quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Fauna costeira e o alerta da poluição do mar

Em defesa da fauna costeira pesquisa alerta para poluição do mar
As aves migratórias sofrem cada vez mais com os níveis de óleo nas águas e com a poluição que aumenta em seus pontos de abrigo.
Há dois meses, ao norte do Rio Grande do Sul, dezenas de maçaricos-de-papo-vermelho foram encontrados mortos nas praias do litoral. Segundo observam os pesquisadores, já se constata uma redução de quase 60% nas populações dessa ave migratória, que todos os anos foge das baixas temperaturas do Ártico, voando até a Patagônia argentina e passando por toda a costa brasileira, onde faz paradas para descansar e alimentar-se. É um animal que, a ritmo acelerado, está caminhando para a extinção. As tartarugas marinhas parecem não ter melhor sorte. A cada ano, sobe o número de quelônios que aparecem mortos ou em péssimas condições de saúde na costa fluminense. Nelas, os biólogos geralmente constatam a presença de plástico no estômago e um grande número de bactérias patogênicas. “Ambos os casos são emblemáticos da alteração drástica e da rápida redução dos ambientes que essas espécies habitam, resultado das mudanças promovidas pelo homem.” Para o biólogo Salvatore Siciliano, da Fundação Oswaldo Cruz, e pesquisador visitante da FAPERJ, “parece que retrocedemos 40 anos”. “As políticas de desenvolvimento a qualquer custo, a exemplo do modelo chinês, têm significado inestimáveis prejuízos ambientais.”
Ao dar continuidade ao projeto, Salvatore e equipe também tem trabalhado em conjunto com Reinaldo Calixto de Campos, professor do Departamento de Química da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, no projeto “Suporte Analítico a Estudos Ambientais, de Saúde e Tecnológicos”. “Eles vêm me encaminhando amostras desses animais coletados para análise no laboratório. Os resultados têm mostrado a presença de contaminantes acima dos níveis naturais esperados, em grande parte das amostras”, fala o professor Reinaldo.
Integrante da equipe de Salvatore na Fiocruz, o doutorando Jailson Fulgencio de Moura – que contou com apoio de bolsa de mestrado da FAPERJ –, é um dos pesquisadores que vêm recolhendo amostras de boto-cinza no litoral fluminense, entre Saquarema, na região dos Lagos, e São Francisco do Itabapoana, no norte fluminense. “Na comparação com exemplares recolhidos no Amapá, nossa expectativa era de que a bacia Amazônica e do Orinoco pudessem estar distribuindo níveis expressivos de mercúrio por aquela área. Mas os resultados mostraram exatamente o contrário: as amostras do Amapá apresentavam níveis bem mais baixos para mercúrio e condições bem melhores do que as fluminenses.”
Segundo Jailson, os níveis bem maiores de metais pesados nos botos recolhidos no Rio de Janeiro podem resultar da atividade de antigos garimpos ao longo do rio Paraíba do Sul, de resíduos de agrotóxicos usados no cultivo de cana, ou mesmo do aporte de efluentes de atividade industrial na baía de Guanabara. “Pelo que pudemos constatar, a grande maioria dos 20 botos coletados, mortos em consequência de captura acidental em rede de pesca, mostrava deformidades ósseas. Só a continuidade dos estudos nos dirá se essas deformidades teriam sido provocadas por contaminantes industriais”, calcula Jailson.
Se para a fauna marinha os prejuízos da atividade humana são visíveis, eles também são perceptíveis para o homem. Um número crescente de casos recentes de lobomicose, no Acre, apontam para o ressurgimento de uma doença que se acreditava quase extinta no país. “Descrita na década de 1930 nos índios da etnia kaiabi, da região central do Xingu, e considerada rara, a lobomicose acomete humanos e também golfinhos. É um tipo de micose severa, que causa verrugas na pele que precisam ser retiradas cirurgicamente. Foram observados doentes no norte do Rio Grande do Sul, no Paraná e no Acre, onde houve dezenas de casos.” Provocada por fungos saprofíticos, presentes tanto no solo quanto na água, a doença, da mesma forma do que nos humanos, também causa anomalias sobre a pele lisa dos golfinhos. “Não se sabe exatamente o que está levando a essa incidência elevada de casos. Uma das hipóteses é que a contaminação de rios e cursos d’água vem progressivamente criando oportunidades para a reermergência de patógenos. E como a globalização do mundo moderno também significa globalização de patógenos, a água de lastro levada pelos navios dissemina espécies invasoras de um lado a outro do planeta, generalizando a contaminação.”
