domingo, 13 de agosto de 2017

Dia mundial de população e as novas projeções demográficas da ONU

“Demografia não é destino"
O Homo Sapiens surgiu há cerca de 200 mil anos e foi se expandindo lentamente pelo globo, ao longo dos milênios. A população mundial estava em torno de 200 milhões de pessoas no ano 1 da Era Cristã. Chegou próximo a 500 milhões em 1500, a 1 bilhão de habitantes em torno de 1804 e 2 bilhões em torno de 1927. Portanto, a população gastou mais de 1500 anos para dobrar entre o ano 1 e a chegada de Cabral no Brasil, dobrou novamente em 304 anos e dobrou de novo em 123 anos.
Mas a aceleração demográfica tomou um ritmo exponencial nos últimos 100 anos. De 2 bilhões de habitantes em 1927, o mundo passou para 3 bilhões em 1960, 4 bilhões em 1974, 5 bilhões em 1987, 6 bilhões em 1999, 7 bilhões em 2011 e deve chegar a 8 bilhões em 2023, 9 bilhões em 2037 e 10 bilhões em 2055. Na projeção média da ONU o montante de 11 bilhões deve ser alcançado em 2088 e 11,2 bilhões em 2100.
Isto quer dizer que o ritmo de crescimento populacional está se reduzindo, mas o volume de população cresce de forma inédita. Por exemplo, o crescimento de 1 bilhão de habitantes entre 2011 e 2023 (em 12 anos) é o mesmo montante do aumento entre 1804 e 1927. Entre o surgimento do Homo Sapiens (200 mil anos atrás) até 1960 o crescimento foi de 3 bilhões de habitantes, a mesma quantidade vai ser acrescida entre 2011 e 2055 (44 anos).
Mas o futuro não está escrito em lei de bronze. Se as taxas de fecundidade (TFT) caírem de 2,5 filhos por mulher atualmente para 2 filhos em 2100, então a população mundial chegará a 11,2 bilhões de habitantes. Se a TFT ficar meio filho (0,5) acima desta hipótese média a população pode chegar a 17 bilhões em 2100. Se a TFT ficar meio filho (0,5) abaixo da projeção média então a população mundial pode cair para 7 bilhões de habitantes no final do século.
Desta forma, meio filho para baixo ou para cima da TFT média resulta em uma diferença final no volume populacional de 10 bilhões de habitantes. Se as taxas de fecundidade do mundo seguirem o padrão ocorrido no Brasil, a população global pode ficar em torno de 7 bilhões em 2100. Ou seja, pode haver decrescimento populacional mundial nas próximas décadas se as taxas de fecundidade caírem abaixo de 2 filhos por mulher.
Em parte, a fecundidade mundial só não cai mais rápido devido ao alto percentual de gravidez indesejada. O Guttmacher Institute publicou, em junho de 2017, um novo estudo apontando para o não atendimento da demanda por métodos contraceptivos nas regiões em desenvolvimento. O estudo mostra que, nos países em desenvolvimento, 214 milhões de mulheres querem evitar a gravidez, mas, por diversas razões, não tem acesso aos métodos modernos de contracepção. Além disso, dezenas de milhões de mulheres não têm acesso a cuidados básicos durante a gravidez e o parto, necessários para protegerem sua saúde e a saúde dos recém-nascidos. O atendimento aos direitos reprodutivos pode contribuir para desacelerar o incremento demográfico.
Mas, se o crescimento da população foi acelerado nos últimos dois séculos, o crescimento da economia foi ainda maior. O ano de 1776 pode ser considerado um marco, pois foi o ano em que James Watt aperfeiçoou a máquina a vapor, que impulsionou a indústria e deu o início ao uso dos combustíveis fósseis. A despeito das desigualdades sociais, de 1776 a 2016, a população mundial cresceu 9,5 vezes e a economia global multiplicou por cerca de 125 vezes, conforme mostra o gráfico. Em 240 anos, o crescimento anual da população ficou em torno de 0,9% ao ano e a economia em torno de 2% ao ano. Sendo que o período de maior crescimento demoeconômico ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, quando a população passou de cerca de 2,5 bilhões de habitantes para quase 7,5 bilhões de habitantes em 2016 e a média anual de crescimento do PIB ficou acima de 3,5% ao ano. O consumo de matérias primas e de recursos naturais cresceu de maneira exponencial. Este processo trouxe muito lucro para a humanidade, mas provocou grandes prejuízos para a natureza e a biodiversidade.
O crescimento da população e do bem-estar humano se deu às custas da diminuição da biodiversidade, da extinção de espécies e da degradação ambiental. A humanidade ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. Isto pode ser visto pelo gráfico abaixo, que mostra que a Pegada Ecológica da população mundial ultrapassou a biocapacidade da Terra desde o início da década de 1970 e o déficit ambiental cresce a cada ano. Em 2013, a Pegada Ecológica estava 68% acima da biocapacidade. Em 2017, o Dia da Sobrecarga será em 02 de agosto.
