Principais Determinantes da
Queda da Fecundidade no Brasil:
Participação Feminina no
Mercado de Trabalho: É apontada como o fator mais determinante. A busca por
carreira profissional e independência financeira fez com que muitas mulheres
adiassem ou decidissem ter menos filhos.
Urbanização e Custo de Vida:
A transferência da população rural para as cidades modificou o papel dos
filhos, que deixaram de ser mão de obra familiar e passaram a representar um
alto custo de criação (habitação, educação).
Avanço da Escolaridade
Feminina: Mulheres mais escolarizadas tendem a se casar mais tarde e a planejar
melhor o tamanho da família, optando por menos descendentes.
Acesso a Métodos
Contraceptivos e Informação: A difusão de anticoncepcionais, avanços
científicos e o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) no planejamento familiar
permitiram maior controle sobre a reprodução.
Mudanças Culturais e Sociais:
Valorização da autonomia pessoal, estabilidade emocional e a redefinição do
conceito tradicional de família, focando mais na qualidade de vida.
Dinâmica da Transição:
Velocidade: O Brasil passou
por essa transição de forma muito mais rápida que a média mundial,
assemelhando-se atualmente a padrões de países desenvolvidos.
Perfil da Queda: A
fecundidade de mulheres mais jovens diminuiu, enquanto o número de nascimentos
entre mulheres mais velhas (postergação) e casos de gravidez na adolescência,
embora caindo no geral, ainda mostram disparidades.
Na maior parte da história
brasileira, as taxas de mortalidade e fecundidade eram elevadas. Mas diversos
desenvolvimentos na produção de bens e serviços, no avanço da medicina e
saneamento básico, aumento da urbanização e dos níveis de escolaridade
possibilitaram que as taxas de mortalidade começassem a cair no final do século
XIX e continuassem caindo no século XX. Contudo, a Taxa de Fecundidade Total
(TFT), na média nacional, só começou a cair a partir da década de 1970.
O gráfico abaixo, mostra que
a TFT do Brasil estava acima de 6 filhos por mulher entre 1940 e 1960, caiu
para 5,8 filhos em 1970, para 4,4 filhos em 1980, para 2,9 filhos em 1991, para
2,3 filhos em 2000, para 1,9 filho em 2010 e 1,55 filho por mulher em 2022. As
regiões Norte e Nordeste tinham TFT acima da média nacional e as regiões
Sudeste, Sul e Centro-Oeste abaixo da média nacional.
Entre 1940 e 1970, havia divergência nas taxas de fecundidade regionais, pois a diferença na TFT das regiões Norte e Nordeste era de 1,5 filho em 1940, passou para 2,5 filhos em 1950, para 2,3 filhos em 1960 e para 3,6 filhos em 1970. Mas a partir da década de 1970 passou a haver convergência na transição da fecundidade entre as diversas regiões brasileiras. Como mostra o gráfico, todas as regiões convergiram para taxas próximas de 1,55 filhos, sendo que as diferenças regionais em 2022 ficaram no máximo em 0,5 filho. Isto quer dizer que a transição da fecundidade no Brasil é um fenômeno comum em todo o território nacional.
De fato, a transição da fecundidade no Brasil ocorreu em um quadro de profundas transformações econômicas, sociais e institucionais que tiveram efeito no século passado, mas especialmente na segunda metade do século XX. Em 1930 houve uma Revolução que rompeu com o modelo econômico primário-exportador, característico da República Velha (1889-1930). No primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-1945) foram implementadas as primeiras políticas sociais e trabalhistas brasileiras. Depois de um breve interregno fora do poder, Getúlio Vargas ganhou as eleições de 1950 e deu início a uma política nacionalista visando a acelerar o desenvolvimento econômico do Brasil.
Mas foi no governo de Juscelino
Kubitschek (1956-1961), com o Plano de Metas, que o Brasil entrou em uma fase
de acelerada urbanização e industrialização. O golpe militar de 1964 deu início
a uma série de governos autoritários que aprofundaram o processo de integração
internacional da economia brasileira, reforçando as tendências rumo a uma
economia urbano-industrial, mas com profundas desigualdades sociais e
regionais. A junção das mudanças estruturais, que já vinham ocorrendo desde
1930, com as mudanças institucionais implantadas na segunda metade dos anos 60,
foi decisiva para a transição da fecundidade no Brasil.
Existem várias abordagens
teóricas para explicar este processo. A abordagem da proletarização dá ênfase
ao efeito das mudanças estruturais sobre o tamanho da família. Segundo
Carvalho, Paiva e Sawyer (1981) e Paiva (1985) o tipo de estrutura produtiva do
sistema primário-exportador e da economia de subsistência estimulavam as altas
taxas de fecundidade que eram viabilizadas por um padrão de casamento precoce
sem o uso generalizado de métodos contraceptivos. O processo de proletarização
provocou a desestabilização do regime de alta fecundidade no Brasil através de
mudanças que ocorreram em três níveis: 1) monetarização da economia; 2)
ampliação e diversificação do cesto de consumo através da inclusão de bens
industrializados; 3) destruição da economia de base familiar (subsistência) e
expansão e homogeneização do mercado de trabalho assalariado.
A abordagem de Alves (1994)
mostra que os determinantes estruturais e institucionais afetam os níveis de
fecundidade na medida em que influenciam a relação entre as gerações e entre os
gêneros, considera, também, que as abordagens anteriores não são excludentes,
mas apontam para diversas facetas de um processo complexo e multifacetado de mudança
no padrão reprodutivo. Com base em Caldwell (1982), o autor argumenta que houve
uma reversão do fluxo intergeracional de riqueza entre pais e filhos no Brasil.
Concomitantemente, as mudanças nas relações de gênero reforçaram a transição de
altos a baixos níveis de fecundidade. Particularmente importantes foram o
crescimento dos níveis educacionais das mulheres e o aumento da participação
feminina no mercado de trabalho, especialmente em empregos formais, com
contribuição à previdência social.
Estas quatro abordagens
fornecem os instrumentos teóricos capazes de explicar os dados empíricos da
transição da fecundidade no Brasil, na região Sudeste e no Estado do Rio de
Janeiro. Não é de se estranhar que a região Sudeste tenha apresentado as
menores taxas de fecundidade, pois foi também a região que liderou o processo
de transformações estruturais e institucionais do país, apresentando maiores
níveis de urbanização, industrialização, assalariamento, diversificação do
consumo e incorporação da mulher na escola e no mercado de trabalho formal.
Dentro da região Sudeste, o
estado do Rio de Janeiro esteve à frente do chamado processo de modernização e,
consequentemente, esteve à frente do processo de transição da fecundidade. Até
1960, as TFTs do Rio de Janeiro eram cerca de 10% menores que as de São Paulo e
estavam bastante abaixo das taxas de Minas Gerais e Espírito Santo. A partir
dos anos 60, começou um processo geral de redução do número de filhos e as
taxas de fecundidade dos quatro estados convergiram para o nível de reposição
(2,1 filhos por mulher) no ano 2000. Entre 2000 e 2010 a convergência foi geral
e todas as regiões apresentam taxas abaixo do nível de reposição
Mas no restante do século XXI, o Brasil vai aprofundar o fenômeno do envelhecimento populacional e do decrescimento do número de habitantes. Esta nova dinâmica demográfica trará desafios e oportunidades. Se o Brasil souber aproveitar o 2º bônus demográfico (da produtividade) e o 3º bônus demográfico (da longevidade) poderá garantir uma maior qualidade de vida social e ambiental para as gerações futuras. (ecodebate)





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