Estudo revela transição da
Amazônia para regime “hipertropical”.
A transição da Amazônia para
um regime hipertropical representa um dos sinais mais alarmantes das mudanças
climáticas globais. Com apenas uma fração de grau adicional de aquecimento
causado pela queima de combustíveis fósseis, o risco de seca na Amazônia continuará
aumentando, independentemente do El Niño.
2023 – Seca no Amazonas.
Pesquisa mostra que floresta
amazônica está evoluindo para condições climáticas extremas, com secas intensas
que ameaçam mortalidade de 55% das árvores até 2100
Cientistas alertam que
Amazônia pode se tornar emissora líquida de carbono com aumento de dias de
“seca quente” das atuais semanas para 150 dias anuais nas próximas décadas,
comprometendo capacidade do planeta de absorver CO2
A floresta amazônica está
atravessando uma transformação climática alarmante que pode mudar
irreversivelmente o maior bioma tropical do planeta.
Um estudo revolucionário
publicado na revista Nature por cientistas da Universidade da Califórnia,
Berkeley, revela que a Amazônia está lentamente transitando para um novo regime
climático denominado “hipertrópicos” — condições de calor extremo e secas
intensas não observadas na Terra há cerca de 40 milhões de anos.
O que são os hipertrópicos e
por que ameaçam a Amazônia
Os pesquisadores definem
hipertrópicos como regiões que ultrapassam o percentil 99 das temperaturas
históricas tropicais, caracterizadas por secas mais frequentes e intensas.
Atualmente, essas condições extremas ocorrem apenas durante alguns dias ou
semanas ao ano, principalmente durante eventos climáticos excepcionais. Porém,
as projeções indicam um cenário devastador.
Se a sociedade continuar
emitindo altos níveis de gases de efeito estufa, as condições de seca quente
podem se tornar prevalentes em toda a Amazônia até 2100, ocorrendo mesmo durante
a estação chuvosa. O estudo documenta que essas condições hipertropicais
aumentam a taxa normal de mortalidade de árvores em 55%.
Secas históricas
consecutivas: um novo normal?
O Brasil testemunhou em anos
recentes uma sucessão de secas devastadoras que confirmam as previsões
científicas. A seca histórica de 2023 causou a maior queda nos níveis dos rios
já registrada na região amazônica. No Rio Negro, o nível da água no porto de
Manaus atingiu 12,70 metros em 2023, o menor índice desde o início da série
histórica em 1902.
Em 2024, a situação se tornou
mais grave. Em 03/11/2024, a cota do Rio Negro chegou a 12,69 metros, quebrando
o recorde anterior de 12,70 metros durante a seca de 2023. Dados do Centro
Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que
mais da metade dos municípios da Amazônia Legal passou o ano de 2024 inteiro em
situação de seca.
Impactos humanos e ambientais
devastadores
As consequências vão muito
além dos números. A seca extrema na Amazônia levou à morte de 209 botos no lago
Tefé e em Coaraci, em razão da alta temperatura dos lagos. No dia 28 de
setembro de 2023, quando a temperatura da água atingiu 39,1°C, 70 botos
morreram em um único dia — uma catástrofe ambiental sem precedentes.
Para as comunidades humanas,
o impacto é igualmente severo. Cerca de 62 municípios do Amazonas entraram em
estado de emergência durante a seca de 2023, com populações ribeirinhas e
indígenas enfrentando isolamento total devido à impossibilidade de navegação
nos rios. Em 2024, aproximadamente 69% dos municípios da Amazônia Legal foram
atingidos pela seca, com 92% das terras indígenas afetadas.
O estudo da UC Berkeley
desvendou os processos fisiológicos que levam à morte das árvores em condições
hipertropicais. Quando o conteúdo de umidade do solo por volume diminui para
cerca de um terço, as árvores ou desligam a captura de carbono, morrendo de
‘fome’, ou desenvolvem bolhas de ar em sua seiva, semelhantes a embolias que
causam derrames em humanos.
Durante a pesquisa, que
combinou dados de dois locais de monitoramento durante as secas de 2015 e 2023
causadas pelo El Niño, os cientistas identificaram um limiar crítico. Quando a
umidade do solo caiu abaixo de 0,32, cerca de um terço dos poros do solo
preenchidos com água, as taxas de transpiração das árvores despencaram
rapidamente, levando ao aumento do estresse hidráulico.
As árvores de crescimento
rápido são mais afetadas do que as de crescimento lento. Isso significa que, à
medida que o número de dias de alto estresse térmico aumenta, as florestas
amazônicas experimentarão uma mudança nas espécies arbóreas se essa transição
puder ocorrer rápido o suficiente em um ambiente em rápida transformação.
Do El Niño ao aquecimento
global: causas múltiplas
Estudo da Rede Mundial de
Atribuição (WWA) apontou que, com o clima 1,2°C mais quente que na época
pré-industrial, as secas meteorológicas na Amazônia poderão ocorrer a cada 100
anos e serão 10 vezes mais prováveis na região. As secas agrícolas,
relacionadas à umidade do solo, tornaram-se 30 vezes mais prováveis.
