‘Aquele’ outro problema do CO2 – Pesquisadores buscam resposta para aumento da acidez do mar, que afeta as algas que os peixes comem, as focas que comem os peixes, e os humanos que comem peixes, ostras e mariscos
Em frente ao porto de Ny-Ålesund, o prédio cinza de dois andares é um moderno laboratório marinho. Foi ali que, durante cinco semanas, cientistas de nove países conduziram um estudo sem precedentes no Oceano Ártico sobre um fenômeno conhecido como “aquele outro problema do CO2″.
O CO2, ou dióxido de carbono, até as focas daqui sabem, é um dos gases que provocam o efeito estufa. As emissões de CO2 produzidas pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento cresceram rápido nos últimos dez anos.
Os oceanos funcionam como um sumidouro fundamental e absorvem cerca de um terço das emissões – esse é o lado bom da história. O ruim não tem a ver com aquecimento global nem efeito-estufa, mas com o CO2 no mar. Quando os oceanos absorvem o gás, uma reação acontece e forma ácido carbônico. O resultado é que o pH da água do mar fica menos alcalino e mais ácido.
Lembrando a aula na escola: a escala de pH vai de 0 a 14, sendo 7 o valor neutro. O pH da água do mar é ligeiramente alcalino, ou seja, pH próximo a 8,2. O intenso processo de absorção do CO2 aumenta a acidez dos mares. É essa situação que ficou conhecida por acidificação dos oceanos – ou “aquele outro problema do CO2″.
Trata-se de um problemão. A acidez dos oceanos aumentou 30% desde a Revolução Industrial e continua nessa toada. A química do processo já é bem conhecida, mas a ciência ainda engatinha no entendimento do que está acontecendo dentro do mar, no mundo das algas e dos peixes.
A dimensão mais famosa desse problema é o processo de enfraquecimento da estrutura dos corais. Recifes de corais são as “florestas tropicais dos mares”. Garantem alimento e proteção costeira a milhões de pessoas, além de abrigar um quarto das espécies marinhas. Não é pouco o que está em risco.
O que está acontecendo com espécies microscópicas de algas do fitoplancton e pequenos animais do zooplancton, a base da cadeia alimentar marinha, com a água alterada? Pesquisadores do mundo todo têm procurado respostas. Mariscos, moluscos, ostras e outros organismos que produzem conchas e esqueletos de carbonato de cálcio devem estar sentindo o baque, imagina-se.
No documentário “A Sea Change” (Uma Mudança no Mar), que mostra a preocupação do historiador aposentado Sven Huseby com o mundo onde seu neto Elias irá viver, uma experiência simples esclarece o que acontece com um organismo de cálcio submerso em um líquido ácido. Uma pesquisadora mergulha um dente de leite dentro de um copo de Coca-Cola. Um mês depois, o dente está rachado.
O assunto é tão preocupante que a Comissão Europeia fundou, em maio de 2008, o Projeto Epoca (European Project on Ocean Acidification), com o objetivo de entender melhor o que está acontecendo nas profundezas. Trata-se de um esforço multinacional, de nove países europeus. São mais de cem pesquisadores de 29 institutos de ponta debruçados sobre o assunto. Há pesquisas importantes também acontecendo nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia, na China e na Austrália, só para citar alguns.
Ok. Mas e o Ártico, por que Ny-Ålesund, por que os mesocosmos? “O Ártico será o primeiro a sofrer o impacto e também o oceano que sentirá o efeito mais forte”, diz sem meias-palavras o pesquisador Ulf Riebesell, oceanógrafo do Leibniz – Institut für Meereswissenschaften (IFM-Geomar), da Universidade de Kiel. “Foi por isso que viemos aqui.”
A absorção de CO2 é mais intensa em águas frias, os oceanos polares estão entre os mais produtivos do planeta e seu ecossistema é dos mais vulneráveis. Os estudos com os mesocosmos no Ártico são a primeira experiência em larga escala do gênero. A ideia é olhar o que está acontecendo com vários grupos de bichos e plantas no lugar onde vivem.
Riebesell, também professor de oceanografia biológica, comandou em Ny-Ålesund os trabalhos em campo de 35 pesquisadores de 12 centros de pesquisa. Colocaram os nove mesocosmos que o Esperanza trouxe da Alemanha em um ponto do Kongsfjord, não muito longe de Ny-Ålesund.
