sábado, 25 de setembro de 2010

Acesso e controle da água do Rio Indus

Acesso e controle da água do Rio Indus são fontes de tensão entre Índia e Paquistão.
Água, fonte de tensão entre Índia e Paquistão – Islamabad teme que construção de hidrelétrica dê a Nova Délhi o poder de manipular a água do Rio Indus e afluentes, que abastecem a região agrícola paquistanesa Em Bandipore, neste vale do alto Himalaia, do lado da Caxemira, uma nova linha de batalha entre Índia e Paquistão foi traçada. Desta vez não é por causa da terra, que vem sendo disputada desde a sangrenta divisão da Índia Britânica, em 1947, mas pela água que desce dos glaciares para os campos ressecados do centro agrícola do Paquistão. Os trabalhadores indianos estão com pressa, construindo uma caríssima hidrelétrica num vale próximo, um dos diversos projetos da Índia para os próximos dez anos para impulsionar sua economia que cresce rapidamente, mas carece de energia. No Paquistão, o projeto vem provocando temores de que sua arquirrival, onde se encontram as nascentes dos rios, terá o poder de manipular a água que abastece toda a região agrícola paquistanesa, que representa um quarto da sua economia e emprega metade da população. Em maio, o caso foi levado à Corte Internacional de Arbitragem. A água é hoje uma fonte crescente de tensão entre países que lutam para crescer. Diversos países africanos estão numa intensa discussão sobre os direitos à água do Nilo. Israel e Jordânia reivindicam o Rio Jordão. Por toda a região do Himalaia, os próprios projetos de hidrelétricas da China estão preocupando a Índia, sua rival na busca do poder regional, e mesmo global. A disputa entre Paquistão e Índia vem acrescentar mais volatilidade num momento crucial para um dos mais delicados relacionamentos entre dois países que possuem armas nucleares e se estranham profundamente. A disputa pode perturbar as delicadas negociações para uma retomada de conversações de paz paralisadas desde que militantes paquistaneses mataram 163 pessoas nos atentados de Mumbai, em 2008. Os EUA mostram-se particularmente ansiosos para acalmar as tensões, de modo que o Paquistão possa desviar suas tropas da fronteira com a Índia para sua fronteira com o Afeganistão, para combater o Taleban. Nacionalistas anti-Índia e militantes no Paquistão apoderaram-se do problema como uma nova fonte de cólera para perpetuar 60 anos de antagonismos. Jamaat-u-Dawa, braço do grupo militante Lashkar-i-Taiba, responsável pelos ataques em Mumbai, já adaptou seu trabalho de relações públicas para circunscrevê-lo a essa disputa sobre a água, pois até agora concentrava-se nas reivindicações de terra para a Caxemira. Com suas populações se expandindo rapidamente, a água é crucial para os dois países. O Paquistão tem o maior sistema de irrigação contíguo do mundo, dizem especialistas da área. E tornou-se um terreno fértil para o recrutamento de grupos militantes, que se aproveitam da falta de oportunidades e o sentimento anti-Índia cada vez mais intenso. Os rios que atravessam o Punjab, a mais populosa província do Paquistão e centro da sua indústria agrícola, são a salvação do país. As altercações sobre o uso dos rios têm a ver com seus temores em relação a seu vizinho maior e mais forte. No caso da Índia, as novas hidrelétricas são vitais para utilizar a água do Himalaia e pôr fim à grave escassez de energia que emperra sua economia. Cerca de 40% da população da Índia não tem energia elétrica e a falta de eletricidade é um obstáculo para a indústria. A barragem de Kishenganga é uma parte crucial dos planos da Índia para resolver o problema. O projeto indiano vem sendo arquitetado há décadas e se enquadra num tratado de 50 anos que divide o Rio Indus entre os dois países. “O tratado funcionou bem no passado, em grande parte porque os indianos não estavam fazendo nenhuma construção”, diz John Briscoe, da Universidade Harvard. “Desta vez, há uma bateria de projetos hídricos.” O tratado, resultado de uma década de negociações que se encerraram em 1960, dá ao Paquistão 80% das águas do Rio Indus e seus afluentes, uma proporção que os nacionalistas no Paquistão costumam esquecer. A Índia tem permissão para usar parte da água para a agricultura, água potável e também geração de energia, desde que não armazene demais. Embora a represa de Kishenganga esteja autorizada pelo tratado, a disputa é sobre como ela deve ser construída e como será a distribuição da água. O Paquistão alega que, a drenagem na base na represa permitirá à India manipular o fluxo de água quando desejar, por