quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Reduzir emissões ou mudar a vida?

Rosto tenso, aparência de extremo cansaço, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, começou sua entrevista final em Copenhague dizendo ter consciência da profunda decepção dos participantes com o “fracasso da COP 15″. Mas pediu que entendessem que “o desafio do nosso tempo” não é apenas chegar a regras para reduzir emissões, mas tem que ver com formatos de “mudar o mundo, nossas formas de viver”. Ficava subentendido que, se já há obstáculos quase intransponíveis para fixar regras globais para baixar as emissões, incrustados nas lógicas financeiras de países ricos e pobres, governos, setores econômicos, empresas e até pessoas (tenho de dividir minha renda, trocar de carro, reformar minha casa para consumir menos energia, tornar-me vegetariano, etc.?), que dirá definir um novo modo de viver em qualquer parte e que nos leve a superar essa crise do padrão civilizatório com seus caminhos incompatíveis com a capacidade do planeta? Um modo de viver que, no dizer do famoso biólogo Paul Ehrlich, nos leve a respeitar os direitos de qualquer ser vivo? Talvez por isso tudo Ban Ki-moon terminou afirmando que “é hora de compromisso, de coragem”. Neste momento em que cada país atira sobre outros a culpa pelo “fracasso”, é inevitável que venha à memória a Cúpula do Desenvolvimento de 2002, em Johannesburgo, quando a evidência dos impasses já era muito forte e, em eventos paralelos, se discutiu a possibilidade de criar caminhos alternativos, já que nas conferências da ONU é indispensável, para qualquer decisão, o consenso entre quase 200 países com interesses contraditórios. Uma militante ambientalista sugeriu que seria indispensável “tomar o poder na Organização Mundial do Comércio”, a seu ver o foro onde se decidiam os destinos do mundo. Já uma alta autoridade no âmbito internacional propôs a criação de uma organização mundial de meio ambiente, separada da ONU e de suas regras “paralisantes”, como o consenso obrigatório. Mas foi bombardeada pelos que argumentavam levar esse caminho aos mesmos impasses para estabelecer regras válidas em todos os cantos. Para complicar tudo, já estamos atrasados no tempo, como demonstraram em Copenhague o presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e Prêmio Nobel, Rajendra Pashauri, e vários diretores do IPCC, lembrando o aval que dão a seus diagnósticos mais de 90 mil cientistas no mundo todo. Simplesmente transferir as decisões para a COP 16, no México, em dezembro de 2010, apenas contribui para agravar o problema, não para solucioná-lo. Estão diante dos olhos os números crescentes de vítimas dos eventos climáticos “extremos” em toda parte, inclusive no Brasil. Um imenso cartaz num saguão do aeroporto da capital dinamarquesa, colocado por uma ONG, já antecipava 2020, com um presidente Lula de barba e cabelos totalmente brancos se explicando: “Desculpem-me”, estava escrito no papel. “Não conseguimos reduzir as emissões até 2020.” E seguia dizendo que as primeiras vítimas eram dos países-ilha, que não contribuíram para o problema, e das nações pobres, que quase nada emitiram. Na verdade o presidente brasileiro, em seu discurso na COP 15, já se referira a esses países e à necessidade de “pagamento pelo problema” que deve ser atribuído “aos países que emitem há dois séculos” – embora também dissesse que “todos poderíamos ter dado mais” e que “é preciso não pensar em ganhar mais ou perder menos”. E ainda desabafou, ao dizer que só acredita mesmo numa intervenção especial: “Acredito em Deus e em milagre”, afirmou. Nem isso o livrou de críticas dos países-ilha e países pobres, que o condenaram por haver tentado decidir só com o presidente dos EUA e dos países emergentes um texto que seria obrigatório para todos (foi rejeitado). Como não escapou às críticas de adotar só “metas voluntárias”, embora contraditoriamente aprovadas como lei. E à crítica por não haver incluído o cerrado – responsável por cerca de 40% das emissões brasileiras por mudanças no uso da terra, desmatamentos e queimadas – no zoneamento ecológico-econômico que regulará o avanço territorial da cana-de-açúcar – num bioma que o Ministério do Meio Ambiente disse sofrer desmatamento anual de 22 mil km2, depois baixados para 14 mil km2 e que podem ser de 5 mil km2, segundo outro estudo científico. Novas questões virão, como as levantadas pelos cientistas que dizem ter evidências de que seriam maiores que as divulgadas as emissões por desmatamento na Amazônia, já que este agora atinge sobretudo áreas de floresta mais densa, onde há maior concentração de carbono. É impressionante que talvez já sejam mínimas as divergências quanto ao diagnóstico planetário e a urgência de novos caminhos. Até figuras como o ex-ministro Delfim Netto, defensoras durante décadas do desenvolvimento à custa da preservação dos biomas, dizem agora que o Brasil precisa de “um programa de economia de baixo carbono”. O ex-ministro até aponta (Agência Estado, 22/12) mudanças antes tidas como impensáveis por essas figuras no setor de transportes, no petroquímico e em todas as áreas industriais. Mais ainda: afirma o ex-ministro da Fazenda que os novos caminhos não poderão ser atingidos “com a atividade exportadora de produtos agrícolas e de minérios”, porque a agricultura, além dos outros problemas, “vai economizar mão de obra e terra”, enquanto “o desenvolvimento da mineração é poupar mão de obra; é tudo mecanizado”. Seriam, por isso, esses setores incapazes de “dar emprego de qualidade a 150 milhões de cidadãos, para que o País continue crescendo”. E conclui: “É preciso uma nova concepção de crescimento (…) Não é só dinheiro; é ciência básica e ciência experimental.” O avanço é grande. Mas ainda está no terreno do diagnóstico. E “o mundo nos está olhando”, como advertiu Ban Ki-moon. Com muita pressa.

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