quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Terra da garoa agora é berço de tempestades

Mudanças Climáticas: Terra da garoa agora é berço de tempestades
Mudanças do clima em São Paulo são alerta para o Brasil
São Paulo nunca mais será a terra da garoa. Em estudo recentemente concluído, o pesquisador Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e sua equipe descobriram que a temperatura na capital paulista subiu entre 2 e 3 graus Celsius nos últimos 70 anos.
Em consequência, o padrão de chuvas foi alterado, acabando com as condições para a típica garoa. O aquecimento paulistano – diferentemente do aquecimento global, que chegou próximo a 0,4 graus Celsius no mesmo período – foi causado pela urbanização da cidade.
Essa situação, segundo ele, é irreversível. Resta agora tentar se adaptar e adotar medidas, como o plantio de árvores, para evitar que o aquecimento global agrave ainda mais a situação. São Paulo, diz Nobre, se tornou um grande laboratório sobre as consequências dos desastres climáticos.
Leia a entrevista:
- Qual a diferença entre as mudanças climáticas ocorridas em São Paulo e o aquecimento global?
A mudança climática já ocorrida em São Paulo deve-se principalmente à urbanização da cidade, e não ao aquecimento global. Este daria, talvez, um aumento 0,4 grau nos últimos 70 anos. A temperatura em São Paulo subiu entre 2 e 3 graus Celsius. A principal causa desse aumento de temperatura é a diminuição das áreas verdes, a grande quantidade de concreto e asfalto, as construções. O que a gente espera que aconteça no planeta em 100 anos aconteceu aqui em pouco mais de 50 anos. As chuvas mudaram também, não é só a temperatura.
- São Paulo “terra da garoa” acabou mesmo…
Acabou. A garoa praticamente desapareceu. A razão do desaparecimento da garoa é o aumento da temperatura. A gotícula que era a garoa não se forma mais, ela evapora porque está muito quente. Essa é a razão principal.
- E qual é a principal mudança provocada por essa virada no clima?
O principal aspecto da mudança climática de São Paulo é o aumento acentuado do número de episódios de chuva intensa. Essas que causam inundações, deslizamentos. Isso não acontecia há 70 ou 100 anos.
- É possível aprender com essa mudança?
São Paulo deveria ter sido vista desde o início como um laboratório de como você adapta uma grande cidade à convivência com um clima extremo. Mas isso não aconteceu. O clima foi mudando, os fenômenos foram se tornando extremos e a cidade foi se acomodando com isso, com impactos negativos para a economia e a sociedade.
- Já deveríamos ter aprendido com isso, não é?
São Paulo seria o melhor laboratório do Brasil de como devem ser as políticas públicas para fazer com que a sociedade vá gradativamente se adaptando ao fato de que o clima está mudando e que ele está se tornando, em geral, mais extremo. Extremos climáticos acontecem com mais frequência e intensidade.
- O senhor acha que ainda é possível reverter essa situação?
Podemos fazer uma adaptação, que é diferente de eliminar a mudança climática. Você pode atenuá-la com uma série de medidas. Podemos recuperar um pouco da área verde perdida. As áreas de risco têm de voltar a ser de vegetação de porte. Com isso, São Paulo poderá melhorar minimamente seus indicadores ambientais e climáticos. Mas será uma coisa pequena. A mudança climática já é permanente.
- É irreversível?
Irreversível em uma escala de tempo de séculos. Mesmo que alguém congelasse o crescimento de São Paulo, ainda há o aquecimento global. E este não é São Paulo quem controla. É o planeta.
- Houve influência do aquecimento global no processo de urbanização paulistana?
Pouca. Dos 2 a 3 graus Celsius que a temperatura subiu na cidade nos últimos 70 anos, nós podemos dizer que 0,3 ou 0,4 grau é do aquecimento global.
- Quais são hoje as projeções para o aquecimento global?
A média global da temperatura pode subir entre 2, 4 ou 5 graus Celsius neste século. O nível do mar subirá entre 40 centímetros até acima de 1 metro no mesmo período. O regime de chuvas tende a mudar. Serão menos dias de chuvas durante um ano, mas, quando acontecerem, elas serão mais intensas, e concentradas.
- Onde haverá impacto no país?
Há um impacto muito grande previsto na agricultura. As regiões semiáridas, por exemplo, poderão ficar com menos chuvas, o que já é o problema principal do semiárido no Nordeste. Há também um impacto muito grande na biodiversidade. Nós podemos perder entre 10% e 30% da Floresta Amazônica, do Cerrado e da Caatinga.
- Esses impactos têm a ver com o que já aconteceu em São Paulo?
A lição que a região metropolitana de São Paulo nos ensina é que se a sociedade não fizer nada, os impactos continuam crescendo, cada vez mais prejudiciais, e vão se instalando até sermos completamente incapazes de uma reação. A queda na qualidade de vida em São Paulo, associada com poluição do ar, altas temperaturas, inundações frequentes, deslizamentos de encostas, fatalidades, tudo isso junto mostra que nunca olhamos as mudanças climáticas de forma integrada.
- O Brasil não deve repetir o que aconteceu em São Paulo?
Isso é um sinal para que o Brasil não faça o que São Paulo fez. Inação não é uma resposta. O Brasil, e São Paulo em particular, tem agora que recuperar o tempo perdido.
- O que o cidadão comum, preocupado com isso, pode fazer?
Normalmente a preocupação do cidadão comum é contribuir para a redução do risco futuro. Então, ele pensa logo na redução das emissões, o que é importante. Só que ele também tem que pensar em ações para conviver com as mudanças climáticas. Ele precisa apoiar políticas públicas relacionadas a isso.
- Quais expectativas sobre a Conferência de Cancun?
A expectativa é que haja pequenos progressos. Como Copenhague praticamente zerou o jogo, então ninguém tem grandes expectativas. É possível que haja um avanço na constituição do fundo em que, até 2020, os países ricos doarão US$ 100 bilhões para as nações pobres, que sofrerão as maiores consequências das mudanças climáticas.
- A questão das compensações interessa ao Brasil quando se fala no desmatamento.
A questão do desmatamento é de interesse direto do Brasil. Tivemos uma redução nesse índice de mais de 10% em relação ao ano passado, segundo dados do INPE. Devemos ganhar muito com a implementação do REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação), um mecanismo que fará os países ricos ajudarem nações tropicais a reduzir essa devastação. O Brasil tem a melhor tecnologia para fazer este monitoramento, e podemos transferi-la para regiões de outras florestas.
- Pessoalmente o senhor acredita em acordo em Cancun?
Só com uma bola de cristal para saber pelo menos se o REDD e o fundo para países pobres serão de fato assinadas, quer dizer, se haverá um acordo por escrito. Na Conferência do Clima tudo tem que ser por unanimidade. Mas estou otimista com avanços nessas áreas. (EcoDebate)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

22% das florestas públicas não são protegidas

País não protege 22% das florestas públicas, diz estudo
O Brasil possui 64 milhões de hectares de florestas sujeitas à grilagem, a maior parte na Amazônia. A área, que equivale a duas vezes e meia o Estado de São Paulo, representa 22% do total de florestas públicas no País. São terras públicas sem uso regulamentado, ou seja, não acomodam assentamentos, terras indígenas nem unidades de conservação.
O dado faz parte do Cadastro Nacional de Florestas Públicas 2010. O levantamento foi realizado pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), órgão do governo responsável pela gestão de florestas da União e concessões florestais - modalidade em que áreas de florestas públicas são licitadas para manejo de madeira e outros produtos florestais.
O Brasil possui 290 milhões de hectares de florestas públicas cadastradas pelo SFB, número 21% maior do que o registrado no último cadastro, de 2009. Porém, não houve criação de novas áreas, e sim melhorias no processo de cadastramento das áreas, explica o diretor-geral do SFB, Antônio Carlos Hummel. "Estamos conhecendo quais são e onde estão nossas florestas", diz.
Segundo Hummel, as florestas públicas que já foram destinadas a algum uso são maioria e contam 226 milhões de hectares. As terras indígenas somam 111 milhões de hectares, seguidas pelas unidades de conservação, com cerca de 105 milhões de hectares, sendo 60% federais e 40% estaduais. Os assentamentos públicos da reforma agrária ocupam 10 milhões de hectares.
O governo defende que parte dessas áreas seja convertida em novos locais para concessão florestal, o que evitaria a ocupação desordenada e a grilagem. Só o Amazonas possui 43,6 milhões de hectares de florestas nativas não destinadas.

