quinta-feira, 14 de julho de 2011

O verde contra a ganância

Geoengenharia: o verde contra a ganância na corrida para resfriar o planeta
Críticos temem que a manipulação dos padrões climáticos poderia ter um efeito calamitoso sobre os países mais pobres.
A reportagem é de John Vidal, publicada no sítio do jornal The Guardian, 10-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
O alerta do site Climate Ark de janeiro de 2009 era marcadamente urgente: “Tome uma atitude: Um perigoso navio científico está pronto para realizar uma arriscada fertilização experimental do Oceano Antártico. Provavelmente, essa será a primeira de muitas tentativas, para dar início a prática da geoengenharia da biosfera como uma solução às mudanças climáticas. A carga química pode provocar o surgimento de uma enorme massa de algas grande o suficiente para ser vista do espaço”.
A resposta foi imediata e cáustica: “Vocês, idiotas”, irritou-se uma mulher de uma universidade canadense. “Esse não é um navio perigoso… é um dos melhores grupos de pesquisa marinha do mundo. Vocês não são diferentes dos fanáticos religiosos anticiência. Vocês procuram manter o mundo ignorante. Que vocês se afoguem em suas mentiras…”.
O professor Peter Liss, então presidente do comitê de pesquisa de meio ambiente global da Sociedade Real Britânica e envolvido na pesquisa para ver o efeito do ferro sobre o fitoplâncton, se manifestou: “A intenção é descobrir que papel o ferro desempenha na biogeoquímica marinha. De nenhuma forma é uma tentativa de praticar a geoengenharia do planeta. Só conhecendo os fatos é que você pode argumentar eficazmente contra tais propostas de geoengenharia. Emoção e opinião não vão ganhar a discussão; conhecimento e entendimento sim”.
Há alguma esperança. A geoengenharia – os esforços artificiais para mitigar o aquecimento global por meio da manipulação dos padrões climáticos, dos oceanos, das correntes, dos solos e da atmosfera para reduzir a quantidade de gases do efeito estufa – evoca paixões ideológicas, políticas e financeiras. Para aqueles que mais ou menos desistiram dos debates climáticos da ONU, ela é, junto com a energia nuclear, a única forma planetária prática para evitar uma mudança climática catastrófica. Para outros, é um movimento irresponsável rumo ao desconhecido por parte do mundo rico, que inevitavelmente terá consequências inesperadas, muito provavelmente para os mais pobres.
Mas, como vacilam as tentativas de fazer com que as maiores economias concordem com a redução das emissões por meio da eficiência energética, grupos de cientistas, universidades e empresários estão se unindo, patenteando ideias e pressionando governos e as Nações Unidas para apoiar experiências como o primeiro passo rumo à utilização em grande escala de expansão de um conjunto de tecnologias.
De apenas alguns poucos indivíduos que trabalhavam na área há 20 anos, hoje há centenas de grupos e instituições propondo experimentos. Eles podem ser divididos amplamente em dois campos: os que visam a remover os gases do efeito estufa do ar e armazená-los no subsolo; e outros mais polêmicos, que tentam esfriar a Terra refletindo a luz solar da atmosfera ou do espaço em um processo conhecido como gestão da radiação solar.
Ideias em expansão
A gama de ideias de solução técnica está crescendo a cada mês. Elas incluem a absorção de plâncton, o cultivo de árvores artificiais, o disparo de iodeto de prata nas nuvens para produzir chuva, a engenharia genética de culturas para que sejam mais claras de cor para refletir a luz solar de volta ao espaço, a fertilização do oceano com nano partículas de ferro para aumentar o fitoplâncton, a pulverização de aerossóis baseados em sulfato na estratosfera para desviar a luz solar, a cobertura do deserto com plástico branco para refletir a luz solar e a pintura das cidades e das estradas de branco.
Há propostas sérias para lançar uma frota de navios não tripulados para pulverizar água do mar na atmosfera para engrossar as nuvens e assim refletir mais radiação da Terra. A mais controversa de todas é uma ideia para disparar trilhões de minúsculos espelhos no espaço para formar um “guarda-sol” de 100.000 milhas para a Terra.
A maioria não deve ser levada a sério, mas algumas estão sendo fortemente estimuladas por empreendedores e empresários atraídos pelo potencial de fazer bilhões de dólares em um sistema emergente de créditos de carbono globais da ONU. Uma pesquisa do ETC [Environmental Technology Centre], um observatório com sede no Canadá, mostra que pelo menos 27 patentes foram concedidas a inventores e cessionários, incluindo Bill Gates, Dupont, o governo dos EUA e várias corporações. O engenheiro químico Michael Markels tem quatro patentes. O professor Steven Salter, da Universidade de Edimburgo, e o cientista de mudanças climáticas David Keith têm duas.
