sábado, 3 de dezembro de 2022

Impactos das mudanças climáticas são evidentes nos recursos hídricos

“Não há tempo a perder. Agora é a hora de levar a sério a água como um imperativo para a ação climática”, de acordo com uma declaração conjunta de um eminente painel de líderes de água e clima nas negociações climáticas da ONU, COP27.

A declaração insta os chefes de Estado e de governo a adotarem ações mais integradas sobre água e clima para substituir a abordagem fragmentada existente, onde a água é muitas vezes vista como um problema, pois a água é “parte da solução” para alcançar as metas do Acordo de Paris.

Ele diz que uma melhor gestão dos recursos hídricos teria vários benefícios, inclusive reduzindo desastres relacionados à água, fortalecendo a adaptação e a resiliência climática e ajudando a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

O desafio é urgente porque os impactos das mudanças climáticas são muitas vezes sentidos através da água.

“À medida que a atmosfera passa um grau de aquecimento acima dos níveis pré-industriais, o nível do mar sobe e a criosfera derrete, os efeitos das mudanças climáticas estão sendo sentidos como nunca antes. As inundações resultantes, ondas de calor, secas, tempestades e aumento do nível do mar em todo o mundo piorarão progressivamente à medida que o aquecimento continuar em direção a 1,5°C e além”, diz o comunicado. Foi emitido pouco antes da mesa redonda de alto nível sobre Segurança Hídrica durante a Cúpula de Líderes na COP27. A presidência egípcia fez da água uma prioridade das negociações em Sharm El Sheikh.

Atualmente, 3,6 bilhões de pessoas enfrentam acesso inadequado à água pelo menos um mês por ano e espera-se que isso aumente para mais de 5 bilhões até 2050. Entre 2001 e 2018, a ONU-Água informou que 74% de todos os desastres naturais são relacionados à água (ou seja, inundações e secas. Os perigos relacionados com a água são, portanto, uma parte importante da nova iniciativa para alcançar Avisos Antecipados para Todos nos próximos cinco anos.

Os Líderes da Água e do Clima são um painel eminente de 18 decisores e formuladores de políticas de alto nível, que fornece orientação estratégica sobre a integração das agendas de água e clima e lidera uma coalizão internacional liderada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e nove agências da ONU, a Parceria Global da Água.

Emomali Rahmon, Presidente da República do Tajiquistão é um dos líderes. Mais de 1.000 das 14.000 geleiras do país derreteram completamente. O volume total das geleiras do Tajiquistão, que representam mais de 60% dos recursos hídricos da região da Ásia Central, diminuiu em quase um terço.

Hani Sewilam, Ministro de Recursos Hídricos e Irrigação, do Egito, representa uma nação frequentemente confrontada com o estresse hídrico e cuja força vital é o Nilo. África é particularmente vulnerável aos perigos e escassez relacionados com a água.

O grupo Water and Climate Leaders inclui também o ex-presidente da República das Ilhas Marshall, ex-primeiros-ministros da República do Togo e da República da Coreia, bem como representantes de alto nível de entidades da ONU, sociedade civil, setor, e um jovem enviado.

Os Líderes enfatizaram que uma melhor gestão dos recursos hídricos é vital e traria inúmeros benefícios:

Reduzir os riscos de desastres induzidos pelo clima. Os sistemas de monitoramento e previsão hidro meteorológica fornecem alerta precoce de inundações, secas e outros perigos. Uma melhor gestão de zonas húmidas, barragens e outros reservatórios de água, com salvaguardas adequadas, oferece opções para medidas de precaução e respostas de emergência quando tais eventos ocorrem.

“Pedimos que você priorize sistemas de alerta precoce para inundações, secas e outros perigos relacionados à água, bem como otimize o armazenamento de água … em suas estratégias de redução de risco de desastres”, disse o comunicado.

Reforçar a resiliência e a segurança das alterações climáticas. A água bem gerida contribui para os direitos humanos e meios de subsistência, desenvolvimento económico, redução da pobreza, criação de emprego, saúde pública, igualdade de género e manutenção da biodiversidade. Uma estrutura regulatória de apoio que promova a inovação, inclusive pelo setor privado, e facilite a cooperação público-privada sobre a água pode desempenhar um papel fundamental. No caso das bacias hidrográficas transfronteiriças, a gestão cooperativa da água promove a harmonia e a cooperação transfronteiriças. A conservação e gestão dos ecossistemas relacionados com a água desempenha um papel crítico.

“Pedimos que você leve em consideração a disponibilidade atual e futura de água doce, no contexto da demanda crescente, alocando água para diferentes setores e atendendo às suas prioridades sociais e ambientais e suas medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, disseram os líderes.

Redução de emissões. A água é essencial para reduzir as emissões e capturar carbono. A água é uma matéria-prima necessária para a produção de hidrogênio e para o cultivo de plantas para biocombustíveis. A energia hidrelétrica bem planejada pode fornecer energia limpa em muitos locais, equilibrando-se com outras necessidades de água e minimizando os impactos sociais e ambientais. A energia solar e eólica pode ser estabilizada através da gestão da água. Efluentes e outras águas residuais bem administrados permitem a reutilização e reduzem as emissões de metano e óxido nitroso, assim como a água bem administrada em arrozais e outros sistemas de irrigação, pântanos e reservatórios.

