domingo, 27 de outubro de 2013

Alimentos agroecológicos em tempos de crise

Muitas vezes, associamos comida agroecológica com comida cara. E, em tempos de recessão, pensamos que não podemos gastar tanto dinheiro em comida. De fato, estima-se que 41% das famílias no Estado Espanhol mudaram seus hábitos de consumo como resultado da crise, a fim de economizar, de acordo com o Centro de Pesquisas Sociológicas (CIS).
Mas os alimentos ecológicos e de qualidade não têm porque ser necessariamente caros. Há opções para poder comprar alimentos ecológicos e com um bom preço: alimentos sazonais, de produção local, compra direta, mercados locais, grupos e cooperativas de consumo… São alternativas que nos permitem comer bem e a preços acessíveis.
Acostumamo-nos a poder comprar, sempre que quisermos, nectarinas, uvas, morangos, melão… todo o ano. Já não sabemos se os tomates ou laranjas são cultivos sazonais ou não. Desaprendemos os ritmos de produção da terra e nos afastamos do trabalho no campo. Comprar produtos que não estão na época faz com que acabemos pagando mais por aquilo que comemos e obtenhamos, além disso, um produto de qualidade inferior. Devemos reaprender a nos alimentar com frutas da época. Que se explique nas escolas quando é o tempo das cerejas, quando as árvores dão figos, quando encontramos granadas na horta. Comprar alimentos agroecológicos e sazonais nos permitirá comer bem e por um preço que não será caro.
Camarão da Argentina e abacaxi da África do Sul com aspargos do Peru. Os alimentos viajam em média cerca de cinco mil quilômetros do campo à mesa, de acordo com um relatório de Amigos da Terra. Muitas vezes se trata de uma estratégia para produzir barato, explorando direitos trabalhistas e ambientais, para depois vender aqui o produto tão caro quanto for possível às multinacionais do agronegócio. Alguns alimentos poderiam ser mais baratos, outros nem tanto. Uma compra local e de proximidade local não deve ser cara; além do mais, vamos reduzir o impacto ecológico de um modelo de alimentação quilométrico. Que sentido faz que se coma aqui alimentos que vêm do outro lado do mundo e que lá seus mercados estejam “invadidos” por produtos subsidiados do agronegócio, que são vendidos abaixo do preço de custo e que fazem concorrência desleal aos agricultores locais?
A outra questão é onde compramos. Achamos que ir ao supermercado nos custará mais barato, mas, muitas vezes, acabamos comprando mais do que precisamos: ofertas leve 3 e pague 2, descontos, posicionamento estratégico para que enchamos a cesta sem pensar. Alguns produtos são anunciados baratos, mas costuma ser geralmente apenas um anúncio, para adquirirmos outros que não são tão baratos. Comprar diretamente aos agricultores, em mercados locais, via comércio eletrônico ou indo até o local onde é produzido são boas opções para saber de onde vem o que comemos, pagar o preço justo a quem cultivou e economizar dinheiro. Os grupos e as cooperativas de consumo, que nos últimos anos têm proliferado aqui, também são uma escolha apropriada: as pessoas de um bairro ou município que se organizam para comprar alimentos agroecológicos, sem intermediários, ao camponês, e obter um produto de qualidade a um preço acessível.
Além disso, nos últimos tempos, o consumo de carne não parou de aumentar. Com uma dieta mais vegetariana, não só reduziremos o terrível impacto que tem a produção intensiva de carne sobre o meio ambiente – que gera gases de efeito estufa, entre outros – e as consequências ruins para nossa saúde, mas conseguiremos também diminuir o valor pago pela cesta. Mais consumo de frutas e vegetais agroecológicos é uma boa alternativa, tanto econômica como saudável, a uma dieta excessivamente carnívora.
Assim, o alimento agroecológico não tem de ser caro, ao contrário. Trata-se de saber comer e comprar. E fazê-lo com critérios de justiça social e ecológica. Não só ganhará o nosso bolso, mas também a nossa saúde, a nossa agricultura e o nosso planeta. (EcoDebate)

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