terça-feira, 29 de dezembro de 2009

OBrasil é o único país capaz de salvar o mundo

‘O Brasil é o único país capaz de salvar o mundo’, afirma economista e ambientalista mexicano. O que não falta hoje no mundo são teorias catastrofistas sobre o futuro do planeta. A própria ONU, durante a abertura da Conferência do Clima das Nacões Unidas (COP-15), que começou em 07/12/09 na Dinamarca, advertiu sobre o risco de desertificação das florestas e de elevação do nível das marés. Dentro deste cenário, ações urgentes se fazem necessárias para retardar o processo, evitando mais ciclones, ondas de calor, inundações e o possível desaparecimento do manto de gelo da Groenlândia, que levaria a um aumento de 7 metros no nível dos oceanos ao longo de séculos. Mas, apesar do futuro incerto, existem aqueles que ainda acreditam em uma mudança. Entre os que acreditam em uma solução está o economista mexicano Enrique Leff. Para o estudioso, a mudança depende fundamentalmente da transformação na forma de pensar e agir e na relação que sustentamos com a natureza. Ao citar o Brasil como único país capaz de salvar o mundo, ele aponta como exemplo positivo a relação do seringueiro e do modo extrativista de exploração, valendo-se apenas do que a natureza oferece, sem que haja a influência destrutiva e avassaladora dos processos econômicos vigentes. Criador da teoria da racionalidade ambiental, em que incita o homem a pensar em harmonia com a natureza, Leff falou com a Gazeta do Povo em Foz do Iguaçu, onde participou do 6.º Encontro Cultivando Água Boa, promovido pela Itaipu Binacional, e do 7.º Encontro Ibero-Americano de Desenvolvimento Sustentável. Os dois eventos reuniram cerca de 4,3 mil pessoas. Enrique Leff é o coordenador da Rede de Formação Ambiental para a América Latina e Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). A entrevista é de Fabiula Wurmeister e está publicada no jornal Gazeta do Povo, 09-12-2009. A 1.ª Conferência da Organização das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, considerada o pontapé inicial das discussões sobre o tema, está às voltas de completar 40 anos. Nesse tempo, os avanços foram significativos ou ainda são insuficientes? Podemos dizer que houve, sim, avanços nos debates, na discussão da problemática ambiental, da sustentabilidade, na institucionalização das organizações não governamentais, nas ações de cidadania. Mas esses avanços não conseguiram contrapor os processos de degradação ambiental que continuam a ser maiores. O aquecimento global é um sinal muito forte desses avanços ainda tímidos. Ainda não alcançamos o ponto ideal da compreensão e de uma reação a estes processos que foram desencadeados por esta racionalidade moderna e por este desconhecimento da relação entre economia, ecologia, sociedade e natureza. Diante deste cenário catastrófico, é certo dizer que não há mais volta? Concordo que o fim do mundo está próximo, desde que não consigamos mudar de racionalidade. Esta, instaurada, é uma racionalidade antinatural, que acelera os processos de degradação do planeta e que está associada à pobreza, à desigualdade e também à aniquilação ecológica. Alguém só pode ser catastrofista se acredita que a humanidade será incapaz de mudar a forma de pensar, de atuar e de sentir. Mas, se ainda somos capazes de ativar nossa capacidade para a reflexão crítica e de construir outra racionalidade, a que eu chamo de racionalidade ambiental, então não temos por que ficar já nessa situação de desesperança total. Ao contrário, temos de acreditar que a humanidade passará por um estágio de reflexão e de novos processos civilizatórios. Que rumo devemos tomar, portanto, na direção dessa mudança necessária e urgente? A direção é a sustentabilidade. Temos de ativar a capacidade e os direitos de pensar criticamente, de desativar todo esse mecanismo da racionalidade instaurada, de repensar os paradigmas, de repensar a natureza humana em relação à natureza e assim produzir de outra forma, a partir dos potenciais da natureza, da criatividade, da cultura e não dos mecanismos hegemônicos do mercado. O Brasil ocupa uma posição importante nessa reação e na garantia de elementos naturais que podem evitar o pior? O Brasil não só é importante, como é fundamental nesse processo. É o único país que pode verdadeiramente fazer essa mudança e salvar o mundo. E isso está muito vivo na cultura do Brasil. Lamentavelmente o governo ainda está mais do lado da globalização econômica e dos seus processos. Mas, repito, os brasileiros têm todos os potenciais naturais, ecossistemas produtivos, a diversidade cultural e a consciência estimulada por movimentos sociais de reapropriação da natureza para construir novos meios de vida, novas formas de territorialização. Um bom exemplo é o dos seringueiros com seu modo extrativista de trabalhar e sobreviver, baseado no convívio sadio com os ecossistemas próprios. Por tudo isso, insisto que o Brasil é o único país capaz de salvar o mundo. Desde que se tornaram mais populares as preocupações com o meio ambiente e as mudanças que estamos vivendo, a palavra-chave sempre foi o desenvolvimento sustentável. Essa terminologia ainda é a mais forte ou outras teorias mais bem elaboradas estão caminhando para tomar essa posição de ordem? Sim. Um deles é o próprio conceito que estou propondo, o da racionalidade ambiental, ainda atrelado à sustentabilidade, mas partindo de outros valores, de outros princípios e de outros potenciais. Longe da racionalidade econômica e mais próximo do respeito à natureza e de uma forma de viver mais consciente dos riscos e consequências dos próprios atos uns com os outros e com a natureza.

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