Os provedores de serviços de água também podem melhorar sua eficiência hídrica e energética, reduzir sua dependência de combustíveis fósseis para o tratamento e distribuição de água, e a infraestrutura de bombeamento, dessalinização e captação de água de baixa emissão pode ser promovida.

“Pedimos que você reconheça a importante contribuição que a água pode dar para a mitigação e adaptação climática e enfatize isso e a importância de proteger, conservar e restaurar a água e os ecossistemas relacionados à água no documento final negociado para a COP27”, disse o comunicado.

Para alcançar esses benefícios, os governos precisam de políticas, conhecimentos e ferramentas eficazes para gerenciar a água para múltiplos objetivos no clima em rápida mudança. Os Líderes de Água e Clima concordaram que um Plano de Ação para uma Agenda Integrada de Água e Clima propõe um caminho global para alcançar isso.

Hoje, 60% dos Estados Membros da Organização Meteorológica Mundial relatam capacidades em declínio no monitoramento hidrológico e, portanto, no fornecimento de apoio à decisão no nexo de água, alimentos e energia. Mais de 50% dos países em todo o mundo não possuem um sistema de gestão de qualidade para seus dados relacionados à água. Apenas cerca de 40% dos países em todo o mundo têm bons sistemas de alerta precoce de enchentes e secas operacionais.

A OMM publicará o primeiro relatório anual do estado da água ainda este ano, para aumentar a compreensão dos recursos hídricos e a necessidade de uma melhor gestão da água.

Incluirá informações sobre vazão, armazenamento de água, eventos hidrológicos de alto impacto e estado das geleiras. (ecodebate)

Amazônia concentra 77% das emissões brasileiras ligadas ao desmatamento

Amazônia, bioma-chave para a regulação do clima global, emitiu 911 milhões de toneladas de gases do efeito estufa em 2021, principalmente por desmatamento e fogo associado.

A Amazônia brasileira é tema-chave nas negociações para o enfrentamento da crise climática global na COP27, a Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa) mostram que o bioma concentra 77% das emissões por mudança de uso da terra no Brasil, ligadas, principalmente, ao desmatamento e ao fogo associado, tendo emitido 911 milhões de toneladas de gases do efeito estufa em 2021. Pesquisadoras no IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) destacam que tais fatores apontam as prioridades para o fortalecimento de políticas socioambientais no país.

“O dado indica um caminho claro para a redução de emissões de gases do efeito estufa no Brasil. Temos que acabar com as emissões provenientes do desmatamento. Se não combatermos a derrubada das florestas, principalmente na Amazônia, todas as outras estratégias de mitigação nacionais serão em vão”, avalia Bárbara Zimbres, pesquisadora no IPAM e responsável pelo cálculo de emissões de gases do efeito estufa por mudanças de uso da terra no Brasil do SEEG.

Emissões amazônicas

Análise do IPAM apresentada na COP27 calcula que Pará, Amazonas e Mato Grosso são os estados amazônicos que mais emitiram gases do efeito estufa em 2021: foram 640 milhões de toneladas de carbono equivalente, ou 70% das emissões brutas por mudanças de uso da terra da região. A medida do carbono equivalente representa a soma do efeito superaquecedor de todos os tipos de gases do efeito estufa na atmosfera. Já os maiores aumentos de emissões entre os estados da Amazônia, de 2020 para 2021, ocorreram em Amapá (266%), Tocantins (185%), Roraima (124%) e Maranhão (114%).

Por conta da fumaça de queimadas associadas ao desmatamento, a aldeia Afukuri, no Território Indígena do Xingu, sudoeste da Amazônia, registrou uma qualidade do ar 53 vezes pior do que o indicado como aceitável pela OMS (Organização Mundial da Saúde) na segunda quinzena de setembro deste ano. O povo Kuikuro ficou exposto 17 horas por dia à concentração de 795 microgramas de material particulado de fumaça de queimadas e poluentes, por cada metro cúbico de ar. A recomendação internacional estabelece esse limite até 15 μg/m³ para não prejudicar a saúde.

No total, o bioma Amazônia teve alta de 17% nas emissões brutas entre 2020 e 2021. De 2017 para 2022, chega a 65% o crescimento das emissões brutas da Amazônia brasileira. As emissões brutas são o resultado de tudo o que é emitido, sem considerar os gases de efeito estufa que são removidos da atmosfera pela vegetação nativa ou regenerada em áreas protegidas como as unidades de conservação e as terras indígenas.

“A COP27 é uma oportunidade para chamarmos a atenção do mundo à situação de ameaça em que se encontra hoje a maior floresta tropical do planeta e ao que podemos fazer efetivamente para reduzir de forma imediata as emissões que provocam o superaquecimento global”, comenta Ane Alencar, diretora de Ciência no IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

Maior alta em 19 anos

Dados divulgados pelo SEEG no início de novembro revelaram o maior aumento em 19 anos das emissões no Brasil. Em 2021, o país emitiu 2,42 bilhões de toneladas brutas de carbono equivalente – um aumento de 12,2% comparado ao ano anterior, em que foram emitidas 2,16 bilhões de toneladas. Todos os biomas tiveram mais emissões causadas por desmatamento, com expressividade na Mata Atlântica (65%), seguida pela Amazônia (17%) e pelo Pantanal (15%). No Cerrado o aumento foi de 4%, na Caatinga e no Pampa, de 3%.

