sábado, 3 de dezembro de 2011

Nenhuma empresa é totalmente sustentável

Nenhuma empresa é totalmente sustentável
O alemão Matthias Stausberg afirma que a sustentabilidade nas empresas deve ser um objetivo a longo prazo.
Para o alemão Matthias Stausberg, porta-voz do Pacto Global da ONU, é preciso separar as empresas que estão realmente comprometidas em ter uma atuação sustentável 'daquelas que tratam a responsabilidade corporativa como um exercício de relações públicas'.
O Pacto Global é uma plataforma que reúne companhias e tenta promover práticas empresariais mais sustentáveis com base em dez princípios nas áreas de meio ambiente, direitos humanos, trabalho e combate à corrupção. Empresas com atividades poluidoras ou que se baseiam em combustíveis fósseis, como a Petrobrás, também participam da iniciativa.
Para Stausberg, boa parte do mundo ainda depende do petróleo e as empresas do setor empregam milhões de pessoas e não vão desaparecer de um dia para o outro. 'Não há nenhuma empresa no mundo que possa dizer que é completamente sustentável', diz ele, que participa no sábado do Fórum Global de Sustentabilidade do festival de música SWU.
Quantas empresas estão engajadas hoje no Pacto Global da ONU e quantas são do Brasil?
No momento, temos cerca de 6,5 mil participantes corporativos em 135 países. Desse total, 265 dos signatários são do Brasil, o que torna os empresários brasileiros um dos maiores grupos na iniciativa.
Antes, as empresas faziam marketing com ações de responsabilidade social. Hoje, usam as ações de sustentabilidade para publicidade. Como avalia isso?
É importante separar as empresas que estão realmente comprometidas com negócios sustentáveis e mudanças positivas daquelas que tratam a responsabilidade corporativa como um exercício de relações públicas. Felizmente, ONGs e o público em geral têm exposto as empresas cujos compromissos não são sinceros. Está mais difícil encobrir negócios questionáveis com o trabalho superficial de relações públicas.
É um paradoxo uma empresa como a Petrobrás, que tem lucro com base em combustível fóssil, fazer parte do Pacto Global?
Apreciamos muito a liderança da Petrobrás em nossos avanços no Brasil e além. Mas a verdade é que a sustentabilidade é um objetivo de longo prazo. De fato, não há nenhuma empresa no mundo que possa dizer que é completamente sustentável. Além disso, boa parte do mundo depende de combustíveis fósseis. Mais de 1,4 bilhão de pessoas não têm acesso à energia, e as projeções indicam que a demanda deve dobrar nos próximos anos. É a realidade com a qual temos de conviver. De acordo com essas tendências, temos de trabalhar com todas as fontes de energia, enquanto continuamos nos esforçando para melhorar a eficiência energética e aumentar a participação de energias limpas. O Brasil já é um líder nessa área. Outro ponto importante é que empresas de gás e petróleo empregam milhões de pessoas e investem significativa quantidade de capital. Elas não vão desaparecer de um dia para o outro. O Pacto Global trabalha ativamente com elas para garantir que suas operações sejam mais sensíveis aos desafios ambientais e sociais e para ajudá-las a reduzir seus impactos negativos.
O que falta para as empresas serem mais atuantes?
Em muitos casos, ações transformadoras e soluções por parte das empresas com a capacidade de causar impactos profundos na áreas como eficiência energética, redução de emissões e segurança hídrica já existem. Mas, atualmente, elas não são apoiadas de forma a permitir que sejam realizadas.
Qual é a importância de abordar essas questões em eventos como o SWU?
No fim das contas, a sustentabilidade realmente 'começa com você'. São as nossas visões, escolhas e preferências que decidem o sucesso ou falência de um negócio, levam ao desenvolvimento de produtos e podem mover mercados inteiros. No entanto, na maioria das vezes, as pessoas ficam muito passivas, há uma falta de consciência. Precisamos atingir esse vasto público e o SWU parece uma excelente oportunidade para isso. (OESP)

'Nossas cidades são sustentáveis'