exemplo, durante um período de plantio. A Índia rejeita as alegações de tentou roubar água. O secretário do Exterior da Índia, Nipurama Rao, qualificou as afirmações de “propaganda nacionalista”, acrescentando que “o mito do roubo de água não passaria num exame racional do caso”. Especialistas concordam, mas dizem que o Paquistão tem um motivo legítimo de preocupação. O problema, na verdade, tem a ver com o tempo. Se a Índia decidir encher suas represas num momento vital para a agricultura do Paquistão, poderá arruinar as plantações paquistanesas. Em Bandipore, onde engenheiros e operários trabalham longos turnos para construir a hidrelétrica e um túnel para a esperada barragem, o trabalho não tem a ver só com eletricidade, mas é uma questão de orgulho nacional. (EcoDebate)

Finalmente, água é direito humano

Dia 28 de Julho de 2010 a água potável e o saneamento ambiental foram reconhecidos pela ONU como um direito humano. Uma aberração necessária para os tempos atuais. Muito dessa conquista se deve à Bolívia. Desde a “Guerra pela água de Cochabamba”, quando uma multidão ocupou as ruas da cidade e retomou o serviço público de água das mãos de uma transnacional, criou-se na Bolívia um bloco de forças que seria decisivo para a chegada de Evo Morales ao poder. Evo criou o Ministério das Águas e nomeou Pablo Solón como ministro, agora embaixador junto à ONU. Foi ele quem apresentou a proposta de resolução na ONU, ratificada por vários países, finalmente aprovada com muitas abstenções. Mas a luta não foi só Boliviana. Aqui no Brasil temos insistido nessa questão desde a Campanha da Fraternidade da Água de 2004. Desde então, várias Igrejas, ONGS, Movimentos Sociais, tem feito essa luta no Brasil e articuladamente pelo mundo afora. Porém, reconhecer o direito é apenas um passo. Torná-lo efetivo para um bilhão de pessoas que não tem acesso à água potável ao redor do mundo, ou aos 2,6 bilhões que não tem acesso ao saneamento, é um desafio monumental e sombrio. A crise da água se alastra pelo seu sobre uso no mundo inteiro, particularmente na agricultura irrigada, além da poluição e depredação de mananciais de superfície e subterrâneos. O Brasil é um dos países mais ricos em água no globo terrestre e todos os dias chegam novas notícias, como a descoberta do Aquífero Alter do Chão, no subsolo amazônico, maior que o Guarani. Portanto, temos água em abundância. Não precisávamos ficar na retranca, lutando ao lado dos que sempre combateram o direito à água. O Brasil sempre foi uma vergonha nos Fóruns Mundiais da Água, aliando-se ao mundo das transnacionais e governos que querem fazer da água apenas uma mercadoria. Enfim, uma boa nova e um desafio oceânico pela frente (EcoDebate)

Perigo, perdemos água doce

A água doce continua se esgotando. O recente desprendimento do glaciar Jakobshavn Isbrae na Groenlândia, uma massa de gelo de sete quilômetros, reforça as advertências sobre os perigos que significa a perda desse recurso essencial para a vida. Cientistas asseguram que o aumento da temperatura global, como resultado da mudança climática, é uma das causas da diminuição destas massas geladas que contêm 74 por cento da água doce do planeta. O que ocorreu nesta ilha localizada no norte ocorre em todos os continentes: nos Andes e no Himalaya, nas Rocosas e nos Alpes. O glaciar Chacaltaya na cordilheira andina, na Bolívia, com 18 mil anos de existência desapareceu antes de 2015, data estimada pelos cientistas para o colapso desta massa gelada. Foi a pista de esqui mais alta do mundo, a cinco mil 300 metros acima do nível do mar, e agora apenas algumas placas de gelo isoladas sobrevivem na elevada montanha. Na Europa, a superfície congelada dos Pirineus na vertente espanhola diminuiu de mil 779 hectares, desde o ano 1894, a 290 hectares, até 2000. Igualmente, o último glaciar da Indonésia, o Puncak Jaya, se derrete a ritmo acelerado, afirmou o cientista estadunidense Lonnie Thompson, pesquisador de glaciares, quem teme que seu ocaso seja em poucos anos e não em décadas, como calculava até recentemente. No entanto, a organização ambientalista Greenpeace confirmou que boa parte dos 20 mil quilômetros quadrados de glaciares entre a Argentina e o Chile tem sofrido um severo afinamento e um sério retrocesso de vários quilômetros. De acordo com o Painel Intergovernamental de Especialistas em Mudança Climática, a média da temperatura global nos últimos 100 anos aumentou 0,74 graus e a coberta de gelos permanentes e neve decresceu a escala global. Assegura que o aquecimento poderia aumentar os riscos de