Desta forma, é preocupante saber que a população mundial deve crescer em 1 bilhão de pessoas entre 2017 e 2030 e pode crescer mais de 5 bilhões de habitantes no século XXI (era de 6 bilhões em 1999 e deve chegar a 11,2 bilhões em 2100). Mais preocupante ainda é saber que o padrão de produção e consumo vai crescer em nível superior. A manutenção do modelo “Extrai-Produz-Descarta” pode levar a civilização ao colapso, pois o nível de poluição dos solos, águas potáveis e oceanos são de tal ordem que pode gerar um holocausto biológico.
Para evitar um desastre social, demográfico e ambiental é preciso evitar que cada vez mais pessoas caem no vício do consumismo e caminhar rumo ao decrescimento demoeconômico. A solução passa por uma mudança de paradigma e pela redução da sobrecarga do Planeta. E como bem mostra o livro “Enough is Enough” (2010), não basta reduzir a pegada ecológica per capita, também é preciso reduzir o número de pés, diminuindo a presença ecúmena e aumentando as áreas anecúmenas.
No dia 11 de julho se comemora o Dia Mundial de População. Seria uma ótima data para se discutir os problemas da gravidez indesejada e o crescimento populacional insustentável. Mas o mundo vai na direção contrária. O governo Trump, nos EUA, tem uma política claramente contra a autonomia feminina nas decisões reprodutivas. O fundamentalismo religioso e o conservadorismo moral continuam restringindo a autodeterminação reprodutiva das pessoas. Matéria do Huffpost (03/07/2017), mostra as principais ameaças aos direitos reprodutivos no Brasil. Muitos governos ainda acham que governar é povoar.
As institucionais internacionais têm sido complacentes com o populacionismo antropocêntrico. A reunião do G20, realizada em Hamburgo, nos dias 7 e 8 de julho de 2017, é um exemplo da falta de ação nesta área. Os 19 países mais a União Europeia conseguiram chegar um acordo em relação ao comércio e Angela Merkel conseguiu isolar as posições do presidente dos EUA em relação às mudanças climáticas. O comunicado final registra o apoio da maioria dos membros do G20 ao Acordo de Paris (“irreversível”) visando limitar o aquecimento global. Mas há um parágrafo extra descrevendo o isolamento e a posição divergente americana.
O plano apresentado para conter a migração e a onda de refugiados é aumentar os investimentos privados para reduzir a pobreza na África, como se o mercado fosse capaz de resolver por si só a baixa capacidade de geração de renda do continente. Todavia, nada foi dito sobre as questões do desrespeito aos direitos reprodutivos e nem sobre o impacto negativo que o crescimento demográfico exacerbado tem gerado sobre a pobreza e sobre os direitos ambientais e a saúde dos ecossistemas.
No geral, cresce a percepção que o grupo está se tornando um GZero. Dado a inoperância do G20 e a incapacidade dos grandes países capitalistas (e do socialismo de mercado da China) em resolver os problemas da desigualdade social e da degradação ambiental, milhares de pessoas protestaram, em Hamburgo, com o slogan “Sejam Bem-Vindos ao Inferno”. De fato, com as mudanças climáticas provocadas pelo aumento exponencial das atividades antrópicas, a temperatura da Terra pode subir vários graus e as ondas mortais de calor podem tornar diversas regiões tão quentes que torne a vida impossível ali. Um inferno.
Por conta disto, o renomado físico britânico Stephen Hawking tem repetido alertas a respeito dos perigos das mudanças climáticas. Ele diz que o crescimento do modelo de produção e consumo atual pode levar a Terra à beira do abismo e transformá-la em Vênus, com uma temperatura de 250º C e chuva de ácido sulfúrico.
O mundo está numa encruzilhada. Tratando da armadilha do crescimento, Charles St. Pierre (16/11/2016) mostrou que todo sistema econômico e todo sistema auto organizado que não se autolimita dentro das fronteiras estabelecidas pelo seu meio ambiente cresce até exceder a capacidade do ecossistema para apoiá-lo e sustentá-lo. Em seguida, ele colapsa.
Desta forma, para evitar um colapso catastrófico é preciso um novo ponto de mutação em sentido reverso. Do crescimento demoeconômico para o decrescimento. A humanidade precisa sair do déficit ecológico e voltar ao superávit ambiental, resgatando as reservas naturais, para o bem de todos os seres vivos da Terra, pois o ecocídio significará também um suicídio para a humanidade.
A escalada da presença humana na Terra é insustentável. Aumentar a escala antropogênica é irracional e arriscado. Assim, o raciocínio auto evidente indica que é inviável e imprudente aumentar o aquecimento global, mantendo o crescimento da população humana com suas consequências negativas sobre o aumento da poluição, a redução populacional das demais espécies, a perda de biodiversidade, o definhamento dos ecossistemas e o desequilíbrio homeostático da biosfera. (ecodebate)

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