País não protege 22% das florestas públicas

Uma área do tamanho do Estado de São Paulo está sujeita à grilagem
O dado faz parte do Cadastro Nacional de Florestas Públicas 2010,levantamento realizado pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB).
O Brasil possui 290 milhões de hectare de florestas públicas cadastradas pelo SFB.
O Cadastro Nacional de 2010 revela que 64 milhões de hectares - a maior parte na Amazônia - estão sujeitos à grilagem; registro está mais preciso.
O Brasil possui 64 milhões de hectares de florestas sujeitas à grilagem, a maior parte na Amazônia. A área, que equivale a duas vezes e meia o Estado de São Paulo, representa 22% do total de florestas públicas no País. São terras públicas sem uso regulamentado, ou seja, não acomodam assentamentos, terras indígenas nem unidades de conservação.
O dado faz parte do Cadastro Nacional de Florestas Públicas 2010. O levantamento foi realizado pelo Serviço Florestal Brasileiro (SFB), órgão do governo responsável pela gestão de florestas da União e concessões florestais - modalidade em que áreas de florestas públicas são licitadas para manejo de madeira e outros produtos florestais.
O Brasil possui 290 milhões de hectares de florestas públicas cadastradas pelo SFB, número 21% maior do que o registrado no último cadastro, de 2009. Porém, não houve criação de novas áreas, e sim melhorias no processo de cadastramento das áreas, explica o diretor-geral do SFB, Antônio Carlos Hummel. "Estamos conhecendo quais são e onde estão nossas florestas", diz.
Segundo Hummel, as florestas públicas que já foram destinadas a algum uso são maioria e contam 226 milhões de hectares. As terras indígenas somam 111 milhões de hectares, seguidas pelas unidades de conservação, com cerca de 105 milhões de hectares, sendo 60% federais e 40% estaduais. Os assentamentos públicos da reforma agrária ocupam 10 milhões de hectares.
Amazônia
O governo defende que parte dessas áreas seja convertida em novos locais para concessão florestal, o que evitaria a ocupação desordenada e a grilagem. Só o Amazonas possui 43,6 milhões de hectares de florestas nativas não destinadas.
As primeiras concessões para exploração controlada de madeira na Amazônia saíram este ano. "Desses 64 milhões de hectares de florestas sem uso regulamentado, pelo menos 10 milhões podem ser transformados em áreas de concessão", afirma Hummel.
De acordo com André Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, o manejo sustentável de florestas pode, ao lado de investimentos em energia renovável, permitir ao País cumprir as metas climáticas firmadas em Copenhague em 2009.
Florestas e clima
80% de redução do desmatamento na Amazônia até 2020 é uma das metas brasileiras do clima
2007 é o ano que o cadastro de florestas começou a ser feito (OESP)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Deslocalização agrícola – Terra de Ninguém

Ambiente por Inteiro: Deslocalização agrícola – Terra de Ninguém
No início de novembro/10 foi mostrado em convenções internacionais como a COP10 não gerarão resultados concretos enquanto não existir um governo mundial. Se você não seguir a lei, a polícia pega voce. Você seguiria a lei se a polícia precisasse convencer todos seus vizinhos da sua transgressão?
A globalização avançou muito na comunicação e transportes, menos na segurança e ainda menos na segurança ambiental. Em tese, para vender produtos para um país deve-se seguir sua legislação ambiental, mas quem vigia isto? E mesmo vigiando, que medidas caberão se por exemplo o arroz exportado não seguiu os preceitos exigidos pelo comprador ? Valerá a lei do país onde é produzido ou a do comprador? Ou isto tudo é muito confuso e vale mesmo o bang-bang do mercado?
Em março de 2009 o Financial Times noticiou o primeiro carregamento de arroz produzido nas terras da Arábia Saudita na Etiópia. Repito, não é um grande empresário árabe produzindo arroz na Etiópia. O proprietário e produtor é o país Arábia Saudita.
Longe de um caso isolado, China, Coréia do Sul, Kuwait, Qatar e vários outros estão também comprando terras. Produzir comida exige maquinário cada vez mais caro, o que aos poucos vai expulsando os menores do jogo e formando gigantescas unidades de produção agrícola. O problema social é gritante pela redução de empregos e da posse dos meios de produção e do ponto de vista ambiental um país faminto da África tem poucas condições de cercear um gigante que aporta em seu território com caminhões, máquinas, aviões e agrônomos.
Muita terra tem sido vendida para estrangeiros também no Brasil. De acordo com o Ministério da Agricultura, 16 usinas da Região de Ribeirão Preto são propriedade de grupos estrangeiros e em cinco anos, 40% da produção brasileira de etanol estará nas mãos deles (Agência Estado, 4/11/10). Em todo país, foram adquiridos 515,1 mil ha entre 2007 e 2009 (Folha de São Paulo, 02/11/10).
As consequências ambientais da tomada das terras brasileiras por estrangeiros é uma pergunta aberta. Da mesma forma que grandes grupos costumam ser exploradores ambientais mais ávidos, também são mais suscetíveis à opinião pública. A BP, por exemplo está entre os grupos estrangeiros comprando usinas no Brasil e ela anda meio feia na foto. O problema da opinião pública é que ela é mais sujeita ao marketing que aos fatos. Cristo e Giordano Bruno que o digam. Soltos para se relacionar diretamente com a opinião pública, não é difícil para as grandes empresas venderem suas versões dos fatos.
Abra a página da BP para ver que maravilha está o Golfo e o bem que eles fizeram para os pescadores da região. (EcoDebate)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Morte de corais pelo calor

‘Branqueamento’ de corais
O calor extremo deste ano está colocando os recifes de coral sob um estresse tão severo que os cientistas temem um declínio generalizado, ameaçando não só os ecossistemas mais ricos do oceano como também estoques pesqueiros que alimentam milhões de pessoas.
Da Tailândia ao Texas, os corais reagem ao calor perdendo a cor e entrando em modo de sobrevivência.
Muitos já morreram, e muitos outros devem ter esse destino nos próximos meses. Previsões informatizadas sugerem que os corais do Caribe podem passar por um drástico branqueamento nas próximas semanas.
O que está acontecendo neste ano é apenas o segundo branqueamento global de corais de que se tem notícia. Mas os cientistas ainda torcem para que não seja tão ruim, no geral, quanto em 1998, ano mais quente já registrado, quando se estima que 16% dos recifes de águas rasas do mundo tenham morrido.
Os cientistas dizem que o problema com os corais está associado à mudança climática. Há anos, alertam que os corais, sensíveis ao calor, serviriam como indicadores precoces dos danos gerados pelo acúmulo de gases do efeito estufa. Nos primeiros oito meses de 2010, a temperatura média do planeta foi equivalente à do mesmo período em 1998.
“Estou significativamente deprimido com toda esta situação”, disse Clive Wilkinson, diretor da Rede Global de Monitoramento dos Recifes de Coral, na Austrália.
Os recifes são compostos por milhões de pequenos animais, chamados pólipos. Os pólipos fornecem nutrientes e habitat para algas, que por sua vez capturam a luz solar e o dióxido de carbono para produzir os açúcares que alimentam os pólipos de coral.
As algas conferem aos recifes as suas cores brilhantes; muitos peixes que vivem nesses ambientes também exibem tons e desenhos fantásticos. Os recifes ocupam uma ínfima fração dos oceanos, mas abrigam talvez um quarto de todas as espécies marinhas.
Os recifes são importantes para os bilionários setores da pesca e do turismo. Em algumas nações insulares e em partes de Indonésia e Filipinas, as pessoas dependem dos peixes dos recifes para sua alimentação.
Quando os corais morrem, os peixes não são imediatamente condenados, mas, se o coral não se recupera, o recife pode acabar desmoronando, dizem os cientistas, deixando a pesca bem menos produtiva. Pesquisas indicam que isso já está ocorrendo em parte do Caribe.
Cientistas que acompanham os corais dizem que já notaram um branqueamento generalizado no Sudeste Asiático e no oeste do Pacífico, especialmente na Tailândia, em parte da Indonésia e em algumas nações insulares menores.
As temperaturas diminuíram no oeste do Pacífico, e a crise passou por lá. Na Tailândia, “há sinais de recuperação em alguns lugares”, segundo o biólogo James True, da Universidade Príncipe de Songkla.
O clima varia de lugar para lugar. Tempestades tropicais e furacões avançando pelo Atlântico resfriaram a água no norte do Caribe e podem ter poupado alguns corais. Mais ao sul, porém, as temperaturas ainda estão notavelmente altas, colocando muitos recifes em risco.
Na costa da Austrália a temperatura da água também está acima do normal, e alguns cientistas temem pelo recife mais impressionante da Terra. “Se tivermos uma temporada de monções ruim”, afirmou Wilkinson, “acho que estamos fadados a um sério branqueamento na Grande Barreira de Corais”. (EcoDebate)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mundo árabe é mais vulnerável à mudança climática