mortalidade, contaminação, catástrofes naturais e doenças infecciosas`. Indica, ademais, que dos últimos 12 anos, 11 foram os mais calorosos desde 1850 e se prevê que o aumento vai prosseguir neste século. Cada vez são mais freqüentes as notícias sobre semelhante desastre, nenhuma anuncia a formação de um novo casquete de gelo nem glaciar. Se deixassem de existir se perderia o maior reservatório de água doce do mundo. A humanidade contaria apenas com a pequena porcentagem desse líquido que se encontra nos rios, lagos e em aquíferos subterrâneos. Mas, outros perigos espreitam também: a contaminação e seu mau manejo. Todos os estudos apontam a que os seres humanos em seu afã de desenvolvimento – onde prima o consumismo – esgotam de forma acelerada os recursos do planeta que lhe são indispensáveis para viver. Lamentavelmente este desenfreio obriga a recordar a frase do comediógrafo latino Tito Maccio Plauto (254 a. C. – 184 a. C.) em sua obra Asinaria: `homo homini lupus est` (o homem é o lobo do homem). Tomara, logo iremos à de Séneca que, como contraponto, escreveu que ‘o homem é algo sagrado para o homem’. O importante é que a água doce ou potável é cada vez mais escassa. O mesmo perde-se em campos de golfe, os quais podem chegar a consumir a mesma quantidade de água que uma cidade de 20 mil habitantes; ou contamina-se com a exploração de ouro, que ocasiona o despejamento de toneladas de mercúrio nos rios e lagos, ou com os dejetos de dissimiles indústrias. A isso se acrescenta a construção de enormes represas hidroelétricas sem estudo de impacto ambiental, inclusive com ele, que roubam a água aos rios que vêem estreitar a velocidade incrível seus volumes, como ocorre com o Colorado, nos Estados Unidos. Atualmente, mais de 40 mil represas retêm a água potável do mundo inteiro, e ao redor de 500 mil quilômetros de rios foram dragados e canalizados para a navegação. Por outro lado, as zonas úmidas, que jogam um importante papel no ciclo da água, também vão cedendo espaço aos desmandos dos seres humanos. Nestes momentos, as de Louisiana e do Mississipi, no sul dos Estados Unidos, apresentam severos danos por causa do derramamento de petróleo depois do acidente da plataforma da British Petroleum no Golfo do México. Enquanto aumenta o consumismo com suas desastrosas conseqüências e adoece o recurso hídrico, nem as chuvas, nem os glaciares, nem as marismas podem repô-la. Juntamente ao esgotamento da água crescem os alertas sobre uma guerra por sua partilha porque cada vez são menos aqueles que desfrutam de seus benefícios. Diversas fontes indicam que uma pessoa em cada cinco já não tem acesso à água potável e uma em cada três não dispõe de meios de saneamento adequados. No entanto, sua demanda a nível mundial dobra a cada 20 anos pelo aumento da população e estima-se que para 2025 duas em cada três pessoas poderiam carecer do precioso recurso. Tal contexto poderia derivar em conflitos internacionais, pois alguns países tratariam de desviar água de seus vizinhos para si. E é que 40% da população do planeta se nutrem de água de bacias hidrográficas internacionais que compartilham dois ou mais países, e para isso quase não existem tratados que permitam a distribuição eqüitativa, apesar de que desde 1820 foram assinados no mundo mais de 400. A competição para controlar e explorar de forma privada a água – ainda que se possa considerá-la como um patrimônio comum da humanidade – também será um detonante de uma possível guerra. Para evitá-la, bem como para conservar a espécie humana e a natureza que lhe dá vida, os chamados a proteger ao planeta e seus recursos crescem. Ouvidos surdos prevalecem entre os responsáveis pela depredação humana que descansa em um sistema que, por sua vez, sustenta-se do consumismo desmedido. ‘Ou morre o capitalismo ou morre a Mãe Terra’, preveniu em abril passado o presidente da Bolívia, Evo Morales, anfitrião da Cúpula sobre Mudança Climática, organizada por seu governo junto aos povos indígenas e movimentos sociais. O presidente alertou que o mundo está agora em uma ‘encruzilhada definitiva’ entre o capitalismo e a vida em harmonia com a natureza. (EcoDebate)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A terra está secando

