segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O derretimento do gelo da Antártica Ocidental já é inevitável

O derretimento das plataformas de gelo flutuantes no Mar de Amundsen, na Antártica Ocidental, está se acelerando e é o principal vetor para a subida do nível do mar.

“O que acontece na Antártica não fica na Antártica” - Secretário-geral da ONU, António Guterres (24/11/2023).

A extensão do gelo marinho da Antártica estava aumentando ligeiramente até 2015. Mas a partir de meados da década passada a situação se inverteu e a área de gelo marinho começou a diminuir, bateu recorde de degelo em 2022 e alcançou baixas extremas em 2023, preocupando a comunidade científica.

O artigo “Unavoidable future increase in West Antarctic ice-shelf melting over the twenty-first century”, publicado na revista acadêmica, Nature Climate Change (Naughten et al, 23/10/2023), mostra que o derretimento das plataformas de gelo flutuantes no Mar de Amundsen, na Antártica Ocidental, está se acelerando e é o principal vetor para a subida do nível do mar. Segundo o estudo, o aumento do derretimento das plataformas de gelo da Antártica Ocidental é “inevitável” nas próximas décadas.

Utilizando um modelo oceânico regional, os autores apresentam um conjunto abrangente de projeções futuras do derretimento da plataforma de gelo no Mar de Amundsen, constatando que o rápido aquecimento dos oceanos, aproximadamente o triplo da taxa histórica, está provocando aumentos generalizados no derretimento das plataformas de gelo, incluindo em regiões cruciais para a estabilidade das plataformas geladas.

O volume de gelo da Antártica contém água suficiente para elevar o nível global do mar em cerca de 60 metros, caso derreta totalmente. Evidentemente, isto não vai ocorrer nos próximos séculos. Mas o derretimento de apenas 5% significa um aumento de 3 metros no nível do mar, o que seria desastroso para as cidades litorâneas e para bilhões de pessoas que vivem ou dependem da dinâmica econômica das áreas litorâneas.

O Mar de Amundsen, ao largo da costa ocidental da Antártida, está esquentando cerca de três vezes mais rapidamente do que a taxa histórica. Isto levará a um derretimento muito mais rápido das plataformas de gelo. Existe uma grande preocupação com a geleira Thwaites que deságua no Mar de Amundsen. Thwaites, por vezes referida como o “A geleira do Juízo Final” é altamente vulnerável ao aquecimento global e caso colapsasse totalmente, aumentaria o nível global do mar em cerca de 65 cm. Sua linha de aterramento – o ponto onde o gelo perde contato com a rocha e começa a flutuar – já está recuando mais de 1 km por ano em alguns lugares.

Em 2021, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), divulgou as suas últimas estimativas sobre a futura subida do nível do mar. Previu uma subida média global do nível do mar entre 0,28m e 1,01m até 2100. Evidentemente, o aumento do nível do mar de cerca de um metro colocaria centenas de milhões de pessoas em todo o mundo em risco de inundações costeiras, ameaçando a infraestrutura, as benfeitorias urbanas e as áreas agricultáveis.

O gráfico abaixo mostra que o degelo da Antártica bateu todos os recordes históricos em 2023. Nunca a área de gelo marinho, na referência anual, foi tão baixa e nunca o continente meridional esteve tão ameaçado.
A causa principal desse rápido derretimento é o aquecimento da atmosfera e das águas oceânicas. A Antártica é um regulador importante do clima global. O derretimento do gelo sobre o mar pode ter consequências significativas, afetando habitats de muitas espécies, incluindo baleias, pinguins e focas, além de gerar mudanças na salinidade dos oceanos que afetariam toda a vida marinha. Além de aumentar o nível dos mares, o derretimento do gelo pode afetar a circulação oceânica e atmosférica, com impactos significativos no clima planetário.

Sem dúvida, o aquecimento global está contribuindo para o aumento do degelo dos polos e, devido ao efeito de retroalimentação, a redução da cobertura de gelo está elevando as temperaturas médias do planeta, acelerando uma espiral infernal de calor que tem causado um desequilíbrio climático rápido e sem precedentes ao longo da história da evolução da raça humana, incluindo os hominídeos e nossos ancestrais mais distantes.

