segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Catástrofe climática e a rápida elevação do nível do mar

“O nível do mar pode subir vários metros numa escala de tempo de 50 a 150 anos” - James Hansen (2016).
Ninguém mais duvida do aquecimento global. 197 países assinaram, em 2015, o Acordo de Paris, da COP-21, com a intenção de conter o aquecimento em no máximo 2ºC até 2100. Antes da COP-22, no Marrocos, ocorrida em novembro de 2016, o Acordo de Paris foi ratificado e já está em vigor. Agora vem a parte mais difícil que é limitar a temperatura até o máximo de 1,5ºC.
Mas tudo indica que o mundo caminha para a maior temperatura dos últimos 5 milhões de anos e as perspectivas são sombrias (Alves, 19/09/2016). Em consequência, a elevação do nível do mar é uma realidade inquestionável e está aumentando desde o final do século XIX. Segundo relatório do IPCC (Gregory, 2013), a taxa de aumento foi de 1,5 mm, ao ano, entre 1901-1990 e passou para 3,2 mm, ao ano, entre 1993-2010, como mostra a figura acima. No século XX, houve um aumento de, aproximadamente, 20 cm do nível do mar.
Acontece que essa taxa está se acelerando. Segundo o mesmo autor (Gregory, 2013), numa projeção considerada hoje em dia conservadora, o mais provável é que o aumento do nível do mar alcance 60 cm a 1 metro até 2100. Somente entre 1993 e 2016 o aumento foi de 9 cm. A NASA calcula em 3,5 mm a elevação em 2016. Como a temperatura está subindo, o mais provável é que esta taxa suba também.
Artigo de Nicola Jones (05/05/2016), no site e360 Yale, coloca com clareza as tendências mais recentes. Ela começa dizendo que 99% do gelo de água doce do planeta está preso nas calotas da Antártica e da Groenlândia e que o degelo, especialmente desta última, poderá fazer o nível do mar aumentar 1,8 metro (seis pés) no século XXI e muito mais no século XXII. O site Climate Central tem uma série de mapas mostrando o efeito da subida do nível do mar em 1,8 metros.
Neste quadro, a catástrofe climática será implacável. Relatório do Banco Mundial, divulgado em maio de 2016, prevê que 1,3 bilhão de pessoas serão afetadas pelas inundações nas próximas décadas e o prejuízo material pode chegar a US$ 158 trilhões. Será um desastre para a população e a economia internacional. O relatório diz: “Tomorrow’s risk is being built today. We must therefore move away from risk assessments that show risk at a single point in the present and move instead towards risk assessments that can guide decision makers towards a resilient future”.
No longo prazo o cenário é apocalíptico. Contudo, não é preciso esperar tanto, pois o ano de 2016 já foi pródigo em eventos extremos e desastres climáticos. Houve chuvas torrenciais e inundações em vários países. Logo no início de janeiro, diversas cidades da Inglaterra e da Escócia ficaram debaixo d’água e tiveram as piores inundações em séculos. O ciclone Roanu atingiu o sul de Bangladesh e deixou 23 mortos e 500 mil deslocados em junho de 2016. O tufão Nepartak matou três pessoas em Taiwan e forçou 420 mil habitantes a deixarem suas casas na China em julho de 2016. Um grande volume de chuvas no Estado da Louisiana, no sul dos Estados Unidos, deixou pelo menos 15 mortos e milhares de pessoas em abrigos de emergência em agosto de 2016. A Cruz Vermelha americana declarou que o desastre natural é pior a acontecer no país desde o Furacão Sandy, há 4 anos.
Estes são alguns poucos exemplos dos alagamentos que já provocam milhares de mortes, geram milhões de refugiados e causam prejuízos materiais de bilhões de dólares. As fotos abaixo mostram as inundações que atingiram diversas regiões da França em junho de 2016.
