sexta-feira, 17 de outubro de 2025

4 bônus demográficos e a nova dinâmica populacional global

Os quatro bônus demográficos e a nova dinâmica populacional global.

“Crescimento pelo crescimento é a ideologia da célula cancerosa” - Edward Abbey (1927-1989).
A primeira tarefa para concretizar o dividendo da longevidade é desmistificar os mitos negativos sobre o envelhecimento e superar preconceitos etários

No Livro do Gênesis (1:28), Deus abençoa Adão e Eva dizendo: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a”. Durante milênios, a frase foi tomada como um mandamento literal, incentivando famílias numerosas como forma de cumprir a vontade divina. Líderes religiosos e políticos usaram esse princípio para justificar políticas pronatalistas, associando população abundante a força e prestígio. De fato, em um mundo pouco povoado e em sociedades agrícolas e patriarcais, filhos eram riqueza e segurança na velhice. O crescimento populacional era visto como um sinal de prosperidade e bênção divina.

Hoje, em um mundo com mais de 8 bilhões de habitantes e pressões ambientais graves, muitos teólogos e pensadores reinterpretam esse trecho não mais como uma obrigação de reprodução infinita, mas como chamado à responsabilidade de cuidar da vida e da Terra. “Multiplicar” pode significar multiplicar saberes, justiça, solidariedade, e não apenas descendência biológica. Portanto, o mandamento de “encher a terra” já está cumprido; o desafio atual é preservar a criação e garantir qualidade de vida para todas as espécies. Não mais multiplicar corpos, mas multiplicar bem-estar, conhecimento e sustentabilidade.

A população mundial cresceu enormemente nos últimos 12 mil anos, tendo um aumento exponencial nos últimos 250 anos. O gráfico abaixo, do site Our World in Data, mostra que a população mundial era de 4 milhões de habitantes há 12 mil anos (3 vezes menos do que a cidade de São Paulo atualmente), atingiu cerca de 1 bilhão de habitantes em 1800, alcançou 4 bilhões em 1974 e 8 bilhões em 2022, devendo chegara 10 bilhões por volta de 2080 e, em seguida, iniciando uma tendência de decrescimento.

Mas o crescimento exponencial da população mundial já está com os dias contados. A maior taxa de crescimento (2,1% ao ano) ocorreu na década de 1960, atualmente está em 0,8% ao ano e o crescimento zero deve ocorrer em 2083, conforme projeções da Divisão de População da ONU. As últimas 2 décadas do século XXI serão de ligeiro decrescimento populacional global.

Desta forma, o mundo está passando pela maior mudança de comportamento de massa da trajetória da humanidade. A queda das taxas de mortalidade e natalidade trazem ganhos inestimáveis para os seres humanos. Sem dúvida, a transição demográfica é a vitória histórica sobre as inexpugnáveis barreiras do passado que aprisionavam o destino dos seres humanos às altas taxas de mortalidade e de natalidade.

Sem dúvida, durante mais de 200 mil anos, desde o surgimento do Homo sapiens, as taxas de mortalidade e natalidade permaneceram elevadas e o padrão de vida da população mundial era extremamente reduzido. Até o início do século XIX, a maioria dos nascimentos resultava em mortes prematuras, muitas vezes antes que os indivíduos atingissem a idade adulta. Em um contexto de saúde precária e de pobreza generalizada, a expectativa de vida ao nascer estava em torno de 25 anos.

No entanto, com o avanço do ideário iluminista e com a produção em massa de bens e serviços, especialmente após a Revolução Industrial e Energética, a dinâmica demográfica e econômica começou a se transformar. A urbanização e o desenvolvimento econômico promoveram melhorias nas condições de saúde, educação e moradia, além de elevar o padrão de consumo.

A queda da mortalidade não só aumentou a longevidade, como viabilizou a redução das taxas de natalidade. A menor quantidade de filhos nas famílias impulsionou o investimento na qualidade de vida de um número menor de crianças. Os casais passaram a dedicar menos tempo às tarefas domésticas. As mulheres com maior autonomia reprodutiva apresentam níveis mais elevados de escolaridade, maior inserção no mercado de trabalho, maiores rendimentos e maior mobilidade social ascendente.

Desta forma, o desenvolvimento urbano-industrial possibilitou a transição demográfica, que, por sua vez, impulsionou ainda mais o processo de desenvolvimento. Esses dois fenômenos ocorreram de forma sincrônica e constituem características essenciais da modernidade, alimentando-se mutuamente em um ciclo virtuoso de progresso. A expectativa de vida global se aproxima de 75 anos, cerca de 3 vezes mais do que os 25 anos de 200 anos atrás.

Adicionalmente, a transição demográfica provoca, de forma determinística, uma mudança na estrutura etária, caracterizada pelo estreitamento da base da pirâmide populacional e pelo aumento da proporção de pessoas em idade produtiva — fase conhecida como primeiro bônus demográfico. Todos os países que hoje apresentam elevado Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) vivenciaram e souberam capitalizar esse primeiro bônus, um fenômeno temporário que se inicia com a redução da proporção de crianças e se encerra com o crescimento da população idosa.
Concomitantemente à mudança etária, emerge um segundo bônus, associado ao aumento da produtividade. Este decorre da elevação dos níveis de escolaridade, do investimento em máquinas, equipamentos e infraestrutura e da incorporação de novas tecnologias ao processo de produção, resultando em uma força de trabalho mais eficiente e produtiva.