Dentro desses gigantescos tubos de ensaio, com capacidade para 55 mil litros de água, estavam moluscos e algas que vivem nessas águas geladas. Entre as estrelas estavam algas vermelhas muito comuns por aqui e pequenos moluscos chamados pteropodes, que nadam como se fossem borboletas marinhas, com estruturas que lembram pequenas asas e formam uma concha transparente em caracol.
“Muitos organismos nos oceanos constroem suas conchas e esqueletos com cálcio, a estrutura mais comum que os organismos no mar fazem”, explica Riebesell. “A acidez dos oceanos afeta negativamente esse processo. Eles vão calcificar menos, suas estruturas terão defeitos, ficarão menos protegidos, menos saudáveis, os predadores podem pegá-los com mais facilidade.” A maioria dos organismos estudados até agora reagem mal à acidificação, crescem e se reproduzem menos. Ouriços podem ter problemas em formar sua carapaça de espinhos, mariscos fazem conchas com defeitos, a reprodução de moluscos é afetada.
Na pesquisa do Epoca no Ártico, os cientistas jogaram CO2 em concentrações diferentes dentro dos nove mesocosmos. Nos primeiros quatro, os valores de dióxido de carbono correspondiam aos dos tempos pré-industriais. No quinto, a adição do gás era equivalente aos níveis atuais de concentração na atmosfera. Nos últimos quatro, os níveis de CO2 eram compatíveis aos dos cenários futuros imaginados pelos cientistas do IPCC, o braço científico das Nações Unidas.
Finalmente, uma espécie de tampa transparente em formato de guarda-chuva, ornada com espinhos artificiais, foi colocada sobre cada mesocosmo, para evitar que as aves pousassem sobre eles. A rotina dos pesquisadores passou a ser recolher amostras, adicionar CO2, observar o comportamento das plantas e animais, anotar os dados, mergulhar no mar para ver se estava tudo bem. E começar tudo de novo no outro dia.
“Em 33 dias tivemos apenas um livre”, conta o professor. Eles também faziam ronda constante para observar as condições do tempo, do mar e a aproximação de icebergs, um dos temores da equipe. “Conseguimos afastá-los usando pequenos botes.”
No último dia da experiência, quando os pesquisadores já guardavam equipamentos e faziam as malas, Riebesell comentava alguns dados. Clorofila é uma medida importante de biomassa. Os cientistas apanhavam amostras de algas nos diferentes tubos, centrifugavam tudo e conseguiam comparar o que estava acontecendo. No 25º dia da experiência, por exemplo, havia variações claras na produção de clorofila do plâncton exposto a quantidades menores de CO2 do que naquele que ficou vivendo no mesocosmo com altas concentrações do gás. As algas que viveram em águas menos ácidas produziram quase o dobro da do que as outras.
“Ficamos muito felizes porque pela primeira vez víamos indicações claras de mudanças”, celebrava Riebesell. Para depois, reconhecer: “Mas está claro que, se continuarmos a emitir como estamos e só fizermos algo adiante, será muito tarde para o Ártico. 2050 é tarde demais para o Ártico.”
Os cientistas mediam mais de 60 parâmetros diferentes, todos os dias. Observaram de sedimentos à interação entre organismos. Duas comunidades diferentes de fitoplâncton não gostaram de viver em águas mais ácidas.
“A questão da adaptação à mudança está em aberto”, diz Riebesell. “Mas se eu tivesse que fazer um quadro de como o oceano vai parecer em 50 ou 100 anos, diria que terá menos biodiversidade. Vamos perder muitas espécies.” O que não está tão claro é se o aumento na acidez vai resultar em menos peixes no mar. “Ainda não temos ideia do que acontece com os peixes, baleias e assim por diante.”
“Adicionando algo sobre a biodiversidade: não podemos saber o que vai acontecer no futuro, mas podemos olhar para o passado”, continua.
A acidificação dos oceanos já aconteceu pelo menos duas vezes. Uma delas foi há 55 milhões de anos, quando uma grande quantidade de metano estocado no fundo do mar se liberou, foi para a água e de lá para a atmosfera. O fenômeno aconteceu com muita intensidade.
“Ocorreu uma massiva extinção de organismos, principalmente os que tinham cálcio nas estruturas. Perdemos toda a população de corais. A recomposição levou 10 milhões de anos.”
