domingo, 27 de julho de 2025

Crise climática reduz produção agrícola e agrava insegurança alimentar

Crise climática já reduz a produção agrícola global e agrava insegurança alimentar.
Pesquisas recentes expõem a “nova realidade climática” na agricultura, com perdas de safras essenciais, desafios de adaptação e a intensificação das desigualdades globais.

As mudanças climáticas não são mais uma ameaça distante para a agricultura mundial, mas uma realidade presente que já está causando perdas significativas na produção de grãos essenciais e projetando um cenário de escassez hídrica sem precedentes.

Pesquisas recentes, incluindo um estudo da Universidade de Stanford, apontam que a produtividade de safras globais de trigo, milho e cevada está entre 4% e 13% menor do que seria na ausência das tendências climáticas observadas, devido ao aquecimento e à secura do ar que afetam quase todas as principais regiões agrícolas do mundo.

Impactos atuais e projeções futuras

O aumento da frequência de ondas de calor e períodos de seca tem prejudicado severamente a produção agrícola. Em algumas regiões, as temporadas de cultivo estão mais quentes do que em quase qualquer outro registro dos últimos 50 anos. Essa intensificação do aumento da temperatura e da secura do ar é um fator crucial de estresse para as lavouras.

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Projeções futuras revelam mudanças ainda mais profundas e rápidas. As atuais regiões de cultivo principais verão alterações severas muito mais cedo do que o esperado, exigindo que os agricultores se adaptem agora às novas realidades climáticas.

• Milho: É a cultura mais afetada negativamente. A previsão é de que o rendimento da safra de milho diminua em quase um quarto até o final do século. Regiões como América do Norte e Central, África Ocidental, Ásia Central e Oriental podem ver uma queda na produção de milho em mais de 20% nos próximos anos.

• Trigo: Por outro lado, o trigo, que se adapta melhor a climas temperados, pode ter um potencial de aumento na produção global de cerca de 17%, especialmente em áreas como o norte dos Estados Unidos e Canadá, e na China.

No entanto, é crucial notar que os ganhos de trigo no Norte Global não compensam as perdas de milho no Sul Global, o que exacerba as desigualdades existentes e a segurança alimentar nos países mais pobres.

A ameaça da escassez hídrica

A escassez de água é um problema crescente em todos os continentes com agricultura, representando uma grande ameaça à segurança alimentar. Um estudo da American Geophysical Union (AGU) prevê que a seca deve aumentar em mais de 80% das terras agrícolas do mundo até 2050.

Este estudo introduziu um novo índice para medir a escassez de água, considerando tanto a “água verde” (água da chuva disponível no solo) quanto a “água azul” (irrigação de rios, lagos e águas subterrâneas), algo que a maioria dos modelos anteriores não fazia de forma abrangente.

A disponibilidade de água verde, essencial para as plantas, está mudando devido a padrões de precipitação e evaporação alterados por temperaturas mais altas, impactando cerca de 16% das terras agrícolas globais.

Enquanto algumas áreas, como o nordeste da China e o Sahel africano, podem receber mais chuva, outras, como o Centro-Oeste dos EUA e o noroeste da Índia, podem sofrer redução de precipitação, levando a um aumento na necessidade de irrigação.

75% ou ¾ dos países da América Latina e do Caribe têm alta exposição a eventos climáticos extremos, afetando a segurança alimentar.

Outras consequências interligadas

Os impactos das mudanças climáticas na agricultura vão além da simples queda de produtividade e escassez de água:

• Emissões de Gases de Efeito Estufa: A agricultura já contribui com cerca de 30% do aquecimento global. As mudanças climáticas podem intensificar essas emissões, especialmente de óxido nitroso e metano, devido ao aumento do uso de fertilizantes e à decomposição da matéria orgânica em solos mais quentes.

• Degradação do Solo: Temperaturas elevadas e eventos climáticos extremos aceleram a erosão, salinização e perda de nutrientes do solo, reduzindo sua produtividade e capacidade de armazenar carbono.

• Pragas e Doenças: Condições climáticas alteradas podem favorecer a proliferação de pragas e doenças que afetam as culturas, levando a perdas significativas e maior necessidade de pesticidas, com impactos negativos na saúde humana e no meio ambiente.

• Perda de Biodiversidade: Algumas culturas e variedades de gado podem não conseguir se adaptar às novas condições climáticas, resultando em perda de diversidade genética e tornando os sistemas agrícolas mais vulneráveis.

Esses impactos podem interagir e se amplificar, criando um ciclo de feedback negativo que, sem intervenções adequadas, pode ter consequências devastadoras para a agricultura e a segurança alimentar global.

Desafios nos modelos e a necessidade de adaptação

Curiosamente, os modelos climáticos usados para prever esses impactos tiveram “surpresas”. Eles erraram ao prever o grau de secura em zonas temperadas como Europa e China, onde o aumento foi muito maior do que o esperado.

Por outro lado, lavouras nos Estados Unidos, especialmente no Meio - Oeste, sofreram menos do que os modelos indicavam. Essas falhas são cruciais porque afetam a formulação de estratégias de adaptação, como esforços anteriores para prolongar a estação de cultivo que podem ter sido mal direcionados.

Ainda assim, a ciência do clima tem sido notável em antecipar os impactos globais sobre os principais grãos. A percepção pública, que muitas vezes subestima uma perda de produtividade de 5% ou 10%, precisa ser ajustada, pois essas percentagens são suficientes para “abalar os mercados” e afetar o “alimento suficiente para centenas de milhões de pessoas”.

Diante dessa “nova realidade climática”, a urgência em desenvolver estratégias de adaptação eficazes é clara. Soluções incluem:

• Práticas de conservação de água: Cobertura morta para reduzir a evaporação, plantio direto para estimular a infiltração de água no solo, e ajuste do tempo de plantio para alinhar o crescimento das culturas com os padrões de chuva.

• Melhoria da infraestrutura: Aprimorar a infraestrutura de irrigação (especialmente na África) e a eficiência da irrigação a longo prazo.

• Apoio à pesquisa e desenvolvimento: Investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento são necessários para evitar declínios na produtividade agrícola.

Como um país que produz e exporta tanto alimento pode ter tanta gente passando fome?

A ciência climática continua sendo uma bússola essencial para guiar decisões políticas e garantir a segurança alimentar global.

É imperativo que agricultores e formuladores de políticas ajam rapidamente para mitigar os efeitos já visíveis e se preparar para os desafios futuros. (ecodebate)

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