A terra está secando e cresce a luta pela água nos Andes. Mudança climática. O Peru é o país que mais sofre com o aquecimento global no mundo. O Equador não fica atrás. Sobe a temperatura, as geleiras estão derretendo, mas há repentinas quedas de temperatura. Ameaça plantações e estilos de vida milenares. Gumercinda Catunta faz tempo que anda com a intenção de “semear e colher chuva”. Mas quando vai pedir ajuda às autoridades de Pampamarca obtém sempre a mesma resposta: não há recursos. Gumercinda repete seu pedido na praça do povo da província de Cuzco, no Peru. Ela tem 41 anos, três filhos e está parada sob o monumento que recorda que estas terras são as de Tupac Amaru e de sua companheira, Micaela Bastidas. São as terras que fazem parte do país que mais sofre os efeitos da mudança climática no mundo e onde nem a ajuda do Estado nem dos países responsáveis pelo aquecimento global chega. A mais de 3.800 metros acima do nível do mar, a falta de água, a retração das geleiras, as temporadas de estiagem, as repentinas quedas de temperatura, as épocas de chuvas cada vez mais curtas e intensas, os frios cada vez mais frios e o calor cada vez maior são as manifestações mais concretas da mudança climática, essas variações do tempo atribuídas direta ou indiretamente à atividade humana. Gumercinda fala enquanto uma banda de música se faz ouvir dentro da municipalidade deste povoado situado a cerca de duas horas do centro turístico de Machu Picchu e anuncia a saída de um casal de recém-casados seguidos por um enxame de parentes e amigos e uma nuvem de papel picado, a única nuvem que se vê a milhares de quilômetros. A mudança climática ameaça a vida da maneira como foi vivida durante anos na região de Cuzco. “Antes sabíamos quando semear porque começavam as chuvas. Antes havia três mananciais de onde tirávamos a água para regar. Eles já não existem mais, mas há novas pragas e as batatinhas estragam”, enumera Roberto Lazo, um dos moradores que participa de um projeto que envolve 6.500 famílias com a finalidade de buscarem formas de adaptação à mudança climática. A Associação Ararina está encarregada de transmitir 24 técnicas não poluentes orientadas a melhorar a produtividade do solo, o manejo da água e sua conservação. “Há três anos que as temperaturas são tão frias que nossos filhos adoecem de coisas nunca vistas. Além de sofrer de desnutrição, morrem de pneumonia”, conta Gumercinda. A cerca de duas horas de Pampamarca está Espinar, outra província peruana que faz parte da região de Cuzco. “Aqui o pasto não cresce como antes” e a Puna seca está cada vez mais seca. A parte alta das montanhas que rodeiam as comunidades camponesas está marrom escuro. “Antes havia nevascas e geleiras, vastos pastos, mas sem gelo já não há água”, explica Adriano Paucara, um dos moradores. O Peru e o Equador são os dois países da América Latina que têm geleiras tropicais, superfícies geladas entre o Trópico de Câncer e o de Capricórnio e que, segundo os estudos científicos, estão desaparecendo. Para além da retração e do avanço destas massas geladas ser um processo natural, a intervenção humana modificou este ciclo. E sem glaciares não há água e sem água não há vida. Então, a luta pela água não é um vaticínio de ficção-científica. Um estudo de 2007 realizado pela Comunidade Andina prognostica que na América Latina as tensões em torno da água envolverão entre sete milhões e 77 milhões de pessoas. E isso acontece no Peru, onde cidades como Espinar têm apenas duas horas diárias de água. Este país já perdeu 40% dos blocos gelados nos últimos 30 anos e quase a mesma proporção se derreteu no Equador. Os dois países estão entre aqueles destinados a receber o fundo de compensação e para a adaptação à mudança climática lançado na Cúpula de Copenhague. Mas pouco se avançou. Os fundos serão o tema de dezembro próximo durante a Conferência de Cancún. Mas, por enquanto, nem o dinheiro nem as negociações chegam a estas terras altas dos Andes. Apenas os camponeses, as Ongs e a cooperação internacional. Adriano Paucara é um dos poucos que já semeia e colhe chuva. Graças a fundos da Oxfam a Ong regional Associação Projeção construiu um reservatório de água e um sistema de irrigação por aspersão que faz com que sua parcela seja um ponto verde entre tanto seco. Um modelo que procura copiar outros povoados. A 4.400 metros, em Camanoccla, há seis meses está sendo copiado. “Não há pasto como antes. O sol queima como nunca. Antes caminhávamos a pé descalço, mas agora precisamos de calçados. Há frios repentinos que acabam com as plantações. Vêm furacões e doenças para as crianças”, conta um dos moradores da comunidade formada por 500 famílias. Neste ano, “30 anjinhos foram ao céu. Não suportaram o frio e a pneumonia que antes não havia, mas que agora existe”. (EcoDebate)

Alter do chão

Alter do chão: um aquífero de 84 quatrilhões de litros de água.