O segundo caso foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros morreram. A hipótese mais aceita é que um grande meteorito bateu na Terra e liberou grandes quantidades de gases que acidificaram os oceanos – de novo os organismos com cálcio tiveram a mais alta taxa de extinção. “Não digo que estamos caminhando para essa situação”, alerta, “mas que isso indica que a acidificação dos oceanos pode resultar nessas mudanças.”
Em novembro deve estar fechada uma análise global das pesquisas no Ártico. O próximo passo é estudar o que está acontecendo no Pacífico. Um centro de estudos no Havaí coleta dados sobre o assunto há 25 anos. “Queremos juntar a experiência que temos com os mesocosmos com o longo conhecimento de dados deles”, diz o cientista. Ele estava feliz no final da experiência no Ártico. “Tivemos muita sorte, deu tudo certo.”
Não foi sempre assim. Os mesocosmos foram utilizados em outras ocasiões e a experiência não dava certo. Ondas altas e mau tempo colocavam tudo a perder. Mudaram o design das torres e em 2008, no Báltico, finalmente conseguiram que aguentassem o tranco.
O projeto no Ártico começou a ser preparado há dois anos. O maior obstáculo virou trazer os pesados mesocosmos para Ny-Ålesund. No Projeto Epoca existe um grupo de usuários de referência em que estão BP e Rolls Royce, WWF, TNC e Greenpeace. Foi aí que alguém do Greenpeace sugeriu que o Esperanza poderia trazer as torres.
“Começamos a conversar, nunca tinha feito nada com o Greenpeace”, conta o professor. A parceria inédita delimitou espaços: os cientistas ficavam com a ciência, os ativistas com o transporte. “Isso era totalmente novo para nós. Fizemos um memorando, falamos com nossos parceiros no Epoca e com a Comissão Europeia”, continua.
A novidade foi criticada. “Houve gente dizendo que iríamos perder credibilidade. Tivemos longas conversas, deixamos claro que nós, cientistas, somos totalmente independentes e que o Greenpeace não interferiria em nada”, afirma. “A minha experiência, agora, é que o Greenpeace é extremamente profissional. Fiquei muito bem impressionado.”
Os mesocosmos voltaram a Kiel em 22 de julho, sãos, salvos e prontos para mergulhar nas águas do Havaí. Os oceanos são distintos, mas tudo está relacionado. O que acontece com as algas no mar mais ácido pode afetar os peixes que as comem, os pássaros que comem os peixes, as focas que também comem os peixes, os ursos que comem as focas, os humanos que comem peixes e ostras e mariscos.
As queimadas na Amazônia jogam mais CO2 na atmosfera e vão interferir no cardápio da morsa. O que acontece no Ártico, nas terras geladas do sol da meia-noite, vai bater em toda parte – inclusive naquele continente gelado onde vivem os pinguins e não tem urso. (EcoDebate)O entendimento vem de acordo com o nível cultural e intelectual de cada pessoa. A aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria surgem da necessidade, da vontade e da perseverança de agregar novos valores aos antigos já existentes.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Edifícios sustentáveis: o exemplo do Bahrain WTC
‘Aquele’ outro problema do CO2 – Pesquisadores buscam resposta para aumento da acidez do mar, que afeta as algas que os peixes comem, as focas que comem os peixes, e os humanos que comem peixes, ostras e mariscos
Em frente ao porto de Ny-Ålesund, o prédio cinza de dois andares é um moderno laboratório marinho. Foi ali que, durante cinco semanas, cientistas de nove países conduziram um estudo sem precedentes no Oceano Ártico sobre um fenômeno conhecido como “aquele outro problema do CO2″.
O CO2, ou dióxido de carbono, até as focas daqui sabem, é um dos gases que provocam o efeito estufa. As emissões de CO2 produzidas pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento cresceram rápido nos últimos dez anos.
Os oceanos funcionam como um sumidouro fundamental e absorvem cerca de um terço das emissões – esse é o lado bom da história. O ruim não tem a ver com aquecimento global nem efeito-estufa, mas com o CO2 no mar. Quando os oceanos absorvem o gás, uma reação acontece e forma ácido carbônico. O resultado é que o pH da água do mar fica menos alcalino e mais ácido.
Lembrando a aula na escola: a escala de pH vai de 0 a 14, sendo 7 o valor neutro. O pH da água do mar é ligeiramente alcalino, ou seja, pH próximo a 8,2. O intenso processo de absorção do CO2 aumenta a acidez dos mares. É essa situação que ficou conhecida por acidificação dos oceanos – ou “aquele outro problema do CO2″.
