quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre e as pesquisas sobre o clima

Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre é considerado fundamental para pesquisas sobre o clima
O desmatamento da Amazônia, as queimadas, os processos de interação entre o Oceano Atlântico e a atmosfera são algumas das questões climáticas particulares do Brasil que o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM, na sigla em inglês) leva em consideração e pretende dar conta de uma forma que mesmo os melhores modelos do mundo não são capazes de fazer.
O modelo foi apresentado em detalhes em 09/09/13 na abertura da 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais, realizada em São Paulo.
Determinar o quanto o clima já mudou, o quanto as suas características ainda vão se alterar e onde isso ocorrerá é a base para o planejamento de políticas públicas de adaptação aos impactos das mudanças climáticas globais, segundo Paulo Nobre, coordenador geral do BESM e da Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), na abertura do evento.
“O BESM é um eixo estruturante da pesquisa em mudanças climáticas no Brasil e oferece subsídios para o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), para a Rede Clima e para o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC)”, disse Nobre.
Com o intuito de colaborar com as previsões sobre as consequências do aquecimento global e o consequente aumento na frequência dos eventos extremos, o BESM roda no supercomputador Tupã da Rede Clima/PFPMCG, reunindo fluxos atmosféricos, oceânicos, de superfície e, em breve, químicos. Adquirido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com apoio da FAPESP, o Tupã está instalado na unidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de Cachoeira Paulista
Embora ainda não esteja em sua versão final e completa, o modelo já consegue, por exemplo, reconstituir a ocorrência dos últimos El Niños e estimar o retorno desse fenômeno, explicar as chuvas na Zona de Convergência do Atlântico Sul e até estimar a variação do gelo no globo de maneira satisfatória.
“Os cenários mais atuais, de 2013, estão disponíveis no supercomputador. Estamos tomando medidas para que o acesso seja disponibilizado ao público em geral até o final do ano”, afirmou Nobre.
Trinta pesquisadores estão diretamente envolvidos no desenvolvimento do BESM e outros 40 estão ligados indiretamente. De acordo com Nobre, esse número deve duplicar em cinco anos e duplicar novamente em 10 anos. “Para tanto, é preciso que cada vez mais jovens doutores integrem esse desafio.”
Nobre ressaltou ainda as graves consequências que o aumento da frequência dos eventos extremos – tais como secas, enchentes e tornados – tem sobre a vida das populações: “Nossas cidades e nossos campos não foram projetados para conviver com esse novo clima, o que torna essencial a entrada do Brasil na modelagem das mudanças climáticas”, disse.
Os quatro componentes
Iracema Cavalcanti, pesquisadora do INPE, apresentou, durante o primeiro dia da conferência, os resultados já obtidos a partir do componente atmosférico do BESM.
Em comparação com os dados observados, o modelo consegue alcançar boas simulações de variabilidade sazonal (modificações climatológicas das estações), fluxos de umidade, variabilidade interanual (diferença entre anomalias de pressão), variabilidade da precipitação, entre outros. “Ainda há deficiências, como na maioria dos modelos globais. Mas as características gerais estão contempladas”, disse Cavalcanti.
Em relação aos oceanos, não é possível separá-los do que ocorre no modelo atmosférico, daí a modelagem acoplada ser estratégica para o funcionamento eficiente do BESM. A avaliação é de Leo Siqueira, também do Inpe, que apresentou os desafios desse componente.
“Já conseguimos boas representações, mas queremos melhorar as simulações de temperatura dos oceanos, principalmente nos trópicos, e do gelo marinho. Também queremos criar uma discussão saudável sobre qual modelo de gelo terrestre será adotado dentro do BESM”, disse Siqueira.
A modelagem do terceiro componente, superfície, foi apresentada por Marcos Heil Costa, da Universidade Federal de Viçosa (UFV). “A principal função de um modelo que integra processos superficiais é fornecer fluxos de energia e vapor d’água entre a vegetação e a atmosfera. Isso é o básico. Mas o aprimoramento do sistema, ocorrido ao longo dos últimos anos, permitiu que outros processos fossem incorporados”, afirmou.
Alguns desses processos são: fluxos de radiação, energia e massa; ciclos do carbono e do nitrogênio terrestres; recuperação de áreas abandonadas; incêndios na vegetação natural; culturas agrícolas; vazão e áreas inundadas sazonais; uso do solo por ações humanas (desmatamento); representação específica dos ecossistemas; fertilidade do solo; entre outros.
Química é o quarto e mais recente dos componentes. “Sem um modelo químico, os demais precisam ser constantemente ajustados”, disse Sérgio Correa, pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Correa está à frente de estudos sobre química atmosférica que permitirão refinar os dados do BESM quando esse componente for acoplado ao modelo – uma das próximas fases previstas.
Colaborações com pesquisadores de instituições estrangeiras e treinamentos são outras estratégias que estão em vigor para melhorar as representações do Brasil e da América do Sul, com alcance também global. (EcoDebate)

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