Há cerca de 50 anos se tem conhecimento da existência do Aquífero Alter do chão. No entanto, a partir da sua tese, o professor André Montenegro Duarte descobriu que este reservatório tem, aproximadamente, 84 quatrilhões de litros de água, duas vezes o volume do Aquífero Guarani, no sul do Brasil. Na entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line, Duarte aponta as diferenças entre esses dois reservatórios: “O Guarani está localizado numa região mais cristalina, uma área mais rochosa, por isso a água fica armazenada mais nas fraturas, embora lá também existam depósitos de água nos pacotes sedimentares. Já o Alter do Chão é todo sedimentar, ou seja, é uma área muito grande, onde a porosidade é muito maior e, consequentemente, o volume de água também”, explicou. André também falou do conceito de valor do “não uso” que, segundo ele, deve ser aplicado na gestão da água do aquífero localizado sob os estados do Amazonas, Pará e Amapá. “Nós estamos fazendo alguns estudos que são uma tentativa de gestão e utilização dessa água de forma estacional e inteligente dando valor para a ideia de ‘não uso’”, analisou. André Montenegro Duarte é graduado em Engenharia Civil Universidade Federal do Pará – UFPA. Na Universidad Politecnica de Valencia realizou o mestrado na área de Engenharia e, na UFPA, onde atualmente é professor, fez o doutorado em Geologia e Geoquímica, intitulado O Valor Econômico e Estratégico das Águas da Amazônia. IHU On-Line – Como se caracteriza o Aquífero Alter do chão? André Montenegro Duarte – O Aquífero Alter do Chão é uma formação geológica no interior do solo que armazena a água nos poros ou nos vazios. São espaços nos quais, durante milhões de anos, foi armazenada água. Tem grande extensão territorial e abrange os estados do Pará, Amapá e do Amazonas. IHU On-Line – Quais as diferenças entre este e o Aquífero Guarani? André Montenegro Duarte – São bem diferentes. A principal diferença é o volume. O Alter do chão tem uma capacidade de armazenamento de água muito maior. O Guarani está localizado numa região mais cristalina, uma área mais rochosa, por isso a água fica armazenada mais nas fraturas, embora lá também existam depósitos de água nos pacotes sedimentares. Já o Alter do Chão é todo sedimentar, ou seja, é uma área muito grande, onde a porosidade é muito maior e, consequentemente, o volume de água também. IHU On-Line – O Aquífero Alter do chão é conhecido há pelo menos 50 anos, mas não se sabiam sua extensão e seu volume de água, por exemplo. Que dados permitiram o senhor chegar a esses valores? André Montenegro Duarte – Ele foi identificado na década de 1950 pelos poços de pesquisa de petróleo da Petrobras. Entretanto, não havia interesse econômico maior na exploração ou na codificação dessa água. A quantidade foi definida, ainda de maneira preliminar, pois existem alguns estudos complementares, de uns cinco anos para cá com os estudos que têm sido feitos aqui na universidade. Utilizamos dados cedidos pela Petrobrás e de outras pesquisas realizadas ao longo dos anos na região. A cidade de Manaus, por exemplo, é abastecida por este aquífero, assim como Santarém, outro município grande no oeste do Pará. Existem alguns poços perfurados operando e isso permite que tenhamos essas informações. IHU On-Line – As obras que estão sendo projetadas para a Amazônia podem ameaçar o Aquífero Alter do chão? André Montenegro Duarte – A água que está armazenada no Alter do Chão, com aproximadamente 84 quatrilhões de litros, duas vezes o volume do Aquífero Guarani, não será alterada por obras como uma barragem, hidrovia, pois está no subsolo. O que acontece em algumas obras com grandes áreas de desmatamento, é que provocam uma mudança no ciclo da água, que é o responsável pela recarga e manutenção do Aquífero ao longo desses milhões de anos. Em algum momento essa água será explorada, devido ao fato de ela tem um valor econômico muito grande, mas se não houver recarga, ficará insustentável. Então essas intervenções humanas causam problema não ao volume de água que está lá dentro, mas trazem a possibilidade de alterar o ciclo da água na região, prejudicando a manutenção do Aquífero. Como já citei, Manaus, Santarém e outras pequenas localidades já são abastecidas com esta água; mas é um volume muito pequeno em relação ao potencial do Aquífero. Sabemos, porém, que