Trata-se de um problemão. A acidez dos oceanos aumentou 30% desde a Revolução Industrial e continua nessa toada. A química do processo já é bem conhecida, mas a ciência ainda engatinha no entendimento do que está acontecendo dentro do mar, no mundo das algas e dos peixes.
A dimensão mais famosa desse problema é o processo de enfraquecimento da estrutura dos corais. Recifes de corais são as “florestas tropicais dos mares”. Garantem alimento e proteção costeira a milhões de pessoas, além de abrigar um quarto das espécies marinhas. Não é pouco o que está em risco.
O que está acontecendo com espécies microscópicas de algas do fitoplancton e pequenos animais do zooplancton, a base da cadeia alimentar marinha, com a água alterada? Pesquisadores do mundo todo têm procurado respostas. Mariscos, moluscos, ostras e outros organismos que produzem conchas e esqueletos de carbonato de cálcio devem estar sentindo o baque, imagina-se.
No documentário “A Sea Change” (Uma Mudança no Mar), que mostra a preocupação do historiador aposentado Sven Huseby com o mundo onde seu neto Elias irá viver, uma experiência simples esclarece o que acontece com um organismo de cálcio submerso em um líquido ácido. Uma pesquisadora mergulha um dente de leite dentro de um copo de Coca-Cola. Um mês depois, o dente está rachado.
O assunto é tão preocupante que a Comissão Europeia fundou, em maio de 2008, o Projeto Epoca (European Project on Ocean Acidification), com o objetivo de entender melhor o que está acontecendo nas profundezas. Trata-se de um esforço multinacional, de nove países europeus. São mais de cem pesquisadores de 29 institutos de ponta debruçados sobre o assunto. Há pesquisas importantes também acontecendo nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia, na China e na Austrália, só para citar alguns.
Ok. Mas e o Ártico, por que Ny-Ålesund, por que os mesocosmos? “O Ártico será o primeiro a sofrer o impacto e também o oceano que sentirá o efeito mais forte”, diz sem meias-palavras o pesquisador Ulf Riebesell, oceanógrafo do Leibniz – Institut für Meereswissenschaften (IFM-Geomar), da Universidade de Kiel. “Foi por isso que viemos aqui.”
A absorção de CO2 é mais intensa em águas frias, os oceanos polares estão entre os mais produtivos do planeta e seu ecossistema é dos mais vulneráveis. Os estudos com os mesocosmos no Ártico são a primeira experiência em larga escala do gênero. A ideia é olhar o que está acontecendo com vários grupos de bichos e plantas no lugar onde vivem.
Riebesell, também professor de oceanografia biológica, comandou em Ny-Ålesund os trabalhos em campo de 35 pesquisadores de 12 centros de pesquisa. Colocaram os nove mesocosmos que o Esperanza trouxe da Alemanha em um ponto do Kongsfjord, não muito longe de Ny-Ålesund.
Dentro desses gigantescos tubos de ensaio, com capacidade para 55 mil litros de água, estavam moluscos e algas que vivem nessas águas geladas. Entre as estrelas estavam algas vermelhas muito comuns por aqui e pequenos moluscos chamados pteropodes, que nadam como se fossem borboletas marinhas, com estruturas que lembram pequenas asas e formam uma concha transparente em caracol.
“Muitos organismos nos oceanos constroem suas conchas e esqueletos com cálcio, a estrutura mais comum que os organismos no mar fazem”, explica Riebesell. “A acidez dos oceanos afeta negativamente esse processo. Eles vão calcificar menos, suas estruturas terão defeitos, ficarão menos protegidos, menos saudáveis, os predadores podem pegá-los com mais facilidade.” A maioria dos organismos estudados até agora reagem mal à acidificação, crescem e se reproduzem menos. Ouriços podem ter problemas em formar sua carapaça de espinhos, mariscos fazem conchas com defeitos, a reprodução de moluscos é afetada.
Na pesquisa do Epoca no Ártico, os cientistas jogaram CO2 em concentrações diferentes dentro dos nove mesocosmos. Nos primeiros quatro, os valores de dióxido de carbono correspondiam aos dos tempos pré-industriais. No quinto, a adição do gás era equivalente aos níveis atuais de concentração na atmosfera. Nos últimos quatro, os níveis de CO2 eram compatíveis aos dos cenários futuros imaginados pelos cientistas do IPCC, o braço científico das Nações Unidas.