O Brasil está entre os maiores poluidores do mundo: é o 4° que mais emitiu gases do efeito estufa desde 1850. O comprometimento e atuação do país em metas climáticas mais ambiciosas são vistos pela comunidade científica como fundamentais para cumprir o Acordo de Paris, firmado em 2015 por 196 países, e limitar o aumento da temperatura média do planeta em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais.

Eventos climáticos extremos na história recente refletem o superaquecimento global que está em 1,1°C. De acordo com relatório das Nações Unidas, com a falta de progresso e a implementação somente das metas atuais, o planeta está a caminho de uma elevação de até 2,8°C. Um aumento de 2°C teria como consequência global até 14 vezes mais ondas de calor e 70% mais secas, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

Além do setor de mudanças de uso da terra, o SEEG calcula as emissões brasileiras por agropecuária, energia, processos industriais e resíduos (sólidos e líquidos, provenientes do processo de tratamento de lixo, por exemplo). Praticamente todos os setores tiveram alta: 3,8% na agropecuária; 12,2% no setor de energia, a maior alta desde 1973; e 8,2% no setor de processos industriais e uso de produtos. O setor de resíduos foi o único com emissões estáveis de 2020 para 2021. Os números podem ser acessados no site da iniciativa. (ecodebate)

Benefícios das florestas para estabilizar o clima local e global

Relatório resume a ciência sobre os efeitos biofísicos do desmatamento na estabilidade climática e explora as implicações políticas dos impactos resultantes em três escalas: política climática global, cooperação regional na gestão de precipitação e políticas nacionais relacionadas à agricultura e saúde pública.

Para cada uma dessas arenas políticas, existem pontos de entrada promissores para abordar as lacunas atuais por meio de inovações em políticas e instituições.

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As florestas têm efeitos significativos – e extremamente positivos – na estabilidade climática por meio de processos biofísicos que afetam as transferências de energia e umidade na atmosfera, contribuindo para a segurança alimentar e hídricos, protegendo a saúde humana e aumentando nossa capacidade de adaptação a um planeta em aquecimento.

Benefícios climáticos das florestas vão muito além do sequestro de carbono.

A contabilização desses processos pode afetar significativamente as estimativas dos impactos do desmatamento no clima global com base em sua interação apenas com o ciclo do carbono, tornando o efeito de resfriamento global de evitar o desmatamento tropical em até 50% maior.

A remoção da cobertura florestal, especialmente nos trópicos, aumenta as temperaturas locais e interrompe os padrões de chuva de forma a agravar os efeitos locais das mudanças climáticas globais, ameaçando graves consequências para a saúde humana e a produtividade agrícola.

Ao não levar em conta esses efeitos biofísicos, as políticas atuais subestimam sistematicamente os serviços climáticos das florestas, não antecipam toda a gama de riscos climáticos associados ao desmatamento e resultam em alocação desigual de responsabilidades e recursos dentro e entre as nações.

Os formuladores de políticas devem reconhecer e abordar urgentemente toda a gama de serviços de regulação climática das florestas por meio de instituições que operam em escalas relevantes, incluindo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), instituições de cooperação regional e agências domésticas encarregadas de promover a produtividade agrícola e proteger saúde pública. (ecodebate)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A população de Porto Rico de 1950 a 2100

Porto Rico é um dos países com maior renda per capita da América Latina e Caribe (ALC). Mas também é um país em declínio e fortemente impactado pelo colapso econômico, demográfico e ambiental.
Porto Rico é uma ilha do Caribe com uma população de 3,3 milhões de habitantes, em 2022, tem uma área de 9.104 km2 e uma densidade demográfica de 374 habitantes por km2. Porto Rico foi uma colônia e província espanhola desde a invasão de Cristóvão Colombo em 1493, até a Guerra Hispano-Americana de 1898. Os porto-riquenhos passaram a ter status de cidadãos americanos em 1917, quando o país se tornou um estado associado aos Estados Unidos.

Porto Rico foi atingido duramente pelo furacão Irma em 07/09/2017, e, antes mesmo de ter tempo para se recuperar, foi devastado pelo furacão Maria em 20/09/22. O furacão Maria foi a pior tempestade a se abater sobre a ilha em 100 anos, transformando ruas em rios repletos de destroços, danificando edifícios e cortando totalmente a oferta de energia. A proporção dos danos materiais foi inédita e incomensurável, agravando os problemas econômicos do país que não são pequenos.

A população de Porto Rico era de 2,2 milhões em 1950, atingiu o pico em 2001, com 3,8 milhões de habitantes, deve diminuir para 2,7 milhões em 2050 e deve atingir 1,27 milhão de habitantes em 2100, segundo a projeção média da Divisão de População da ONU (como mostra o gráfico abaixo, painel da esquerda).

A população porto-riquenha de 15-59 anos aumentou durante toda a segunda metade do século passado e atingiu o pico, na virada do milênio, com 2,3 milhões de pessoas. Desde o início do atual século a população em idade ativa já está decrescendo e deve atingir cerca de 500 mil pessoas em 2100 (conforme mostra o gráfico abaixo, no painel da direita). Ou seja, Porto Rico terá uma população em idade economicamente ativa em 2100, menos da metade do que tinha em 1950.