“Todo mundo fala de crescimento desordenado porque a cidade aparenta ser caótica e sem controle. Mas, na verdade, essa aparente desordem é como ela se organiza, se configura de fato”, explica Luciana Ferrara à IHU On-Line ao comentar a insustentabilidade das cidades brasileiras.
Historicamente, os investimentos destinados à habitação favoreceram o financiamento da casa própria para a classe média, acentuando a desigualdade social e favorecendo o crescimento urbano de baixa qualidade. Na avaliação da arquiteta e urbanista Luciana Ferrara, essa situação gera uma contradição: “Quando se melhora um espaço, ele se valoriza, promovendo um ciclo de expulsão das famílias mais pobres em direção as bordas. (…) Compete, nessa disputa por espaço urbano entre áreas valorizadas e infraestruturadas, um mercado imobiliário atuante, um setor que consegue adquirir e transformar esse espaço numa velocidade assustadora”.
A discussão da sustentabilidade e da qualidade urbana e ambiental das cidades é também, na avaliação de Luciana, uma discussão de justiça social urgente em um contexto de mudanças climáticas. “A ideia de cidade sustentável não pode incentivar a implantação de alternativas inteligentes e interessantes concentrada em centros infraestruturados, onde já existe qualidade urbana para uma determinada parcela da população. E não deve basear-se na crença de que somente a inovação tecnológica pode nos ‘salvar’ dos desastres ecológicos, ou que um capitalismo limpo e verde é a solução. Considero que pensar a cidade sustentável passa por uma crítica radical de como a cidade está sendo produzida hoje”.
Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Luciana comenta as políticas públicas brasileiras destinadas à habitação, especialmente o programa Minha Casa, Minha Vida. “Apesar de se tratar de avanço importante em termos de financiamento, não temos visto uma melhoria na qualidade urbanística desses empreendimentos. E as empresas de construção visam o lucro, acima de qualquer coisa. Estão sendo construídos conjuntos habitacionais em áreas periféricas”.
Luciana Ferrara possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo – USP e está cursando doutorado na Pós Graduação da FAUUSP na área de Tecnologia da Arquitetura. É pesquisadora do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da FAUUSP – LabHab FAUUSP.
IHU On-Line – Como vê o planejamento urbano no Brasil ao longo da história do país? Quais foram os grandes impasses na área da habitação e quais são os desafios para os próximos anos?
Luciana Ferrara – Entendo o planejamento urbano como discurso e atuação prática do Estado, e essa forma de atuação se transformaram ao longo da história. Mas uma das características que permanece até hoje é que a ação do Estado via planos, leis e investimentos favorece em grande medida grupos de maior poder econômico e político, e não a população em geral, de baixa renda, que tem dificuldade de acesso à moradia e aos serviços e equipamentos urbanos. Alterar as prioridades de ação do Estado sempre foi uma disputa política entre os diferentes agentes que atuam na produção do espaço urbano. Combater a desigualdade socioeconômica, que gera uma cidade segregadora, está para além da atividade do planejamento. Mas, se o planejamento urbano não compreender e não enfrentar essa questão de base, será difícil visualizar um melhor futuro para as cidades e para as pessoas. Em termos de elaboração de planos, houve avanços nesse campo, embora ainda haja pouca transformação na prática.
Muitos autores que estudam o urbano identificam que um marco histórico nesse sentido é a Lei de Terras, de 1850, que definiu que a forma de acesso a terra se daria por meio de compra e venda. Então, estabeleceu-se um mercado de terras que excluiu, por exemplo, os escravos libertos. A propriedade privada da terra tornou-se a medida da riqueza, que antes era a posse de escravos. É importante frisar que, quando foi promulgada essa lei, muitos latifúndios já tinham sido formados. Temos aí uma das origens da segregação socioespacial.
A partir do século XIX, com a Proclamação da República, a migração, a substituição do trabalho escravo, a industrialização incipiente constitui-se também uma elite cafeeira. Nesse momento, as intervenções urbanas tiveram forte influência de urbanistas estrangeiros e a tônica predominante era o embelezamento das cidades sob o ideário da cidade moderna. Para implementar esse tipo de intervenção, era preciso retirar os pobres dos espaços centrais. Por exemplo, o código de posturas de São Paulo (de 1886) e do Rio de Janeiro (de 1889) tinham uma postura moralizante e não aceitavam a permanência de cortiços em áreas centrais sob o argumento de que era preciso sanear e limpar a cidade.
Além disso, com o crescimento urbano acelerado, o saneamento tornou-se de fato um problema a ser enfrentado e tratado na escala urbana. Surgem grandes planos de saneamento encabeçados pelo engenheiro Saturnino de Brito em várias cidades do Brasil, como São Paulo, Santos, Recife.
Investimentos do século XX
Em outro contexto econômico e político, já no século XX, os problemas urbanos passaram a ser tratados a partir do ponto de vista técnico. Essa visão tem seu apogeu na década de 1960 e 1970, com os grandes planos, baseados numa visão de pesquisa científica sobre as cidades. Esses planos foram financiados pelo Serviço Federal de Habitação e Urbanismo e envolviam importantes profissionais. Entretanto, a aplicação não aconteceu, como mostrou o professor Flavio Villaça. Em função do contexto político do regime militar, muito do que era feito nas cidades passava por decisões centralizadas e voltadas para a realização de grandes obras. O país queria se constituir como uma força econômica. Então, os investimentos foram canalizados para isso.