Finalmente, uma espécie de tampa transparente em formato de guarda-chuva, ornada com espinhos artificiais, foi colocada sobre cada mesocosmo, para evitar que as aves pousassem sobre eles. A rotina dos pesquisadores passou a ser recolher amostras, adicionar CO2, observar o comportamento das plantas e animais, anotar os dados, mergulhar no mar para ver se estava tudo bem. E começar tudo de novo no outro dia.
“Em 33 dias tivemos apenas um livre”, conta o professor. Eles também faziam ronda constante para observar as condições do tempo, do mar e a aproximação de icebergs, um dos temores da equipe. “Conseguimos afastá-los usando pequenos botes.”
No último dia da experiência, quando os pesquisadores já guardavam equipamentos e faziam as malas, Riebesell comentava alguns dados. Clorofila é uma medida importante de biomassa. Os cientistas apanhavam amostras de algas nos diferentes tubos, centrifugavam tudo e conseguiam comparar o que estava acontecendo. No 25º dia da experiência, por exemplo, havia variações claras na produção de clorofila do plâncton exposto a quantidades menores de CO2 do que naquele que ficou vivendo no mesocosmo com altas concentrações do gás. As algas que viveram em águas menos ácidas produziram quase o dobro da do que as outras.
“Ficamos muito felizes porque pela primeira vez víamos indicações claras de mudanças”, celebrava Riebesell. Para depois, reconhecer: “Mas está claro que, se continuarmos a emitir como estamos e só fizermos algo adiante, será muito tarde para o Ártico. 2050 é tarde demais para o Ártico.”
Os cientistas mediam mais de 60 parâmetros diferentes, todos os dias. Observaram de sedimentos à interação entre organismos. Duas comunidades diferentes de fitoplâncton não gostaram de viver em águas mais ácidas.
“A questão da adaptação à mudança está em aberto”, diz Riebesell. “Mas se eu tivesse que fazer um quadro de como o oceano vai parecer em 50 ou 100 anos, diria que terá menos biodiversidade. Vamos perder muitas espécies.” O que não está tão claro é se o aumento na acidez vai resultar em menos peixes no mar. “Ainda não temos ideia do que acontece com os peixes, baleias e assim por diante.”
“Adicionando algo sobre a biodiversidade: não podemos saber o que vai acontecer no futuro, mas podemos olhar para o passado”, continua.
A acidificação dos oceanos já aconteceu pelo menos duas vezes. Uma delas foi há 55 milhões de anos, quando uma grande quantidade de metano estocado no fundo do mar se liberou, foi para a água e de lá para a atmosfera. O fenômeno aconteceu com muita intensidade.
“Ocorreu uma massiva extinção de organismos, principalmente os que tinham cálcio nas estruturas. Perdemos toda a população de corais. A recomposição levou 10 milhões de anos.”
O segundo caso foi há 65 milhões de anos, quando os dinossauros morreram. A hipótese mais aceita é que um grande meteorito bateu na Terra e liberou grandes quantidades de gases que acidificaram os oceanos – de novo os organismos com cálcio tiveram a mais alta taxa de extinção. “Não digo que estamos caminhando para essa situação”, alerta, “mas que isso indica que a acidificação dos oceanos pode resultar nessas mudanças.”
Em novembro deve estar fechada uma análise global das pesquisas no Ártico. O próximo passo é estudar o que está acontecendo no Pacífico. Um centro de estudos no Havaí coleta dados sobre o assunto há 25 anos. “Queremos juntar a experiência que temos com os mesocosmos com o longo conhecimento de dados deles”, diz o cientista. Ele estava feliz no final da experiência no Ártico. “Tivemos muita sorte, deu tudo certo.”
Não foi sempre assim. Os mesocosmos foram utilizados em outras ocasiões e a experiência não dava certo. Ondas altas e mau tempo colocavam tudo a perder. Mudaram o design das torres e em 2008, no Báltico, finalmente conseguiram que aguentassem o tranco.
O projeto no Ártico começou a ser preparado há dois anos. O maior obstáculo virou trazer os pesados mesocosmos para Ny-Ålesund. No Projeto Epoca existe um grupo de usuários de referência em que estão BP e Rolls Royce, WWF, TNC e Greenpeace. Foi aí que alguém do Greenpeace sugeriu que o Esperanza poderia trazer as torres.
