baixo risco sejam reduzidas 40% em 50 anos.
Para reverter a tendência atual, é preciso conter as emissões globais de carbono e o desmatamento na Amazônia, e adotar a partir de já um ambicioso plano de reflorestamento, analisa o cientista climático Carlos Nobre.
Em vez disso, o governo brasileiro caminha na direção contrária. No primeiro ano do presidente Jair Bolsonaro no poder, o desmatamento atingiu seu maior nível em 11 anos. Programas de contenção do problema tiveram pessoal e verbas cortados, assim como foram flexibilizadas regras para a exportação de madeira. Os primeiros levantamentos atestam que a derrubada da floresta continua em ritmo acelerado em 2020.
Embora as políticas de desenvolvimento radicais de Bolsonaro para a Amazônia possam fazê-lo ganhar pontos com agropecuaristas em busca de lucro rápido, tais iniciativas podem incentivar o aumento do desmatamento e apressar o ponto de inflexão – o que seria devastador para a economia brasileira.
“O Brasil deveria ser o país que mais luta [para proteger a Amazônia], porque é quem tem mais a perder”, diz Nobre.

Rio Tapajós, um dos milhares de cursos d’água que alimentam a Bacia Amazônica. (ecodebate)

domingo, 31 de maio de 2020

3 pilares da sustentabilidade e o dilema dentro da área de negócios

Os três pilares da sustentabilidade e o dilema dentro da área de negócios.
O Trilema da Sustentabilidade
Embora a palavra sustentabilidade signifique coisas diferentes para pessoas diferentes, aqui é utilizada com base na definição oferecida pelo Our Common Future, acima citada, que deu origem ao chamado Triple Bottom Line (TBL), conceito proposto pelo guru da sustentabilidade John Elkington, que adotou uma série de indicadores de gestão e ferramentas de responsabilidade social para explicar (num sentido da contábil) os custos e benefícios de prática sustentável.
O TBL ou os três “pilares” da sustentabilidade (ambiental, econômica e social) alcançou proeminência em muitos campos, mas o “social” (ou sustentabilidade social) tem sido negligenciado e subdesenvolvido ou usado de forma simplista e não teorizada. Afirma-se que até mesmo dentro da área de negócios e corporativa há dúvidas sobre a utilidade do 3TBL” (MELLES, et al 2011).
No passado, vários discursos foram promovidos e a marca de sustentabilidade, a exemplo da primeira onda do ‘verde’ na década de 80 e da segunda onda de ‘eco’ na década de 90, especialmente após a Reunião de Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, Brasil, em 1992.
Seguindo o relatório da Comissão Brundtland tentativas foram feitas para utilizar o esquema triple bottom line, como é feito pela Global Report Iniciative (GRI) e várias empresas de consultoria. Como resultado, a pressão está agora em todas as organizações (sejam elas privadas, públicas ou não governamentais) para incorporar uma visão de sustentabilidade como parte de seu núcleo de negócio.
Apesar de atrair considerável atenção de empresas e acadêmicos de todo o mundo, há uma literatura mais recente que critica a abordagem TBL. Os críticos argumentam que a comunicação em um nível organizacional não faz sentido, visto que sustentabilidade é um conceito global. Além disso, afirma-se que a TBL implica que o importante é apenas o que pode ser medido e encoraja que o ambiente, economia e a sociedade sejam considerados como três contas separadas, em vez de uma.
Argumenta-se que é quase impossível conciliar a tensão entre os esforços para melhorar a sustentabilidade e a necessidade de manter uma linha de lucro no setor corporativo. Apesar de manter negócios como de costume, as corporações e o TBL tentam lidar com um objetivo puramente orientado para o mercado, em vez de questões sociais. “Nós também estamos questionando a eficácia de se engajar organizações nos esforços para aumentar a sustentabilidade, acreditando que os atuais esforços organizacionais para monitorar e reportar seu desempenho de sustentabilidade é improvável que resulte em mudança significativa” (MITCHELL et al, 2012).
Em suma, afirma-se que as interpretações sociais da sustentabilidade social são fracas, devido à “falta de um enquadramento adequado para que se operacionalize o conceito de sustentabilidade social” (PARTRIDGE, 2013). Como resultado disso, desde o seu início, “o debate sobre o desenvolvimento sustentável foi dominado por questões ambientais e econômicas” (PARTRIDGE, 2013), sem uma resposta às injustiças sociais e os desafios que devem ser abordados, a fim de alcançar o desenvolvimento sustentável (WCED, 1987).
Sustentabilidade econômica e ambiental: por que elas devem seguir juntas?
Ela está na pauta de incontáveis debates, é assunto de inúmeros veículos de comunicação e tema presente em diversas conferências de renome ao redor do planeta. Devido principalmente às sérias e preocupantes previsões no que se refere à escassez dos bens naturais e aos impactos ambientais, de fato, muito se tem discutido sobre essa que virou uma palavra-chave dos nossos tempos: sustentabilidade. (ecodebate)

Microplásticos no ar de casas e carros

Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior que a estimada. Como a presença de microplásticos no...