a água potável é um bem que está se tornando cada vez mais raro e escasso, por isso está sendo agregado grande valor econômico ao Aquífero, que já desperta o interesse de empresas de grande porte de todo o mundo. Elas estão inclusive adquirindo áreas na região para fazerem a exploração no futuro. Potencialmente tem um mercado muito grande. IHU On-Line – Mas há uma forma de preservar esse ciclo da água mesmo com a exploração? André Montenegro Duarte – Nós estamos fazendo alguns estudos que são uma tentativa de gestão e utilização dessa água de forma estacional e inteligente dando valor para a ideia de “não uso”. Ou seja, uma parte seria utilizada e outra preservada. E a essa segunda parte também se agrega valor. Existem posturas teóricas que precisamos implementar para que consigamos implementar estas questões de forma mais pragmática. IHU On-Line – O senhor pode nos explicar o que é o conceito de valor do “não uso”? André Montenegro Duarte – Vou te dar um exemplo real: a floresta tem valor quando um madeireiro corta a madeira e a vende. Ela tem também um grande valor quando essa madeira permanece lá, ou seja, em pé. A floresta preservada pode ter um valor de “não uso” muito maior. Um desses valores está ligado ao sequestro de não uso do CO2, hoje já se consegue auferir receita ou valor econômico para a preservação daquele espaço através desse processo. Hoje, existem mercado de resgate de CO2 que possibilita o “não uso”. A água também pode ter um valor de “não uso” agregado. O mais importante, nesse caso, é, principalmente, preservar o ciclo da água do que o reservatório em si. Para manter o Alter do Chão é preciso preservar o ciclo hidrológico e, para isso, é preciso ter um elemento compensatório. (EcoDebate)

Transposição do Rio São Francisco

Transposição do Rio São Francisco: uma jogada eleitoral.
Dois anos depois de nossa última conversa, Dom Cappio fala, na entrevista que concedeu à IHU On-Line, por telefone, sobre a situação atual das obras de transposição do rio São Francisco e como ele e os movimentos sociais estão trabalhando na luta contra o projeto. “O projeto segue adiante, mas não na velocidade prevista. Quem está trabalhando é praticamente só o exército. Quase todas as empresas deixaram o campo de obras por conta de atrasos em relação aos pagamentos e a falta de confiança nos recursos referentes ao projeto”, explica o bispo de Barra, na Bahia. Dom Cappio fala também da relação das eleições com os projetos que ele chama de ‘megalomaníacos’. “Não adianta ser contra alguma coisa e depois votar naquelas que estão levando adiante este projeto. Estamos fazendo um trabalho de conscientização popular para que o pessoal perceba que o nosso voto é responsável por todas essas loucuras que depois os governos fazem”, revela. Dom Luiz Flávio Cappio vive na Bahia, onde está à frente da Diocese de Barra. Em 2005 e 2007 fez greve de fome em protesto contra o projeto do governo federal de transposição do rio São Francisco. Em 2008, a organização Pax Christi Internacional (Bélgica) deu a Dom Cappio o prêmio da Paz do mesmo ano, por sua luta em defesa da vida na região do São Francisco. Em 2009, recebeu o Prêmio Kant de Cidadão do Mundo, da Fundação Kant (Alemanha). IHU On-Line – Em que estágio encontra-se a transposição do rio São Francisco? Qual a situação atual das obras? Dom Cappio – O projeto segue adiante, mas não na velocidade prevista. Quem está trabalhando é praticamente só o exército. Quase todas as empresas deixaram o campo de obras por conta de atrasos em relação aos pagamentos e a falta de confiança nos recursos referentes ao projeto. Temos notícias de que a obra está praticamente parada. Então, a situação hoje do projeto de transposição de águas do Rio São Francisco é caótica, já estamos no final dos prazos previstos e apenas 15% da obra foi executada. Serviços de infraestrutura junto àqueles que requerem maiores tecnologias nem sequer foram iniciados. IHU On-Line – A obra já começou. O senhor já vê alguma influência na vida do São Francisco? Dom Cappio – Por enquanto, ainda não significou muito na vida do rio e de quem depende dele. IHU On-Line – Em relação à resistência, onde estão os movimentos sociais e o movimento indígena? Dom Cappio – Os movimentos sociais, as universidades e a sociedade civil nunca se calaram, nunca ficaram parados. Agora