Os gráficos abaixo mostram a evolução da taxa de fecundidade total (TFT) e a expectativa de vida. Porto Rico tinha uma TFT de cerca de 5 filhos por mulher em meados do século passado e caiu para o nível de reposição no ano 2000 e atingiu apenas 1,1 filho por mulher em 2018, loco após o furacão Maria. Nas próximas décadas espera-se uma leve recuperação da fecundidade (como mostra o gráfico abaixo, painel da esquerda). Como as taxas de emigração são elevadas, a perspectiva é que realmente haja decrescimento demográfico no restante do século.

A expectativa de vida ao nascer estava pouco acima de 50 anos em 1950 e chegou a 80 anos em 2016 (acima da expectativa de vida dos EUA que até hoje não chegou aos 80 anos). A expectativa de vida caiu durante a pandemia, mas já está se recuperando e deve ultrapassar 90 anos em 2100 (como mostra o gráfico abaixo, painel da direita).

O aprofundamento da transição demográfica implica diminuição dos grupos jovens e de aumento da proporção dos grupos mais idosos. O gráfico abaixo (da esquerda) mostra que a população de 0 a 14 anos de Porto Rico era de 1 milhão de jovens entre 1950 e 1990 e já caiu pela metade e deve chegar a 200 mil jovens. O número de idosos (gráfico da direita) era de 100 mil pessoas de 60 anos e mais de idade em 1950, ultrapassou 1 milhão de pessoas atualmente e deve diminuir para 700 mil idosos em 2100. Em termos relativos, Porto Rico é o país mais envelhecidos do continente americano, com estimativa de chegar a impressionante 55% de idosos na população total em 2100, ultrapassando inclusive o Japão.

As mudanças da estrutura etária, provocada pelo avanço da transição demográfica se expressa na transformação da pirâmide populacional, conforme mostrado nos gráficos abaixo. A pirâmide etária de Porto Rico de 1950 tinha uma base bem larga, refletindo as altas taxas de fecundidade. A pirâmide de 2022 mostra uma entrada na faixa de 30 a 40 anos e um novo estreitamento da base abaixo de 20 anos. Já a pirâmide porto-riquenha de 2100 apresenta uma grande redução dos grupos etários mais jovens e, com o topo alargado, fica evidente o decrescimento populacional de Porto Rico.

A razão de dependência porto-riquenha caiu após 1960, atingiu os níveis mais baixos na virada do milênio e já voltou a crescer. Após 2070, a razão de dependência vai ultrapassar 150 pessoas dependentes para cada 100 pessoas em idade ativa. Será uma das maiores razões de dependência do mundo, colocando um grande desafio para o país caribenho.

O PIB de Porto Rico cresceu mais do que o PIB mundial na segunda metade do século passado, mas iniciou um processo de longo declínio no século XXI, passando de 0,18% no início dos anos 2000 para menos de 0,08% na atual década (gráfico abaixo, do lado esquerdo). A renda per capita porto-riquenha (em preços correntes em poder de paridade de compra) se manteve acima da renda média mundial e tem se beneficiado de ter uma moeda denominada em dólar americano (gráfico do lado direito), a despeito de toda a crise econômica recente.

Por ter uma alta densidade demográfica, Porto Rico sempre teve déficit ambiental. Segundo o Instituto Global Footprint Network, Porto Rico sempre teve uma Pegada Ecológica acima da Biocapacidade, conforme mostra a figura abaixo.

Ou seja, Porto Rico é um dos países com maior renda per capita da América Latina e Caribe (ALC). Mas também é um país em declínio e fortemente impactado pelo colapso econômico, demográfico e ambiental. A única certeza do país é que vai sofrer novos danos com novos furacões impulsionados pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas, tornando diversas áreas inabitáveis. O furacão Fiona que atingiu Porto Rico em 18/09/2022 provocou grandes inundações e é mais um alerta da vulnerabilidade do país que importa mais de 80% dos alimentos consumidos na ilha.

Porto Rico é um país submergente, mas também uma nação com grande dificuldade de se manter viva e dinâmica. Para o bem ou para o mal, os porto-riquenhos possuem cidadania americana e podem trocar de lar, opção que outros países do mundo não possuem.

Colônia espanhola desde a chegada de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo em 1492, Porto Rico se tornou território estadunidense no final do século XIX e, desde então, é um pedaço dos Estados Unidos em pleno Caribe.

A dúvida é como reconstruir o país e tornar Porto Rico um país com avanços sociais e ambientais. (ecodebate)

Doenças patogênicas são agravadas por riscos climáticos

Mais da metade das doenças patogênicas humanas conhecidas, como dengue, hepatite, pneumonia, malária, zika e outras, podem ser agravados pelas mudanças climáticas.

Essa descoberta surpreendente e reveladora é o tema de um artigo de pesquisa publicado em 08/08/22 na Nature Climate Change por uma equipe de pesquisadores da Universidade do Havaí em Manoa.

Os pesquisadores realizaram uma busca sistêmica de exemplos empíricos sobre os impactos de 10 riscos climáticos sensíveis às emissões de gases de efeito estufa (GEE) em cada doença patogênica humana conhecida. Esses perigos incluíam aquecimento, seca, ondas de calor, incêndios florestais, precipitação extrema, inundações, tempestades, aumento do nível do mar, mudanças biogeoquímicas oceânicas e mudanças na cobertura da terra.

Combinando duas listas oficiais de todas as infecções e doenças patogênicas conhecidas que afetaram a humanidade na história registrada, os pesquisadores revisaram mais de 70.000 artigos científicos para exemplos empíricos sobre cada combinação possível de um risco climático que afeta cada uma das doenças conhecidas.