À esquerda, restos de plástico encontrados no estômago de aves e tartarugas. À direita, trecho de praia no Rio Grande do Sul.
Um levantamento bacteriológico em tartarugas e aves marinhas encontradas encalhadas ou arribadas na costa fluminense mostra quase sempre um quadro bastante sério de condições de saúde. “Como são espécies que vivem em águas costeiras – em geral, as que mais recebem todo o tipo de contaminação, seja despejo de esgotos, seja óleo resultante das atividades portuárias –, esses animais sofrem com a drástica transformação dos ambientes em que vivem ou onde se alimentam”, explica o pesquisador. Detalhando o quadro, ele fala que, no caso das tartarugas, muitas vezes elas apresentam obstrução intestinal, provocado pela ingestão de plástico. “Em geral estão com menos de metade de seu peso normal, o que lhes causa grande debilidade, a ponto de haver afundamento do plastrão (casco). Tudo isso cria condições para a proliferação de agentes patogênicos e todo o tipo de infecção. Com isso, o animal para de se alimentar, enfraquece ainda mais e termina morrendo”, diz.
Essa combinação de causas vale também para aves migratórias e baleias, por exemplo. “Os maçaricos usam as áreas de manguezal para se alimentar, mas essas regiões estão desaparecendo com a ocupação humana. Com a redução das áreas de alimentação e o aumento da presença de óleo nas áreas de suas rotas migratórias, essas aves sofrem vários tipos de agressão ambiental. Nos últimos dias, em pleno inverno, grupos da espécie foram avistados em praias do Rio Grande do Sul, o que significa que não estão conseguindo comida suficiente para seguir em frente e enfrentar as condições adversas da migração.” O resultado, aponta Salvatore, é a repetição de casos como o da mortandade recente de grupos dessas aves nas proximidades de Tramandaí, no litoral norte do Rio Grande do Sul.
Salvatore Siciliano e equipe (ao fundo) monitoram praia Rasa, em Cabo Frio (RJ).
“Desde que comecei meus estudos no País, eu e outros pesquisadores temos feito apenas constatações das consequências desse padrão agressivo de desenvolvimento a qualquer preço, que tem sido predominante no País”, critica Salvatore. Segundo afirma, a ocupação humana em zonas costeiras, a implantação de portos, tudo isso tem mudado substancialmente os hábitats de diversas espécies. “O lixão, instalado há décadas em Gramacho, ocupa o que já foi uma área de manguezal. São situações em que não se vêem iniciativas para atenuar ou reverter”, critica Salvatore. Ele exemplifica com a atual construção de Porto Açu, no norte fluminense, na região de São João da Barra, ou a dragagem do canal da Barra do Furado, em Campos dos Goytacazes, na divisa com Quissamã.
“No primeiro caso, serão quase 70 km de restinga que darão lugar às atividades portuárias. Isso significa alterar toda a dinâmica de um ecossistema. Grande parte da diversidade da fauna que vive ali, tanto quanto na lagoa Feia, em Campos, se perderá, ficará sem alimento e abrigo. Dificilmente haverá realocação das espécies para outras áreas”, explica. Salvatore acredita ainda que os 40 km do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba – entre Macaé, Quissamã e Carapebus, e o mais próximo dessas regiões – já estão em sua capacidade limite.
Para contrabalançar, Salvatore acha que se deve estimular iniciativas sérias de preservação, como é o caso das RPPN, ou seja, as reservas particulares do patrimônio natural. “Existem várias dessas reservas ao longo do trecho fluminense da BR 101, no entorno da Reserva Biológica de Poço das Antas. A partir de compromissos contratuais, temos vistos sérios esforços de conservação de áreas de Mata Atlântica em cada uma delas. Iniciativas desse tipo precisam ser multiplicadas.” (EcoDebate)

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