mesmo estive na Europa participando de uma série de palestras, encontros e debates e vi que não apenas o Brasil, mas o mundo todo se levanta contra o projeto de transposição de águas e agora também contra o projeto de Belo Monte no Pará. São obras muito grandes de alto investimento de recursos públicos e praticamente baseados em uma tecnologia totalmente ultrapassada, então são recursos do dinheiro público investidos em tecnologias totalmente superadas. Isso nos causa uma indignação muito grande, principalmente porque sabemos que o projeto de transposição é totalmente eleitoreiro. O objetivo do projeto já foi alcançado, que era os recursos para o atual tempo de política eleitoral. Desta forma, os recursos já foram todos amealhados para a atual campanha. Se o projeto de transposição vai ou não adiante, isso é secundário, o importante para quem faz parte dessa jogada já foi conquistado. IHU On-Line – E o pessoal que apoiou a sua greve de fome? Dom Cappio – No debate dos presidenciáveis na Rede Viva, o Plínio de Arruda Sampaio, que é um dos mentores de todas essas lutas sociais, por várias vezes citou toda nossa luta contrária ao projeto de transposição. As grandes mobilizações continuam, só que a imprensa não divulga, a imprensa que está a serviço do poder simplesmente ignora as manifestações todas. Jamais a sociedade civil parou de se manifestar e de reagir, indignada diante do projeto. IHU On-Line – Em relação aos candidatos à presidência, apenas o Plínio se manifestou quanto à transposição? Dom Cappio – O Plínio é quem claramente se manifesta contra. Ele é a pessoa que, desde o início, com toda a clareza, se manifestou contrário ao projeto de transposição de águas do rio São Francisco. IHU On-Line – Como o senhor pretende se posicionar nas próximas eleições? Dom Cappio – Todos que lutam em defesa do rio São Francisco sempre dizem que não podemos apoiar de maneira nenhuma aqueles candidatos à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Senado e às câmaras de deputados que dão o seu aval a esse tipo de projeto, seja o de transposição de águas, seja o de Belo Monte e outros projetos similares. Nós não podemos, de forma nenhuma, apoiar estes políticos, porque uma coisa é você ter consciência ecológica e se manifestar contrário a projetos antiecológicos, antissociais e antieconômicos, e outra coisa é você votar em pessoas que apóiam estes projetos. Se nós somos contrários a estes projetos, não podemos de maneira nenhuma apoiar candidatos que são a favor, que são os promotores destas ideias. Eu não vejo muito futuro para esses projetos porque são megalomaníacos, imensos, grandes, que nunca terão fim, porque são obras que vão consumir muitos recursos públicos. Desde o início, temos avisado que estes projetos não vão chegar ao fim, são projetos eleitoreiros. Uma vez passada as eleições, o pessoal não vai estar nem aí se a obra vai adiante, se termina ou se não termina. Levar água para as comunidades irá depender dos governos estaduais e municipais e é utópico achar que estes vão fazer as partes complementares do projeto. Eu sou um homem público e o povo tem direito de saber o que o pastor pensa. No primeiro turno eu vou votar muito feliz porque vou de Plínio de Arruda Sampaio, que é uma pessoa íntegra, um cristão verdadeiro. Plínio foi um dos fundadores do PT e, assim como nós, também lutou pela implementação de um partido dos trabalhadores, desde o momento em que o PT se desviou dos ideais, se retirou do partido. Eu voto com muita felicidade, com muita alegria no primeiro turno para Plínio. Será um voto consciente dado com amor. No segundo turno, eu dou um voto com tristeza, porque não é um voto que eu gostaria de dar. Como provavelmente não teremos outra opção, vou votar no Serra, mas esta não é uma opção feliz, no entanto em Dilma eu não voto. IHU On-Line – Como chegaram aí as notícias de que o São Francisco pode comportar duas usinas nucleares? Dom Cappio – Este é outro projeto absurdo. Para quem vive aqui, quem conhece a realidade deste povo, estes projetos feitos por técnicos, que não conhecem o rio e o povo ribeirinho, entre quatro paredes, são completamente loucos, não condizem com a realidade. Projetos como esse, precisam ser discutidos com a sociedade civil, e esses projetos não são discutidos com a sociedade civil. O projeto de transposição não