A pesquisa revelou que aquecimento, precipitação, inundações, secas, tempestades, mudanças na cobertura da terra, mudanças climáticas oceânicas, incêndios, ondas de calor e mudanças no nível do mar influenciaram doenças desencadeadas por vírus, bactérias, animais, fungos, protozoários, plantas e cromistas.

As doenças patogênicas foram transmitidas principalmente por vetores, embora exemplos de casos também tenham sido encontrados para vias de transmissão envolvendo a água, o ar, o contato direto e os alimentos. Em última análise, a pesquisa descobriu que mais de 58%, ou 218 de 375, das doenças patogênicas humanas conhecidas foram afetadas em algum momento por pelo menos um risco climático por meio de 1.006 vias únicas.

“Dadas as consequências extensas e generalizadas da pandemia de COVID 19, foi realmente assustador descobrir a enorme vulnerabilidade à saúde resultante das emissões de gases de efeito estufa”, disse Camilo Mora, professor de geografia da Faculdade de Ciências Sociais (CSS) e líder autor do estudo. “Existem muitas doenças e vias de transmissão para pensarmos que podemos realmente nos adaptar às mudanças climáticas. Isso destaca a necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa globalmente”.

Uma página da web interativa [https://camilo-mora.github.io/Diseases/] mostrando cada conexão entre um perigo climático e um caso de doença foi desenvolvida pela equipe de pesquisa. A ferramenta permite que os usuários consultem perigos, vias e grupos de doenças específicos e vejam as evidências disponíveis.

A equipe de pesquisa do UH Manoa incluiu especialistas do CSS, Departamento de Ciências da Terra da Escola de Ciências e Tecnologia do Oceano e da Terra (SOEST), Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha da Escola de Ciências da Vida, Departamento de Recursos Naturais e Gestão Ambiental da Faculdade de Agricultura Tropical e Recursos Humanos (CTAHR) e Instituto Hawai’i de Biologia Marinha no SOEST.

Mudanças climáticas agravam quase 2/3 das doenças em humanos.

As principais descobertas incluem:

• Os riscos climáticos estão aproximando os patógenos das pessoas. Inúmeros riscos climáticos estão aumentando a área e a duração da adequação ambiental facilitando a expansão de vetores e patógenos. Mudanças de aquecimento e precipitação, por exemplo, foram associadas à expansão do alcance de vetores como mosquitos, carrapatos, pulgas, aves e vários mamíferos implicados em surtos de vírus, bactérias, animais e protozoários, incluindo dengue, chikungunya, peste, doença de Lyme, West Vírus do Nilo, Zika, tripanossomíase, equinococose e malária.

• Os riscos climáticos estão aproximando as pessoas de patógenos. Os riscos climáticos foram implicados com o deslocamento forçado e migração de pessoas, causando ou aumentando novos contatos com patógenos. Tempestades, inundações e elevação do nível do mar, por exemplo, causaram deslocamentos humanos implicados em casos de leptospirose, criptosporidiose, febre de Lassa, giardíase, gastroenterites, doenças dos legionários, cólera, salmonelose, shigelose, pneumonia, febre tifóide, hepatite, doenças respiratórias e doenças de pele.

• Os perigos climáticos melhoraram aspectos específicos dos patógenos, incluindo melhor adequação climática para reprodução, aceleração do ciclo de vida, aumento das estações/duração da provável exposição, aumento das interações com vetores patogênicos (por exemplo, encurtando as incubações) e aumento da virulência. O aquecimento, por exemplo, teve efeitos positivos no desenvolvimento da população de mosquitos, sobrevivência, taxas de picadas e replicação viral, aumentando a eficiência de transmissão do vírus do Nilo Ocidental.

• Os riscos climáticos também diminuíram a capacidade humana de lidar com patógenos, alterando a condição corporal; adicionando estresse de exposição a condições perigosas; forçando as pessoas a condições inseguras; e danificando a infraestrutura, forçando a exposição a patógenos e/ou reduzindo o acesso a cuidados médicos. Por exemplo, a seca foi propícia à falta de saneamento responsável por casos de tracoma, clamídia, cólera, conjuntivite, Cryptosporidium, doenças diarreicas, disenteria, Escherichia coli, Giardia, Salmonella, sarna e febre tifoide.

Os pesquisadores também descobriram que, enquanto a grande maioria das doenças foi agravada por riscos climáticos, algumas foram diminuídas (63 de 286 doenças). O aquecimento, por exemplo, parece ter reduzido a propagação de doenças virais provavelmente relacionadas a condições inadequadas para o vírus ou por causa de um sistema imunológico mais forte em condições mais quentes. No entanto, a maioria das doenças que foram diminuídas por pelo menos um perigo foram às vezes agravadas por outro e às vezes até o mesmo perigo.

“Sabíamos que as mudanças climáticas podem afetar doenças patogênicas humanas”, disse a coautora Kira Webster, Ph.D em geografia. “No entanto, à medida que nosso banco de dados cresceu, ficamos fascinados e angustiados com o grande número de estudos de caso disponíveis que já mostram o quão vulneráveis estamos nos tornando às nossas crescentes emissões de gases de efeito estufa”.