Ainda nesse período, foi criado o Banco Nacional de Habitação – BNH e o Sistema Financeiro de Habitação – SFH, que conduziram a política habitacional e de saneamento de grandes obras em nível nacional. Em termos de política habitacional, o BNH foi um marco, apesar de que algumas experiências anteriores já terem trabalhando com a produção de conjuntos habitacionais. A crítica central ao BNH, já trabalhada por diversas pesquisas, mostra que quem usufruía do financiamento era a classe média, e não as classes populares, que precisavam de mais subsídios. Quando se construía para baixa renda, era em grandes conjuntos monofuncionais e periféricos.
Luta pela habitação
Com a abertura política e o fim da ditadura, emergiram vários movimentos sociais, movimentos pela reforma urbana lutando pelas demandas populares, que foram incorporadas na Constituição e somente foram regulamentadas em 2001, como o Estatuto da Cidade. Durante os anos 1980 e 1990, esses movimentos reivindicaram urbanizações de favelas, construção por mutirão, novas moradias, regularização fundiária.
Em 2003, foi criado o Ministério das Cidades, dando início a outro marco importante. Isto porque, desde o fim do BNH até a criação do Ministério das Cidades, os investimentos habitacionais eram feitos pelos estados e municípios. Com a criação do Ministério das Cidades, retomou-se a intenção de que o governo federal poderia viabilizar financiamento para os estados e municípios, e também dar as diretrizes gerais das políticas urbanas setoriais. Em seguida, esse ministério promoveu uma campanha para a elaboração de planos diretores participativos em municípios com população acima de 20 mil habitantes, inclusive com financiamento. A crítica do “plano de gaveta” estava consolidada e contava-se que a participação da sociedade poderia promover processos mais democráticos de planejamento.
Hoje está em processo de avaliação os 10 anos de aplicação do Estatuto da Cidade. Há três anos foi feita uma pesquisa nacional sobre os planos diretores, promovida pelo Ministério das Cidades. Percebemos que, de um modo geral, nas cidades em que se conseguiu avançar na discussão pública dos seus planos, a população tem mais informação e, portanto, mais possibilidade de reivindicar seus direitos e projetos. Por exemplo, no processo de revisão do Plano Diretor, a prefeitura de São Paulo tentou tirar várias áreas que haviam sido delimitadas como Zonas Especiais de Interesse Social – ZEIS, as quais visam garantir habitação social em áreas delimitadas, na primeira versão do Plano Diretor participativo. Isso gerou um conflito muito grande, pois setores populares e técnicos se mobilizaram para impedir a mudança.
Por outro lado, mais uma vez, ainda que em outro contexto, percebemos avanços técnicos e poucos avanços em termos de aplicação. O Estatuto das Cidades é uma lei conhecida até no exterior, mas a aplicabilidade dela e do Plano Diretor é muito conflituosa, por uma série de motivos. Um deles é encarar a disputa pelo espaço urbano. Essa disputa envolve os diferentes interesses econômicos, como o capital imobiliário, e uma demanda social gigantesca. Isso transparece na elaboração do plano, nas decisões que ele contém. Para se implementar instrumentos de controle do uso especulativo da terra, por exemplo, há que se enfrentar essa disputa, e muitas vezes isso não é feito.
Um problema de outra natureza se refere à apropriação dessa ferramenta pelas próprias prefeituras. Muitas vezes, o corpo técnico do poder público fica refém dos interesses políticos locais e não consegue transpô-los.
O plano diretor também pode ser entendido como uma esfera de disputa política, mas ainda mais é uma disputa fazê-lo valer. É uma disputa por visões de cidade, pelo uso dos espaços da cidade. Por isso a importância dos movimentos organizados, populares, nesses processos.
IHU On-Line – Quais são as razões e as consequências do crescimento desordenado das cidades brasileiras e da ausência de alternativa habitacional para parte da população de baixa renda?
Luciana Ferrara – Todo mundo fala de crescimento desordenado porque a cidade aparenta ser caótica e sem controle. Mas, na verdade, essa aparente desordem é como ela se organiza, se configura de fato. Dizer que a cidade é desordenada é uma ideologia, porque não é à toa que o crescimento de favelas e da autoconstrução, frente à insuficiente política habitacional pública estatal, tornou-se a solução de moradia da maioria da população. Essa insuficiente política é a própria política, e quem não é contemplado por ela se vira como pode.
Uma das consequências do crescimento urbano é a desigualdade de qualidade e oportunidades em áreas valorizadas em processo de valorização ou não da cidade. Entre 1990 e 2000, as maiores taxas de crescimento populacional ocorreram no limite da mancha urbanizada, nas áreas que são mais sensíveis do ponto de vista ambiental, em alguns municípios com menos recursos para lidar com esse crescimento. Compete, nessa disputa por espaço urbano entre áreas valorizadas e infraestruturadas, um mercado imobiliário atuante, um setor que consegue adquirir e transformar esse espaço numa velocidade assustadora – a verticalização da cidade de São Paulo mostra isso.