Mundo árabe tem países mais vulneráveis à mudança climática
Tempestades de areia ocorrem no Iraque, grandes enchentes assolam a Arábia Saudita e o Iêmen, o aumento do nível dos oceanos corrói a costa do Egito, o tempo quente e seco piora a escassez de água no Oriente Médio, que é a região mais carente do mundo nesse aspecto.
O mundo árabe já está sofrendo impactos coerentes com as previsões das mudanças climáticas. Embora cientistas estejam cuidadosos na hora de ligar eventos específicos ao aquecimento global, eles estão exortando os governos árabes a agir rapidamente para proteger os países de potenciais desastres.
Há grandes variações na emissão de gases causadores do efeito estufa na região, com taxas muito altas em várias nações produtoras de petróleo e gás. O Catar, por exemplo, possui o recorde mundial de emissões per capita, com 56,2 toneladas de dióxido de carbono em 2006, enquanto os egípcios emitiram apenas 2,25 toneladas cada um, mostraram dados da ONU (Organização das Nações Unidas).
Para Mohamed El-Ashry, ex-chefe do Fundo Global para o Meio Ambiente, uma instituição que ajuda os países em desenvolvimento nas questões climática e ambiental, a região não pode ficar inativa em relação a esses problemas. “É da natureza humana esperar até que haja uma crise, para aí sim agir”, afirmou. “Mas você detesta esperar até que haja uma crise realmente grande, com um enorme número de pessoas sofrendo desnecessariamente.”
Medidas para sanar os problemas ambientais na região também ajudarão a compensar futuros impactos no aquecimento global.
“Avaliar a questão da água, dizem, teria o benefício duplo de responder às questões da mudança climática, mas também avaliar os problemas que resultam do crescimento populacional, das administrações ruins e das fracas instituições relacionadas ao assunto da água,” afirmou Ashry.
A população do mundo árabe triplicou desde 1970, para 360 milhões de pessoas. Em 2050, esse número chegará a quase 600 milhões, de acordo com o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
A escassez de água, o maior desafio da região, já é imensa. Até 2015, os árabes terão de sobreviver com menos de 500 metros cúbicos de água por ano, um nível classificado como escassez severa diante de uma média mundial de mais de 6.000 metros cúbicos por habitante.
Esse alerta foi dado em um relatório do Fórum Árabe para o Ambiente e o Desenvolvimento (Afed), que disse que as reservas de água na região caíram a um quarto dos níveis de 1960.
As mudanças climáticas agravarão a crise em uma região onde as temperaturas podem subir dois graus Celsius nos próximos 15 ou 20 anos e em mais de quatro graus até o final do século, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.
A escassez de água e o aumento do nível dos oceanos são uma realidade, mas a conscientização pública no mundo árabe está atrasada.
“As pessoas ainda não estão cientes desses impactos,” afirmou o secretário-geral do Afed, Najib Saab. “Quando você fala de mudanças climáticas, eles acham que o impacto será na lua ou em outros países.”
Líderes árabes lidam com a situação da água de forma séria, mas muito frequentemente deixam a questão das mudanças climáticas para os ministros do Meio Ambiente.
“Os ministros do Meio Ambiente são frequentemente os mais fracos nesses países”, afirmou Habib Habr, diretor regional do Programa da ONU para o Meio Ambiente. “As políticas estão lá, mas geralmente o que vemos é a falta de implementação ou execução da lei.”
Em uma região cheia de conflitos e comandada por governantes irresponsáveis e elites que servem apenas a si próprias, as distrações políticas levam as mudanças climáticas e outros assuntos sociais para a parte de baixo da lista de prioridades, embora a Tunísia, a Jordânia e o Omã sejam mais ativos que a média. (EcoDebate)

Somos as mudanças que queremos no planeta

Esta frase que parece arrogante é, na verdade, o testemunho do que significa o projeto “Cultivando Agua Boa” implementado pela grande hidrelétrica Itaipu Binacional nos limites entre o Brasil e o Paraguai envolvendo cerca de um milhão de pessoas. Os diretores da empresa – Jorge Samek e Nelton Friedrich – com suas equipes sabiamente entenderam o desafio global que nos vem do aquecimento global e resolveram dar uma resposta local, o mais inclusiva e holística possível. Esta se mostrou tão bem sucedida que fez-se uma referência internacional.
Seus diretores-inspiradores dizem-no claramente: ”A hidrelétrica Itaipu adotou para si o papel de indutora de um verdadeiro movimento cultural rumo à sustentabilidade, articulando, compartilhando, somando esforços com os diversos atores da Bacia Paraná 3 em torno de uma série de programas e projetos interconectados de forma sistêmica e holística e que compõem o Cultivando Agua Boa; eles foram criados à luz de documentos planetários como a Carta da Terra, o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis, a Agenda 21 e os Objetivos do Milênio”.
Operaram, o que é extremamente difícil, uma verdadeira revolução cultural, vale dizer, introduziram um complexo de princípios, valores, hábitos, estilos de educação, formas de relacionamento com a sociedade e com a natureza, modos de produção e de consumo que justifica o lema, escrito em todas as camisetas dos quatro mil participantes do último grande encontro em meados de novembro: “Somos as mudanças que queremos no planeta”.
Com efeito, a gravidade da crise do sistema-vida e do sistema-Terra é de tal magnitude que não bastam mais as iniciativas dos Estados, geralmente, tardias e pouco eficazes. A Humanidade inteira, todos os saberes, as instâncias sociais e as pessoas individuais, devem dar a sua contribuição e tomar o destino comum em suas mãos. Caso contrário, dificilmente, sobreviveremos coletivamente.
Christian de Duve, prêmio Nobel de Fisiologia de 1974, nos adverte em seu conhecido livro “Poeira Vital: a vida como imperativo cósmico”(1997) que “nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por extinções em massa”. Efetivamente, o ser humano tornou-se uma força geofísica destruidora. Outrora eram os meteoros rasantes que ameaçavam a Terra, hoje o meteoro rasante devastador se chama o ser humano sapiens e demens, duplamente demens.
Dai a importância de “Cultivando Agua Boa”: mostrar que a tragédia não é fatal. Podemos operar as mudanças que vão desde a organização de centenas de cursos de educação ambiental e capacitação, do surgimento de uma consciência coletiva de corresponsabilidade e cuidado pelo ambiente, da gestão compartilhada das bacias hidrográficas, de incentivo à agricultura familiar, da criação de um refúgio biológico de espécies regionais, de corredores de biodiversidade unindo várias reservas florestais, de mais de 800 km de cercas de proteção das matas ciliares, do resgate de todos os rios, do cultivo de plantas medicinais, da geração de energia mediante os dejetos de suínos e aves, da construção de um canal de 10 km para vencer um desnível de 120 metros e permitir a passagem de peixes de piracema até a criação de um Centro Tecnológico, Centro de Saberes e Cuidados Ambientais e da Universidade da Integração Latino-Americana entre outras não citadas aqui.
A sustentabilidade, o cuidado e a participação/cooperação da sociedade civil são as pilastras que sustentam este projeto. A sustentabilidade introduz uma racionalidade responsável pelo uso solidário dos recursos escassos. O cuidado funda uma ética de relação respeitosa para com a natureza, curando feridas passadas e evitando futuras e a participação da sociedade cria o sujeito coletivo que implementa todas as iniciativas. Tais valores são sempre revisados e pactados. O resultado final é a emergência de um tipo novo de sociedade, integrada com o ambiente, com uma cultura da valorização de toda a vida, com uma produção limpa e dentro dos limites do ecossistema e com profunda solidariedade entre todos. Uma aura espiritual benfazeja perpassa os encontros como se todos se sentissem um só coração e uma só alma.
Não é assim que começa o resgate da natureza e o nascimento de um novo paradigma de civilização?(EcoDebate)