Riscos climáticos do sistema terrestre afetados pela emissão contínua de GEEs

Consideramos os dez riscos climáticos a seguir. Os GEEs mediam o equilíbrio entre a radiação solar que entra e a radiação infravermelha que sai; assim:

(1) seu excesso na atmosfera causa aquecimento. Combinado com uma maior capacidade do ar de reter água, o aquecimento acelera a evaporação da água do solo, levando a (2) seca em locais normalmente secos; o excesso de seca pode levar a (3) ondas de calor quando a transferência de calor da evaporação da água cessa. Secas e ondas de calor amadurecem as condições para (4) incêndios florestais. Em locais úmidos, o rápido reabastecimento da evaporação fortalece (5) a precipitação, que é propensa a causar (6) inundações quando a chuva cai em locais úmidos/solos saturados. O aquecimento dos oceanos aumenta a evaporação e a velocidade do vento, intensificando as chuvas e a força das (7) tempestades, cujas ondas podem ser agravadas pela (8) elevação do nível do mar, que, por sua vez, podem agravar os impactos das inundações. Captação de CO2 nos oceanos causa a acidificação dos oceanos, enquanto as mudanças na circulação oceânica e o aquecimento reduzem a concentração de oxigênio na água do mar; essas mudanças físico-químicas oceânicas combinadas são referidas como (9) mudanças climáticas oceânicas neste artigo. Incluímos (10) mudanças na cobertura natural da terra como um dos perigos porque pode ser um emissor direto de GEE via desmatamento e respiração, modificar a temperatura via albedo e evapotranspiração e porque pode ser um modificador direto na transmissão de doenças patogênicas 59 , 84.

Esta figura pretende ser uma justificativa para os perigos usados e não um conjunto completo de interações entre GEEs e perigos e ciclos de feedback entre perigos.

Mais de 58% das doenças provocadas por bactérias e vírus são agravadas pelas condições climáticas sensíveis às emissões de gases com efeito de estufa. (ecodebate)

Investir 1,4% do PIB pode reduzir 70% das emissões de carbono

Um novo relatório do Grupo Banco Mundial indica que investir uma média de 1,4% do PIB por ano permitiria reduzir as emissões nos países em desenvolvimento em cerca de 70% até 2050. A medida seria importante para aumentar a resiliência dos países diante das mudanças climáticas.

O relatório “Clima e Desenvolvimento: Uma Agenda para Ação”, chegou a esta conclusão compilando dados dos relatórios sobre clima e desenvolvimento por país do Grupo Banco Mundial, e abrange mais de 20 países que respondem por 34% das emissões mundiais de gases de efeito estufa.

O relatório argumenta que o investimento em reduções nas emissões pode gerar resultados imediatos de desenvolvimento, tais como menor vulnerabilidade à volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis, balanças comerciais mais equilibradas e maior segurança energética, além de melhor qualidade do ar e os consequentes impactos positivos na saúde.

À medida que a mudança climática se intensifica, o mundo precisa aumentar os esforços para se adaptar.

De acordo com um novo relatório do Grupo Banco Mundial, investir uma média de 1,4% do PIB por ano permitiria reduzir as emissões nos países em desenvolvimento em cerca de 70% até 2050 e aumentar a resiliência.

A análise, “Clima e Desenvolvimento: Uma Agenda para Ação”, compila e harmoniza os resultados dos relatórios sobre clima e desenvolvimento por país do Grupo Banco Mundial, e abrange mais de 20 países que respondem por 34% das emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE). Ela demonstra que as necessidades de investimento são nitidamente maiores em países de baixa renda mais vulneráveis ao risco climático, e muitas vezes ultrapassam 5% do PIB.

Esses países precisarão de volumes maiores de financiamento em condições preferenciais e doações para gerenciar os impactos das mudanças climáticas e se desenvolver em um caminho de baixo carbono.

O relatório baseia-se na riqueza dos relatórios de cada país e destaca as lições da integração dos objetivos climáticos e de desenvolvimento para os países. Ele conclui que esta abordagem voltada para a ação climática pode ajudá-los a gerenciar os impactos negativos das mudanças climáticas, e ao mesmo tempo gerar impactos positivos sobre o PIB e o crescimento econômico, proporcionando resultados de desenvolvimento fundamentais, como a redução da pobreza. As principais condições para o sucesso incluem reformas impactantes, melhor alocação de recursos públicos, maior mobilização de capital privado e apoio financeiro significativo da comunidade internacional.

“Objetivos climáticos e de desenvolvimento devem ser atingidos conjuntamente. Ação climática é um bem público global fundamental, que requer novos financiamentos significativos por parte da comunidade global e mecanismos para abordar o fluxo de recursos”, afirmou o presidente do Grupo Banco Mundial, David Malpass. “Ações climáticas bem priorizadas e sequenciadas, participação marcante do setor privado, apoio internacional significativo e uma transição justa são componentes essenciais para o impacto”.

G20 – O relatório também aponta que, embora todos os países tenham que aumentar sua ação climática, os países de alta renda com maior responsabilidade pelas emissões precisam liderar o caminho com uma descarbonização mais profunda e mais rápida, além de um crescente apoio financeiro para os países de baixa renda. Os principais emissores atuais e futuros do mundo em desenvolvimento também têm um papel fundamental a desempenhar para que o mundo alcance as metas do Acordo de Paris. O relatório examina também as tecnologias e inovações necessárias para a produção de eletricidade, aço, cimento e a manufatura com menor intensidade de carbono, e como o mundo construirá cadeias de suprimentos verdes e eficientes para um futuro sustentável.

