quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A Antártida está perdendo ou ganhando gelo?

Argumento cético
"A quantidade de gelo ao redor da Antártica está no seu maior nível desde que os satélites começaram a monitorá-lo há quase 30 anos. É simplesmente frio demais para chover na Antártica e isso vai continuar assim por muito tempo. O fato é que há mais gelo do que nunca ao redor da Antártica." (Patrick Michaels)
O que a ciência diz
Enquanto o interior da Antártica Oriental está ganhando gelo continental, a Antártica como um todo está perdendo este gelo continental a uma razão cada vez mais rápida. O gelo oceânico antártico está aumentando apesar de o Oceano Antártico estar se aquecendo intensamente.
É importante distinguir entre o gelo continental e o gelo oceânico antártico, que são dois fenômenos separados. Notícias sobre o gelo antártico muitas vezes deixa de reconhecer esta diferença entre os dois. Para resumir a situação das tendências do gelo na Antártica:
O gelo antártico continental está diminuindo cada vez mais rápido.
O gelo antártico oceânico está aumentando apesar do aquecimento do Oceano Antártico.
O gelo antártico continental está diminuindo
Medir as mudanças no gelo continental antártico tem sido um processo difícil devido à enormidade e complexidade do manto de gelo. Porém, desde 2002 os satélites do Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE) têm sido capazes de cobrir todo o manto de gelo de maneira abrangente. Os satélites medem as mudanças na gravidade para determinar as variações de massa de toda o manto de gelo antártico. Observações iniciais encontraram que a maior parte da perda de massa de gelo nesse continente vem da Antártica Ocidental (Velicogna 2007). Enquanto isso, de 2002 a 2005, a Antártica Oriental esteve aproximadamente em equilíbrio. O gelo ganho no interior é compensado pela perda de gelo nas extremidades. Isso é ilustrado na Figura 1, que contrasta as mudanças de massa de gelo da Antártica Ocidental (vermelho) com a da Oriental (verde):
Figura 1: mudanças na massa de gelo (linhas contínuas com círculos) e a tendência linear (linhas tracejadas) para o manto de gelo da Antártica Ocidental (vermelho) e da Antártica Oriental (verde) para o período de abril de 2002 a agosto de 2005 (Velicogna 2007).
Conforme mais dados do GRACE são disponibilizados, emerge uma compreensão mais clara do manto de gelo Antártico. A Figura 2 mostra a mudança na massa de gelo antártico para o período de abril de 2002 a Fevereiro de 2009 (Velicogna 2009). A linha azul com cruzes mostra os valores mensais, não filtrados. As cruzes azuis estão com a variabilidade sazonal removida.
A linha verde é a tendência linear.
Figura 2: Mudanças na massa de gelo para o manto de gelo antártico de abril de 2002 a fevereiro de 2009. As cruzes azuis são os dados não-filtrados. As cruzes vermelhas são os dados filtrados para excluir a dependência sazonal. A linha verde é a tendência quadrática (Velicogna 2009).
Com uma série histórica mais longa, emerge agora uma tendência estatisticamente significativa. Não só a Antártica está perdendo gelo continental, mas essa perda está se acelerando a uma tasa de 26 Gigatoneladas/ano² (em outras palavras, a cada ano, a taxa de perda de gelo fica 26 Gton maior que o ano anterior). Ocorre que desde 2006, a Antártica Oriental não está mais em equilíbrio, mas na verdade está perdendo gelo (Chen 2009). Isso é um resultado surpreendente, pois a Antártica Oriental tem sido considerada estável devido à região ser tão fria. Isso indica que a Antártica Ocidental é mais dinâmica do que se pensava.
Isso é significativo porque a Antártica Oriental tem muito mais gelo que a Antártica Ocidental. A Antártica Oriental contém gelo suficiente para elevar o nível dos oceanos em 50 ou 60 metros, enquanto a Antártica Ocidental contribuiria com cerca de 6 ou 7 metros. O manto de gelo Antártico desempenha um papel importante na contribuição total para o nível do mar. Esta contribuição está aumentando contínua e rapidamente.
O gelo oceânico antártico está aumentando
O gelo oceânico antártico tem mostrado um crescimento e longo prazo desde que os satélites começaram suas medições em 1979. Esta é uma observação que foi frequentemente citada com prova contra o aquecimento global. Entretanto, raramente é feita a pergunta: por que o gelo oceânico antártico está aumentando? Implicitamente, toma-se como verdade que deve estar esfriando ao redor da Antártica. Definitivamente, não é este o caso. Na verdade, o Oceano Antártico tem se aquecido mais rápido que o resto dos oceanos do mundo. Globalmente, entre 1955 e 1995, os oceanos têm se aquecido em 0,1ºC por década. Em contraste, o Oceano Antártico tem se aquecido em 0,17ºC por década. Não apenas o Oceano Antártico está se aquecendo, mas isso está acontecendo mais rápido que a média global.
Figura 3: Temperatura do ar na superfície sobre as áreas cobertas por gelo no Oceano Antártico (topo). Extensão do gelo oceânico, observado por satélite (em baixo). (Zhang 2007)
Se o Oceano Antártico está se aquecendo, por que o gelo oceânico antártico está aumentando? Há vários fatores responsáveis. Um é a menor concentração de ozônio acima da Antártica. O buraco da camada de ozônio acima do Polo Sul causou o resfriamento da estratosfera (Gillet 2003). Isso reforça os ventos ciclônicos que circundam o continente antártico (Thompson 2002). O vento espalha o gelo oceânico, criando áreas de mar aberto conhecidas como polínias. Mais polínias levam a mais produção de gelo oceânico (Turner 2009).
Outro fator responsável é a mudança nas circulações oceânicas. O Oceano Antártico consiste de uma camada de água fria próxima da superfície e uma camada de água mais quente abaixo. Água da camada mais quente sobe à superfície, derretendo o gelo oceânico. Entretanto, conforme a temperatura do ar aumenta, o volume de chuva e neve também aumenta. Isso diminui a salinidade das águas da superfície, levando a uma camada de superfície menos densa que a água mais salgada da camada inferior. As camadas tornam-se mais estratificadas e misturam-se menos. Menos calor é transportado para cima desde a camada mais profunda e mais quente. E assim menos gelo oceânico derrete (Zhang 2007).
Em resumo, o gelo oceânico antártico é um fenômeno complexo e único. A interpretação simplista que deve estar esfriando ao redor da Antártica não é o que se observa. O aquecimento está acontecendo - como ele afeta regiões específicas é algo complicado. (skepticalscience)

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