domingo, 19 de dezembro de 2010

NASA estima que lagos ficaram mais quentes

Estudo da NASA estima que lagos do planeta ficaram 2ºC mais quentes em 25 anos
Os lagos de todo o mundo ficaram, em média, 2ºC mais quentes desde 1985, o que representa aumento de temperatura duas vezes mais rápido que o da atmosfera global, segundo um estudo da NASA.
A agência espacial norte-americana chegou à conclusão após medir a temperatura superficial da água em 167 lagos de todo o mundo através da tecnologia de satélite do seu Jet Propulsion Laboratory.
O estudo, que será publicado nesta quarta-feira na revista “Geophysical Research Letters”, revela que os lagos se aqueceram em média 0,45 grau Celsius por década, e alguns chegaram ao ritmo de um grau Celsius por década.
Os lagos que registraram os maiores aumentos de temperatura são os do hemisfério norte, especialmente os situados em latitudes médias e altas.
O que mais se aqueceu foi o Ladoga, na Rússia, cuja temperatura aumentou quatro graus Celsius desde 1985, seguido de perto pelo Tahoe, situado entre Califórnia e Nevada (Estados Unidos), que subiu três graus Celsius no mesmo período, segundo o coautor do estudo, Simon Hook.
Por zonas, o norte da Europa é onde se registra um aquecimento mais consistente, enquanto no sudeste do continente, na região dos mares Negro e Cáspio, as temperaturas da água aumentam de forma mais suave.
Ao leste do Cazaquistão, na Sibéria, Mongólia e no norte da China a tendência de reaquecimento volta a se fortalecer, segundo indica o estudo.
Na América do Norte, os lagos que mais se aquecem são os do sudoeste dos Estados Unidos, a um ritmo ligeiramente superior ao dos Grandes Lagos do norte.
O aumento de temperatura é muito menor nos trópicos e no hemisfério sul, especialmente nas latitudes médias.
Para avaliar a temperatura, os pesquisadores da Nasa utilizaram tecnologia de infravermelhos da Noaa (sigla em inglês de Administração Atmosférica e Oceânica Nacional dos EUA) e da ESA (sigla em inglês da Agência Espacial Europeia). (EcoDebate)

Urbanização elevou a temperatura em São Paulo

Urbanização elevou de 2 a 4 ºC a temperatura em São Paulo, diz pesquisador
A temperatura da cidade de São Paulo aumentou de 2 a 4ºC nos últimos 30 anos. A elevação da temperatura, apontada pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Carlos Nobre, é atribuída à ocupação desordenada da cidade que pode ser percebida principalmente nas áreas mais urbanizadas, onde se formam as chamadas “ilhas de calor”.
Os dados foram apresentados durante a 11º Conferência das Cidades, na Câmara. Segundo Nobre, até o final do século, a temperatura na capital paulista pode subir outros 3ºC em virtude do aquecimento global. Ele acrescentou que, mesmo se o processo de urbanização da cidade pudesse ser interrompido, o aquecimento previsto até 2100 não seria evitado.
“Não precisamos esperar 100 anos para conhecer os efeitos do aquecimento global sobre as cidades, São Paulo já sente esses reflexos”, afirmou o pesquisador. Segundo ele, a capital paulista já sofre com um período de estiagem mais prolongado, chuvas mais intensas, que causam inundações, e até mesmo aumento da incidência de raios.
Na avaliação da professora da Universidade Federal de Maringá e coordenadora do Observatório das Metrópoles, Ana Lúcia Rodrigues, além dos riscos ambientais, o adensamento das grandes cidades está gerando metrópoles sem coesão e planejamento. “Os próprios cidadãos resolvem os problemas de mobilidade e de moradia. Daí surgem favelas e ocupações irregulares”, explicou.
Ana Lúcia defendeu a adoção urgente de políticas capazes de solucionar o problema da ocupação das cidades e destacou que o Brasil passa por um momento bastante oportuno para o planejamento urbano. “Estamos passando por uma transição demográfica, em que a demanda por serviços e moradias nas cidades tende a se estabilizar”, comentou.
Carinhanha
Mesmo sem as pressões dos grandes centros urbanos, pequenos municípios no interior do País também enfrentam dificuldades para lidar com crescimento sustentável, segundo a prefeita de Carinhanha (BA), Chica do PT. Na Conferência, Chica expôs o desafio da cidade que governa para preservar o rio que leva o mesmo nome da cidade. Segundo ela, para que as margens do rio Carinhanha não fossem ocupadas, já foi preciso enfrentar empresários e até o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
“Nossa cidade foi construída sem planejamento. As casas deram as costas para o rio e despejaram seus dejetos nele. O desafio é usar o rio como fator de atração, voltar as casas para ele. Acredito que a única saída é educar, pois não penso que seja possível mudar as pessoas apenas com leis”, afirmou.
O professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC/RJ) e jornalista André Trigueiro lembrou que não é possível idealizar propostas que se apliquem por igual e tenham o mesmo efeito em todas as cidades. Segundo ele, os problemas são locais e as respostas também precisam ser específicas. “O primeiro degrau é o planejamento. Não se pode chamar algo que sai do improviso de solução”, afirmou. Trigueiro criticou ainda a descontinuidade de projetos bons por mudanças na administração.
População urbana
O segundo vice-presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano, deputado Cassio Taniguchi (DEM-PR), explicou que a preocupação ambiental se transfere para as cidades cada vez mais porque grande parte da população mundial está se tornando urbana. Por isso, o tema precisa ser enfrentado. “No Brasil, 85% da população mora nas cidades. As cidades, segundo a ONU, são responsáveis por 75% do consumo de energia e bens e responsáveis por 80% das emissões de carbono, ou seja, causam aquecimento global”, disse.
A 11ª Conferência das Cidades, é promovida pela Comissão de Desenvolvimento Urbano. O tema da conferência neste ano é “O futuro das cidades no novo contexto socioambiental”. (EcoDebate)

