segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Ativista brasileira vai 'ao fim do mundo'

Ativista brasileira vai 'ao fim do mundo' contra extração de petróleo no Ártico.
Vítima do aquecimento global nas Filipinas acompanha ação do Greenpeace.
O navio Arctic Sunrise, leva 29 tripulantes, entre eles a brasileira Thais Herrero e a filipina Joana Sustento.
Navegando a cerca de mil quilômetros do Polo Norte, a jornalista e ativista brasileira Thais Herrero se mostra surpresa com a quantidade de vida no mar de Barents, ao norte da Noruega.
- Dá uma excitação de estar no polo norte do planeta. Não paro de pensar no globo, nos mapas e em quanta vida tem aqui. Baleias em volta de nós, golfinhos, pássaros voando o tempo todo! Mostra o quanto de vida existe escondido de nós. E a gente é tão pequeno, vem aqui, instala uma plataforma de petróleo que pode devastar tudo isso em um instante.
Thaís afirma ter ficado mais apreensiva com o frio que com represálias do governo norueguês.
Ela e outras 28 pessoas embarcaram no meio de julho no navio Arctic Sunrise, da ONG Greenpeace. O grupo zarpou da cidade norueguesa de Tromsø ao Mar de Barents para uma série de ações contra a exploração de petróleo no Ártico.
Ao contrário do Antártida, o Ártico não é um continente, mas uma capa de gelo que em alguns pontos chega a 20 metros de altura. Boiando sobre o mar, seu derretimento não afetaria diretamente o nível dos oceanos ao redor do mundo. No entanto, gelo reflete grande parte dos raios vindos do sol, o que torna a região um ar condicionado da Terra. A água do mar absorve o calor vindo do sol, aumentando a temperatura do planeta, que derretem geleiras. Estas geleiras sim aumentam o nível dos oceanos, o que gera mais calor, em um círculo vicioso.
Navegando no extremo norte do planeta, em uma região cuja temperatura média no verão, de junho a agosto, fica entre 4º e 6º, Thais se diverte com o quase pôr-do-sol às 23h da noite.
“Durante o verão o sol aqui não se põe nunca, é o chamado sol da meia-noite. E é algo muito estranho para nós brasileiros que vemos isso pela primeira vez”, explica Thais, que trabalha na sede da ONG em São Paulo e já passou mais de 20 dias no mar acompanhando outra ação ambientalista na foz do rio Amazonas.
No verão ártico, o sol não se põe nem mesmo as 23h, quando foi tirada esta foto.
“Um dia estávamos conversando no convés, umas 22h, super claro, e alguém veio gritando que dava para ver baleias ao lado do barco. Quando consegui avistá-las, e junto, um monte de golfinhos, foi super emocionante”, conta a jornalista.
A última brasileira a bordo do navio Arctic Sunrise foi a bióloga Ana Paula Maciel, que acabou detida em 2013, com outros 28 tripulantes, durante ação do Greenpeace contra a exploração de petróleo no Ártico pela estatal russa Gazprom. Na ocasião, comandos armados de fuzis de assalto desceram de um helicóptero no barco e trancaram todos, rebocando o navio até Murmansk, onde ele ficou retido por nove meses. Ana Paula foi liberada dois meses após ser presa, sob pagamento de fiança.
Thaís diz não ter sentido medo quando embarcou na expedição rumo às plataformas norueguesas de exploração de petróleo localizadas no mar de Barents a bordo do navio, que é usado pelo Greenpeace desde 1995.
- Não fiquei apreensiva porque não estamos confrontando as empresas. Estamos fazendo um protesto pacífico, respeitando a linha de exclusão ao redor das plataformas de petróleo, simplesmente para chamar atenção para o desrespeito que Noruega está cometendo contra sua própria constituição. Tive mais medo do frio.
No inverno, a temperatura médio em Barents é -16ºC.
Halvard Raavand, diretor de campanha do Greenpeace na Noruega, explica o foco das ações feitas neste momento no Ártico. A Noruega é um dos 195 países signatários do Acordo de Paris, que reafirma o esforço para controlar drasticamente a emissão de gases causadores do efeito estufa (sobretudo o CO2), para conter o aumento da temperatura do planeta bem abaixo dos 2ºC, e próximo de 1,5ºC, em referência à era pré-industrial.
Duas semanas após a assinatura do acordo sobre o clima, o governo norueguês, através da estatal petrolífera Statoil, decidiu abrir uma área completamente nova no Mar de Barents pela primeira vez em mais de 20 anos.
“O Ártico é uma área globalmente significativa em termos de biodiversidade e lar de uma vida selvagem rica, porém vulnerável. Impedir que a indústria do petróleo entre nessas águas, que de certo modo são uma das últimas áreas a salvo da ação humana, é a única maneira de evitar um derrame de petróleo que teria consequências catastróficas para a vida selvagem aqui”, comenta o ativista. Thais Herrero complementa que o isolamento do local torna mais difícil o trabalho de contenção de um eventual derrame, aumentando a gravidade do problema.
