Nos últimos dez anos, o desmatamento na Amazônia brasileira cresceu –
em especial a partir de 2019, quando a perda de floresta acelerou. Reverter
esse quadro vai exigir que o Brasil fortaleça políticas públicas já existentes,
como a expansão de áreas protegidas e a punição ao desmatamento ilegal.
Mas é preciso ir além, de modo a incorporar à agenda pública incentivos
à regeneração de florestas e o combate à degradação florestal.
As recomendações constam no estudo “Políticas Públicas para Proteção
Florestal – o que funciona e como melhorar”, da economista Clarissa Gandour. No
trabalho, parte do projeto Amazônia 2030, a pesquisadora passa em revista as
políticas públicas de combate ao desmatamento adotadas pelo Brasil a partir de
2004. A partir daquele ano, e até 2014, mudanças tecnológicas, ações de
fiscalização e a atuação integrada de diversos ministérios contribuíram para
que a taxa de desmatamento na Amazônia regredisse. Depois disso, a situação se
deteriorou.
A análise demonstra que o Brasil conseguiu, ao longo daqueles anos, implementar instrumentos eficientes para conter a perda de floresta nativa. Eles foram enfraquecidos e, hoje, não bastam mais. “Para além de aprimorar seus esforços de combate ao desmatamento, o Brasil deve incorporar novas dimensões de proteção da vegetação nativa à sua agenda de políticas públicas para a conservação tropical”, diz o estudo.
O trabalho mostra que é preciso atuar em três frentes:
• Combate à degradação florestal
Hoje, o desmatamento não é o único dano ambiental que assola a Amazônia
brasileira. A perda gradativa de floresta – conhecida como degradação florestal
– desponta como um problema cada vez mais grave, mas ainda negligenciado no
âmbito das políticas públicas. Há indícios de que a degradação florestal
representa um estágio inicial do processo de desmatamento. Geralmente, ela está
associada à extração madeireira e a queimadas.
Segundo o estudo, é preciso atuar para deter a perda de florestas em
estágio inicial, de modo a otimizar os esforços de políticas públicas de
conservação.
Hoje, a degradação florestal afeta uma área da Amazônia maior que o
desmatamento. Em média, são 11 mil km2 de floresta degradada por
ano, o dobro da área desmatada anualmente. A maior parte dela – 75% – se
concentra nos estados do Mato Grosso e do Pará.
• Regeneração florestal
O restauro e a proteção de florestas tropicais captura carbono da
atmosfera e são ações importantes para mitigar os efeitos do aquecimento
global.
Com vasta quantidade de áreas degradadas e desmatadas em regiões
tropicais, o Brasil está em posição única para contribuir para esse esforço.
Contudo, suas políticas de conservação florestal tendem a focar no combate ao
desmatamento primário e não enfatizam a promoção e a proteção de áreas
regeneradas – aquelas que já foram desmatadas mas que, aos poucos, voltam a
crescer. Atualmente, o país nem sequer monitora essas áreas de forma
sistemática.
Segundo estudo, é imprescindível que o Brasil aja agora para incorporar
o restauro de ecossistemas em sua agenda de políticas públicas de conservação.
Ao assumir um firme compromisso com a promoção da regeneração tropical e sua
conservação, o país simultaneamente avançaria no cumprimento de suas metas
ambientais, promoveria melhorias no bem-estar humano em escalas local e global
e ainda caminharia em direção à retomada da sua posição como pioneiro de ação
climática global.
Há, na Amazônia brasileira, vastas áreas de vegetação secundária –
aquela que cresce em regiões já desmatadas. Os formuladores de políticas
públicas precisam compreender que essa vegetação deve ser protegida.
• Foco em áreas prioritárias
O desmatamento na Amazônia não é homogêneo. Entre 2016 e 2019, ele
esteve concentrado em 24 municípios. Parte significativa – um terço do total –
ocorreu em terras públicas não designadas. Num cenário de recursos limitados, o
Brasil deve focar seus esforços de combate ao desmatamento nessas áreas
prioritárias, onde o problema é mais grave.
Além disso, afirma o estudo, é preciso fortalecer o ambiente institucional de modo a punir quem desmata. O Brasil dispõe de tecnologia capaz de monitorar a perda de floresta. Sem respaldo institucional, ela é insuficiente.
Sobre o Amazônia 2030
O projeto Amazônia 2030 é uma iniciativa conduzida por pesquisadores
brasileiros para desenvolver um plano de ações para a Amazônia. Seu objetivo é
apontar caminhos para que a região dê um salto de desenvolvimento econômico e
humano, mantendo a floresta em pé, nos próximos dez anos.
O projeto é uma iniciativa do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da
Amazônia (Imazon) e do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, ambos situados
em Belém, com a Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da
PUC-Rio, localizados no Rio de Janeiro. (ecodebate)



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