A Amazônia está aquecendo

 “As variações climáticas das chuvas são rotineiras. O que nos chama a atenção é que num intervalo de cinco anos, do início da primeira de 2005 até agora, nós tivemos a mais drástica seca, a terceira maior seca no rio Amazonas e, ainda, tivemos a maior enchente do mesmo rio em 2009”, fala Carlos Nobre ao analisar os fenômenos climáticos extremos que têm atingido diretamente a Amazônia. Em entrevista, concedida por telefone, à IHU On-Line, o meteorologista Carlos Nobre analisou as secas que assolam a região amazônica e analisou as consequências de uma possível savanização de parte da floresta. E questionou: “o que está acontecendo? Nós ainda não temos uma explicação completa sobre o porquê estamos vendo tantos recordes sendo quebrados em termos de cheias e secas na bacia do rio Amazonas em tão pouco espaço de tempo”.
Carlos Nobre é engenheiro eletrônico formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Na Massachussets Institute of Technology (EUA), realizou o doutorado em meteorologia. Recebeu o título de pós-doutor da University of Maryland (EUA). Atualmente, é pesquisador sênior no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É autor das obras Amazonian deforestation and climate (New York: John Wiley and Sons, 1996) e Regional Hidrological Impacts of Climatic Change – Impact Assessment and Decision Making (Oxfordshire: International Association of Hidrological Sciences, 2005).
IHU On-Line – O que há de anormal nessas secas na Amazônia?
Carlos Nobre – As variações climáticas das chuvas são rotineiras. O que nos chama a atenção é que num curto intervalo de cinco anos, do início da primeira seca em 2005, nós tivemos a mais drástica seca agora, a terceira maior seca no rio Amazonas, e, ainda, tivemos a maior enchente do mesmo rio em 2009. Em cinco anos, portanto, tivemos alguns recordes climáticos quebrados. A questão é: o que está acontecendo? Nós ainda não temos uma explicação completa sobre o porquê estamos vendo tantos recordes sendo quebrados em termos de cheias e secas na bacia do rio Amazonas em tão pouco espaço de tempo. Isso gerou uma enorme tensão internacional que está estudando esses fenômenos. Nós esperamos que, talvez em 2011, nós consigamos algumas explicações.
A causalidade, o que fez as chuvas atrasarem, nós podemos explicar. A questão é: por que essa coincidência de extremos climáticos num curtíssimo espaço de tempo? Há 108 anos nós registramos todos os fenômenos de clima da Amazônia e não há nada parecido com o que vivemos hoje. Uma das possibilidades, não é a única, não temos certeza ainda, é: se o planeta continuar aquecendo desta forma como está acontecendo atualmente, em até 50 anos esse tipo de extremidade se tornará uma variação climática habitual. Portanto, se não conseguirmos reverter o aquecimento global esta é uma amostra de como será o clima no futuro.
IHU On-Line – Como o senhor caracteriza as secas na Amazônia?
Carlos Nobre – Tem dois tipos de secas na Amazônia: as secas que são causadas, principalmente, por perturbações climáticas que se originam no Oceano Pacífico associadas com seu aquecimento ou esfriamento e isso causa uma seca acentuada no norte e leste da Amazônia, ao redor de toda a América do Sul Tropical.
Outro tipo de seca é induzida pelo Oceano Atlântico mais quente que muda a circulação atmosférica em cima da Amazônia, diminuindo as chuvas uma vez que o transporte de umidade diminui. Todo o sistema do Oceano Atlântico está dentro do continente e influencia diretamente no nosso clima. Então, essas são as tipologias de secas e hoje nós temos um bom entendimento desses dois tipos. O que nós não temos ainda é a capacidade de prever em longo prazo, como por exemplo, como vai ser o regime de chuvas num intervalo de um ano ou dois anos.
IHU On-Line – Qual é a redução na quantidade de chuvas necessária para desestabilizar a floresta?
Carlos Nobre – Existe um cálculo para isso. É sempre uma combinação dos níveis de chuva e aumento de temperatura. Então, se o aquecimento global ou o desmatamento na Amazônia causarem uma mudança permanente do clima em que a soma média da região diminuía em torno de 10% ou 15% e a temperatura aumente quatro graus, as duas coisas ocorrendo, mais de 50% da Amazônia se tornará uma região propícia a outros tipos de vegetação. Com isso, ou teremos uma floresta seca ou um tipo de savana bastante destacada, diferente do cerrado do centro e do sul da Amazônia, pelo empobrecimento. Esses são os cenários previstos, portanto.
IHU On-Line – Muito do clima do Brasil depende do clima da Amazônia. Com uma possível savanização de parte da Amazônia, quais seriam as consequências para o clima do país?
Carlos Nobre – Hoje, não conseguimos estabelecer uma relação clara entre as chuvas da Amazônia e o clima do país. Há um número pequeno de estudos que indicam a relação com a chuva de inverno no sul no Brasil, norte da Argentina, Uruguai, Foz do Iguaçu. A floresta é muito importante para o clima da própria Amazônia. Disso tenho certeza. As chuvas seriam maiores na Amazônia se não houvesse a floresta. A influência do clima da Amazônia no resto do país e no clima do mundo é algo que nós temos alguma ideia, mas não há qualquer comprovação forte. No entanto, pode haver mudanças nesse sentido se a Amazônia for desmatada.
IHU On-Line – Como podemos entender o efeito de fertilização do CO2 sobre a floresta amazônica?
Carlos Nobre – O CO2, de modo geral, é um combustível da fotossíntese. Quanto mais CO2 houver na atmosfera, até um certo limite, as plantas gostam, elas produzem mais matéria orgânica. O que nós não sabemos é como um sistema complexo como uma floresta tropical, que não é uma coisa simples, responde ao aumento do CO2. O que sabemos é que uma floresta tropical não responde da mesma maneira que uma plantinha qualquer. Vários experimentos foram feitos no hemisfério norte mostraram que nesses ambientes o quanto essas florestas acumula de CO2 é 25% acima do valor máximo que ela precisa para o crescimento. Isso porque um sistema complexo responde a uma série de fatores e não somente ao CO2.
A grande incerteza em relação à Amazônia é que não sabemos como a floresta tropical responderá por que nunca fizemos um experimento desses. Isso porque é uma experiência muita complexa e muito difícil, porque é preciso criar um ambiente de muitas árvores, necessita da implementação de sensores de gás carbônico e tem que manter a atmosfera enriquecida de CO2 até um certo valor por muitos anos. É algo nada trivial e na Amazônia seria menos trivial ainda. Portanto, não sabemos como a floresta tropical responde ao aumento da quantidade de CO2 na atmosfera.
As florestas, de um modo geral, aguentam mais as mudanças climáticas. Portanto, elas respondem perfeitamente ao aumento de CO2 porque ela é muito resistente. Mas não sabemos qual é a resposta de uma floresta tropical. Aí está a grande questão.
IHU On-Line – O que é necessário fazer para mudar essas previsões?
Carlos Nobre – Duas coisas: uma está ao alcance das mãos dos brasileiros. É a construção de políticas públicas que foquem na redução dos desmatamentos da Amazônia. Isso vem ocorrendo nos últimos anos. Vamos dizer que estamos no caminho certo uma vez que o desmatamento está diminuindo. Precisamos continuar e reduzir para zero. Agora, mesmo que consigamos fazer tudo isso, se o aquecimento global continuar sem alterações, na segunda metade deste século já vamos ter efeitos muito graves na Amazônia. E isso pode levar a um risco de savanização da Amazônia. Podemos zerar o desmatamento, mas isso terá um efeito muito pequeno com o advento do aquecimento global. Temos que criar uma estratégia mundial de redução das emissões, não só no Brasil. Esse é o grande desafio. Se não reduzirmos as emissões das florestas tropicais, em especial a Amazônia, pagaremos um preço muito alto. (Ecodebate)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Triplica número de afetados pelo clima no Brasil


Catarinenses sofreram com enchentes em 2008
Em 2009, 5,8 milhões de brasileiros foram impactados por inundações, secas e vendavais, segundo o Atlas Nacional do Brasil, lançado pelo IBGE
De 2007 a 2009, triplicou o número de brasileiros afetados por inundações, secas, vendavais e temperaturas extremas. É o que revela o Atlas Nacional do Brasil Milton Santos, lançado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O aumento mais impressionante ocorreu no item inundações. Em 2009, as enchentes – que em 2007 haviam afetado 1 milhão de pessoas – impactaram 3,2 milhões de brasileiros. No item secas, o salto foi de pouco mais de 750 mil para cerca de 1,8 milhão, e nos desastres com causas eólicas e temperaturas extremas, o número de afetados passou de 200 mil para 800 mil.
As informações do atlas foram divulgadas três dias após o fim da Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Cancún, México.
Em sua sexta versão – a primeira foi em 1937 e a quinta, em 2000 –, a publicação mostra a evolução da proporção de vítimas e dos tipos de desastre distribuídos pelo território brasileiro no período 2007-2009.
O atlas revela, por exemplo, que Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Piauí foram os Estados que tiveram a maior proporção de habitantes afetados – entre 12,1% e 15,2%.
No ano passado, os gaúchos foram os mais afetados pelas secas. Do 1,6 milhão de habitantes que sofreram com desastres naturais no Estado, mais da metade enfrentou a falta de chuvas. No mesmo ano, os capixabas foram fortemente afetados pelas enxurradas.
Os números divulgados ontem abalam uma crença arraigada no senso comum: a de que o Brasil estaria livre de grandes tragédias naturais que afetam duramente outros países.
Eixos. Território e Meio Ambiente é o nome de um dos quatro “eixos” do atlas, que, por determinação legal, leva o nome daquele que é considerado o maior geógrafo nascido no Brasil, Milton Santos (1926-2001).
Em suas páginas, disseca questões como uso de agrotóxicos, espécies em extinção, reservas florestais, cobertura vegetal, biomas, queimadas, ameaças à biodiversidade – tudo referenciado em mapas coloridos do Brasil e dos Estados. As fontes são o próprio IBGE e órgãos oficiais, do Instituto Chico Mendes à Fundação Nacional do Índio, abrangendo instituições internacionais, como o Banco Mundial.
Na mapa das Fontes de Ameaças à Biodiversidade, por exemplo, é possível ver a Concentração de Fontes de Ameaças, representadas por uma escala de cores que vai do amarelo (muito baixa) a negro (muito alta). A ilustração expõe a proximidade ou distância de unidades de conservação, por exemplo. O período examinado vai até setembro de 2009. Em outras páginas é possível ver a representação da Poluição Industrial Potencial e do Uso de Agroquímicos.
A primeira, com dados de setembro de 2010, mostra que os Estados que concentram mais poluentes são São Paulo e Minas Gerais. Um gráfico indica que o poluente industrial mais emitido no País é o monóxido de carbono (CO). Sozinha, a indústria metalúrgica responde pela emissão anual de 400 mil toneladas dessa substância. A segunda revela que São Paulo liderou, em 2005 (último dado disponível), o consumo de agrotóxicos, com 55 mil toneladas anuais.
Trabalho. A elaboração do atlas envolveu 40 pesquisadores. De acordo com o presidente do IBGE, Eduardo Nunes, exemplares do atlas serão enviados para representações diplomáticas do Brasil no exterior. (OESP)

