Cabe perguntar se o declínio
demográfico pode funcionar como um “choque de escassez” que acelera inovação e
reorganiza a relação entre economia e ecologia
Existe uma tradição na teoria
econômica que sugere que populações maiores ou em crescimento geram mais ideias
e mais inovações tecnológicas. Assim, populações em crescimento gerariam maior
desenvolvimento econômico, maior produtividade e maior bem-estar social. A
relação seria a seguinte:
• mais pessoas e mais jovens
→ mais potenciais inventores
• maior mercado → maior
retorno esperado da inovação
• mais interações → maior
difusão de conhecimento
Porém, esta relação pode ser
contestada com exemplos simples de países como Nigéria, Paquistão e Etiópia que
possuem elevado crescimento populacional, contam com uma ampla população jovem,
mas não apresentam inovações proporcionais à dinâmica demográfica. A Índia –
nação mais populosa do mundo atualmente – também não apresenta inovações
tecnológicas correspondentes à sua força demográfica.
Mas é interessante examinar o
caso da China e dos Estados Unidos da América (EUA) que são as 2 maiores
potências econômicas do mundo no século XXI.
O gráfico abaixo mostra a
taxa de variação anual da população da China e dos EUA entre 1950 e 2100, com
dados da Divisão de População da ONU. Nota-se que a China tinha uma taxa de
crescimento anual da população bem acima da taxa estadunidense na maior parte
da segunda metade do século XX. Mas esta relação mudou no século XXI e a China
já apresenta taxas de variação negativas a partir de 2022.
A China também já apresenta uma estrutura etária mais envelhecida em 2026, com idade mediana de 41 anos, contra 39 anos para os EUA. As projeções para 2100 indicam uma idade mediana de 45 anos nos EUA e 61 anos na China.
Com este perfil demográfico e considerando que os EUA possuem uma renda per capita muito superior do que o poder de compra médio dos chineses, era de se esperar uma inovação tecnológica muito mais avançada no território norte-americano.
Contudo, a China superou os
EUA em número de pedidos de patentes, segundo dados oficiais de organizações
como a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO). Em 2024, a China
recebeu cerca de 1,8 milhão de pedidos de patente, posição líder mundial,
representando quase 50% de todos os pedidos no mundo. O número é mais de três
vezes maior que os pedidos nos EUA.
Os EUA estão em segundo
lugar, conforme dados do USPTO (Escritório de Patentes e Marcas dos EUA), pois
teve cerca de 603 mil pedidos de patente em 2024, bem abaixo da China. A China
continuou aumentando o número de pedidos de patentes ano após ano (crescimento
de cerca de 9% em 2024 sobre 2023), enquanto o crescimento nos EUA tem sido
muito mais lento.
As patentes concedidas também
refletem liderança chinesa. Em 2024, a China concedeu mais de 1 milhão de
patentes, enquanto os EUA concederam cerca de 320 mil. A China lidera
claramente em quantidade de pedidos e patentes emitidas. Nos EUA, embora haja
menos pedidos, muitos vêm de não residentes (acima de metade) — ou seja,
empresas estrangeiras também depositam patentes lá, algo pode indicar maior
integração global do sistema americano.
A participação da China no
total global cresceu de cerca de 34,6% em 2014 para quase 50% em 2024. Nos EUA,
apesar de ainda ser o segundo maior solicitante, o crescimento tem sido modesto
ou até estagnado em alguns anos.
Patentes são um indicador de
inovação e competitividade tecnológica. Grandes volumes podem indicar
prioridades de política industrial e investimentos fortes em Pesquisa &
Desenvolvimento (P&D). A China usa várias políticas (incluindo incentivos
financeiros e metas nacionais de inovação) que encorajam altas taxas de pedidos
de patentes.
Nos EUA, o foco costuma ser
em qualidade, aplicação internacional e impacto tecnológico, mais do que apenas
volume. O crescimento das patentes na China contribuiu para que, em 2025, o
país entrasse no top 10 do Índice Global de Inovação, substituindo a Alemanha,
graças a pesados investimentos em P&D e patentes internacionais.
No ramo da tecnologia 5G, a
China já ultrapassou os EUA e lidera a disputa.
Mas qual é a relação entre
dinâmica demográfica e inovação tecnológica?