“Começamos a conversar, nunca tinha feito nada com o Greenpeace”, conta o professor. A parceria inédita delimitou espaços: os cientistas ficavam com a ciência, os ativistas com o transporte. “Isso era totalmente novo para nós. Fizemos um memorando, falamos com nossos parceiros no Epoca e com a Comissão Europeia”, continua.
A novidade foi criticada. “Houve gente dizendo que iríamos perder credibilidade. Tivemos longas conversas, deixamos claro que nós, cientistas, somos totalmente independentes e que o Greenpeace não interferiria em nada”, afirma. “A minha experiência, agora, é que o Greenpeace é extremamente profissional. Fiquei muito bem impressionado.”
Os mesocosmos voltaram a Kiel em 22 de julho, sãos, salvos e prontos para mergulhar nas águas do Havaí. Os oceanos são distintos, mas tudo está relacionado. O que acontece com as algas no mar mais ácido pode afetar os peixes que as comem, os pássaros que comem os peixes, as focas que também comem os peixes, os ursos que comem as focas, os humanos que comem peixes e ostras e mariscos.
As queimadas na Amazônia jogam mais CO2 na atmosfera e vão interferir no cardápio da morsa. O que acontece no Ártico, nas terras geladas do sol da meia-noite, vai bater em toda parte – inclusive naquele continente gelado onde vivem os pinguins e não tem urso. (EcoDebate)O direito humano à água
No dia 28 de julho, a Assembléia Geral das Nações Unidas declarou “o direito à água potável, limpa e segura, e ao saneamento como um direito humano que é essencial para o pleno gozo da vida e de todos os direitos humanos.” (1)
Isso veio de surpresa; não por a resolução ter sido adotada, mas porque significa que até agora o acesso à água doce, limpa e segura, NÃO tinha sido reconhecido como um dos mais básicos direitos de cada ser humano!
Dito o anterior, é claro que nós damos as boas vindas a essa declaração, que consideramos um marco para abordar os problemas que atualmente enfrentam quase 900 milhões de pessoas no mundo todo, que não têm acesso à água limpa – e muitas mais que poderiam enfrentar o mesmo destino no futuro próximo.
Também damos as boas vindas ao fato de a resolução apelar para os Estados e as organizações internacionais “a fim de intensificarem os esforços para providenciar água potável segura, limpa, física e economicamente acessível, e saneamento para todos.”
Um terceiro motivo para dar as boas vindas à declaração é o fato de ela abrir as portas para um debate muito necessário sobre uma série de problemáticas cruciais, que abrangem desde a posse da água até as medidas que garantam que a água permaneça segura, limpa, física e economicamente acessível.
A respeito da posse da água, a questão mais óbvia parece ser a incompatibilidade entre a água como direito humano básico e sua apropriação por parte de companhias privadas com fins lucrativos. Para a maior parte das pessoas, a luta está, portanto, focalizada contra a privatização da água doce e em prol de ser devolvida às companhias estatais ou de permanecer em suas mãos.
Apesar de concordarmos com o acima mencionado, há outras formas de apropriação menos visíveis que gostaríamos de focalizar, que estão ligadas com várias de nossas áreas de trabalho.
A primeira questão é o papel primordial que as florestas têm na conservação do ciclo hídrico. Quando vastas áreas de florestas são destruídas pela extração industrial de madeira ou pela conversão à agricultura e à criação de gado em grande escala, isso impacta sobre todo o regime hídrico- de mudanças nos padrões das chuvas ao assoreamento dos cursos de água- que resulta em diminuição da disponibilidade e qualidade da água. A destruição das florestas pode, portanto, também ser considerada como uma forma de apropriação- através da destruição- da água.
Outra forma oculta de apropriação da água diz respeito às atividades que poluem os recursos hídricos tais como a mineração, a exploração de petróleo e a agricultura industrial. Os produtos químicos usados ou liberados por essas atividades desprovêem as comunidades locais da até então água doce, segura e limpa. Para eles, sua água foi apropriada por esses poluidores.
Uma forma de apropriação mais direta resulta das plantações de árvores de rápido crescimento em longa escala que consomem milhões de litros de água diários, privando os usuários locais e rio abaixo da água que necessitam.