Mas o que já parece muito ruim, pode ficar ainda muito pior se o aquecimento global se acelerar e aumentar a taxa de elevação do nível do mar. Artigo de Robert M. DeConto e David Pollard, publicado na revista Nature (31/03/216) mostra que no último período interglacial (130.000 a 115.000 anos atrás), com temperaturas pouco acima das atuais, a média global de aumento do nível do mar (GMSLR) foi de 6 a 9 metros. Os autores mostram que, se as emissões de GEE continuarem no nível atual, somente a Antártica tem o potencial de contribuir com mais de um metro de elevação do nível do mar até 2100 e mais de 15 metros até 2500. Assim, no pior cenário de emissões de gases de efeito estufa, o nível médio do mar subiria cerca de 2 metros até o fim do século, extinguindo nações insulares e gerando grande quantidade de refugiados do clima em cidades como Rio de Janeiro, Londres, Miami, Xangai, etc.
Em artigo publicado no mês de março, no periódico Atmospheric Chemistry and Physics Discussion, o cientista James Hansen e colegas (2016) afirmam que o aumento da temperatura em 2ºC pode ser extremamente perigoso, pois pode gerar super-furacões e elevar o nível do mar, no longo prazo, em vários metros, ameaçando as áreas costeiras em geral, especialmente as mais povoadas. Os autores consideram que as mudanças de temperatura em 2065, 2080 e 2096 podem fazer a elevação do nível do mar chegar a 0,6, 1,7 ou 5 m, nas respectivas datas (Hansen, 2016, p. 3766).
Assim, é importante levar em consideração o que o site Climate Central está mostrando em termos de subida do mar e também as chances de inundações por tempestades. As probabilidades de desastres vão dobrar até 2030. Os estudos científicos estimam um aumento de 0,6 metros a 2 metros do aumento do nível do mar no século XXI. Na costa leste dos Estados Unidos, pelo menos 5 milhões de pessoas vivem em 2,6 milhões de domicílios localizados em até 1,2 metro acima da maré alta. Se o nível do mar chegar a algo parecido com 2 metros então o desastre será de elevada proporção. A figura abaixo mostra com ficará Miami se os 2 metros forem alcançados.
Os cenários apontados pela ciência não deixam dúvidas de que há uma catástrofe desenhada à frente. Mas em vez de reduzir os riscos, a população mundial continua crescendo (deve passar de 7 bilhões em 2011 para 11,2 bilhões em 2100) e a economia cresce em ritmo ainda mais acelerado. O mundo está cada vez mais dependente do transporte de longa distância. Aumenta a percentagem da população nas cidades e também a proporção da produção econômica (PIB) localizada nas áreas urbanas. As cidades que são principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa (GEE) serão as áreas mais afetadas. A maioria das grandes cidades do mundo está em áreas litorâneas e perto de algum grande rio. Isto as torna mais vulneráveis ao aumento do nível do mar e ao aumento das precipitações que geram inundações e alagamentos.
Novo estudo liderado por James Hansen e mais 11 cientistas (04/10/2016) mostra que a temperatura da Terra está em torno de 1,25ºC acima do período pré-industrial e o ritmo de aumento é de 0,18ºC por década. Nesta taxa, o Planeta vai repetir a temperatura do período Eemiano, que terminou a 115 mil anos atrás, quando havia muito menos gelo e o mar estava entre 6 e 9 metros acima dos níveis atuais. O estudo lança um alerta e mostra que as metas (INDCs) do Acordo de Paris não são suficientes para evitar a catástrofe climática.
Artigo de Tobias Friedrich et. al., publicado na revista Science (09/11/2016) sugere que o clima da Terra poderia ser mais sensível aos gases de efeito estufa do que se pensava, elevando o espectro de um cenário apocalíptico da elevação da temperatura de mais de 7ºC dentro do espaço de uma vida. Se a temperatura da Terra subir 7ºC, poderia desencadear o tipo de aquecimento global que transformaria o Planeta em um inferno.
Pode ser modesta a previsão do Banco Mundial, que estima em 1,3 bilhão de pessoas o número da população afetada pelas mudanças climáticas. Provavelmente este número seja apenas das pessoas que vão ficar debaixo d’água. Mas o número de pessoas afetadas será muito maior, pois uma crise de grandes proporções nas cidades litorâneas não deixará intactas as populações do interior que dependem da mobilidade das pessoas e dos bens e serviços que circulam nos portos e aeroportos das cidades costeiras.
Se o aquecimento global continuar em sua trajetória ascendente, mesmo antes de atingir 6 a 9 metros, a catástrofe pode ser ampla, geral e irrestrita. (ecodebate)

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