sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Decrescimento demoeconômico da Bulgária

Decrescimento demoeconômico da Bulgária: do déficit ao superávit ambiental.
A Bulgária se tornou um exemplo de país que saiu do déficit ambiental para o superávit ambiental, por meio do decrescimento demoeconômico.
O gráfico abaixo mostra que a Bulgária tinha um déficit ambiental de 47% em 1997 e passou a ter superávit ambiental de 5% em 2014, conforme os últimos dados da Global  Footprint Network.
A pegada ecológica per capita da Bulgária era de 3,43 hectares globais (gha) em 1997, para uma biocapacidade per capita de 2,33 gha (déficit de 47%). Mas ao longo dos quase 20 anos seguintes, a pegada ecológica que havia subido até 2008, caiu para 3,17 gha em 2014, enquanto a biocapacidade per capita subiu para 3,34 gha (superávit de 5%). Isto foi possível devido ao decrescimento das atividades antrópicas mais poluidoras e ao decrescimento demográfico.
O gráfico abaixo, da Divisão de População da ONU (revisão 2017), mostra que a população da Bulgária era de 7,251 milhões de habitantes em 1950, subiu até o pico de 8,975 milhões de habitantes em 1985 e chegou a 8,212 milhões em 1997 e a 7,222 milhões em 2014. Ou seja, a população da Bulgária atual é menor do que aquela de 1950 e menor do que a de 1997. No cenário de projeção médio, a população búlgara pode ficar com menos de 4 milhões de habitantes em 2100.
O impacto do decrescimento demográfico sobre o meio ambiente foi amplamente favorável, pois a redução do número de habitantes possibilitou o aumento da biocapacidade per capita. Como houve também redução do padrão de consumo, a Bulgária se tornou um caso exemplar de superação do déficit ambiental.
O gráfico abaixo, com dados do FMI, mostra que a população búlgara diminui todos os anos desde 1985, enquanto o PIB teve momentos de crescimento e queda. Nas décadas de 1980 e 2000 houve crescimento da atividade econômica. Mas na década de 1990 houve uma grande recessão e a década de 2010 tem apresentado baixo crescimento do PIB. O mais importante a notar é que, depois da crise econômica de 2009, a Bulgária passou a consumir menos combustíveis fósseis, o que foi fundamental para a redução da pegada ecológica.
A renda per capita da Bulgária (em poder de paridade de compra – ppp) caiu na década de 1990, mas subiu nos anos 2000, sendo que estava perto de US$ 18 mil em 2014, bem acima dos níveis da década de 1980 (acima da renda per capita brasileira), conforme o gráfico seguinte. Ou seja, o decrescimento demoeconômico da Bulgária ocorreu sem piora do padrão de vida.
Mesmo sendo um país pequeno, a Bulgária se tornou um exemplo de redução da pegada ecológica com aumento da biocapacidade e transformação do déficit em superávit ambiental. Ao contrário do que pensam os setores pronatalistas da sociedade e que sonham com a “Pátria grande”, a redução da população foi um elemento essencial para o sucesso da sustentabilidade ecológica. E o mais interessante é que o decrescimento demoeconômico ocorreu em um quadro de aumento da renda per capita.
Essa possibilidade já havia sido antecipada no livro “O Declínio Próspero” de H. T. Odum, conforme pode ser consultado em Ortega (2015). O livro coloca a possibilidade de um declínio no padrão de consumo com prosperidade e com reversão da degradação ambiental.
Este exemplo da Bulgária deveria servir para orientar o debate público brasileiro, neste momento de eleições gerais, quando a totalidade dos candidatos simplesmente repetem o mantra do crescimento econômico como solução de todos os males do país, mas que terá uma impacto ambiental devastador. O Brasil pode pensar uma situação de prosperidade sem crescimento ou com decrescimento do impacto ambiental. (ecodebate)

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