Mudanças Climáticas: o Brasil deve fazer mais

“A única forma de proporcionar o financiamento necessário para os países mais vulneráveis, respeitando-se o princípio de responsabilidade comum, porém diferenciada, é o Brasil também participar ativamente do debate”
Até o momento, o poder e a voz do Brasil nas questões de negociações sobre o clima estiveram notadamente ausentes. Ainda que participe ativamente dos debates internos das Nações Unidas, o comprometimento do país com um nível político mais amplo tem sido limitado.
No entanto, um dos dados mais surpreendentes de uma pesquisa de opinião realizada globalmente este ano foi o de que os brasileiros são os que mais estão convencidos da magnitude dos problemas relacionados ao clima. Por que, então, o Brasil não está fazendo mais por um acordo internacional abrangente e justo?
E o que mais ele poderia fazer para que as negociações avancem na próxima conferência climática da ONU, COP-16, em Cancún, México, no fim deste mês? Ainda que saibamos que nenhum país sozinho move moinhos, especialmente em negociações tão complexas como as do clima, uma nação com estaturas político e econômica consideráveis no cenário mundial, como as do Brasil, pode e deve fazer mais.
Como? Um exemplo concreto está no financiamento climático. A COP-16 deverá tomar decisões sobre a maneira como países em desenvolvimento, especialmente os mais vulneráveis, poderão acessar recursos para implementar políticas de enfrentamento dos efeitos resultantes do aquecimento global. Espera-se que os mecanismos acordados digam respeito a fundos públicos, que contem com recursos novos e adicionais aos existentes. O compromisso, inédito, assumido pelos países ricos em Copenhague de mobilizar 100 bilhões de dólares por ano até 2020 define a escala do desafio.
O grupo de alto nível que assessora o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, concluiu recentemente que a mobilização desses valores é viável. E mais: está emergindo entre os países um consenso, ainda que frágil, sobre a criação de um novo fundo, no marco da Convenção do Clima das Nações Unidas, para a administração de tais recursos.
Para ajudar a transformar possibilidades em realidade, os negociadores brasileiros precisam se engajar em três frentes: primeiro, defender que os recursos alocados para ações de adaptação aos impactos humanos das mudanças climáticas sejam, de fato, adicionais aos já destinados a ajuda ao desenvolvimento e que sejam canalizados como doações e não empréstimos.
Juntamente com África do Sul, China e Índia, o país sublinhou a importância de assegurar que o financiamento do clima, como o destinado aos compromissos de mitigação, sejam utilizados em ações que possam ter seus resultados demonstrados, mensurados e verificados de maneira aberta e transparente. Agora é a hora de o Brasil dizer como.
Segundo, participar mais ativamente do debate sobre fontes alternativas para o financiamento climático. É verdade que a maior responsabilidade dessa conta é dos países industrializados como os Estados Unidos, a Comunidade Europeia e o Japão. No entanto, está claro que recursos efetivamente “novos e adicionais” deverão vir de fontes ainda inexploradas como, por exemplo, as taxas sobre a navegação e a aviação internacionais. O Brasil tem o direito de argumentar que os seus interesses comerciais não devem ser afetados por tais medidas, mas existe uma diferença entre os compromissos que o país deve assumir e sua obrigação de ajudar no andamento das negociações.
A única forma de proporcionar o financiamento necessário para os países mais vulneráveis, respeitando-se o princípio de responsabilidade comum, porém diferenciada, é o Brasil também participar ativamente do debate.
Por fim, o governo brasileiro precisa aproveitar o seu peso político para alavancar em Cancún a criação de um fundo climático público, efetivo e legítimo. Historicamente, o Brasil tem sido ator-chave para as negociações climáticas. As delegações estrangeiras regularmente recordam as “propostas brasileiras” que marcaram as conversações na década de 1990, bem como a criação do atual Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL, ainda que imperfeito).
Foi também um brasileiro quem presidiu as negociações climáticas da ONU durante anos pavimentando o caminho para a COP-15, realizada em 2009. Assegurar ganhos reais este ano em Cancún nessas três frentes apresentadas aqui contribuirá para consolidar a posição de liderança global do Brasil.
Pode também demonstrar o seu comprometimento em promover a justiça social internacionalmente – a começar pelos seus vizinhos na América Latina e Caribe, que são cada vez mais afetados por impactos do clima e que precisam de novos recursos para superá-los. (EcoDebate)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Amazônia perdeu 6.450 km2 de floresta

Desmatamento: Entre agosto de 2009 e julho de 2010, a Amazônia perdeu 6.450 km2 de floresta.
Desmatamento na Amazônia cai 14% e alcança menor taxa em 22 anos – Entre agosto de 2009 e julho de 2010, a Amazônia perdeu 6.450 quilômetros quadrados (km²) de floresta. É a menor taxa anual de desmate registrada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), desde o início do levantamento, em 1988.
A área desmatada equivale ao tamanho do Distrito Federal ou a quatro vezes o da cidade de São Paulo. O número foi divulgado em 01/12/10pelo diretor do INPE, Gilberto Câmara, e representa uma queda de 14% em relação ao ano passado, quando o desmatamento atingiu 7,6 mil km² da Amazônia Legal.
“É um número auspicioso, é uma redução de 14% em relação ao ano anterior, que já teve uma redução significativa”, avaliou Câmara.
A taxa é calculada pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes), que utiliza satélites para observação das áreas que sofreram desmatamento total, o chamando corte raso.
O desmatamento anual ficou acima do esperado pelo governo, que projetava uma taxa de 5 mil km².
Segundo Câmara, o INPE registrou redução significativa do desmatamento nos três estados que tradicionalmente lideram o ranking de derrubadas: Mato Grosso, Pará e Rondônia.
Com a taxa de anual de 6 mil km², o Brasil se aproxima da meta de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80% até 2020. Pelo cronograma, assumido em compromisso internacional, daqui a dez anos, o país chegará a uma taxa anual de 3,5 mil km² de desmate. O governo já cogita antecipar o cumprimento da meta para 2016.
De acordo com o INPE, a margem de erro da estimativa anual de desmatamento é de 10%, ou seja, pode resultar em uma variação de 645 km² para ou mais ou para menos quando os dados forem consolidados.
Desmatamento na Amazônia avança nas pequenas áreas
Mais de 80% dos 6.451 quilômetros quadrados (km²) de desmatamento verificados na Amazônia entre agosto de 2009 e julho de 2010 estavam em pequenas áreas, de acordo com números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje (1°).
O perfil da devastação mudou nos últimos anos. As operações de fiscalização e a restrição de crédito aos agressores da floresta conseguiram frear o desmate em grandes extensões de terra, mas o ritmo da derrubada avança em pequenas áreas, os chamados puxadinhos.
Em 2002, o desmatamento de áreas com menos de 25 hectares representava apenas um terço da taxa anual. Segundo o diretor do INPE, Gilberto Câmara, “temos uma expansão dos pequenos desmates, que vai necessitar de investimentos específicos”.
A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que as políticas de controle e fiscalização do desmatamento na Amazônia serão direcionadas para esse novo perfil. “O dado de hoje mostra que a tendência de grandes desmatamentos está estabilizada. O grande desafio será monitorar e avançar em torno dos pequenos, o desmatamento puxadinho”.
Além da fiscalização e do controle, as novas estratégias de combate ao desmatamento devem priorizar ações de regularização fundiária, ampliação de áreas protegidas e criação de alternativas econômicas para as populações que vivem de atividades ligadas ao desmatamento.
A taxa anual de desmatamento divulgada hoje foi a menor desde 1988, quando o INPE começou o monitoramento. Em relação a 2009, a queda foi de 14%. Os satélites registraram redução em quase todos os estados da Amazônia. Apenas no Acre e no Amazonas o ritmo de desmate cresceu de um ano para o outro. (EcoDebate)

Mata Atlântica perdeu 75% da cobertura original

Desmatamento: Mata Atlântica já perdeu 75% da cobertura original
O Ministério do Meio Ambiente divulgou ontem (1°) um levantamento do desmatamento da Mata Atlântica entre 2002 e 2008. Nesse período, a floresta perdeu 2.742 quilômetros quadrados (km²) de área nativa, uma média de 457 km² anuais de derrubadas.
No total, a Mata Atlântica já perdeu 75,88% de sua área original e é o bioma mais devastado do país.
Entre 2002 e 2008, o estado que mais desmatou o bioma foi Minas Gerais, com 909 km² a menos de mata nativa no período. Em seguida, aparecem o Paraná, com 542 km² de desmate, e a Bahia, com 426 km².
Entre os municípios que mais desmataram o bioma no período, estão cidades de regiões conhecidas pela exploração de madeira para abastecer fornos da indústria siderúrgica, principalmente em Minas Gerais e na Bahia.
A Mata Atlântica era o único bioma que ainda não tinha dados atualizados da devastação. Em 2011, o governo pretende divulgar taxas do desmatamento do Cerrado, Caatinga, Pampa e Mata Atlântica em 2008 e 2009. Atualmente, o monitoramento anual só é feito na Amazônia.
“A partir desses dados temos condições de mudar o patamar de políticas públicas de conservação da região”, disse a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.
Apesar do grande percentual devastado, o ritmo de derrubada na Mata Atlântica é menor que nos outros biomas. Por ano, a floresta nativa do litoral perde 0,04% de vegetação. Na Amazônia, esse percentual é de 0,42% por ano e no Cerrado chega a 0,69%. (EcoDebate)

