Principais Impactos na
Produção de Alimentos:
Eventos Extremos: Secas
severas e inundações devastam plantações, como milho e arroz, além de secar
rios importantes para a agricultura.
Perda de Produtividade: O
calor excessivo diminui a eficiência produtiva do rebanho em até 15% e o
aumento da acidez dos oceanos coloca em risco a produção de alimentos marinhos.
Impacto Econômico: A menor
oferta de alimentos resulta no aumento dos preços, elevando o custo de vida e
gerando inflação na cesta básica.
Qualidade Nutricional:
Concentrações elevadas de CO2 podem reduzir o teor de ferro e zinco
em grãos e vegetais, como batata e mandioca.
Áreas de Cultivo: A mudança
no regime de chuvas torna inaptas algumas regiões tradicionais de cultivo,
forçando a busca por novas áreas adaptáveis.
Contexto Brasileiro:
A agropecuária brasileira é um dos setores mais afetados, enfrentando secas no Rio Grande do Sul e na Amazônia. A crise climática é um dos principais fatores para o aumento da insegurança alimentar, com 20 países da América Latina em risco. Estudo da Embrapa sugere que a mandioca é uma das culturas mais resilientes a esses estresses.
O ciclo de retroalimentação climática já reduz as colheitas, aumentando os preços e agravando a fome global
A agricultura é
simultaneamente causa e vítima da crise climática
A relação da humanidade com a
terra tornou-se perigosamente autodestrutiva. O setor agroalimentar é responsável
por quase um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, o que o
torna um dos principais contribuintes para a crise que agora ameaça o seu
futuro.
Calor extremo, inundações
catastróficas e secas prolongadas, intensificados por décadas de emissões
agrícolas, estão agora afetando os campos que produzem nossos alimentos. O
ciclo vicioso está completo e suas consequências já são sentidas nos números
das colheitas, nos preços dos alimentos e nas estatísticas de fome em todo o
mundo.
Queda na produtividade está
acontecendo agora
Isso não é mais um alerta
sobre um futuro distante. Um estudo publicado na revista Nature, baseado em
observações de mais de 12.000 regiões em 55 países e analisando culturas que
fornecem dois terços das calorias da humanidade, oferece o panorama mais
abrangente até o momento sobre a dimensão do problema.
Levando em conta a adaptação
realista por parte dos agricultores, os pesquisadores estimam que a produção
global de calorias provenientes de culturas básicas, em um futuro com altas
emissões, será 24% menor em 2100 do que seria sem as mudanças climáticas.
Essa trajetória já está em
curso. As mudanças climáticas já representam um impacto negativo líquido na
produção agrícola e estima-se que, entre 1980 e 2008, a produção global de
milho tenha diminuído em 3,8% e a de trigo em 5,5%. Cada fração de um ponto
percentual representa milhões de toneladas de alimentos e riscos para
incontáveis vidas.
Em um mundo 3º mais quente, a matemática se torna alarmante. Perder um quarto da capacidade de produção de culturas básicas equivale, em termos nutricionais, a retirar uma refeição por dia de cada pessoa no planeta.
Quem perde mais?
Os danos não são distribuídos
igualmente e aí reside um desafio moral. Regiões do Canadá, da China e da
Rússia podem se beneficiar do aquecimento global em termos de produtividade
agrícola, enquanto as perdas mais acentuadas são projetadas nos principais
celeiros agrícolas e nas comunidades de agricultura de subsistência, com perdas
de produtividade que podem chegar a uma média de 41% nas regiões agrícolas mais
ricas e 28% nas regiões de menor renda até 2100.
Os países de baixa e média
renda suportarão grande parte do fardo, com a maior parte do aumento da fome
concentrada na África Subsaariana. Os pequenos produtores, que constituem a
maioria dos produtores agrícolas nessas nações, enfrentam redução na produção
agrícola, com graves consequências para seus meios de subsistência.
Na África, os níveis de fome
aumentaram em todo o continente, exceto na África Oriental, com mais de uma em
cada cinco pessoas enfrentando agora fome crônica, um número que acarreta
graves implicações para a estabilidade regional.
Além das calorias, a
qualidade nutricional também está em declínio, com reduções documentadas no
teor de proteínas e minerais essenciais em culturas básicas cultivadas sob
níveis elevados de CO2 atmosférico.