Os poucos exemplos acima mencionados mostram que a intensificação dos esforços para providenciar água doce segura, limpa, física e economicamente acessível não é apenas uma questão de providenciar “recursos financeiros, capacitação e tecnologia através de ajuda e cooperação internacional, em particular aos países em desenvolvimento” (como expressa o artigo 2 da resolução das Nações Unidas). Mesmo necessárias, tais ações não são suficientes.
Afinal, o que mais importa é abordar as causas da depleção da água e da poluição e priorizar a conservação da água- em quantidade e qualidade- em todos os investimentos econômicos. Isso significa que nenhuma atividade que veia exaurir ou poluir os recursos hídricos já não deveria ser aceitável.
Devido a o direito à água potável, segura e limpa ter sido finalmente reconhecido como um “direito humano que é essencial para o pleno gozo da vida e de todos os direitos humanos,” agora os cidadãos têm o direito e os governos, a obrigação de torná-lo realidade.
(1) A resolução recebeu 122 votos a favor e nenhum voto contra, enquanto 41 países se abstiveram do voto. As abstenções foram: Armênia, Austrália, Áustria, Bósnia e Herzegovina, Botswana, Bulgária, Canadá, Croácia, Chipre, República Tcheca, Dinamarca, Estônia, Etiópia, Grécia, Guiana, Islândia, Irlanda, Israel, Japão, Kazakhstan, Quênia, Látvia, Lesoto, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Nova Zelândia, Polônia, República da Coréia, República da Moldova, Romênia, Eslováquia, Suécia, Trinidad e Tobago, Turquia, Ucrânia, Reino Unido, República Unida da Tanzânia, Estados Unidos, Zâmbia. (EcoDebate)
terça-feira, 21 de setembro de 2010
O desafio de preservar o Encontro das Águas
Que pensariam norte-americanos e canadenses se, a pretexto de uma crise energética, se resolvesse desviar as águas do rio e, com isso, deixassem de existir as cataratas do Niágara? Que achariam japoneses se, com a descoberta de uma jazida de um metal precioso, se resolvesse implantar um grande projeto de mineração no sopé do Monte Fuji e de suas neves deslumbrantes? O escritor Ernest Hemingway poderia levantar-se indignado do túmulo se, com igual motivo, se decidisse escavar sob o Monte Kilimanjaro, na África, tema de seus escritos.
Pois é com indignação que o poeta amazonense Thiago de Mello brada aos ventos contra o projeto de implantação de um terminal portuário ao lado do majestoso Encontro das Águas do Rio Negro com as do Solimões, que dá origem ao Rio Amazonas. Já há um forte movimento em Manaus para impedir que o projeto vá em frente (os defensores da obra argumentam com a “importância econômica” e a geração de empregos). E da oposição participa boa parte da comunidade acadêmica, que tem seus argumentos consolidados pelo professor Ademir Ramos, da Universidade Federal do Amazonas – que lembra também a importância histórica e científica dos sítios paleontológicos identificados na área.
O majestoso Encontro das Águas fascina brasileiros e turistas de outros países que vêm conhecê-lo (isso não é “importância econômica”?). O escritor Fernando Sabino escreveu (O Encontro das Águas, Editora Record, 1977): “Tudo aqui parece encerrar um sentido simbólico; os rios, as florestas, os animais e as plantas, os próprios homens. Aqui a natureza nos dá a sensação vertiginosa de que um dia fomos deuses. Aqui a alma se expande até perder-se no vazio onde o espaço e o tempo se confundem, para reencontrar-se numa vida além da vida, em que tudo se harmoniza – tempo e espaço, civilização e natureza, homens e deuses – numa perfeita integração.”
Pois é nas proximidades desse fenômeno e em área de propriedade da União que se quer levar adiante um projeto de R$ 220 milhões, bancado por duas grandes empresas, com forte apoio em áreas políticas locais. A Secretaria do Patrimônio da União, em Brasília, deu parecer contrário, mas a Gerência Regional no Amazonas opinou a favor do empreendimento e com isso liberou a regularização de “faixa de terreno marginal do rio federal” (Amazonas). O Ministério Público Federal conseguiu na Justiça, em Manaus, medida liminar sustando o licenciamento – mas ela foi revogada em Brasília pela Justiça Federal. Agora o Ministério Público estadual tenta reverter o quadro.
