quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Queima de plástico para aquecimento e cozimento em países do Sul Global

Estudo revela a queima de plástico para aquecimento e cozimento em países do Sul Global.
Queima de plástico como combustível para cozimento.

Pesquisa revela que famílias em países em desenvolvimento utilizam resíduos plásticos como combustível básico para cozinhar e se aquecer.

Estudo inédito aponta que a pobreza energética e a falta de coleta de lixo forçam comunidades vulneráveis a queimar plásticos, liberando toxinas perigosas e contaminando a cadeia alimentar.

A Crise Oculta: Plástico como combustível para aquecimento e cozimento

Um novo estudo liderado pela Curtin University trouxe à tona uma realidade alarmante em países em desenvolvimento: o uso generalizado de plástico como fonte de energia cotidiana em residências de baixa renda. A pesquisa, publicada na prestigiada revista Nature Communications, revela que a queima desses resíduos não ocorre apenas para descarte, mas como uma necessidade básica para cozinhar alimentos, aquecer casas, iluminar ambientes e até repelir insetos.

O levantamento ouviu mais de mil especialistas, líderes comunitários e trabalhadores governamentais em 26 países. Os resultados são contundentes: um em cada três entrevistados afirmou ter conhecimento de famílias que queimam plástico, com muitos presenciando a prática pessoalmente. De acordo com o Dr. Bishal Bharadwaj, pesquisador principal do Curtin Institute for Energy Transition (CIET), essa prática tem ocorrido longe dos olhos do público e das estatísticas globais devido à marginalização dessas comunidades.

Lixo plástico em combustão. Produto é tóxico.

Sem acesso à energia limpa, famílias pobres recorrem à queima de plástico para aquecer ambientes e até cozinhar alimentos, alerta estudo global.

Pesquisa aponta que pobreza energética e falhas na coleta de lixo impulsionam prática tóxica em países do Sul Global.

Pobreza energética e falta de saneamento

A queima de plásticos — que inclui desde sacolas e embalagens até garrafas — é impulsionada por dois fatores críticos: a incapacidade financeira de adquirir combustíveis limpos e a ausência de serviços de coleta de resíduos confiáveis. Quando famílias não têm alternativas, o plástico deixa de ser apenas lixo para se tornar um combustível de última instância.

O estudo destaca que a prática é realizada em fogões rudimentares, como fogueiras de três pedras ou fogões a carvão improvisados. Essa combustão em áreas densamente povoadas gera uma fumaça densa e altamente tóxica que afeta diretamente os residentes, sendo que mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência são os grupos mais expostos aos riscos respiratórios e sistêmicos.

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O perigo invisível do PVC e das toxinas

Um dos pontos mais preocupantes da pesquisa refere-se à queima de policloreto de vinila (PVC), identificado como o terceiro tipo de plástico mais comumente queimado. Segundo o Professor Hari Vuthaluru, da Western Australian School of Mines, a queima do PVC libera dioxinas e furanos, substâncias que figuram entre os poluentes mais perigosos conhecidos pela ciência.

Esses compostos são persistentes no ambiente e acumulam-se na cadeia alimentar, podendo causar:

• Câncer;

• Distúrbios reprodutivos;

• Danos severos ao sistema imunológico.

Contaminação de alimentos e água

A crise não se limita à inalação da fumaça. O Dr. Pramesh Dhungana alertou que 60% dos entrevistados consideram extremamente provável que os produtos químicos tóxicos da queima de plástico contaminem a água e os alimentos locais.

Evidências em locais próximos a áreas de queima já detectaram compostos tóxicos em amostras de solo e até em ovos. Quando o plástico queima perto de onde a comida é preparada, as toxinas se depositam nas plantações e infiltram-se nas fontes de água, criando uma crise de saúde silenciosa.

ONU Meio Ambiente alerta para poluição causada pela queima de lixo plástico

Processo de queima de lixo plástico agrava efeito estufa e contribui para o aquecimento global. Gases liberados ainda comprometem a saúde da população.

Caminhos para a solução

Para a Professora Peta Ashworth, diretora do CIET, o problema não pode ser resolvido apenas com proibições ou campanhas educativas. “As pessoas só fazem isso porque não têm alternativas seguras”, afirma a pesquisadora, apontando a pobreza energética extrema como a causa raiz.

Com a projeção de que o uso de plástico triplique até 2060, o estudo defende que intervenções urgentes são necessárias, incluindo:

1. Melhoria drástica nos serviços de saneamento e gestão de resíduos.

2. Apoio ao acesso a energias modernas para cozinhar.

3. Desenvolvimento de soluções práticas e culturalmente relevantes junto às comunidades vulneráveis.

Este estudo fornece a base de evidências necessária para que governos e organismos internacionais desenhem políticas que protejam os moradores urbanos mais vulneráveis do mundo contra essa ameaça invisível, mas devastadora. (ecodebate)

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