Água, solo e o ciclo de
retroalimentação
A escassez de água agrava
todos os outros desafios. Prevê-se que a seca se alastre por mais de 80% das
terras agrícolas do mundo até 2050. O calor extremo acelera a degradação do
solo por meio da erosão e da perda de nutrientes, e as consequências vão além
da perda de produtividade.
Solos degradados armazenam
menos carbono e exigem mais fertilizantes químicos, cuja aplicação libera óxido
nitroso, que é um gás de efeito estufa aproximadamente 300 vezes mais potente
que o CO2. A crise do solo não apenas reduz a produtividade; ela
agrava ativamente o aquecimento que causa a crise em primeiro lugar.
O que antes eram choques climáticos isolados agora se tornaram rotina, colocando em risco as colheitas agrícolas e, em última análise, elevando os preços dos alimentos. Prevê-se que, até 2050, as mudanças climáticas aumentarão os preços globais das commodities em até 18%, e até 78 milhões de pessoas a mais poderão enfrentar a fome crônica como consequência.
Ciência, políticas públicas e inclusão
As soluções existem. O que
falta é a velocidade e a escala da sua implementação.
Redução da emissão de gases estufa
e descarbonização da economia. Além da transição energética, justa e inclusiva,
também são prioritárias a redução do consumo de combustíveis fósseis, a
eliminação do desmatamento e a recuperação e renaturalização de áreas
degradadas
Adoção da agroecologia em
substituição da produção agroindustrial. A agroecologia é uma abordagem
integrada simultaneamente que aplica conceitos e princípios ecológicos e
sociais ao design e manejo de sistemas alimentares e agrícolas, agindo para
otimizar as interações entre plantas, animais, seres humanos e meio ambiente,
levando em conta os aspectos sociais que devem ser abordados para um sistema
alimentar sustentável e equitativo.
A agricultura de precisão
está entre as fronteiras mais promissoras. Variedades de culturas resistentes
ao clima já estão sendo testadas em regiões propensas à seca. A produção
agrivoltaica, definida como o uso duplo da terra para agricultura e geração de
energia solar, oferece um modelo para produzir alimentos e energia limpa
simultaneamente, reduzindo tanto a pressão sobre a terra quanto as emissões.
Modelos sustentáveis de
manejo da água e do solo, incluindo o plantio direto e a cobertura morta
direcionada para reduzir a evaporação, podem preservar a estrutura do solo e
reduzir drasticamente o consumo de água. A melhoria da infraestrutura de
irrigação, principalmente no Sul Global, é essencial para que os pequenos
agricultores se mantenham produtivos em uma era de chuvas cada vez mais
imprevisíveis.
A diversificação de culturas
e a fixação de nitrogênio, integrando culturas perenes e plantas fixadoras de
nitrogênio em rotações de culturas, reduzem a dependência de fertilizantes
químicos e aumentam a resiliência do solo a longo prazo, diminuindo as emissões
que causam o problema e, ao mesmo tempo, melhorando a produtividade.
Políticas públicas e inclusão
são igualmente indispensáveis. Políticas agrícolas resilientes ao clima
precisam ser direcionadas para abordar os contextos políticos locais e
nacionais, os fatores culturais e sociais e as condições agroecológicas, a fim
de serem eficazes e inclusivas. Os governos devem desmantelar ativamente as
barreiras socioeconômicas que impedem os pequenos agricultores e, em
particular, as mulheres, as comunidades indígenas e os produtores de
subsistência, de acessar tecnologias resilientes ao clima. O conhecimento
ecológico tradicional, acumulado ao longo de gerações, deve ser valorizado e
integrado às estratégias de adaptação, em vez de ser ignorado.
Os gastos globais com agricultura aumentaram em 2024, mas os gastos em outros setores aumentaram proporcionalmente, o que significa que a participação da agricultura no investimento permaneceu estagnada em 2,3%. Isso é insuficiente para a escala de transformação necessária.
A urgência não pode ser subestimada
O
abastecimento de alimentos já está sendo afetado. Uma perda de 5% ou 10% na
produtividade agrícola pode parecer abstrata em uma planilha, mas, na prática,
se traduz em centenas de milhões de pessoas enfrentando fome, preços mais altos
dos alimentos e pobreza ainda mais profunda.
A adaptação não é mais uma
opção a ser ponderada em relação ao custo da ação; é uma condição essencial
para a sobrevivência.
Decisões e ações atuais definirão os resultados nos próximos anos, determinando se as gerações futuras ainda terão comida suficiente. (ecodebate)





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