sábado, 3 de abril de 2010

Lula e Dilma só vêem o que querem no São Francisco

A visita de Lula e Dilma pelas obras da revitalização e da transposição do rio São Francisco confirma as suspeitas sobre as razões político-eleitorais destes projetos. E não é só pelo grande séquito de políticos acompanhantes, entre os quais oito governadores, e o pelotão de jornalistas convidados, entre os quais muitos estrangeiros. Adiada, bem preparada, a visita está sendo chamada de “Coluna” pela imprensa, numa suspeita evocação da “Coluna Prestes” dos anos 30. E não falta repórter que lembre JK em inspeção de obras nos anos 50. Em Pernambuco, a dupla vai dormir em acampamento de peões e sortear casas para famílias desalojadas pelos canais. Mas, ontem em Buritizeiro-MG, um grupo de 50 manifestantes que questionavam as obras teve seus panfletos e faixas apreendidos por órgãos de segurança e só puderam se juntar aos que assistiam ao comício depois de serem fichados. A irritação de Lula era visível diante dos gritos “Lula, que traição, o povo não quer transposição!”. O cancelamento da visita a Pirapora, do outro lado do rio, teve razões que não eram o alegado “excesso de compromissos”: lá está a única estação de tratamento de esgoto concluída na calha do rio, mas o prefeito é do DEM e duas outras obras do PAC estão empacadas… Evidente cada vez mais que Lula quer muito além do que só fazer sua sucessora à difícil Dilma, quer mandar por longo período, o suficiente para se tornar o maior mito político da história do Brasil, país que é a sua cara… Para tanto, o popularíssimo presidente, ex-retirante da seca e grande liderança dos trabalhadores e da esquerda vai “resolver o problema da seca”, um dos nós do país. É quase como mudar a natureza… A vistosa obra da transposição é um “achado” do ponto de vista do marketing e da costura política e econômica. Não só cabala votos, mas encanta as ainda poderosas oligarquias nordestinas e atrai abastados doadores de campanha como as empresas envolvidas na construção e no usufruto do projeto público, poderosas empreiteiras e aquelas não menos do agro e do hidronegócio. Lula está atrás de uma perigosa unanimidade, vende os “benefícios” dela à direita e à esquerda e ao populacho “nunca antes na história deste país” tão deseducado politicamente… O perigo está também em que o mais ou menos sutil cerceamento da liberdade de opinião e manifestação se torne dura repressão. “Pais da Pátria” quase sempre acabam ditadores.

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