“Se a as técnicas de geoengenharia avançarem para a utilização real, a existência de patentes pode significar que as decisões sobre o clima serão efetivamente entregues ao setor privado”, diz Diana Bronson, do ETC.
No que está se moldando para se tornar uma divisão profunda e ideológica ao longo das linhas pró e antinuclear ou das culturas geneticamente modificadas, cientistas, empresas e empresários estão sendo amplamente contestados por grupos ambientalistas e países em desenvolvimento, mas cada vez mais apoiados pelos governos do Reino Unido e dos EUA, assim como por empresários como Richard Branson. E, em um agrupamento novo e estranho, ambientalistas do livre mercado como Mark Lynas, da Grã-Bretanha, Stewart Brand, dos EUA, e Bjorn Lomborg, da Dinamarca, se uniram a políticos e especialistas conservadores de alto perfil dos EUA para dizer que a geoengenharia é um passo em frente.
“A geoengenharia mantém a promessa de responder às preocupações com o aquecimento global por apenas alguns bilhões de dólares por ano”, disse Newt Gingrich, ex-porta-voz da Câmara de Representantes dos EUA, em 2008. “Teríamos uma opção para enfrentar o aquecimento global através da recompensa à inovação científica”.
Salto intelectual
Essas pessoas decidiram que a reengenharia da Terra pela sobrevivência ou pelo lucro é apenas um salto intelectual para longe do que fazemos há séculos e que nos levou a essa bagunça em primeiro lugar – derrubando a maioria das florestas do mundo, convertendo as savanas, desviando e represando rios e espoliando os mares. Sem nenhuma prova de que a humanidade está preparada para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, tornou-se necessário ter um plano B, uma apólice de seguro para a situação de que a Terra atinja um ponto crítico, argumentam.
Mas fazer isso requer experimentos e dinheiro, diz Andrew Lockley, moderador do site do grupo Google sobre geoengenharia que reúne muitos dos principais cientistas do mundo que trabalham em diferentes áreas. Sua própria área é encontrar formas de geoengenharia para capturar metano em larga escala para evitar o derretimento das paisagens das tundras.
Diz Lockley: “Nós só não sabemos se uma catastrófica liberação de metano poderia estar a 50, 100 ou 10.000 anos de distância. Diversos cientistas estão dizendo coisas diferentes Poderíamos estar sonambulando em um desastre climático. O que é necessário é apoiar a academia a fazer mais pesquisas. Precisamos que seja feita uma pesquisa básica sobre quais modelos podem funcionar”.
Mas como a maioria das principais instituições de pesquisa têm medo da reação pública e da hesitação em colocar dinheiro na geoengenharia, isso está sendo deixado nas mãos das empresas e dos empresários bilionários. Bill Gates investiu 400 milhões de dólares em dois projetos e tem seu nome em um grupo de pessoas que detêm a patente para empregar uma frota de navios para suprimir os furacões por meio de vários métodos de mistura de água morna da superfície do oceano com águas mais frias de profundidades maiores. A “sala de guerra ao carbono” de Richard Branson está apoiando as tecnologias de captura e armazenamento de carbono. Nos bastidores, empresas aéreas, de transgênicos e químicas estão investigando cautelosamente o potencial.
A Grã-Bretanha agora lidera o financiamento público mundial fornecendo dinheiro para pesquisa e apoio intelectual para instituições científicas como a Royal Society. Na semana passada, o Engineering and Physical Sciences Research Council, uma agência de financiamento do governo britânico, anunciou mais de 3 milhões de libras para dois projetos de pesquisa em geoengenharia.
O projeto mais polêmico é para um minivulcão artificial para bloquear a luz solar e diminuir as temperaturas. Inspirado na forma como as erupções podem expelir partículas para a estratosfera escurecendo o sol e diminuindo as temperaturas, os cientistas das universidades de Bristol, Cambridge e Reading propõem o lançamento de um sistema de um enorme balão a 20-25 km na estratosfera para pulverizar milhões de partículas de sulfato. O protótipo irá colocar um balão apenas a um quilômetro no céu.
Seu trabalho está sendo espelhado na Califórnia, onde Philip Rasch, cientista-chefe para ciências climáticas do Pacific Northwest National Laboratory, um grupo de pesquisa junto ao Departamento de Energia dos EUA, propôs que frotas de aeronaves pulverizem continuamente toneladas de dióxido de enxofre reflexivo na estratosfera. Os críticos da geoengenharia estão revoltados, dizendo que a difusão da luz solar pode resultar na destruição do ozônio, no reduzido crescimento de plantas, em mais umidade na atmosfera, em menos energia e até mesmo em danos potenciais quando as partículas caírem na Terra.