Embora o fenômeno El Niño
contribua para as secas, estudos recentes indicam que o aquecimento global é o
principal responsável. Pesquisadores concluíram que 75% da influência sobre a
seca seriam do aquecimento global, contra apenas 25% do El Niño. O aquecimento
excepcional do Oceano Atlântico Tropical Norte também desempenha papel
fundamental, intensificando os padrões de circulação atmosférica que inibem a
formação de chuvas.
Desmatamento amplifica a
crise
O desmatamento não apenas
libera carbono armazenado, mas também reduz a capacidade da terra de reter
água, tornando as áreas devastadas mais suscetíveis à seca. Quanto menor a
quantidade de árvores para fazer o processo de evapotranspiração, a geração de
vapor de água para a atmosfera diminui o percentual de chuvas, com consequente
aumento na temperatura na região.
As previsões são alarmantes.
Usando dados publicados de cinco modelos diferentes do sistema terrestre, os
pesquisadores concluíram que a floresta tropical está mudando para um estado
mais quente sem análogo contemporâneo, embora similar às condições tropicais
quando a Terra era muito mais quente entre 10 e 40 milhões de anos atrás.
As condições de seca quente
que impulsionam a elevada mortalidade de árvores devem emergir frequentemente
durante uma estação seca típica em 20 a 40 anos. Mas a projeção mais
preocupante é que, até 2100, os dias extremos de seca quente não estarão mais
confinados ao pico da estação seca, mas ocorrerão cada vez mais ao longo de
todo o ano, incluindo durante os meses mais úmidos.
Amazônia: de sumidouro a
emissor de carbono
A transição para condições
hipertropicais pode comprometer fundamentalmente o papel da Amazônia como
sumidouro global de carbono. As florestas tropicais em todo o mundo absorvem
mais emissões de carbono humanas do que qualquer outro bioma. Relatórios
recentes encontraram um aumento no dióxido de carbono atmosférico após secas severas
na Amazônia, demonstrando que o clima nos trópicos tem impacto mensurável no
orçamento de carbono do planeta.
Em 2024, a Amazônia
estabeleceu um recorde alarmante. A degradação florestal gerada pelos incêndios
foi responsável pela liberação de 791 milhões de toneladas de dióxido de
carbono, um número sete vezes maior comparado à média dos dois anos anteriores.
Pela primeira vez na história, as emissões de carbono diretamente relacionadas
aos incêndios superaram as provenientes do desmatamento.
Urgência da adaptação
climática
Especialistas enfatizam que
governos de todas as esferas não podem mais esperar a crise bater à porta para
agir. O Brasil possui o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, criado
em 2016, mas sua execução permanece incompleta. Em 2024, das nove capitais da
Amazônia Legal, apenas Rio Branco possuía um Plano Municipal de Mudanças
Climáticas.
Em setembro, um dos meses
mais secos do ano, também há uma taxa alta de mortalidade (12%).
Mortalidade de árvores da
Amazônia ocorre em meses chuvosos mesmo em ano de seca, aponta Inpa.
Cerca de 20% de mortes
árvores ocorre em janeiro; eventos climáticos podem causar mortalidade até dois
anos após o evento.
Expansão global do fenômeno
hipertropical
As condições hipertropicais
não se limitarão à Amazônia. É provável que as condições hipertropicais
apareçam fora da Amazônia, nas florestas tropicais da África Ocidental e em
todo o Sudeste Asiático. Isso representa uma ameaça global aos ecossistemas
tropicais e à capacidade da Terra de mitigar as mudanças climáticas.
A janela de oportunidade está
se fechando
O diretor do estudo, Jeff
Chambers, da UC Berkeley, foi enfático ao afirmar que o pior dos resultados
ocorrerá se a sociedade fizer muito pouco para reduzir as emissões de dióxido
de carbono que provocam as mudanças climáticas. “Depende de nós até que ponto
vamos realmente criar este clima hipertropical”, alertou, advertindo que a
continuidade das emissões descontroladas de gases de efeito estufa acelerará a
chegada desse novo regime climático.
O ano de 2025 está a caminho
de se tornar um dos mais quentes já registrados, com a temperatura média anual
cerca de 1,6°C acima da média do período pré-industrial.
Um ponto de não retorno à
vista
A transição da Amazônia para
um regime hipertropical representa um dos sinais mais alarmantes das mudanças
climáticas globais. Com apenas uma fração de grau adicional de aquecimento
causado pela queima de combustíveis fósseis, o risco de seca na Amazônia
continuará aumentando, independentemente do El Niño.
A floresta amazônica, que por
milhões de anos funcionou como reguladora do clima global e repositório de
biodiversidade incomparável, está se aproximando de um ponto de virada
catastrófico.
As próximas duas décadas
serão decisivas para determinar se a humanidade conseguirá evitar que a maior
floresta tropical do mundo se transforme em uma fonte líquida de carbono,
amplificando ainda mais o aquecimento global e comprometendo o futuro climático
de todo o planeta.
O alerta científico está dado. A ação urgente não é mais uma opção, mas uma necessidade existencial para preservar a Amazônia e, com ela, a estabilidade climática da Terra.
Um conjunto de sensores integrados e medições de equipes de campo em nosso sítio central na Amazônia possibilitou novas descobertas sobre os impactos da seca nas florestas. (ecodebate)





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