sábado, 17 de dezembro de 2011

Ajuda humanitária agrava a crise de fome

Como a ajuda humanitária agrava a crise de fome na África
Doações podem acabar sufocando iniciativas locais e enfraquecendo governo
Pai chora diante do túmulo de seu filho na Somália; a cada três meses, 1 em 10 crianças morre de fome no país (Mohamed Sheikh Nor / AP)
Um mês depois que a ONU declarou crise de fome na Somália (julho), a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) alerta para a possibilidade desse quadro já catastrófico se agravar ainda mais,  estendendo-se por todas as regiões do sul do país durante o próximo mês e persistindo pelo menos até o fim do ano. A situação emergencial faz parte de um problema maior, que atinge todo o Chifre da África e ameaça 13 milhões de pessoas que vivem na Somália, Djibuti, Etiópia, Uganda e Quênia, além de outros países vizinhos. A região sofre a pior seca dos últimos 60 anos, mas a crise de fome vem se estendendo por décadas. A União Africana (UA) reuniu uma cúpula de colaboradores e acertou medidas conjuntas que possam minimizar as consequências e pensar em estratégias realmente efetivas para impedir que o caso se repita no futuro. "É necessário um esforço contínuo para iniciar uma resposta imediata, global e em grande escala", cobra a FAO. Mas isso só acontece hoje porque, anos a fio, ajuda humanitária foi enviada ao continente de forma volumosa, mas totalmente descoordenada.
Especialistas vêm analisando seriamente a possibilidade de que as doações mais atrapalham do que ajudam a população africana. A ideia pode parecer absurda à primeira vista, afinal, estamos falando de dinheiro enviado a uma sociedade pobre cuja economia deveria ser beneficiada. Porém, a consequência desse auxílio é o sufocamento de pequenas iniciativas de comércio em razão da grande oferta gratuita. Um exemplo bastante ilustrativo é o do empresário americano Jason Sadler que, em 2010, criou uma campanha para arrecadar camisetas que seriam enviadas a crianças na África. Tanto ou mais do que as gigantescas doações, Sadler foi bombardeado por críticos que diziam que essas peças de roupas enviadas ao continente iriam debilitar a competitividade de todos os comerciantes de tecidos e roupas locais. Afinal, quem iria gastar com uma peça que pode ser obtida de graça? Os negócios iriam à falência e, a longo prazo, os filhos desses empresários continuariam sempre dependentes da boa vontade alheia.
Muito além da economia, uma ajuda mal planejada pode fragilizar até a estrutura política desses países, a começar pelo vínculo entre governantes e governados. Um debate recente promovido pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) trouxe esse argumento à mesa: só um governo forte e com planos de desenvolvimento é capaz de tirar sua população da miséria, e o que mantém o povo organizado e pagando impostos é a confiança de que o estado lhe presta um serviço indispensável. Logo, se quem atende às necessidades básicas dos habitantes são nações internacionais, por meio de doações, o governo local se enfraquece internamente e a sociedade deixa de obedecer ao que deveria ser a hierarquia de poder.
Na Somália, esse cenário é ainda pior. O pequeno território do Chifre da África carece de um governo funcional há dez anos. Disputado entre milícias e grupos islâmicos fundamentalistas, como a Al Shabab (aliada da Al Qaeda na Etiópia), esse país tem vivido um vácuo de poder em um ambiente de violência iminente que condena cada vez mais pessoas à miséria e à fome todos os dias. Para o somali naturalizado americano Abdi Ismail Samatar, especialista em questões africanas da Universidade de Minessota (EUA), a influência externa nas disputas locais só piorou a situação nos últimos anos. “As potências ocidentais nem sempre têm escolhido os grupos certos para apoiar na Somália”, argumenta ele. “Como consequência, milícias violentas, como os warlords, mataram e estupraram a população durante anos, recebendo dinheiro de fora.”
Vítima - Sem poder contar com um líder representativo e atuante, e vivendo eternamente à espera de donativos, os africanos acabam incorporando o papel de "eternas vítimas" dos males do mundo e da natureza. “Esse pensamento é alimentado por uma espécie de sentimento de culpa da Europa colonialista e só faz mal aos africanos que se ‘desresponsabilizam’ por seu próprio destino, culpando um ‘malfeitor externo’”, comenta o escritor Mia Couto, ícone da literatura africana de língua portuguesa. “Nós, africanos, precisamos de trocas justas, não de doações”, enfatiza ele, destacando que uma ajuda muito mais eficaz à África é pressionar internacionalmente pelo fim dos subsídios à agricultura em países europeus e nos Estados Unidos. “Esses recursos fazem com que os agricultores africanos fiquem em uma situação de perpétua desvantagem. Com uma capacidade de competição reduzida, eles quebram”, explica.
Abdi Ismail Samatar reforça a opinião do escritor: “A melhor maneira de ajudar os africanos não é alimentá-los, deixando-os dependentes. É, sim, amparar suas economias para que cresçam e possam produzir comida por si próprios”. De acordo com ele, mais do que auxílio financeiro, é necessário “doar” suporte político para que um governo democrático se estabeleça. “É preciso que a comunidade internacional faça um trabalho de inteligência cuidadoso para descobrir quais grupos políticos merecem ser incentivados. E não falo em colocar dinheiro em seus bolsos, mas oferecer apoio institucional a eles”, ressalta. O especialista em questões africanas acrescenta que os cidadãos brasileiros têm um importante papel nessa ação e podem pressionar seus governantes para defender os verdadeiros interesses da África junto ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Contudo, é impossível negar que, neste momento, tudo o que resta à comunidade internacional é enviar ajuda urgente à África. Cerca de 3,2 milhões de pessoas - quase um terço da população da Somália - morrerão se não receberem comida imediatamente. “Nessa situação circunstancial de desespero, não se pode pensar nos mercados”, lembra Mia Couto. Ainda assim, é importante que essas doações sejam combinadas com planos de olho no futuro daquelas pessoas e que esse dinheiro seja usado de maneira mais inteligente, como um investimento real - por exemplo, para a construção de canais de irrigação que ajudem a contornar o problema da seca e no incentivo de iniciativas políticas de organização da sociedade local. Somente dessa forma, os africanos poderão um dia sentir o orgulho de caminhar com as próprias pernas e conquistar por si só seus alimentos. (veja)

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