São ameaças visíveis, quantificadas em hectares desmatados, focos de calor, índices de turbidez da água, registros de infrações ambientais. Soma-se a isso o turismo e o lazer mal planejados, com aumento de veículos, lixo em trilhas, uso inadequado de áreas sensíveis, ruído e perturbação da fauna.
Pesquisa de Iniciação Científica avalia a qualidade do solo em áreas verdes de Jundiaí, como a Cachoeira de Morangaba.
Fundação Serra do Japi apoia
pesquisa de avaliação da qualidade do solo em áreas verdes de Jundiaí.
As vulnerabilidades das
unidades de conservação nos convidam a abandonar a ilusão de que decretos e
tombamentos são suficientes. Eles são fundamentais, mas não bastam.
À primeira vista, muitas
unidades de conservação brasileiras transmitem a sensação de proteção
consolidada. Há decretos de criação, planos de manejo, conselhos gestores,
estudos técnicos, mapas detalhados. São divulgadas como “pulmões verdes”,
“reservatórios de biodiversidade” ou “castelos das águas” de suas regiões.
A Serra do Japi, em Jundiaí
(SP), se encaixa perfeitamente nesse retrato: é área tombada, reconhecida como
patrimônio natural, inserida em unidades de conservação, alvo de pesquisas
científicas e frequentemente apontada como referência em conservação em área
metropolitana. Tudo parece indicar um território ambientalmente bem amparado.
No entanto, por trás dessa aparência de segurança, escondem-se vulnerabilidades profundas, que não aparecem nos mapas de uso da terra, mas se manifestam nas brechas institucionais, na lógica do desenvolvimento regional e na forma como a sociedade se relaciona com esses espaços protegidos.
Foto panorâmica de um ponto no alto da Serra do Japi – Jundiaí – SP.
As vulnerabilidades mais
conhecidas das unidades de conservação, e da própria Serra do Japi, são
relativamente fáceis de descrever. Elas entram nos relatórios, diagnósticos e
pareceres técnicos: pressão imobiliária nas bordas, fragmentação da cobertura
vegetal, abertura de estradas e trilhas clandestinas, ocupação irregular em
áreas de encosta, incêndios recorrentes, caça, coleta ilegal de flora e fauna,
degradação de nascentes e cursos d’água. São ameaças visíveis, quantificadas em
hectares desmatados, focos de calor, índices de turbidez da água, registros de
infrações ambientais. Soma-se a isso o turismo e o lazer mal planejados, com
aumento de veículos, lixo em trilhas, uso inadequado de áreas sensíveis, ruído
e perturbação da fauna. No Brasil inteiro, de parques nacionais a reservas
municipais, esse quadro se repete. Trata-se de uma vulnerabilidade real,
concreta, que exige fiscalização, normas claras e ações diretas de manejo.
Contudo, essas fragilidades
são apenas a camada mais superficial. As vulnerabilidades mais decisivas são as
ocultas, aquelas que estruturam, silenciosamente, todas as demais. A primeira
delas é a fragmentação da governança. A Serra do Japi está inserida em um
mosaico de municípios com dinâmicas econômicas distintas, interesses políticos
próprios e diferentes capacidades de gestão ambiental, situação que se repete em
inúmeros outros territórios protegidos do país.
Normas federais, estaduais e
municipais se sobrepõem, planos diretores urbanos nem sempre dialogam com os
planos de manejo das unidades de conservação, e muitas decisões estratégicas
são tomadas sem considerar as áreas protegidas como eixo estruturante da
paisagem e da segurança hídrica.
Assim, a proteção é forte no
discurso e frágil na prática: há legislação robusta, mas falta coordenação
efetiva, articulação intermunicipal e visão de conjunto. Essa desarticulação
institucional não aparece em foto de satélite, mas condiciona todas as decisões
de ocupação do entorno do Japi e de tantas outras unidades de conservação
brasileiras.
Outra vulnerabilidade oculta
está na esfera orçamentária, um problema crônico no sistema de áreas protegidas
do Brasil. A conservação do Japi, assim como de qualquer unidade de
conservação, demanda ações permanentes: fiscalização, monitoramento hidrológico
e de biodiversidade, recuperação de áreas degradadas, manutenção de estruturas
de uso público, programas educativos, apoio à pesquisa, diálogo com comunidades
do entorno.
Entretanto, grande parte dessas iniciativas depende de recursos instáveis, projetos pontuais, convênios temporários ou compensações ambientais negociadas caso a caso. Raramente há um compromisso financeiro de longo prazo proporcional à importância ecológica, social e econômica desses territórios. Quando o orçamento aperta, o meio ambiente costuma ser um dos primeiros setores a sofrer cortes, nos três níveis de governo. Assim, a proteção torna-se refém de ciclos políticos e econômicos, oscilando conforme prioridades de momento.
São 42 Anos do Tombamento da Serra do Japi: avanços na preservação e desafios persistentes
Sem previsibilidade de
recursos, não há gestão consistente, nem na Serra do Japi, nem em muitas outras
unidades de conservação espalhadas pelo país.