O artigo “Annual mass budget of Antarctic ice shelves from 1997 to 2021”, publicado na revista acadêmica Science Advances, (DAVISON, BJ et al, 12/10/2023) avaliou a massa de todas as plataformas de gelo da Antártica de 1997 a 2021. O estudo revelou que mais de 40% das plataformas de gelo encolheram, com toneladas de água doce entrando no oceano. Os cientistas da Universidade de Leeds calcularam que a Antártica perdeu 7,5 trilhões de toneladas métricas de gelo desde 1997.

Reportagem da BBC (Amos, 24/11/2023) mostra que o maior iceberg do mundo está em movimento depois de mais de 30 anos preso no fundo do oceano. O iceberg, chamado A23a, separou-se da costa antártica em 1986. Mas encalhou rapidamente no Mar de Weddell, tornando-se, essencialmente, uma ilha de gelo, com quase 4.000 quilômetros quadrados de área, é mais de 3 vezes a área da cidade do Rio de Janeiro. No ano passado, ele se deslocou em alta velocidade e o iceberg está agora prestes a transbordar para além das águas da Antártida.

O fato é que o degelo da Antártida já começou e vai se tornar inevitável nas próximas décadas. Os indicadores da crise climática e ambiental estão piores do que o esperado. Toda a vida na Terra é vulnerável ao aquecimento global e ao degelo dos polos, incluindo os ecossistemas e a civilização humana. Mitigação e adaptação são fundamentais. Todavia, se a humanidade não alterar o estilo de vida e a maneira de produzir e consumir, as mudanças podem inviabilizar a capacidade de adaptação e o colapso ecológico poderá ser inevitável.

O relatório “State of the Cryosphere 2023 – Two Degrees is Too High” da International Cryosphere Climate Initiative (ICCI), publicado em 16 de novembro de 2023, relata que este foi um ano de desastres climáticos e de perda de gelo. Uma enchente advinda de um lago glacial devastou Sikkim, na Índia. As geleiras suíças perderam 10% do gelo existente em apenas dois anos. O gelo marinho ao redor da Antártida atingiu o nível mais baixo de todos os tempos, tanto no verão quanto no inverno. Incêndios sem precedentes ocorreram em todo o permafrost canadense. Partes do Ártico e o Atlântico Norte viram temperaturas da água 4–6°C mais altas do que o normal. Choveu no interior da Antártica e a Groenlândia viu seu segundo maior derretimento superficial de todos os tempos.

O relatório diz: “Nenhum destes trágicos acontecimentos surpreendeu os membros da comunidade científica global da Criosfera, porque – apesar de todas as promessas climáticas de Paris em 2015 até a COP do Egipto em 2022 – as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera continuaram sua marcha constante para cima. Este ano, 2023, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) atingiram oficialmente o nível 50% acima dos níveis pré-industriais. Em maio de 2023 foi atingido 424 ppm, nível mais alto do que em qualquer momento em pelo menos 3 milhões de anos. O ano de 2023 será o mais quente já registado, provavelmente pela maior margem de sempre. A nossa mensagem – a mensagem da Criosfera – é que esta insanidade não pode e não deve continuar. A COP28, em Dubai, deve ser quando corrigiremos o atual curso que pode nos levar ao colapso”.

Em viagem para a Antártica, agora em novembro de 2023, o Secretário-geral da ONU, António Guterres, visitou as geleiras no continente mais meridional e alertou para a aceleração do derretimento do gelo, o que poderá ser catastrófico para as comunidades costeiras de todo o mundo. Ele pediu ação imediata na COP28 para sair da era dos combustíveis fósseis. O líder da ONU realizou a visita com o presidente do Chile, Gabriel Boric e teve reuniões com pesquisadores do continente gelado.

Guterres se dirigiu aos líderes que participarão na 28ª Cúpula do Clima, COP28, nos Emirados Árabes de 30 de novembro a 12 de dezembro, pedindo atenção para a crise sem precedentes na Antártica e defendeu ação imediata para limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, acelerar a transição energética e proteger as pessoas do caos climático. (ecodebate)

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