sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Afundado no Mar - A elevação do nível do Mar ameaça povos do Terceiro e o Primeiro Mundo

Os líderes de Tuvalu, uma minúscula ilha-nação no Oceano Pacífico, a meio caminho entre Havaí e Austrália, reconheceram a derrota em sua batalha contra o mar invasor e anunciaram que abandonarão seu país. A Nova Zelândia concordou em aceitar todos os 11 mil cidadãos de Tuvalu e a migração começou em 2002. Durante o século 20, o nível do mar subiu 20 a 30 centímetros. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática projeta uma elevação de até 1 metro durante este século. O mar está subindo devido ao derretimento das geleiras e à expansão térmica do oceano em conseqüência da mudança climática. Esta, por sua vez, é causada pelo aumento dos níveis atmosféricos de gás carbônico (CO2), principalmente pela queima de combustíveis fósseis. ILHAS-NAÇÕES AMEAÇADAS Enquanto o nível do mar sobe, Tuvalu sofre inundações nas baixadas. A intrusão da água salgada está contaminando sua água potável e prejudicando a produção de alimentos. A erosão costeira está corroendo as nove ilhas que compõem o país. As temperaturas mais altas que elevam o nível do mar também provocam tempestades mais destrutivas. O aumento da temperatura nas águas superficiais das regiões tropicais e subtropicais significa mais energia na atmosfera, movimentando as tempestades. Paani Laupepa, uma autoridade governamental de Tuvalu, divulgou a ocorrência, fora do comum, de uma quantidade extremamente alta de ciclones tropicais durante a última década (ciclones tropicais são chamados de furacões no Oceano Atlântico). Laupepa é um crítico mordaz dos Estados Unidos por terem abandonado o Protocolo de Kyoto, o acordo internacional para redução das emissões de carbono. Ele falou a um repórter da BBC que "ao recusarem assinar o Protocolo, os Estados Unidos retiraram efetivamente das nossas gerações futuras a liberdade fundamental de viverem onde nossos ancestrais sempre viveram, durante milhares de anos". Para líderes de ilhas-nações, este não é um problema novo. Em outubro de 1987, Maumoon Abdul Gayoom, presidente das Maldivas, alertou, num fervoroso discurso perante a Assembléia Geral das Nações Unidas, que seu país estava ameaçado pela elevação do nível do mar. Em suas palavras, seu país de 311 mil habitantes era "uma nação em perigo". Com a maioria das suas 1.196 ilhas minúsculas somente 2 metros acima do nível do mar, a sobrevivência das Maldivas estaria em perigo, mesmo com um aumento de apenas 1 metro, em decorrência de uma ressaca. Tuvalu é o primeiro país onde a população está sendo forçada a evacuar devido à elevação do mar, porém certamente não será o último. Eles estão procurando casa para 11 mil pessoas. Mas, o que dizer a respeito das 311 mil pessoas que poderão ser forçadas a deixar as Maldivas? Quem as aceitará? Ou os outros milhões que vivem em países baixos e que em breve poderão se juntar à fileira de refugiados do clima? Sentindo-se ameaçadas pela mudança climática que não podem controlar, as ilhas-nações organizaram uma Aliança de Pequenas Ilhas-Nações, um grupo formado em 1990 especificamente para realizar lobby em defesa destes países vulneráveis à mudança climática. PAÍSES COSTEIROS Além das ilhas-nações, países costeiros baixos também estão ameaçados pela elevação do nível do mar. Em 2000, o Banco Mundial publicou um mapa demonstrando que um aumento de 1 metro no nível do mar inundaria metade dos arrozais de Bangladesh. Com a previsão de um aumento de até 1 metro para este século, a população de Bangladesh seria forçada a migrar, não em milhares e sim em milhões. Para um país de 134 milhões de habitantes, já figurando entre os países de maior densidade populacional do mundo, a experiência seria traumática. Para onde iriam esses refugiados climáticos? O cultivo do arroz em baixadas ribeirinhas em outros países asiáticos também seria afetado, incluindo a Índia, Tailândia, Vietnã, Indonésia e China. Uma elevação de 1 metro no nível do mar colocaria mais de um terço de Xangai submersa. Na China como um todo, 70 milhões de pessoas estariam vulneráveis a 100 anos de ressacas. O efeito do aumento do nível do mar mais fácil de ser medido é a inundação de áreas costeiras. Donald F. Boesch, do Centro de Ciências Ambientais da Universidade de Maryland, EUA, calcula que, para cada milímetro de elevação, a faixa litorânea regride, em média, 1,5 metro. Assim, caso o nível do mar se eleve em 1 metro, o litoral recuará 1.500 metros. Com tamanha elevação, os Estados Unidos perderiam 36 mil km² de terra com a perda maior nos Estados do Atlântico e do Golfo. Grandes áreas de Manhattan e o Capitólio em Washington, D.C., seriam inundados pela água do mar, com 50 anos de ressacas. Uma equipe do Woods Hole Oceanographic Institute calculou a perda de terra em Massachusetts pela elevação do mar, à medida que o aquecimento avança. Utilizando as modestas projeções de elevação do nível do mar até 2025, da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a equipe calculou que Massachusetts perderia 7.500 a 10 mil acres (3.035 a 4.047 hectares) de terra. Com base apenas na estimativa menor e num valor nominal da terra de US$ 1 milhão por acre para terrenos frontais ao oceano, isso significará uma perda de, no mínimo, US$ 7,5 bilhões em propriedades de alto valor. Algumas das 72 comunidades costeiras incluídas no estudo perderiam muito mais terras do que outras. Nantucket poderia perder mais de 6 acres e Falmouth, 3,8 acres, anualmente. EUA X MUNDO Os valores imobiliários costeiros, provavelmente, serão um dos primeiros indicadores econômicos a refletirem a elevação do nível do mar. Aqueles com grandes investimentos em propriedades de praia serão os mais afetados. Uma elevação de meio metro nos Estados Unidos causaria perdas entre US$ 20 bilhões e US$ 150 bilhões. Propriedades de praia, da mesma forma que usinas nucleares, estão se tornando impossíveis de serem asseguradas, como muitos proprietários na Flórida já descobriram. Muitos países em desenvolvimento, que já lidam com crescimento populacional e competição intensa por espaço para moradia e cultivo, hoje, se defrontam com a perspectiva do aumento do nível do mar e perdas substanciais de terra. Alguns dos países mais diretamente afetados foram os menos responsáveis pelo acúmulo do CO2 atmosférico, causador desse problema. Enquanto os americanos enfrentam perdas de propriedades valiosas à beira da praia, os povos de ilhas baixas se defrontam com algo muito mais grave: a perda da sua nacionalidade. Eles estão aterrorizados com a política energética dos Estados Unidos, considerando os EUA uma nação, indiferente à sua adversidade e sem disposição de cooperar com a comunidade internacional para a implementação do Protocolo de Kyoto. Pela primeira vez, desde o início da civilização, o nível do mar começou a se elevar numa escala mensurável. Tornou-se um indicador a ser observado, uma tendência que poderá forçar migrações humanas de dimensões inimagináveis. Também suscita questões, jamais enfrentadas pela humanidade, sobre a responsabilidade perante outras nações e as futuras gerações.

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