domingo, 7 de março de 2010

Sucessão de erros abala IPCC

Sucessão de erros abala credibilidade de órgão global para estudo da mudança climática, que precisa ser reformulado. DIFICILMENTE o IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, órgão criado pela ONU e pela Organização Meteorológica Mundial- sairá incólume da crise de credibilidade que o acossa. Uma sucessão de erros e desvios de conduta de membros do painel vieram à tona. Para um colegiado de base científica, configura-se uma hemorragia de prestígio que poderá levá-lo à morte. Entre as gafes mais espetaculares do IPCC figura o pedido de desculpas, no mês passado, pela inclusão, no relatório de 2007, da previsão de que as geleiras desapareceriam do Himalaia muito provavelmente no ano de 2035. Rajendra Pachauri, presidente do órgão, reconheceu que os padrões claros e bem estabelecidos de evidências apontam que procedimentos do IPCC não foram aplicados apropriadamente. Pouco antes, em Copenhague, gerava polêmica a revelação de uma série de e-mails capturados por hackers dos computadores da Universidade de East Anglia. As mensagens trocadas entre climatólogos britânicos e norte-americanos sugeriam o uso deliberado de artifícios para reforçar a tese do aquecimento global. Agora, por todo lado surgem propostas de reformulação do IPCC. E não são só os céticos do aquecimento global: na última edição do influente periódico Nature, por exemplo, 4 de 5 colaboradores do painel manifestaram-se a favor de mudanças. De fato parece esgotado o modelo surgido há duas décadas. Centenas de pesquisadores participam da produção dos relatórios de avaliação do IPCC, sumários da melhor ciência sobre o clima publicados com intervalos de cerca de seis anos. Os autores são selecionados entre nomes indicados por governos. Com o passar dos anos, produziu-se uma tendência para a uniformidade de pensamento, indesejável num órgão encarregado de fornecer informação científica relevante -mas não prescritiva- para a tomada de decisão. Para alguns críticos também é perceptível um substrato anticapitalista em certas postulações anunciadas pelo painel como verdades científicas. Mesmo que acusações de manipulação e relações problemáticas entre ciência e política não sejam suficientes para conspurcar a maior parte das constatações e previsões dos relatórios, não há dúvida de que uma atmosfera de desconfiança envolverá o que se publicar doravante. Há várias ideias sobre como restaurar a credibilidade. A medida mais urgente seria desvincular o IPCC, ou o órgão que o venha substituir, da influência direta da ONU e dos governos. Não é uma tarefa simples. Cogita-se uma agência com mais autonomia, que teria a incumbência de produzir relatórios mais específicos e frequentes, talvez bienais, sob um regime transparente de revisão por especialistas externos. É um bom ponto de partida para discutir uma nova e necessária fase de avaliação dos efeitos da atividade humana sobre o clima.

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