terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Segurança alimentar do mundo está em perigo

Segurança alimentar do mundo está em perigo com estagnação da produtividade de grãos, afirmam cientistas
Desde a última década, uma tendência misteriosa e preocupante vem surgindo no mundo da produção de alimentos e faz com que produtores, cientistas e políticos comecem a procurar por respostas. É o que mostra matéria publicada pelo site trust.org, mantido pela Fundação Reuters.
A produtividade das safras – o volume colhido por hectare – para os principais grãos, como arroz, trigo e milho, parou de crescer ano após ano e começou a se estabilizar nos maiores países produtores.
Até a metade do século 20, a única maneira que os produtores tinham de aumentar a produção era expandindo a área onde produziam. Mas, na mesma época, a união da agricultura e da ciência criou os fertilizantes artificiais, os sistemas avançados de irrigação e o início de uma seleção de plantas – tudo isso mudou a maneira como os produtores cuidavam de suas safras.
Quando os produtores tiveram a oportunidade de aumentar sua produção sem expandir área, a produção global de grãos explodiu. De 1950 a 2011, a produção de grãos triplicou no mundo, segundo Lester Brown, fundador do EPI (Earth Policy Institute) especialista em segurança alimentar.
“A estabilização da produtividade dos grãos é algo que sabíamos que iria acontecer”, ele afirma. “Os produtores sabem que há um teto que eles não podem ultrapassar”.
Com o aumento populacional e consequente aumento na demanda por alimentos, isso pode significar um sério problema.
Aumento da demanda
A FAO – Organização de Alimentos e Agricultura das Nações Unidas – previu, em 2009, que o crescimento da população mundial iria aumentar a demanda por alimentos em 70% até 2050. Na ocasião, especialistas afirmaram que não poderíamos contar com a criação de mais área agrícola para atender essa demanda.
“Se tentarmos atender a demanda expandindo a agricultura, poderemos causar impacto sobre o clima e a biodiversidade”, informou Ken Cassman, professor de agronomia da Universidade de Nebraska – Lincoln.
No início dos anos 80, o cenário ficou mais preocupante. A produtividade do arroz na Coréia parou de crescer e nos Estados Unidos, os principais produtores de milho notaram que estavam atingindo seu limite de produção.
Todos os anos, produtores de todos os Estados Unidos participam de concursos nacionais e estaduais para ver quem consegue a produtividade mais alta. O vencedor ganha sementes e tratores, além de ser pago para fazer um tour pelo país para contar como conseguiu seu feito.
No entanto, nos anos 90, organizadores do concurso notaram que os ganhadores não tinham aumentado significativamente sua produtividade por muitos anos.
A hipótese é que eles tinham alcançado seu limite de produtividade de grão, ou seja, a melhor produtividade possível de se atingir, mesmo com as melhores sementes e níveis de nutrientes e água.
Em dezembro de 1998, Cassman apresentou uma pesquisa na Academia Nacional de Ciência mostrando que o potencial de produtividade tem o limite de 70% a 80%. “O que descobrimos é que os produtores não conseguem operar esperando 100% de produção”.
Usando modelos que ele e outros cientistas desenvolveram, Lester Brown descobriu que os países com maior produção já estavam atingindo seu limite de produtividade em todo o mundo.
Os cientistas também defendem que há um limite biológico para a produção. Como um atleta olímpico, que desafia os limites do corpo humano, algumas safras atingiram o limite de produtividade, depois de serem desafiadas a irem o mais longe possível, com o uso de fertilizantes, irrigação e seleção genética. “O principal limite é o do próprio processo de fotossíntese, é por isso que vemos esta estabilização na produtividade das safras, em tantos países”, afirma Brown.
Água limitada nos EUA
Os cientistas também fazem algumas análises relativas a um suposto “limite” de produção imposto pelas condições ambientais e pela disponibilidade de água.
Tom Sinclair, professor adjunto da Universidade Estadual d Carolina do Norte, com anos de experiência em pesquisa da fisiologia de safras, acredita que a restrição de água poderá limitar a produção antes que o limite da fotossíntese seja atingido. “Nos Estados Unidos, estamos chegando próximos do limite do que podemos produzir com o volume de água que temos”, afirma.
Em algumas partes dos Estados Unidos, a irrigação é o que garante a prosperidade de uma lavoura e, às vezes, mesmo assim ela não consegue prosperar. Mas em quase todos os lugares onde as lavouras são irrigadas, os níveis de água estão caindo.
Isso traz uma preocupação aos produtores – se continuarem a usar o volume de água que usam hoje – 70% da agua potável todos os anos vai para a agricultura – não haverá disponibilidade suficiente para continuar irrigando no futuro. “Se os níveis de irrigação não forem mantidos, então os produtores estarão definitivamente dependentes das chuvas”. Sinclair afirma ainda que as mudanças no clima estão tornando cada vez mais imprevisíveis as ocorrências de precipitações.
Visões contrárias
Mas nem todo mundo concorda que os produtores estejam atingindo seu limite de produtividade. No Reino Unido, cientistas afirmam que calcular a causa da “estagnação” dos níveis de produtividade não é tão simples.
“Não há um fator específico”, afirma James Mills, conselheiro de políticas da União Nacional dos Produtores Britânicos, que representa os produtores de trigo. “Se você conversar com 100 produtores, terá 100 respostas diferentes”.
Um relatório produzido pelo Departamento de Agricultura e Meio Ambiente do Reino Unido (DEFRA) em 2012, investigou aparentes “estagnações” nos níveis de produtividade do trigo e da semente de colza (usada para a produção de óleo vegetal) e encontrou uma variedade de fatores a serem considerados, incluindo as práticas agrícolas individuais e as regulações para o uso de fertilizante.
“Não é uma figura em preto e branco”, afirmou Simon Kighley, do Instituto Nacional de Agricultura Botânica e criador do relatório, acrescentando que os cuidados com a terra têm um papel importante na produtividade.
O papel das mudanças climáticas
Mills diz que muitos produtores afirmam que os regulamentos governamentais sobre o uso de fertilizantes faz com que eles não consigam atingir os níveis de produtividade que esperam. No entanto, o clima extremo tem sido um fator importante, principalmente notado nos últimos dois anos.
Esta também foi a conclusão de um estudo publicado em 2010 pela Fields Crop Research, que afirmou que o aumento das secas e calor excessivo foi o principal fator da estagnação dos níveis de produtividade do trigo na Europa. Mas Brown também afirma que é difícil, se não impossível, medir os impactos das mudanças climáticas.
Manter o foco nas regiões onde ainda há espaço para aumentar a produtividade é a chave para a produção de alimentos em quantidade suficiente, sem causar mais danos ao meio ambiente e seus ecossistemas, disse Cassman.
O primeiro passo, segundo ele, é o de identificar esses lugares. Seu trabalho agora se concentra em catalogar o "espaço de produtividade" das culturas dos países em todo o mundo, procurando espaço para aumentar a produção antes que eles atinjam seus limites. "Estou muito otimista, pois acredito que podemos atender à demanda de alimentos, mas você tem que começar a fazer as escolhas certas e investir na pesquisa correta", disse ele. "Investir na agricultura global de maneira inteligente. Isso é o que precisamos". (noticiasagricolas)

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