Os espaços ocupados pela população de baixa renda, em geral, têm uma qualidade muito ruim, tanto os periféricos como os centrais. A contradição maior é que, quando se melhora um espaço, ele se valoriza, promovendo um ciclo de expulsão das famílias mais pobres em direção às bordas. Os terrenos que estão na periferia, com preços mais acessíveis se comparado as áreas centrais, não têm infraestrutura. A população ocupa áreas de fragilidade ambiental, como margem de córregos, topos de morro, porque não tem recursos para comprar ou alugar locais melhores. Depois de ocupados, cria-se um mercado informal de aluguel e venda dentro das favelas e loteamentos informais. Então há diferentes valores dependendo da localização da favela, por exemplo. O espaço urbano é uma mercadoria lucrativa, em contextos formais e informais. Após muitos anos, as áreas se consolidam e o poder público precisa então investir em urbanização e regularização fundiária.
IHU On-Line – Teria como adequar toda a população em áreas habitáveis e não perigosas?
Luciana Ferrara – Existem várias alternativas habitacionais que precisam ser implantadas em conjunto, formando uma política habitacional. Enquanto se produz um centro valorizado, produz-se, ao mesmo tempo, uma periferia precária. Uma das formas de lidar com isso é reivindicar habitação em áreas centrais, o que o movimento de moradia faz há anos, sob muita repressão. O Brasil tem um déficit habitacional tanto de demanda por novas unidades como por inadequação habitacional, ou seja, habitações que precisam de melhorias. Ao mesmo tempo, o país dispõe de uma grande quantidade de domicílios vazios. Portanto, é preciso trabalhar em diversas frentes simultaneamente; não há uma única solução. Além da construção de novos conjuntos e urbanização de favelas, existem a locação social, a recuperação de edifícios abandonados (e com dívida, que a prefeitura pode negociar), a reabilitação de cortiços, o uso misto em edifícios e exigência de construção de HIS como contrapartida de grandes empreendimentos. Enfim, existem várias formas de trabalhar dentro do tecido urbano.
IHU On-Line – Quais são os principais desafios em relação à moradia e ao planejamento urbano em uma época de mudanças climáticas e preocupações ambientais? Em que consistiria um projeto de habitação adequado, considerando-se a conjuntura atual de mudanças climáticas?
Luciana Ferrara – Essa questão atinge várias escalas. As mudanças climáticas tendem a aumentar os eventos extremos, o que no caso do Brasil poderá intensificar problemas que já existem há muito tempo. Na escala das cidades, das metrópoles, as chuvas intensas, por exemplo, irão afetar em maior grau as ocupações de áreas de risco ambiental, de inundação ou deslizamento, ou seja, a população que vive em áreas vulneráveis. Por isso essas ocupações demandam maior atenção do poder público, que precisa remover famílias e destiná-las a um adequado atendimento habitacional.
Esse tratamento também deve abranger a expansão da ocupação sobre áreas de proteção ambiental, como as áreas de proteção aos mananciais, que precisam ser tratadas de forma abrangente integrando, de um lado, moradia e recuperação ambiental nas áreas ocupadas e, de outro, promovendo usos compatíveis com a manutenção da vegetação nas áreas ainda não ocupadas.
Nós vivemos em uma sociedade de consumo exacerbado e isso se relaciona com modelos urbanos que nós adotamos. Se pensarmos na emissão de poluentes nas cidades, além das indústrias e do desmatamento, temos que enfrentar o modelo do transporte individual. O modelo rodoviarista é totalmente prejudicial, porque ele aumenta a poluição do ar, além do trânsito que interfere na mobilidade das pessoas e gera uma vida urbana bastante penosa.
Outros problemas são as formas como o solo tem sido utilizado e impermeabilizado; o mau gerenciamento da drenagem urbana; o não tratamento integral dos esgotos que geramos, fazendo com que os rios sejam canais de condução de esgotos e não espaços de fruição e de lazer para a população. Essas são questões a serem enfrentadas pela discussão da qualidade urbana e ambiental nas cidades. Elas estão na ordem do dia, e o debate sobre as mudanças climáticas faz com que a atenção à questão ambiental se intensifique. Porém, no contexto das cidades brasileiras, todas essas questões são, antes, questões sociais e precisam ser tratadas, considerando-se a noção de justiça social.
IHU On-Line – É possível pensar no planejamento de cidades sustentáveis? Que aspectos seriam fundamentais na elaboração desse projeto?
Luciana Ferrara – Nossas cidades são insustentáveis por causa de todos esses problemas que mencionei anteriormente. Portanto, pensar no planejamento de cidades sustentáveis não consiste em reivindicar projetos pontuais, por mais que reivindicar ciclovias, buscar minimizar impactos do trânsito e da poluição, etc., sejam importantes. Temos de promover uma distribuição e uso do solo urbano que seja menos predatória, ou seja, ter possibilidades de associar, nos projetos habitacionais, uma maior qualidade ambiental, em vez de fazer grandes conjuntos isolados na periferia. Além disso, os conjuntos habitacionais precisam ter qualidade ambiental, precisam ter praça, parque, equipamentos, precisam estar conectados de uma forma eficiente com meios de transporte para os centros urbanos, com os locais de trabalho das pessoas. A ideia de cidade sustentável não pode incentivar a implantação de alternativas inteligentes e interessantes concentrada em centros infraestruturados, onde já existe qualidade urbana para uma determinada parcela da população. E não deve basear-se na crença de que somente a inovação tecnológica pode nos “salvar” dos desastres ecológicos, ou que um capitalismo limpo e verde é a solução. Considero que pensar a cidade sustentável passa por uma crítica radical de como a cidade está sendo produzida hoje.
IHU On-Line – Existem algumas pesquisas da USP que propõem que o planejamento urbano das cidades seja feito a partir das bacias hidrográficas para recuperar as águas dos córregos. Você participou de algum projeto com esse viés? Pode nos falar sobre ele? Em que consiste e quais suas vantagens?
