quarta-feira, 13 de julho de 2011

O Verde e o Tédio

Aquela jogou o filho de 14 dias na caçamba de lixo; a outra deixou o seu morrer de fome. Isto, na mesma semana. Temos o caso Bruno; o caso Mércia; aquele outro, da Vanessa, é mais recente. Há poucos dias, a senhora atropelada e morta por um celerado na festa de casamento do filho.
Junte-se o Oriente Médio fervilhando em guerras intestinas; a boçalidade campeando à solta; o ter superando de longe o ser; a rodagem de um filme sobre o maior picareta brasileiro, enaltecido por entrevistador famoso como “inteligente e vivaz” e fica fácil entendermos nossa queda pela eleição de um passado melhor. Melhor em tudo: com menos drogas; mais família; mais segurança. Estável, tranquilo, apascentado por valores que julgamos ora extintos de nossa sociedade decadente. Uma autêntica Sessão Nostalgia.
Mera ilusão.
O brilhante estudioso da cultura, George Steiner, no seu No Castelo do Barba Azul já assinalava, há 30 anos, esta nossa visão falaz de um passado edênico, em tudo superior a nossa – e então – precária realidade.
Ali, debruçando-se sobre a sociedade europeia do início do século XX, belle époque dos pais da II Guerra, o autor mostra que "a crosta de alta civilidade cobria profundas fissuras de exploração social; a ética sexual burguesa era um verniz, mascarando vasta extensão de turbulenta hipocrisia; a segurança no faubourg e nos parques baseava-se claramente na ameaça, permitida, mas mantida em quarentena, dos cortiços". Reportando-se a obra inda mais completa e que lhe atalhou de fundamento às considerações, as Notes towards the definition of culture, de Elliot, mostra-nos as bases sólidas de suas ponderações.
Esta depauperação dos valores, registra o autor, tem sua raiz primeira e mais profunda no ennui, o tédio tão propalado pelos franceses, traduzido como a perda do sentido da vida, da razão de existir. Crise, bem de dizer, que se arrasta há décadas.
A sacralidade da vida, a sua razão de ser, onde, nas condutas acima descritas?
Onde, importa mais indagar, no cotidiano de todos nós, escravos do deus Sucesso – e relembrando Hollywood, pergunte-se: a qualquer preço?
A questão parece-me, vem a calhar no momento decisivo por que passa a humanidade, este da crise climática.
Não nos iludamos: Gaia, se chegada a catástrofe, ficará; nós que seremos varridos.
Nunca, em toda a história, viu-se a raça humana perante desafio desta magnitude, qual seja, de manter-se, de garantir sua existência.
A temática da fraternidade, do amor ao próximo – e, por que não dizer?, a todas as coisas da Criação – é frequente nos debates humanistas.
Até mesmo a salvação, ou elevação espiritual, está ligada a questão do dar-se, do solidarizar-se. Afinal, o Altíssimo prescinde de nós; nosso irmão no pecado, não.
O que me parece novo, contudo, e emblemático, é que a crise climática traz nova realidade: é mister amar o próximo para nos salvarmos aqui. Não só na transcendência, mas aqui, neste problemático, porém único planeta.
Digam o que disserem os céticos do clima – e é divertido ver a fragilidade de seus argumentos em dados, p.ex., como os relativos aos valores pagos pela Exxon a instituições americanas para combater a teoria do aquecimento (Atlas do Meio Ambiente, Le Monde Diplomatique, pág. 15) – os fatos são claros e eloquentes quanto ao perigo que nos afronta.
E se a emissão entrópica de GEEs é a grande responsável, ela provém de onde senão de nossa sociedade de consumo, de nossos hábitos?
Indo direto ao ponto: provêm de nossas mesquinharias, nossos desejos pequenos, egoístas, vaidosos, arrogantes, amparados por argumentos de vexar uma criança.
Não cabe qualquer dúvida que este é o nó da questão: o modo de vida que elegemos.
Daí, como corolário perguntar: como alterá-lo, como fazer-nos entender que o planeta não comporta mais anseios, desejos de desenvolvimento, de riqueza, totalmente dissociados de seu potencial, de suas possibilidades físicas e finitas?
Como dizer a multidões, a centenas de milhões de emergentes, que a festa sonhada, a festa, meus caros, para vocês…a festa foi cancelada, malgrado todos os preparativos. E em definitivo! Como lidar com a injustiça desta sentença? Como, ademais, entendermos que também para nós o baile acabou?
Como, se, por um lado, há uma pressão insana pelo sucesso, representado pelo ter, pelo acúmulo e ostentação e, por outro, um descaso das alternativas a este modelo como sempre as conhecemos: a religião no seu sentido amplo, a solidariedade, a frugalidade?
Como propor sacrifícios e uma visão mais altruísta da vida se o tédio vem ganhando esta batalha há tanto tempo com folga notável e, pior, de forma solerte, silenciosa, minando nossos sentidos e, dá-lhe!, coonestando este estilo de vida com toda sorte de pequenas, leves, gentis, e nem por isto menos falsas justificativas?
Ter a casa na praia, com churrasqueira, piscina, perto de águas límpidas e areia fofa, ora, por que não?; o carrão 4X4, de quase uma tonelada, embora sejamos só minha mulher e eu, ora, por que não?; a casa espaçosa, com 5 TVs ( fora as da criadagem ), ora, por que não?; comer frutas que viajam milhares de kms de avião, ora, por que não?; tomar banhos longos e reconfortantes, bah!, por que não?
Afinal, estes os troféus, os louros merecidos da vitória, as glórias do sucesso com que almejamos desfilar, pimpões, estapeando a cara alheia – ou outro é o verbo?
À patuléia compete essa de solidariedade, de espiritualidade, de respeito ao espaço alheio, cautela e zelo quanto ao futuro e blá, blá, blá, …
Bobagens, enfim, totalmente sem glamour, destituídas de qualquer charme, vazias de encanto (porquanto simples, evidente). Insossas, isto sim!
Até quando viveremos o domínio do supérfluo, a tirania da fatuidade, a praga da inação, o embotamento do tédio? Até quando?
A resposta pode estar com aquele russo notável, Dostoiévski.
Próximo de ser mandado para o paredão, no dia de seu fuzilamento – que não aconteceu -, vira-se para o companheiro de subversão e também condenado, Spechniev, um enpedernido ateu, e dispara: “Nous serons avec le Christe” (estaremos com Cristo). E tem como resposta: “Un peu poussiére” (um punhado de pó).
Sim amigos, tenho para mim que só á dois tipos de homens: os que creem e os que não creem.
Urge formar com os primeiros. (EcoDebate)

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