O aumento da proporção de idosos com uma vida mais longeva possibilita o surgimento de um terceiro bônus demográfico: o bônus da longevidade. O envelhecimento saudável e ativo impulsiona o crescimento das chamadas gerações prateadas, compostas por pessoas que vivem mais e melhor. Neste sentido, o envelhecimento populacional – fruto da transição demográfica – não deve ser visto como uma ameaça, mas sim como uma conquista civilizacional.

A mudança da estrutura etária é simplesmente uma nova realidade demográfica que não é intrinsecamente negativa nem positiva. A forma como as nações respondem a essa mudança, por meio de suas instituições sociais e políticas e a maneira de implementação das diversas ações é que determinará se elas prosperarão ou não. Mas se as oportunidades do envelhecimento forem bem aproveitadas é possível aproveitar um 3º bônus demográfico ou bônus da longevidade.

Mas cabe afirmar que não há país rico e com alto padrão de vida que mantenha uma elevada proporção de crianças e adolescentes em sua população. O enriquecimento e o envelhecimento são processos simultâneos e sinérgicos. Promover atitudes e práticas favoráveis aos idosos e contra as discriminações é uma condição essencial para superar as armadilhas da pobreza e da renda média.

Assim, a “economia prateada” representa um momento estratégico para aproveitar o terceiro bônus demográfico. A primeira tarefa para concretizar o dividendo da longevidade é desmistificar os mitos negativos sobre o envelhecimento e superar preconceitos etários. A longevidade saudável, ativa e colaborativa pode se tornar uma eterna fonte de integração intergeracional e de bem-estar social do país.

O artigo “Ageing and population shrinking: implications for sustainability in the urban century” (Jarzebski, et al, 2021) mostra que a mudança da estrutura etária e a diminuição do número de habitantes pode gerar um “dividendo demográfico do decrescimento”, tanto na área social, quanto na área ambiental.

Os autores mostram que o envelhecimento populacional e o decrescimento do número de habitantes são totalmente compatíveis com a Agenda 2030 da ONU e as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Mas, em especial, é uma situação que favorece a redução da Pegada Ecológica e a defesa do meio ambiente. Eles chamam de “dividendo do despovoamento” a situação favorável à restauração ecológica.

Adicionalmente, os autores mostram que uma política pronatalista para se contrapor ao decrescimento populacional pode dificultar o enfrentamento das questões sociais e ambientais. O lado esquerdo da figura abaixo, representa um 4º bônus demográfico, ou “dividendo do decrescimento”, enquanto o lado direito representa a “ampulheta vulnerável”, que é uma situação de aumento da razão de dependência demográfica, com baixa proporção de pessoas em idade ativa e alta proporção de dependentes, jovens e idosos.

São várias as oportunidades do decrescimento populacional:

a) Menos pressão sobre recursos naturais, uso do solo, água e energia;

b) redução das emissões de gases de efeito estufa;

c) O envelhecimento abre espaço para novas indústrias e serviços voltados à saúde, bem-estar, lazer, turismo e tecnologia assistiva;

d) Setores ligados a longevidade podem se tornar motores de inovação e emprego;

e) a escassez de mão-de-obra pode ser superada com o uso da robótica e a Inteligência Artificial.

Além disto, com menos crianças e jovens, famílias e governos podem investir mais na educação e qualificação de cada indivíduo. Isso pode elevar a produtividade e compensar parte da redução do número de trabalhadores. Áreas urbanas podem se tornar mais habitáveis, com menos congestionamentos e maior qualidade de vida. Espaços abandonados podem ser convertidos em áreas verdes ou habitação social. Mudanças nos valores sociais podem fortalecer solidariedade intergeracional e novas redes de apoio.

O decrescimento populacional pode ajudar a mitigar a crise climática e ambiental e pode facilitar a adaptação diante da aceleração do aquecimento global e da 6ª extinção em massa das espécies, abrindo espaço para a restauração ecológica.

Menor densidade populacional em áreas de risco (zonas costeiras, regiões áridas) pode reduzir o impacto de eventos extremos. Facilita políticas de relocação e adaptação urbana. Com menor demanda, é possível investir em sistemas mais sustentáveis de transporte, saneamento e habitação, adaptados à realidade do aquecimento global. Em um mundo de escassez hídrica e alimentar, menores populações poderão reduzir conflitos por água, terras férteis e energia.

Em síntese, o decrescimento populacional é um desafio estrutural inevitável, mas não precisa significar estagnação ou declínio do bem-estar. Se houver políticas adequadas em educação, inovação tecnológica e adaptação dos sistemas de proteção social haverá a possibilidade de construir uma sociedade mais equilibrada, sustentável e centrada no bem-estar humano, com respeito a todas as formas de vida da Terra.

O único grupo etário que vai crescer continuamente durante todo o século XXI será o de 60 anos e mais de idade, que tinha apenas 195 milhões de idosos em 1950, passou para 600 milhões de idosos no ano 2000, chegou a 1 bilhão de pessoas em 2018, deve alcançar 2 bilhões de pessoas em 2048 e está projetado para chegar a 3 bilhões de idosos em 2100. (ecodebate)

Nenhum comentário:

Região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia

Com El Niño em 2026, região Sul ganha maior influência na formação de preços de energia. Super El Niño com mais de 80% de chance pode devast...