Luciana Ferrara – Sim. A bacia hidrográfica como unidade de planejamento, gestão, principalmente de recursos hídricos, é um elemento presente na legislação brasileira que trata do assunto. A pesquisa que participei foi coordenada pela professora Maria Lúcia Refinetti, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e desenvolvida no Laboratório de Habitação. Envolveu várias prefeituras situadas em áreas de proteção aos mananciais e o Ministério Público. Nós trabalhamos com municípios ao sul da Região Metropolitana de São Paulo, que enfrentavam o problema da irregularidade urbanística e fundiária de loteamentos populares irregulares e favelas nas bacias das represas Guarapiranga e Billings, que servem de abastecimento público de água e onde hoje moram 1 milhão e 600 mil pessoas.
Nós trabalhamos com a questão de articular soluções habitacionais, de infraestrutura e regularização fundiária, visando melhorar a qualidade habitacional das pessoas que já estão lá e, ao mesmo tempo, reduzir o impacto da ocupação na qualidade da água.
São Paulo teve um programa de urbanização inaugural nesse sentido, formulado em 1989 e iniciado em 1992, que é o programa Guarapiranga. Ele existe até hoje e abrange também as ocupações na Billings. Esse programa visava a urbanização de favelas para melhorar a qualidade de vida dos assentamentos precários e reduzir os esgotos jogados diretamente nas represas. A partir de uma leitura crítica dessa experiência, vimos que a realização de obras de urbanização foram fragmentadas e não geravam as melhorias pretendidas em termos de qualidade da água. Por isso seria mais proveitoso adotar como unidade de projeto e de intervenção a microbacia hidrográfica, que corresponde à área de drenagem de um córrego ou de um conjunto pequeno de córregos. Com essa unidade de planejamento, conseguir-se-ia aferir a qualidade da água e ter um controle ambiental do resultado das obras de urbanização. E foi nesse sentido que a pesquisa do LabHab trabalhou. Em seguida, a experiência foi sistematizada no livro de autoria da professora Maria Lúcia Refinetti, que se chama Moradia e Mananciais: tensão de diálogo na metrópole, o qual está disponível na internet no site do laboratório.
IHU On-Line – Como é possível enfrentar a precarização habitacional no Brasil? Que políticas públicas seriam necessárias?
Luciana Ferrara – Existe, em nível nacional, o Plano Nacional de Habitação, a estruturação de um Sistema Nacional de Habitação e de um Fundo Nacional de Habitação do qual podem participar os estados e municípios, desde que tenham seus planos de habitação. Os municípios precisam estruturar sua política habitacional para que ela perdure. Se há um sistema de gestão, de planejamento e de financiamento, as possibilidades de se ter uma política habitacional contínua é maior, ficando assim menos frágil às mudanças de orientação política das gestões.
A política municipal de habitação define programas, formas de gestão e financiamento. Para enfrentar a heterogeneidade dos problemas habitacionais, é preciso ter uma variedade de alternativas e programas para situações urbanas diferenciadas. No centro, por exemplo, existem situações de cortiço, favelas, edifícios vazios que podem ser recuperados e transformados em habitação popular; na periferia há áreas sem infraestrutura, áreas com infraestrutura que precisam ser melhoradas, etc. Há a possibilidade de se fazer locação social financiada pela prefeitura para viabilizar que as famílias habitem próximo aos seus lugares de trabalho. Ou seja, é preciso um “cardápio” de alternativas e soluções que precisam ser implementadas simultaneamente, dependendo das necessidades sociais e habitacionais de cada município.
IHU On-Line – Em relação à moradia social, o governo brasileiro investe em programas como Minha Casa, Minha Vida. Como vê essas políticas públicas de assistência à moradia social? Elas garantem o acesso a uma habitação adequada?
Luciana Ferrara – Em paralelo à formulação do Plano Nacional de Habitação e da estruturação do Sistema Nacional de Habitação, o governo lançou o programa de financiamento Minha Casa, Minha Vida, anunciado como uma medida de duplo objetivo: medida anticrise econômica e medida social.
O financiamento do MCMV se estrutura por faixas de renda e contém uma novidade importante que é o subsídio para famílias que têm uma renda entre zero e três salários mínimos. Acima de três salários mínimos o financiamento é voltado para a habitação de mercado, ou seja, muitas empresas que antes não trabalhavam com a provisão de habitação de baixa renda, hoje estão produzindo com o financiamento do Estado.
Do ponto de vista urbanístico, o foco da crítica recai sobre o modelo de ocupação do que está sendo construído. Em São Paulo, por exemplo, praticamente não existem mais grandes terrenos nos bairros centrais e onde o preço é muito mais alto. Por isso as empresas têm adquirido grandes terrenos muito distantes ou pouco conectados com a malha urbanizada. Ou seja, estamos reproduzindo o modelo dos grandes conjuntos monofuncionais criticados desde o BNH. Apesar de se tratar de avanço importante em termos de financiamento, não temos visto uma melhoria na qualidade urbanística desses empreendimentos. E as empresas de construção visam o lucro, acima de qualquer coisa. Estão sendo construídos conjuntos habitacionais em áreas periféricas, inclusive em cidades em que ainda há terrenos propícios de serem edificados próximos ao centro, mas isso não está sendo feito. Recentemente, as normas que regem o MCMV têm admitido novas possibilidades, como a construção de edifícios mistos (com comércio no térreo). Mas ainda não se vê uma mudança qualitativa na produção, e isso vale para o país inteiro. (EcoDebate)