- Um dos maiores derramamentos de petróleo do mundo, o acidente do Exxon Valdez, ainda afeta os ecossistemas do Ártico nas águas do Alaska, afirma Raavand.
Tragédia Filipina
Ao lado de Thais e Raavand no Arctic Sunrise está a ativista filipina Joana Sustento. Em novembro de 2013, o maior ciclone até então registrado, o tufão Haiyan, arrasou as Filipinas com ventos de 315 km/h, causando a morte de ao menos 6.300 pessoas no país, segundo as autoridades, e deixando mais de 550 mil pessoas desabrigadas.
Entre os mortos, estavam os pais e irmãos de Joana, na época com 22 anos. O único sobrevivente foi um irmão mais velho, hoje com 33 anos. Dois anos depois em 2015, o furacão Patricia superou a intensidade do Haiyan, com ventos de 345 km/h.
Ação do Greenpeace no Ártico.
Cientistas atmosféricos são categóricos em ligar o aquecimento global ao aumento na intensidade ciclones. "Tufões, furacões e todas as tempestades tropicais atraem sua vasta energia do calor do mar. Sabemos que as temperaturas da superfície do mar estão se aquecendo bastante ao redor do planeta", disse Will Steffen, diretor do instituto de mudanças climáticas da Universidade Nacional Australiana (ANU) ao jornal britânico The Guardian.
Segundo um relatório especial do painel intergovernamental sobre mudanças climáticas, "a velocidade média dos ventos de ciclones tropicais provavelmente aumentará, mas a frequência global de ciclones tropicais provavelmente diminuirá ou permanecerá inalterada".
Após a morte de seus familiares, Joana abraçou o ativismo contra o aquecimento global, visto por ela como causador do tufão Haiyan, participando de ações contra as mudanças climáticas junto do Greenpeace nas Filipinas. Até ser convidada a participar da ação na Noruega como testemunha da ação das petrolíferas.
- Esta é a primeira vez que vejo a uma estação de exploração de petróleo. Não posso dizer que é chocante ou surpreendente, mas é uma sensação intensa, porque estou finalmente ligando os pontos entre os grupos geradores e a tempestade que matou minha família. Não posso descrever melhor o sentimento que tenho com isso.
Ciclones são chamados de furacão quando ocorrem no oceano Atlântico e de tufão quando ocorrem no Índico ou no Pacífico. Em comum, costumam atingir países com altos níveis de pobreza, como as Filipinas ou Haiti. “Quando a tempestade bate, ela não separa pobres de ricos, por alguns momentos todos somos iguais, sem distinção. No entanto, os mais ricos conseguem reconstruir suas casas com muito mais rapidez que aquela população que já lutava para se manter antes da tragédia. E aí as diferenças ficam ainda mais visíveis”, comenta Joana, que alerta:
- É importante que as autoridades de todo mundo entendam que o aquecimento global não é só sobre o aumento do nível do mar no futuro. As pessoas realmente estão morrendo em decorrência do aquecimento global, e estão morrendo agora!
Joana entrará como testemunha no processo que o Greenpeace, junto com a ONG norueguesa Nature and Youth, abriram contra o governo norueguês, acusado de não respeitar sua constituição.
Ação contra o Estado
A Constituição norueguesa compromete políticos, empresas e cidadãos a "proteger o direito das pessoas a um ambiente limpo e saudável para as gerações futuras". Greenpeace e Nature and Youth (Natureza e Juventude, em inglês) compreendem que a permissão para a abertura de 15 novas perfurações — um número recorde — concedida pelo governo norueguês fere este princípio.
Segundo o Greenpeace, a licença mais controversa é localizada em Korpfjell, localizado a mais de 400 km de terra, e próximo da calota permanente de gelo do Ártico, um importante local de alimentação para aves marinhas e animais selvagens. A ONG afirma também que o governo norueguês ignorou todos os avisos de agências e organizações ambientais.
Outra crítica é a licença para a perfuração de petróleo próximo à ilha de Bjørnøya (ilha do Urso, em norueguês), lar de uma das maiores colônias de aves marinhas do hemisfério norte. "Um derramamento de óleo aqui poderia levar a uma catástrofe ambiental em longo prazo. Já é hora de o governo norueguês assumir a responsabilidade pelo meio ambiente e clima, juntamente com o resto do mundo”, diz Sune Scheller, líder de projeto e que acompanha a expedição do Arctic Sunrise.
O julgamento do processo contra o governo norueguês será realizado em novembro deste ano. Até lá, a ONG planeja ações semelhantes à deste verão (no hemisfério norte) para chamar atenção do público na Noruega e ao redor do mundo para a causa. “Estávamos longe das plataformas de petróleo, ou seja, eles mesmos não podiam ler o que estavam nas faixas. Mas sabiam que estavam ali. E o Greenpeace sempre leva uma equipe de jornalistas, da qual eu faço parte, para tornar visível para o resto do mundo as questões combatidas”, explica a jornalista Thais Herrero.
Entrar em um bote de borracha sobre águas próximas dos 0ºC exige preparação especial. (r7)

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