80% do desmate concentram-se em pequenas áreas

Com 80% do desmate concentrado em áreas menores que 0,5 km2 e fora do alcance dos satélites de monitoramento rápido, a devastação da floresta amazônica mudou de padrão e somou 6.451 km2 entre agosto de 2009 e julho de 2010, informou ontem o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
O corte pulveriza do da floresta é explicado pelo diretor do INPE, Gilberto Câmara, como uma forma de driblar a fiscalização. 'É picaretagem, uma tentativa de fugir dos satélites', disse, anunciando que o instituto ampliará o foco dos satélites para captar em tempo real os desmatamentos em áreas menores que 0,5 km2. Em 2002, elas representavam 35% do total do desmate na Amazônia.
Em 2010, o peso dessas áreas mais do que dobrou e atingiu 80% do total. E não foi registrado o abate de áreas com mais de 10 km2, que representavam 10% do desmate em 2002. Os números do desmatamento foram anunciados ontem em solenidade no Palácio do Planalto. É a menor taxa desde o início da série histórica, em 1988, e um segundo recorde consecutivo.
A queda, em relação ao ano passado, foi de 13,6%. O porcentual, porém, ficou aquém da expectativa do governo. A queda no ritmo das motosserras na Amazônia é o maior trunfo brasileiro nas negociações do combate ao aquecimento global.
'Vou a Cancun com o cumprimento antecipado da meta prevista para 2016', comemorou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, referindo-se à Conferência do Clima, no México.
No discurso, a ministra repetiu várias vezes o bordão do presidente Lula 'nunca antes na história deste País' para destacar o ineditismo do feito.
Dados preliminares do desmatamento após julho mostram, no entanto, que o combate ao desmatamento na Amazônia ainda representa um desafio. “Fica cada vez mais difícil diminuir o ritmo do desmatamento”, disse o presidente do INPE.
O compromisso do governo é reduzir o desmatamento a 3,9 Km 2 em 2020. Isso representa 80% da média da devastação entre 1995 e 2006. (OESP)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cidades despreocupadas com o clima

'Cidades despreocupadas com o clima perderão o jogo econômico no futuro'
Ahmed Aboutaleb, prefeito da cidade de Roterdã, visita São Paulo e recebe convite de Gilberto Kassab para participar do próximo encontro do C40.
O prefeito da cidade de Roterdã, na Holanda, Ahmed Aboutaleb visitou São Paulo na semana passada. Roterdã é a segunda maior cidade holandesa e abriga o maior porto da Europa. Gilberto Kassab convidou Aboutaleb para o próximo encontro do C40 - cúpula que reúne administradores das principais cidades do mundo para discutir questões climáticas. O evento será realizado na capital paulista no próximo semestre. O prefeito holandês de origem marroquina falou ao Estado sobre o encontro em São Paulo e sobre a conferência de Cancún.
O que é o C40?
O C40 é uma importante iniciativa financiada pelo ex-presidente americano Bill Clinton. Para combater as mudanças climáticas, ele reúne várias cidades. Cerca de 50% das pessoas no mundo vivem na zona urbana e o número deve crescer em um futuro próximo. O C40 acelera o modo como as cidades fazem políticas sobre o clima. No ano passado, houve uma grande expectativa relacionada a um acordo mundial na conferência do clima em Copenhague. Ele não se concretizou. Mas muitas coisas estão acontecendo nas cidades. Elas sentem necessidade de atuar, não só por razões de saúde pública. Realmente acredito que as grandes cidades que não agarrarem as oportunidades de desenvolvimento tecnológico trazidas pelas mudanças climáticas vão perder o jogo econômico em longo prazo. Não estamos falando só de clima, saúde ou ar puro: também é uma questão de economia, renda e emprego.
Há resultados tangíveis das reuniões anteriores do C40 em Londres (2003), Nova Iorque (2005) e Seul (2009)?
Mais do que ações concretas, as reuniões geram comprometimento. Cito como exemplo a minha cidade. Temos o compromisso de atuar em várias frentes. Estamos desenvolvendo tecnologia para reunir as emissões de centrais de energia e fábricas químicas, transportá-las por tubulações para armazená-las em velhos campos de óleo no Mar do Norte. Contamos com financiamento da União Europeia e do governo central holandês. Além disso, geramos mais de 350 megawatts de eletricidade por moinhos de vento, o que corresponde a 50% do consumo da cidade. E estamos investindo o máximo dinheiro possível - com o apoio do governo central - para fazer com que toda a energia consumida venha de matriz eólica. Temos também fábricas que produzem mais calor do que precisam. Este excedente é usado para aquecer água que é transportada para a cidade e usada no aquecimento das residências, economizando gás e eletricidade. Também canalizamos o gás carbônico produzido nas fábricas para ser usado em lavouras dentro de estufas, onde é utilizado pelas plantas na fotossíntese. Trocamos a iluminação pública por leds que são mais eficientes. Enfim, há várias iniciativas. Clinton calculou que ao investir um bilhão de dólares construindo uma termoelétrica tradicional a carvão, 800 postos de trabalho são criados. Ao investir a mesma quantia reformando prédios para torná-los mais eficientes do ponto de vista do consumo de energia, você gera seis mil postos de trabalho. É uma diferença enorme.
Quais são as expectativas para o próximo encontro do C40 em São Paulo?
São grandes. Os desafios variam de país para país. Nós, por exemplo, não temos carros a etanol como alternativa para mitigar as emissões. Quero conhecer estratégias usadas em outros lugares do mundo. Entendo perfeitamente os problemas enfrentados por países como China, Índia e Brasil: necessitam crescer para alimentar suas populações e é impossível fazer isso sem aumentar as emissões. Mas convém investir parte dos ganhos com o crescimento econômico no combate ao aquecimento. Um cientista holandês nos anos 90 argumentava que deveríamos utilizar 10% do crescimento econômico nacional para aprimorar a tecnologia relacionada às questões climáticas. Devemos investir em fontes alternativas de energia, como a solar, a eólica e a água... muitos esforços devem ser feitos.
Quais são suas expectativas para Cancún?
O mundo deve agir. Será muito frustrante se Cancún, depois de Copenhague, não trouxer resultados práticos. As grandes economias devem trabalhar juntas para chegar a um consenso. Se não, será uma vergonha para o mundo. É algo que tem a ver com liderança e responsabilidade. E liderança é responsabilidade. Mas sou realista o suficiente para saber que as prioridades são diferentes para cada um. Os interesses também. Não me considero um pessimista, mas já ficaria muito contente se chegassem a um acordo. (OESP)