Identificando produtos mais sustentáveis

O consumidor ainda encontra dificuldades na identificação de produtos sustentáveis, mesmo já tendo demonstrado disposição de pagar até mais por tais produtos. Se você é um dos que duvidam ou que já tiveram más experiências, fique atento para algumas orientações para não levar, como diz o ditado, gato por lebre, ou seja produtos que tentam se passar por sustentáveis, mas não são.
1. Prefira produtos produzidos em sua região: de forma prática, primeiramente, coloque-se na posição de São Tomé: ver para crer. Comece pela etiqueta que informa a origem do produto e verifique sua procedência. Prefira os produzidos em sua região. Evite comprar similares fabricados em outros países. Ao comprar produtos de outros países, reduz-se o recolhimento de impostos municipais e estimula-se o desemprego e a falta de serviços e infraestrutura pública.
2. Confira a composição do produto: verifique se o que está sendo dito na frente do produto realmente consta em sua composição e você poderá ter interessantes surpresas. Se, por exemplo, estiver comprando um pão-de-queijo, confira na sua composição se ele realmente tem queijo.
3. O que importa é o conteúdo, não a embalagem: não se deixe levar pela embalagem, se é reciclada ou não. Isso, neste momento de análise, não é importante. O que é importante é saber se o produto é agressivo à sua saúde e à de sua família. Uma prática que está se tornando comum é reduzir embalagens e aumentar o porcentual reciclado para estimular a venda desses produtos como “mais sustentáveis”. Cuidado! Nessa lista existem produtos nada ecologicamente amigáveis e outros agressivos à saúde humana.
4. Selos Verdes são uma boa indicação: uma maneira de ajudar a identificação de produtos sustentáveis é por meio dos chamados Selos Verdes, como o selo Procel para eletrodomésticos e eletrônicos, o FSC e CERFLOR para madeiras e papéis e o SustentaX para produtos e serviços sustentáveis. Na área de orgânicos existem o IBD e EcoCert, dentre outros. Os selos são uma forma de mostrar ao mercado que passaram por análises rigorosas para a sua obtenção.
5. Fique atento à “picaretagem verde”: identifique as estratégias usadas para passar por sustentáveis, produtos que não o são. Os principais golpes usados são:
a) Selos emitidos pelos próprios fabricantes;
b) Termos genéricos como 100% natural, 100% ecológico, eco, amigo da natureza (eco-friendly) e variações do tipo;
c) Informações que não permitem sua comprovação clara e imediata. Como, por exemplo, informar que um produto, como sabão em pó, pode reduzir o consumo de água; ou então um amaciante economizar energia;
d) Informações redundantes, como testes e dados que já são obrigatórios por lei, como detergentes que colocam “testados dermatologicamente” ou azeites com zero de colesterol;
e) Excesso de imagens da natureza: reparem se há muito verde ou imagens de animais;
f) Falar que o produto é “neutralizado” em carbono. Desconfie da simples neutralização que não torna o produto sustentável. A neutralização é válida após a revisão e efetiva redução dos impactos ambientais da cadeia produtiva. É o final e não o começo;
g) Produtos concentrados. Só porque foi retirada a água do produto não o torna “verde”. É importante que ele não faça mal à saúde. Outra estratégia do concentrado é deixar a tampinha dosadora do mesmo tamanho da do não concentrado para estimular o maior consumo!
h) “Sem cheiro”. O importante é o fabricante demonstrar que o produto apresenta baixa toxidade, por critério reconhecido. É muito comum o “sem cheiro” e escrito bem pequeno (depois de “X” horas”), não informando que a tinta é tóxica para os operários e mesmo para os ocupantes.
Caso os produtos não apresentem selos de sustentabilidade, procure pelos cinco atributos essenciais de sustentabilidade:
1. Salubridade: evite produtos com odores (normalmente esses odores decorrem de componentes orgânicos voláteis, substâncias tóxicas que podem fazer mal à saúde).
2. Qualidade: procure por produtos com qualidade comprovada. Nem todas as tintas são iguais, por exemplo. Várias não têm teste de aderência e, a primeira vez que você for fazer uma limpeza, pode sair na esponja.
3. Responsabilidade social: questione a procedência. Por exemplo, se for comprar uma areia em uma loja de construção pergunte qual a origem. Exija que venha de uma empresa confiável, sem trabalho infantil ou escravo. A regra vale também para cosméticos, roupas…
4. Responsabilidade ambiental: questione a procedência. Por exemplo, ao comprar objetos de madeira pergunte sobre a legalidade.
5. Comunicação responsável: procure por marcas nas quais você identifica ética e genuinidade na comunicação.
O Grupo SustentaX criou, em 2007, o Selo SustentaX de Garantia de Qualidade e Sustentabilidade para identificar para os consumidores produtos sustentáveis.
No site www.SeloSustentaX.com.b há uma lista com produtos que já possuem o Selo SustentaX. Além disso, está disponível para downloads gratuitos o Guia SustentaX de Comunicação Responsável com o Consumidor.
O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – Conar (www.conar.org.br) também publicou recentemente novas normas para publicidade com apelos de sustentabilidade. Assim, se encontrar anúncios que julgue que estejam utilizando maquiagem verde, denuncie. (EcoDebate)

Brasil é o 4º país com mais prédios sustentáveis

Mesmo com sua paisagem cinzenta e repleta de concreto, São Paulo está cada vez mais verde. Bem, pelo menos os prédios estão. A cidade já tem atualmente 28 empreendimentos sustentáveis com certificações Leed (Liderança em Energia e Design Ambiental, na sigla em inglês), concedidas pela Green Building Council Brasil há quatro anos a projetos ambientalmente corretos. Esse número pode crescer ainda mais nos próximos anos, já que ainda há outros 250 edifícios em processo de certificação pela entidade.
Para ganhar o título, o empreendimento precisa adotar conceitos de sustentabilidade, como reaproveitamento de energia, uso eficiente da água e utilização de materiais ecologicamente corretos na construção. Muitos prédios paulistanos, por exemplo, já investem até 10% de seu orçamento em ações inteligentes, como o uso de equipamentos economizadores de água, elevadores com um mecanismo que recupera a energia durante as frenagens, reciclagem de lixo, estacionamento com vagas preferenciais para veículos movidos a álcool e até o uso de energia elétrica proveniente de pequenas centrais hidrelétricas.
Com o crescente interesse nesse tipo de edifício, São Paulo está fazendo com que o País já ganhe de fato relevância no tema no cenário internacional. Atualmente, o mercado brasileiro já ocupa o quarto lugar no ranking de maior número de prédios verdes certificados. Com 37 edifícios nessa categoria e outros 367 em processo de certificação, o País fica atrás só dos Estados Unidos, Emirados Árabes e China.
Prêmio. Esses edifícios verdes já contam até com um prêmio só para eles. Na semana passada, a Green Building Council Brasil divulgou os vencedores da primeira edição de sua premiação voltados exclusivamente para as construções sustentáveis. O Eldorado Business Tower, prédio na zona sul paulistana projetado pelo escritório Aflalo & Gasperini, por exemplo, ganhou como 'empreendimento sustentável'. Ele já havia recebido a certificação Leed em 2006. Com diversas ações em sua construção - como o tratamento e aproveitamento das águas de condensação do ar-condicionado para o uso na irrigação de áreas verdes -, o prédio consegue hoje atingir 50% de economia de água e 30% de economia em energia.
A Green Building Council Brasil também premiou o arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) Siegbert Zanettini, responsável por 1,2 mil projetos feitos em mais de 5 milhões de metros quadrados. É seu, por exemplo, o desenho da Panamericana Escola de Arte e Design em São Paulo.
'O objetivo do prêmio é de fato divulgar ainda mais a importância dos edifícios sustentáveis, mostrar que é possível fazer construções preocupadas com o ambiente', diz Marcos Casado, gerente técnico do
Green Building Council Brasil. (OESP)