Somam-se a isso as
vulnerabilidades ligadas às mudanças climáticas. A Serra do Japi é peça-chave
na regulação hídrica e climática local, tal como inúmeros parques e reservas
são fundamentais para a estabilidade de bacias hidrográficas e microclimas
regionais.
No entanto, ainda é comum que
o planejamento trate o clima como pano de fundo, e não como variável central.
Aumento de temperatura média, estiagens mais prolongadas, eventos extremos de
chuva e vento, maior risco de incêndios severos, mudanças na dinâmica da
vegetação e da fauna tendem a alterar profundamente o funcionamento ecológico
dessas áreas ao longo das próximas décadas.
Muitos instrumentos de gestão
continuam baseados em um cenário climático do passado. Falta incorporar, na
prática, o planejamento adaptativo: cenários de risco, protocolos específicos
para incêndios em condições mais críticas, estratégias de conservação de água
em períodos de estiagem prolongada, monitoramento sistemático de indicadores
sensíveis ao clima.
A vulnerabilidade climática
permanece, assim, parcialmente invisível na rotina das políticas públicas,
tanto no Japi quanto em outras unidades de conservação brasileiras.
Há também uma dimensão
simbólica e social das vulnerabilidades ocultas. Grande parte da população
urbana que depende da água, do clima mais ameno e dos serviços ambientais da
Serra do Japi e de outras áreas protegidas não percebe essa dependência. As unidades
de conservação são vistas, muitas vezes, como “cartão-postal”, local de passeio
eventual, ou até como obstáculo ao “progresso” imobiliário, agropecuário e
logístico.
Quando isso acontece, a base
social de sustentação da conservação se fragiliza. Poucos se mobilizam quando
um zoneamento é flexibilizado, quando um corredor ecológico é interrompido,
quando um licenciamento amplia a pressão sobre a zona de amortecimento. Sem uma
consciência coletiva de que a 1ª publicação Serra do Japi, o parque vizinho, a reserva
florestal da cidade são parte da infraestrutura essencial da região, tão vitais
quanto estações de tratamento de água ou redes de energia, a conservação passa
a depender de nichos de militância, e não de um pacto social mais amplo.
Essa visão estreita é reforçada pela pressão do desenvolvimento econômico regional, que não é exclusividade de Jundiaí. Em todo o Brasil, unidades de conservação convivem com projetos de condomínios, loteamentos, mineração, agronegócio intensivo, galpões logísticos, parques industriais e ampliações viárias.
O discurso dominante costuma apresentar essas obras como sinônimo de emprego, arrecadação e progresso. A floresta, o campo nativo, o brejo ou o manguezal aparecem como “área ociosa” ou “potencial a ser aproveitado”. Nesse cenário, a vulnerabilidade é cognitiva: a lógica que orienta decisões trata o meio ambiente como custo e a supressão de vegetação como oportunidade.
Enquanto isso, o valor
econômico dos serviços ecossistêmicos, água em quantidade e qualidade, regulação
térmica, controle de erosão, estabilidade de encostas, proteção contra eventos
extremos, atratividade turística, permanece subestimado ou simplesmente
ignorado nas análises de viabilidade.
Diante desse quadro, falar em
investimentos necessários para a gestão das vulnerabilidades da Serra do Japi e
das demais unidades de conservação significa ir muito além de aumentar o número
de fiscais ou placas de proibição. Implica mudar a forma de planejar o
território e de entender o que é “investimento”.
Investir em governança é
garantir que sistemas de proteção tenham estrutura técnica, autonomia e
capacidade de articular municípios, Estados, União, iniciativa privada e
sociedade civil. É alinhar planos diretores urbanos, planos de recursos
hídricos, de saneamento e de conservação, tendo as áreas protegidas como
referência comum. Investir em monitoramento e ciência é assegurar séries
históricas de dados sobre água, vegetação, fauna, clima, uso público, de forma
a tomar decisões baseadas em evidências.
Investir em instrumentos
econômicos significa criar mecanismos permanentes de pagamento por serviços
ambientais, incentivos para proprietários que mantêm ou restauram florestas
estratégicas, fundos específicos para proteção de mananciais, taxas e
compensações vinculadas à restauração ecológica de alta qualidade.
Nessa perspectiva,
investimento não é gasto, é seguro: um seguro ecológico contra o colapso
hídrico e climático futuro. Por fim, investir em educação, comunicação e
participação social é trabalhar para que a Serra do Japi e as demais unidades
de conservação deixem de ser apenas pano de fundo verde na paisagem e se tornem
parte da identidade cotidiana da população.
As vulnerabilidades das
unidades de conservação, exemplificadas pela realidade da Serra do Japi, nos convidam
a abandonar a ilusão de que decretos e tombamentos são suficientes. Eles são
fundamentais, mas não bastam.
Visitas monitoradas na Serra
do Japi: uma experiência única dentro da área de reserva biológica.
O Programa de visitas
monitoradas no espaço da Reserva Biológica (REBIO) da Serra do Japi foi criado
em 2001 e recebe aproximadamente 100 visitantes por mês. O programa é promovido
pela Prefeitura de Jundiaí por meio da Unidade de Gestão de Planejamento Urbano
e Meio Ambiente (UGPUMA). (ecodebate)





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