Evidentemente, o que importa
para inovação não é apenas o tamanho ou o crescimento populacional, pois
população não é igual a força de inovação. O caso recente China vs. EUA mostra
que a relação não é mecânica nem automática.
O maior crescimento
demográfico da China ocorreu na década de 1960 – durante a Revolução Cultural –
época em que a economia chinesa retrocedeu em termos econômicos e regrediu em
termos de inovação tecnológica. A partir da década de 1970 a população chinesa
começou a reduzir as taxas de crescimento populacional e iniciou o
decrescimento demográfico a partir de 2022. O processo de inovação científico-tecnológico da economia
chinesa coincidiu com a redução ou a inversão do crescimento populacional.
A China, mesmo com população
em declínio, tem: Investimento em P&D superior a 2,5% do PIB; Forte
política estatal de inovação (Made in China 2025, IA, semicondutores); Grande
massa de engenheiros e cientistas e Incentivos diretos para registro de patentes
e a maior base de engenheiros do mundo.
A China está mostrando que é
possível manter forte dinamismo tecnológico mesmo com início de declínio
populacional. A relação entre população e inovação existe, mas é mediada por
instituições, educação e estratégia tecnológica. População é condição
potencial; política e capital humano são condições efetivas. As altas taxas de
poupança e investimento da China são os principais motores da inovação e do
aumento da produtividade.
Em 2022 escrevi o artigo
“População e avanços científicos e tecnológicos”, aqui no Portal Ecodebate
(Alves, 16/05/2022). De fato, houve uma coincidência entre o alto crescimento
demográfico e as inovações tecnológicas após o início da Revolução Industrial e
Energética.
Porém, o gráfico abaixo mostra
que, se os avanços científicos e tecnológicos foram espetaculares enquanto
crescia o ritmo de aumento demográfico até 1968 (auge das taxas de
crescimento), as conquistas dos últimos 50 anos foram ainda maiores. Todas as
inovações da Internet, Robótica e Inteligência Artificial ocorrem num quadro de
diminuição das taxas de crescimento demográfico global.
Ou seja, se os dois fenômenos caminhavam juntos no passado, o futuro indica que os avanços científicos e tecnológicos devem continuar de forma acelerada, mesmo em um cenário de decrescimento demográfico: a Rússia, por exemplo, já tem uma população em declínio desde a década de 1990 e a China desde 2022, assim como Coreia do Sul, Taiwan, Japão e a maioria dos países europeus.
Ou seja, a diminuição da população pode ser um incentivo inédito ao avanço científico e tecnológico, pois a humanidade vai ter que aumentar a produtividade do trabalho em decorrência da menor proporção de jovens e de pessoas em idade ativa. Os avanços da engenhosidade humana devem ocorrer num quadro de diminuição da presença humana e de aumento da regeneração ecológica.
No passado os inovadores da
Primeira e Segunda Revolução Industrial eram jovens, porque a estrutura etária
dos países era jovem e as inovações dependiam da iniciativa e do
empreendedorismo individual. Mas na estrutura etária e produtiva atual as
inovações são obra de equipes multidisciplinares e multigeracionais, além das
altas taxas de investimento e de empresas altamente capitalizadas.
Por fim, cabe perguntar se o
declínio demográfico pode funcionar como um “choque de escassez” que acelera
inovação e reorganiza a relação entre economia e ecologia.
Há forte base histórica para
a ideia de que escassez induz inovação por meio da restrição da oferta
ilimitada de mão de obra (mecanização na Europa pós-Peste Negra): escassez de
energia (transições energéticas para fontes renováveis) e escassez de terras
(intensificação agrícola).
Num cenário de menos
trabalhadores, o crescimento do PIB só pode vir da produtividade total dos
fatores (PTF) deslocando o modelo de crescimento menos baseado em expansão
quantitativa e mais baseado em sofisticação tecnológica.
A diminuição populacional pode ser um catalisador de inovação se as instituições forem capazes de transformar escassez em investimento produtivo inovador.
China e EUA lado a lado com gráficos e moedas, simbolizando a virada econômica global revelada em 2025.
China supera os EUA e passa a
ser vista como maior potência econômica mundial em 2025. (ecodebate)





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