foi a debate, assim como o projeto de Belo Monte. Pelo contrário, todos os projetos encontraram reações tremendas diante da sociedade civil. A ideia de usinas nucleares no São Francisco simplesmente se impõe de maneira ditatorial, antidemocrática e terrível. IHU On-Line – O senhor tem conversado com a população ribeirinha sobre a transposição? Qual é o sentimento do povo? Dom Cappio – O povo se sente traído e se manifesta. Nós temos dito que é preciso fazer, agora, uma ligação entre essa indignação e os votos que serão dados no dia da eleição. Não adianta ser contra alguma coisa e depois votar naquelas que estão levando adiante este projeto. Estamos fazendo um trabalho de consciência popular para que o pessoal perceba que o nosso voto é responsável por todas essas loucuras que depois os governos fazem. IHU On-Line – O senhor considera que essa obra aumentará no futuro a popularidade de Lula no Nordeste ou funcionará ao contrário, ficará como uma herança maldita? Dom Cappio – Eu sempre digo que nós não perdemos por esperar. O tempo mostra a verdade de todas as coisas e ele vai mostrar o significado da nossa luta e o que foi, na realidade, o governo Lula para o Brasil. A verdade, com o tempo, aparece. Então, que nós, nessas eleições, possamos dar o nosso voto com muita consciência, sabendo que esse ato decide os destinos da nação. Um voto bem dado, uma nação feliz, um voto mal dado, infelicidade para todos. Que o povo brasileiro tenha muita consciência na hora em que for dar o seu voto. (Ecodebate)

Direito Universal à Água e ao Saneamento

Direito Universal à Água e ao Saneamento: Mais uma mONUmental hipocrisia.
“O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes”. Noam Chomsky Atenção, muita ateeeenção! A Assembléia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas – aprovou uma Resolução que diz que tanto o acesso à água potável como o acesso aos cuidados básicos de saúde são direitos humanos fundamentais. Não é piada: to falando sério! Colocaram o óbvio no papel: se, sem beber água, você morre em 3 dias, o acesso à água é um direito vital. Isso vai ficar catalogado na História dos Povos: um fato que ocorreu no Século XXI, após a Copa do Mundo de 2010. Nossa!, quem ficar sabendo disso, principalmente através da imprensa marrom, pensará que se trata de uma conquista magnânima! Coisa pra ser comemorada nos 4 cantos do Planeta. Mas, segurem as vuvuzelas, gente! A ONU fez mais um texto bonitinho, com o amém de 122 países. Estados Unidos, Austrália, Áustria, Canadá, Coréia do Sul, Dinamarca, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Israel, Japão, Luxemburgo e Suécia ficaram em silêncio; não votaram. Mas, também, o voto positivo deles não ia mudar nada. A humanidade ganhou mais um papel pra colocar na gaveta (ou no arquivo virtual). E pra gerar reuniões, eventos, discussões calorosas. Lembrei agora que, na Rio+10, realizada na África do Sul, 190 países prometeram reduzir à metade, até 2015, a população sem água potável e sem saneamento; e a restaurarem os recursos pesqueiros. No mesmo ano, em 27 de novembro de 2002, o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU declarou que o acesso à água era um direito humano indispensável; que a água era um bem público, social e cultural, um produto fundamental para a vida e a saúde e não um produto básico de caráter econômico. E exigiu que os países adotassem planos de ação nacionais para garantia desse direito. Mas isso não foi uma Resolução; foi um “Comentário Geral”, ou seja, uma interpretação das disposições do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais2. Nem Comentário Geral, nem Resolução vão ajudar a reduzir esses números. Regras como estas não obrigam ninguém a fazer nada: apenas pedem, sugerem, dão palpites, se não cumprir, fica tudo bem; não há castigo previsto em caso de descumprimento. E qual a nossa realidade, segundo dados da ONU? 900 milhões de terráqueos vivem sem água boa de beber. E a água poluída mata, principalmente nos países pobres. Enquanto a ONU brinca de criar regras, nossas crianças estão morrendo: a cada 3 segundos, morre 1 criança de doença veiculada pela água poluída (dados da OMS – Organização Mundial da Saúde). Isso não cabe debaixo do tapete! A coisa está fedendo! Vamos festejar o quê? (EcoDebate)

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