“Nós simplesmente não sabemos como revogar a tecnologia em escala planetária uma vez que tenha sido lançada. As técnicas que alteram a composição da estratosfera ou a química dos oceanos podem ter consequências inesperadas, assim como impactos desiguais sobre todo o mundo”, diz Pat Mooney, do ETC.
Necessidade da pesquisa
Os cientistas também estão divididos com relação à implantação da geoengenharia em escala planetária, mas estão unidos acerca da necessidade da pesquisa – mas apenas para mostrar que muitos dos esquemas propostos podem ser descartados.
“Eu realmente tenho muito medo de colocar coisas no espaço. Algumas pessoas estão planejando fazer isso, mas é muito mais difícil de verificar o que está acontecendo na estratosfera. Será preciso regular os experimentos. Sabemos muito pouco sobre as consequências secundárias. Falar sobre fazer isso é ingenuidade. Fazer pesquisa é diferente”, diz. “O fato de experimentar não é a mesma coisa que seguir em frente com uma aplicação maior. Você não pode levar essas coisas em consideração até que você tenha feito a pesquisa. Talvez ela não vá mais longe. O primeiro passo não pressupõe um segundo. Caberia aos políticos decidir”.
Mas os tecnólogos estão em estágios muitos diferentes. De acordo com o ETC, existem agora vários grupos, incluindo os pragmatistas, como Branson, Lomborg e o American Enterprise Institute, que argumentam que a geoengenharia é mais rápida e mais barata do que as taxas e as reduções de emissão de carbono, portanto, sigamos em frente. E os teóricos, como a Royal Society e a Carnegie Institution for Science, nos EUA, dizem que devemos ter um plano B de emergência, porque estamos nos dirigindo para uma catástrofe climática certa. Enquanto isso, empresas como a Companhia de Fertilização do Oceano e a Biochar Initiative veem os dólares por trás disso.
No pano de fundo, está a questão militar. De acordo com historiador da ciência norte-americano James Fleming, o controle do clima dá aos militares uma vantagem, e por isso eles procuram “armamentar” toda tecnologia, proporcionando um fluxo de recursos para os cientistas. O arquiteto do Star Wars [sistema de defesa do governo Reagan contra os soviéticos], Lowell Wood, argumentou, na década de 1990, que, gastando cerca de 1 bilhão de dólares por ano, os EUA poderiam colocar partículas suficientes na estratosfera para reduzir a luz solar em cerca de 1%.
“Não é fácil ver como um programa sério de geoengenharia poderia avançar sem algum grau de envolvimento militar”, diz Jeff Goodell, jornalista e autor de How to Cool the Planet [Como esfriar o planeta].
A batalha imediata, porém, está sendo travada na mídia, onde os cientistas estão esperando ser saudados como visionários sociais, e nas instituições científicas e da ONU, onde eles estão buscando suporte intelectual. De acordo com Bronson, “os geoengenheiros têm trabalhado duro para conquistar o sistema dominante científico ocidental e agora estão se dirigindo para o Brasil, Índia e China, porque sabem que a orientação ao norte de tudo até hoje tem sido uma responsabilidade enorme”.
Existe uma consciência crescente de que a geoengenharia não está desaparecendo, acrescenta Bronson. “Muitas ONGs e movimentos sociais na América Latina já começaram a se envolver, e o interesse no Sudeste Asiático e em algumas partes da África está crescendo. Combinado com debates climáticos sem brilho e o aumento das emissões, no entanto, muitos ambientalistas acabam endossando de alguma forma, relutantemente, a agenda por ‘mais pesquisa’. Os povos indígenas e as organizações de agricultores têm se revelado particularmente fortes em sua oposição. Grupos de mulheres também estão começando a se interessar e a se alarmar”.
Acima de tudo, são os governos dos países pobres que poderão se opor a qualquer projeto em escala planetária. Dois anos atrás, todos os países, exceto os EUA, concordaram com uma moratória voluntária “de facto” sobre projetos e experimentos de geoengenharia. Para além da imprevisibilidade da ciência, houve desconfiança de que as soluções tecnológicas para as mudanças climáticas, dirigidas ao Norte e ao Ocidente, seriam justas ou equitativas. Há duas semanas, 160 organizações de todo o mundo enviaram uma carta aberta a Rajendra Pachauri, prêmio Nobel e cátedra do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), depois de ter hospedado um encontro de geoengenheiros em Lima, Peru.
“A geoengenharia é muito perigosa para muitas pessoas e para o planeta para ser deixada nas mãos do pequeno grupo dos chamados especialistas”, alertaram. “O IPCC nos assegurou que vai avançar cuidadosamente nesse trabalho. Estaremos acompanhando o processo de perto”. (EcoDebate)

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