Os relatórios sobre clima e desenvolvimento por país combinam os melhores dados, modelos e ferramentas disponíveis e visam fornecer aos formuladores de políticas recomendações imediatas e acionáveis para orientar as decisões sobre clima e desenvolvimento hoje. Eles são um elemento central do Plano de Ação para as Mudanças Climáticas do Grupo Banco Mundial, que descreve como o GBM apoiará a ação climática nos países em desenvolvimento.

Prioridades – De acordo com o relatório, os países precisam priorizar e sequenciar os principais investimentos e reformas de políticas públicas, o que proporcionará vários benefícios. E as reduções nas emissões podem gerar resultados imediatos de desenvolvimento, tais como menor vulnerabilidade à volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis, balanças comerciais mais equilibradas e maior segurança energética, além de melhor qualidade do ar e os consequentes impactos positivos na saúde. A ação precoce também pode evitar que os países fiquem presos a infraestruturas e sistemas de alta emissão, que se tornarão caros ou até impossíveis de serem transformados no futuro.

Esta análise abrange mais de 20 países, incluindo: Argentina, Bangladesh, Burkina Faso, Camarões, Chade, China, República Árabe do Egito, Gana, Iraque, Jordânia, Cazaquistão, Malawi, Mali, Mauritânia, Marrocos, Nepal, Níger, Paquistão, Peru, Filipinas, Ruanda, África do Sul, Turquia e Vietnã. Os resultados dessas análises fundamentarão os compromissos do Grupo Banco Mundial com clientes dos setores público e privado e alimentarão as estratégias de engajamento com os países e o portfólio operacional do próprio Grupo Banco Mundial.

A análise, “Clima e Desenvolvimento: Uma Agenda para Ação”, compila e harmoniza os resultados dos relatórios sobre clima e desenvolvimento por país do Grupo Banco Mundial, e abrange mais de 20 países que respondem por 34% das emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE). Ela demonstra que as necessidades de investimento são nitidamente maiores em países de baixa renda mais vulneráveis ao risco climático, e muitas vezes ultrapassam 5% do PIB. Esses países precisarão de volumes maiores de financiamento em condições preferenciais e doações para gerenciar os impactos das mudanças climáticas e se desenvolver em um caminho de baixo carbono.

O relatório baseia-se na riqueza dos relatórios de cada país e destaca as lições da integração dos objetivos climáticos e de desenvolvimento para os países. Ele conclui que esta abordagem voltada para a ação climática pode ajudá-los a gerenciar os impactos negativos das mudanças climáticas, e ao mesmo tempo gerar impactos positivos sobre o PIB e o crescimento econômico, proporcionando resultados de desenvolvimento fundamentais, como a redução da pobreza. As principais condições para o sucesso incluem reformas impactantes, melhor alocação de recursos públicos, maior mobilização de capital privado e apoio financeiro significativo da comunidade internacional.

“Os objetivos climáticos e de desenvolvimento devem ser atingidos conjuntamente. A ação climática é um bem público global fundamental, que requer novos financiamentos significativos por parte da comunidade global e mecanismos para abordar o fluxo de recursos”, afirmou o presidente do Grupo Banco Mundial, David Malpass. “Ações climáticas bem priorizadas e sequenciadas, participação marcante do setor privado, apoio internacional significativo e uma transição justa são componentes essenciais para o impacto”. (ecodebate)

terça-feira, 29 de novembro de 2022

A população da República Democrática do Congo de 1950 a 2100

Os cenários futuros indicam a necessidade de criar milhões de empregos anuais e elevar os níveis da renda per capita para reduzir a pobreza e elevar as condições de vida da população

A República Democrática do Congo (RDC) tem a segunda maior floresta tropical do mundo e é o país mais rico em reservas de cobalto, um metal essencial para a produção de turbinas de avião, baterias de celulares, computadores, carros, etc. Mas em termos de bem-estar da população, a RDC é um país pobre, com muitos emigrantes (que geralmente são vítimas da violência física e da xenofobia) e que está preso na armadilha da pobreza. A área da RD do Congo é de 2,4 milhões de km2 e tem uma densidade demográfica de 43 habitantes por km2 em 2022, maior do que a densidade brasileira (26 hab/km2).

A República Democrática do Congo tinha apenas 12,3 milhões de habitantes em 1950 (com uma densidade demográfica de 5,4 hab/km2), saltou para 99 milhões em 2022 (com densidade de 44 hab/km2) e deve atingir, na projeção média, 432 milhões em 2100 (com densidade demográfica de 191 hab/km2), como mostra o gráfico abaixo do painel da esquerda. A projeção alta da ONU aponta que a população da RD do Congo, caso não caiam as taxas de fecundidade, pode chegar a 1,4 bilhão de habitantes em 2100.

A população da RDC em idade ativa, de 15-59 anos, deu um salto de cerca de 6,3 milhões de pessoas em meados do século passado para 48 milhões em 2022 e deve atingir 267 milhões de pessoas no final do atual século. Portanto, a RDC terá uma grande necessidade de geração de emprego nas próximas 8 décadas (conforme mostra o gráfico abaixo, no painel da direita).

Os gráficos abaixo mostram a evolução das taxas de fecundidade total (TFT) e a expectativa de vida. A República do Congo manteve uma média de mais de 6 filhos por mulher entre 1950 e 2022 e é um dos países que ainda mantém taxas de fecundidade muito elevadas. Mas as projeções da Divisão de População da ONU indicam uma queda na TFT nas próximas 8 décadas até atingir o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) em 2100, como mostra o gráfico abaixo, no painel da esquerda.