O maior evento sobre desenvolvimento sustentável

Brasil sediará maior evento sobre desenvolvimento sustentável do mundo
A Conferência Rio+20, que ocorrerá na área do Porto do Rio de Janeiro de 28 de maio a 6 de junho de 2012, é um dos principais temas das conversas que a presidenta Dilma Rousseff vem mantendo com autoridades estrangeiras. A maior conferência mundial sobre preservação ambiental, desenvolvimento sustentável e economia verde deverá definir um novo padrão para o setor. Mais de cem presidentes da República e primeiros-ministros estarão presentes.
Vários países se mobilizam em debates paralelos a menos de um ano da conferência. Em Nova York, no próximo dia 25, haverá uma discussão de alto nível sobre o assunto. Na Indonésia, ainda este mês, o tema é o desenvolvimento sustentável, enquanto em setembro os alemães querem debater a responsabilidade social das cidades no contexto do desenvolvimento sustentável.
“A Rio+20 é tema constante em todas as conversas e viagens”, disse o subsecretário-geral de Energia e Alta Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado. “Não se trata [apenas] de uma conferência ambiental, mas de desenvolvimento sustentável envolvendo vários temas afins, como as questões sociais e um modelo para a governança global.”
A Rio+20 ocorrerá duas décadas depois de outra conferência que marcou época, a Rio 92. A ideia é definir um modelo internacional para os próximos 20 anos com base na preservação do meio ambiente, mas com foco na melhoria da qualidade de vida a partir da erradicação da pobreza, por meio de programas sociais, a economia verde e o desenvolvimento sustentável para uma governança mundial.
De acordo com o embaixador, cerca de 45 mil pessoas deverão estar envolvidas nas discussões e na organização da cúpula. A conferência conta com o apoio e o comando da Organização das Nações Unidas (ONU). O secretário-geral do evento é o diplomata chinês Sha Zukang. A presidenta da conferência é Dilma Rousseff.
No mês passado, uma comissão nacional foi criada especialmente para organizar a Rio+20. O comando do grupo está nas mãos dos ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores) e Izabella Teixeira (Meio Ambiente). Mas especialistas de vários setores vão participar, assim como representantes do governo e da cidade do Rio de Janeiro. (casavivaconceito)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sinais de mudanças climáticas a olho nu

"Isso não era para estar assim", comenta o guia nepalês Nara Bhujel, olhando incomodado para a névoa que encobre nossa trilha a caminho do Monte Everest, no Parque Nacional do Sagarmatha, no Nepal. "Nessa época, já era para o céu estar limpo." É 12 de novembro e estamos passando por uma floresta de cascatas semicongeladas entre as vilas de Khunde e Dhole, a quase 4 mil metros de altitude. Felizmente, foi um dos poucos dias de tempo fechado que tivemos nas duas semanas de caminhada até o Acampamento-base do Everest. Nos outros dias, céu azul e sol forte o tempo todo, com quase nenhuma nuvem no céu e paisagens incríveis despontando a cada curva. O que também não deixa de ser estranho. Tantos dias seguidos de tempo bom não costuma ser a regra.
Pode ter sido sorte. Pode ter sido o aquecimento global.
Na paisagem iluminada pelo Sol, os sinais de mudança climática se tornam evidentes. "As montanhas costumavam ter muito mais neve. Não tinha tanta rocha exposta", diz a guia da expedição, Andrea Cardona, que já fez a trilha até o Everest 14 vezes nos últimos anos. Um comentário que eu ouvi de vários moradores locais, ao longo de um mês caminhando pelas trilhas montanhosas do Nepal.
A impressão geral entre os povos tradicionais das montanhas é de que o clima "enlouqueceu" de uns dez anos para cá. Os invernos não são mais tão frios como costumavam ser. A quantidade de neve diminuiu. A chuva não cai mais quando costumava cair. As plantas estão florescendo fora de época. E várias nascentes estão secando.
"Antes, na minha vila, a neve vinha até aqui. Agora, só vem até aqui", afirma Bhujel, apontando primeiro para o seu joelho e depois, para o seu tornozelo. "Está tudo errado", resume o colega Dorji Tamang, que trabalha com expedições na região há mais de dez anos. "Não dá para prever mais nada."
No Parque Nacional de Langtang, ao norte de Katmandu, a história é bem semelhante. Tão semelhante que os moradores parecem ter combinado suas falas. "Quando a gente planta, não chove nada. E depois que a gente colhe, chove um montão", relata Tensing Lama, da vila de Langtang, um enclave de agricultores e mochileiros espremido entre duas fileiras de picos nevados no centro do parque, a 3,5 mil metros de altitude.
O resultado prático é que as plantações de batata - item básico de sobrevivência na dieta das montanhas - não se desenvolvem. E os agricultores sofrem. "Está tudo ao contrário", afirma Lama, confuso.
"Eles não sabem necessariamente associar o que está acontecendo ao aquecimento global. Mas basta você explicar que tudo se encaixa", diz Roshan Sherchan, da organização WWF Nepal, que desenvolve projetos sociais de adaptação às mudanças climáticas na região.
A imprevisibilidade das chuvas se encaixa com perfeição nos modelos de mudança climática, que preveem distorções temporais nos padrões de precipitação em todo o planeta. A quantidade de água que cai do céu pode continuar a mesma, mas a periodicidade com que ela cai deverá ficar mais concentrada e esporádica, produzindo mais tempestades e menos chuvas periódicas - do tipo que os plantadores de batata precisam.
Os ventos também têm dado sinais de "loucura" em Lantang. No último inverno, moradores relatam que um vento "forte e rodopiante", parecido com um tornado, baixou sobre a vila, arrancando os telhados de várias casas. Piemba Cho Tine, de 35 anos, conta que foi sugada de dentro de sua residência e jogada a uns 20 metros de distância. Ela, felizmente, não se machucou, mas seu marido e seu filho mais novo, de 1 ano, não tiveram a mesma sorte. Ambos morreram esmagados, debaixo de uma cama, quando o vento derrubou uma parede de pedras sobre eles.
"Tinha muita neve descendo da montanha, com pedras e pedaços de coisas rodopiando pelo ar", conta Piemba, que agora sobrevive das doações de turistas e da pequena plantação de batatas que cultiva com a ajuda de seus três filhos sobreviventes, de 7, 8 e 9 anos. "Nunca vi uma coisa dessas." Assim como muitos moradores mais simples das montanhas, sem acesso a televisão, rádio ou internet, Piemba nunca ouviu falar de aquecimento global. Mas acha muito estranho o que anda acontecendo com o clima ultimamente.
Menos neve, menos gelo
A algumas horas de caminhada dali, na vila de Kianjin Gumba, as bordas das geleiras que descem do Langtang Lirung, o pico mais alto do parque (7.227 metros), recuam visivelmente montanha acima. Ao olhar para elas, pensei: "Quando voltar para Katmandu vou procurar um pesquisador que possa me explicar o que está acontecendo aqui". Mas não foi preciso.
Tshering Lama, proprietária de uma das pousadas mais antigas da vila, me deu uma explicação tão boa e convincente quanto a de qualquer cientista. "Antes, nevava no inverno, quando a terra e o ar estão mais frios, então a neve acumulava e virava gelo. Agora, neva mais tarde, quando a terra e o ar já não estão tão frios, então a neve derrete mais rápido e não vira gelo. Por isso as geleiras estão encolhendo."
A paisagem de picos nevados ao fundo mistura-se com a do solo exposto
O "normal", segundo Tshering, era nevar em dezembro e janeiro. Agora, só neva em fevereiro e março. Diferenças pequenas no calendário, mas que podem ser desastrosas para as geleiras e para a agricultura tradicional das montanhas. "A capacidade de adaptação dessas comunidades é muito limitada", diz o pesquisador Arun Shrestha, do Icimod. "Pequenas alterações podem trazer grandes impactos."
Enquanto prepara uma sopa de macarrão e batatas para o almoço, Tshering aponta para a face rochosa do Lantang Lirung, preenchendo quase toda a vista da janela da cozinha, e comenta, sem ser perguntada: "Quando eu era menina, ela era toda branca, sempre. Não dava para ver nada dessas rochas pretas embaixo". É como se ela e Andrea tivessem combinado suas falas.
Pode ser coincidência. Pode ser o aquecimento global. (OESP)