O aquecimento mexicano

Se tudo correr bem, estarei na cidade resort de Cancún, no México, quando você receber estas mal traçadas. Vou a trabalho. Juro.
Lá acontece, neste momento, a COP-16, uma enorme reunião das Nações Unidas cuja finalidade é... salvar a humanidade. Participam todos os países. O objetivo é elaborar um acordo para que se diminuam as emissões de gases de efeito estufa, a ponto de estabilizar a temperatura média da Terra em dois graus ou menos. Um aumento de mais de dois graus é considerado perigoso, quiçá trágico, por milhares de cientistas ao redor do globo. Corremos o risco de enfrentar secas e chuvas descontroladas, de perder florestas e recifes de corais. O nível do mar pode subir. O gelo vai acabar, ou pelo menos ficar mais caro. Um grau já foi. Já faz mais calor no planeta. Vai levar um bom tempo para o clima esfriar de novo.
Se você for um leitor assíduo, pode protestar: "Uai, o Shirts não acaba de voltar de um encontro da ONU no Japão com essa mesma meta? Ele não foi ao dentista por lá?"
Sim, é verdade. Fui à COP-10, no Japão, mas essa é dedicada à preservação da diversidade biológica. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como diz o meu amigo Marcão Sismotto.
O número 16, de Cancún, indica que esta é a 16.ª reunião no gênero. A anterior, a 15.ª, você deve lembrar, foi em Copenhague, na Dinamarca. Lá estiveram Dilma, Lula, Serra, Marina, Gilberto Gil, sem falar da Hilary e do Obama, entre centenas de outras autoridades. Este ano acharam melhor fazer o encontro sobre o aquecimento global em um lugar quente. Para mim, faz sentido.
Na trilha da diversidade biológica foram feitas já dez grande reuniões mundiais da ONU. A última foi em Nagoya, no Japão, a COP-10. Tudo isso, tanto as reuniões do clima quanto as da biodiversidade, começou, acredite se quiser, no Brasil, em 1992, no Rio-92, conhecido no resto do mundo como Eco-92. Foi lá, na ocasião, que a portuguesa Tereza Heinz, dona do império de ketchup, conheceu o senador John Kerry, futuro candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos (2004). Tomaram umas caipirinhas, imagino, e, bem, o resto é história. Mas este é apenas um detalhe, para não chamá-lo de digressão.
Você pode perguntar, e não sem razão: se já fizeram tantas reuniões, por que ainda não resolveram o problema?
Não é fácil, convenhamos. O aquecimento global é provocado pela queima de combustíveis fósseis (carvão, gasolina, óleo diesel), pelo desmatamento, pelos arrotos dos bois (sério), por quase tudo que o homem vem fazendo desde o início da revolução industrial no começo do século 19. A industrialização trouxe uma riqueza nunca antes vista na história da humanidade. Graças a ela, pessoas comuns puderam se livrar de uma busca diária pela subsistência. A saúde da humanidade melhorou. As pessoas vivem mais. Sem a revolução industrial não existiriam televisão, jornal diário, revistas - e videogame, nem pensar.
Mas a revolução industrial trouxe, também, um aumento monumental de população. Levamos milhares de séculos para chegar à marca de 1 bilhão de pessoas, em 1800. Em 2011, no ano que vem, 211 anos depois apenas, segundo a próxima edição da revista National Geographic Brasil, a população mundial vai superar 7 bilhões de habitantes.
Todos nós geramos gases de efeito estufa. O acúmulo deles forma uma espécie de grande cobertor em torno da Terra. De um modo geral, os ricos emitem mais do que os pobres. Mas se antes eram tão somente as regiões mais avançadas - EUA, Europa, Japão - as responsáveis pelo aquecimento global, hoje China, Índia, Indonésia, Rússia e mesmo o Brasil contribuem para o problema na mesma medida ou quase.
Não quero trazer más notícias logo cedo na segunda-feira. Mas a verdade é que não vai ser fácil resolver a situação, que é crítica. Nos Estados Unidos, o ministro de Energia e ganhador do Prêmio Nobel de Física, Steven Chu, comparou este momento ao do lançamento do Sputnik em 1957, em meio à Guerra Fria. Foi esse desafio que levou os Estados Unidos a colocarem um homem na Lua.
Zerar o aquecimento global é mais difícil do que viajar no espaço. Exige que todos os países do mundo desenvolvidos e em desenvolvimento façam a transição para um novo modelo econômico, conhecido como a economia de baixo carbono, movido a energia limpa (vale etanol de cana). Foram feitos avanços significativos na preservação da diversidade biológica na COP-10, em Nagoya, liderados pela ministra Izabella Teixeira, do Brasil. Vamos torcer para que aconteça o mesmo com o aquecimento global em Cancún. As duas trilhas, a da biodiversidade e a do clima, vão se cruzar, ainda, no Rio +20, outro grande evento da ONU, este de desenvolvimento sustentável, marcado para maio de 2012 no Rio. Não seria bacana se se festejasse, na Cidade Maravilhosa, o cumprimento de pelo menos uma etapa do que se começou a fazer 20 anos atrás? Qual será o romance que vai começar desta vez?
(Matthew Shirts - matthew.shirts@estadao.com.br) (OESP)

Desafios Imediatos das Mudanças Climáticas

COP-16, Desafios Imediatos das Mudanças Climáticas - Manifesto do Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social
Diante das múltiplas e graves manifestações das mudanças climáticas que atingem a Terra e as populações, diante da Conferência Climática que haverá em Cancun, México, o Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social, reunindo organizações sociais e populares parceiras de Misereor no Brasil, com o apoio da CNBB, vê-se na obrigação de fazer algumas reflexões sobre questões extremamente importantes nesse momento.
Primeiro, é com extrema preocupação que acompanhamos a possível votação das modificações no Código Florestal Brasileiro pelo Congresso. Qualquer iniciativa de facilitar a derrubada de mais cobertura vegetal no Brasil e que promova a impunidade dos crimes ambientais cometidos, nos parece como um absurdo contrassenso. Enquanto o planeta pede mais cobertura vegetal para manter as condições de vida, o Brasil, através da flexibilização do Código Florestal, pode abrir possibilidades legais para um maior desmatamento, com conseqüências ambientais, sociais e econômicas imprevisíveis. Além disso, demonstrará um vazio imenso nos compromissos anunciados ao mundo em relação à redução da emissão de gases de efeito estufa pelo Brasil.
Outra preocupação é com o momento político que atravessamos, sobretudo a transição para um novo governo. Embora se fale em continuidade com o anterior, é do conhecimento comum que os problemas socioambientais brasileiros estão vinculados diretamente ao modelo de desenvolvimento adotado, baseado no agronegócio, na exploração mineral, na construção de grandes obras de infra-estrutura, que provocam intensos impactos ambientais e sociais. Entre esses impactos está uma maior emissão de gases provocadores do efeito estufa, pela derrubada e queima de florestas, maior consumo de energias fósseis, construção de lagos artificiais para produção de energia elétrica, maior uso de insumos agrícolas e a criação de gado.
Este modelo de desenvolvimento concentrador não leva em consideração as necessidades e a vida diversa do povo brasileiro, nem os recursos naturais e ainda ameaça a vida presente e futura, principalmente das populações mais vulneráveis, mas, em longo prazo, de todos os brasileiros e demais populações do planeta.
Nesse sentido, o Fórum alerta ao governo brasileiro, sobretudo ao Legislativo, sobre a necessidade de toda precaução em qualquer mudança em nossas leis. Sugerimos inclusive um posicionamento do nosso governo quanto ao encaminhamento de propostas mais consistentes e adequadas à vida do planeta e das gerações futuras. Convocamos a sociedade civil, particularmente os movimentos sociais, para perceberem e se posicionarem na gravidade desse momento.
O que está em jogo é o presente do país e a vida das futuras gerações. (EcoDebate)

COP-16: O que fazer em Cancun?

O mundo inteiro irá a Cancun. Mais uma vez reúne-se para discutir o “aquecimento global”. Enquanto discutimos, há várias décadas, os gases de efeito estufa continuam aumentando na atmosfera.
Hoje, a concentração de CO2 na atmosfera está ao redor de 386 ppm, isto é, de cada milhão de outras partículas, 386 são de CO2. Antes da revolução industrial estava ao redor de 288 ppm. Resultado, a temperatura média da Terra que era de 14,5º C, hoje já passa de 15º C. Parece pouco, mas já é suficiente para causar as tragédias ambientais que temos assistido. Cada grau a mais trará transtornos inimagináveis.
Aumentou também o metano (CH4), que está em menor porcentagem na atmosfera, mas tem um potencial de aquecimento 21 vezes maior que o CO2.
Aumentou ainda o N2O, ou óxido nitroso, produzido pela agricultura envenenada, também causador do efeito estufa.
Na prática esses dados indicam o total fracasso dos mecanismos de mercado para controlar as emissões de gases. Teríamos que ter outras razões, outras práticas, como a diminuição de uso dos combustíveis fósseis, diminuir a queima e derrubada das florestas – ao contrário, reflorestar -, diminuir a patada ecológica da pecuária e da agricultura sobre a Terra.
Entretanto, basta ver a filosofia desenvolvimentista que adota o Brasil, China e Índia, além dos europeus, americanos e outros asiáticos, para sabermos que esse modelo nos leva ao abismo. As multidões, embriagadas pelo consumo, não tem distancia crítica para vincular a depredação da Terra à sociedade do desperdício. Enquanto tal, a fome a e a sede aumentaram em todo o planeta, embora tenham diminuído em alguns lugares, caso do Brasil.
Portanto, embora respeite a boa vontade de muita gente, além do passeio, não há muito que fazer em Cancun. Espero muito mais da sabedoria das populações tradicionais, de sua resiliência, da ecologia dos pobres, daqueles que estão dispostos a construir a “sociedade do bem viver”. Mas, tudo indica, ela não virá sem muita dor e sofrimento.
Espero também que a misericórdia da Terra para com o ser humano seja maior do que a do ser humano para com a Terra. (EcoDebate)