A expectativa de vida ao nascer, que estava abaixo de 40 anos em 1950, subiu nos anos seguintes (com algumas oscilações) e chegou a 60 anos em 2020. Houve uma queda em decorrência da pandemia. Na projeção média da ONU a expectativa de vida ao nascer, para ambos os sexos, deve ficar em torno de 70 anos em 2100 (como mostra o gráfico abaixo, painel da direita).

Em decorrência das altas taxas de fecundidade, a população jovem de 0-14 anos da RDC vai continuar crescendo até o final do século XXI, como mostra o gráfico abaixo (painel da esquerda). Já o número de idosos (gráfico da direita) cresceu lentamente entre 1950 e 2022 e deve acelerar o crescimento na segunda metade do século XXI.

A lenta mudança da estrutura etária tem mantido as pirâmides etárias da RDC com uma base larga e o topo estreito, conforme mostrado nos gráficos abaixo. As pirâmides etárias de 1950 e 2022 mantiveram o modelo clássico de estrutura rejuvenescida. Assim, o país mantém uma alta razão de dependência de jovens e uma baixa proporção de pessoas em idade ativa. Se a queda da fecundidade se aprofundar poderá haver o aproveitamento do 1º bônus demográfico, que é uma condição essencial para a redução da pobreza e o a melhoria do padrão de vida da população. A pirâmide de 2100 vai apresentar uma leve redução relativa da base e um crescimento do meio da distribuição etária. As faixas verdes e amarelas representam as possibilidades para os casos de lenta redução da fecundidade.

A RD do Congo terá uma situação demográfica favorável à oferta de força de trabalho no restante do século XXI, pois a razão de dependência vai diminuir de cerca de 100 atualmente para cerca de 60 entre 2070 e 2100, como mostra o gráfico abaixo. Se a economia reagir e conseguir gerar grande quantidade de emprego, a RDC poderá avançar no processo de desenvolvimento humano. Mas se a economia fracassar, o país terá uma bolha de jovens, que na falta de perspectivas de mobilidade social ascendente, poderá criar instabilidade política e grande anomia social.

RDC tinha uma participação no PIB global em torno de 0,15% em 1980 e caiu para 0,04% entre 2000 e 2010, apresentou aumento nos últimos anos e deve ficar com cerca de 0,09% em meados da atual década, conforme mostra o gráfico abaixo (lado esquerdo). A renda per capita da República do Congo (em preços correntes em poder de paridade de compra) era de apenas US$ 807 em 1980, bem abaixo da renda per capita mundial. Depois de uma queda acentuada na década de 1990, nos últimos anos a renda cresceu para US$ 1,3 mil em 2022 e deve chegar a US$ 1,6 mil em 2026, para uma renda média global de US$ 25 mil, conforme mostra o gráfico abaixo (lado direito). Portanto, a RDC tem renda bem abaixo da média mundial e é um dos países mais pobres do mundo.

A República Democrática do Congo tinha um dos maiores superávits ambientais do mundo. Segundo o Instituto Global Footprint Network a RDC tinha, em 1961, uma Pegada Ecológica per capita de 0,96 hectare global (gha) e uma Biocapacidade per capita de 13,51 gha. Mas com o alto crescimento demográfico, a Biocapacidade per capita caiu para 2,16 gha em 2018, a despeito da queda da Pegada Ecológica per capita que passou para 0,78 gha em 2018. Assim, a RDC ainda mantém superávit ecológico, mas em níveis cada vez menores, conforme mostra a figura abaixo.

Líderes dos países africanos estão se preparando para usar a próxima cúpula climática da ONU (a COP27 no Egito, em novembro/22) para pressionar por novos investimentos maciços em combustíveis fósseis, de acordo reportagem do jornal The Guardian (01/08/22). Um documento técnico preparado pela União Africana, indica uma posição comum para pressionar por uma expansão de produção de combustíveis fósseis em todo o continente. Ou seja, os países africanos exigem o “direito” de cometer o mesmo erro dos países desenvolvidos, às custas do aumento das emissões de CO2 e da possibilidade de um colapso ambiental ainda mais catastrófico.

Evidentemente, o caminho não pode ser este. A melhor alternativa para os países africanos é aprofundar na transição demográfica e na transição energética, visando lutar contra a pobreza sem comprometer ainda mais a sustentabilidade ambiental. Sem dúvida, a África precisa da ajuda internacional para aumentar o bem-estar humano e ecológico, sendo que as metas do Acordo de Paris devem ser seguidas e aprofundadas por todos.

Os cenários futuros da República Democrática do Congo indicam a necessidade de criar milhões de empregos anuais e elevar os níveis da renda per capita para reduzir a pobreza e elevar as condições de vida da população. Mas passar de cerca de 100 milhões de habitantes atualmente para mais de 400 milhões no final do século colocará uma grande pressão sobre o meio ambiente.

Em 2100, a RDC terá uma densidade demográfica de 191 hab/km2, muito superior à densidade chinesa que será de 80 hab/km2. Desta forma, aprofundar a transição demográfica e aproveitar a estrutura etária favorável do bônus demográfico é uma tarefa urgente e fundamental para garantir o desenvolvimento humano e a proteção ambiental. (ecodebate)

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