Mudança climática elevou a temperatura mundial

Mudança climática já elevou a temperatura média em 1º C nos últimos 50 anos
A mudança climática começa a tomar corpo: o aumento de cerca de 1º C na temperatura média nos últimos 50 anos pode ser atribuído com uma certeza de 90% a 100% à atividade humana que acarreta o aquecimento global, segundo os especialistas em mudança climática da ONU. É o que revela o informe apresentado em Uganda, e que retrata a incidência do aumento de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Os cientistas estão há vários anos advertindo sobre os efeitos, mas o documento estima, pela primeira vez, com várias porcentagens de probabilidade, o impacto do aquecimento global que está tornando os fenômenos climáticos cada vez mais extremos.
“Pode-se afirmar com um alto grau de certeza que as temperaturas máximas e mínimas crescem devido ao aumento dos gases de efeito estufa”, advertiu Qin Dahe, um dos responsáveis pelo informe. O IPCC prevê, além disso, que a mudança climática aumentará a força das tempestades e intensificará o efeito das secas e de outros fenômenos naturais como tornados ou inundações. A temperatura média global aumentará entre um e três º C em meados do século e de dois a cinco graus no final do século.
“É um aviso sério que coincide com os informes da Agência Internacional de Energia”, afirmou Dahe. A agência fixou que os países dispõem de cinco anos para conter a mudança climática a dois graus Celsius, limite a partir do qual o IPCC considera que o aumento da temperatura provocará danos irreversíveis.
O informe do IPCC conclui que o aquecimento disparará provavelmente a frequência e a intensidade das ondas de calor e das secas, especialmente na área mediterrânea, na qual se encontra a Espanha. “Os governos devem começar a se adaptar para enfrentar estes fenômenos climáticos muito mais extremos”, recomenda o IPCC. Os cientistas calculam que esta nova situação gerará perdas de bilhões de euros e afetará setores econômicos como o turismo e a agricultura.
“É um informe especialmente relevante devido à vulnerabilidade da Espanha ao aumento das temperaturas e do nível do mar”, admitiu o Ministério do Meio Ambiente espanhol depois de conhecer as conclusões do documento. “Devemos realizar ações urgentes a favor do clima”, corroborou a comissária da UE da Ação pelo Clima, Connie Hedegaard. A organização ambientalista Greenpeace, por sua vez, pediu aos governos que assumam compromissos para reduzir os efeitos do aquecimento global. (EcoDebate)

Microplásticos no ar de casas e carros

Microplásticos no ar de casas e carros: estudo alerta que a exposição é 100 vezes maior que a estimada. Como a presença de microplásticos no...