Segundo a proposta apresentada, o “cais de flutuantes será composto de 4 flutuantes de 65 metros de comprimento, 30 metros de largura (boca) e 4 metros de altura (pontal) cada um, perfazendo uma extensão total de 260 metros”, à margem frontal ao Encontro das Águas. E tudo isso ocorre num momento em que se afirma universalmente a necessidade de reavaliar enfoques humanos diante de questões como mudanças climáticas, insustentabilidade de padrões de produção e consumo no mundo. O próprio Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) está propondo implantar um novo índice que inclua o valor monetário dos serviços prestados gratuitamente pela natureza (fertilidade natural dos solos, regulação do clima e dos recursos hídricos, importância da biodiversidade para a criação de fármacos, etc.). E é com visões dessa natureza que precisam ser confrontados projetos que põem em risco patrimônios naturais e da biodiversidade. Neste momento mesmo estão no meio de polêmicas vários projetos de portos que implicariam esses riscos – em Santarém (PA), no litoral baiano, em Santa Catarina, no litoral norte de São Paulo.
Da mesma forma, o projeto considerado ameaçador para o Encontro das Águas que formam o Amazonas. Neste caso, precisa ser considerado também o patrimônio representado pelas visões da cultura popular amazônica – sempre tão desprezada. Segundo o escritor Márcio de Souza, ela só aparece como folclore “e depois que passa a polícia”. Mas quem viaja pelos rios da Amazônia vai descobrir de repente – como o autor destas linhas -, no Rio Nhamundá, no Lago da Serra do Espelho da Lua (que nome!), que a lenda das amazonas, para os moradores da região, não é uma lenda. É História, com H maiúsculo: elas habitavam a região, sequestravam homens para ter relações sexuais e a eles entregavam os recém-nascidos, se fossem do sexo masculino; com a aproximação dos colonizadores europeus, “elas foram fugindo para o norte, até depois da última cachoeira, em Roraima”. Poderá descobrir que a “democracia do consenso” de que fala o antropólogo Pierre Clastres está em pleno vigor entre os índios maués, à beira dos Rios Andirá e Marau. A eles devemos, entre outras coisas, a descoberta das propriedades energéticas do guaraná, reveladas por seu herói criador. E muito mais.
É preciso abrir ou ouvidos aos poetas, aos artistas, que conseguem incorporar a importância dessas culturas. Como o próprio Thiago: “Vem ver comigo o rio e suas leis./ Vem aprender a ciência dos rebojos,/ vem escutar os cânticos noturnos/ no mágico silêncio do igapó /coberto por estrelas de esmeralda” (Outros Poemas, Global Editora, 2007). Porque, diz ele, “de caminho de barcos sabe o mar. Os ventos é que sabem dos destinos”.
Os ventos populares, com certeza, desaconselham a rota que põe em risco o Encontro das Águas. Então, convém ouvir de novo Fernando Sabino, ao visitar esse lugar: “Aqueles que se encontram na fase de industrialização estão correndo constantemente o risco de empobrecerem e de se desnortearem em vários rumos. Talvez amanhã a riqueza de um povo seja medida pelos seus esforços a favor da conservação da Natureza, do seu ambiente natural, ou seja, pela capacidade de conseguir preservar a sua própria alma.” E, como sentencia ele, “não se desafia em vão a natureza”. (EcoDebate)
Rio Jordão está poluído
Águas do rio Jordão em Israel estão poluídas.
Altos índices de poluição levam Israel a estudar proibição de batismos no rio Jordão
Israel estuda proibir batismos no rio Jordão devido à poluição.
Por causa dos altos índices de poluição no caudaloso rio Jordão, quatro vezes acima do permitido, os batismos no local podem ser proibidos até a redução desses níveis.
O Ministério da Saúde israelense ordenou análises para determinar os níveis de bactérias presentes no Jordão e, enquanto se esperam pelos resultados, dará instruções para que se advirtam os banhistas de que as águas estão contaminadas e que se proíba banhos no local, conforme a imprensa israelense.
Nesse rio fica o local conhecido como Qaser al-Yahud, perto da cidade cisjordaniana de Jericó, onde, como ensina a tradição cristã, São João batizou Jesus. Milhares de fiéis vão a cada ano a esse ponto do rio para mergulhar em suas águas e reviver esse ato de fé.
A fim de potencializar o turismo religioso, o Ministério do Turismo investiu nos últimos meses US$ 2 milhões para dar melhores condições à margem ocidental da bíblica nesse ponto.
ESTUDO
Mas o projeto poderá parar se o Ministério da Saúde determinar que, como mostra estudo da ONG Amigos da Terra, uma das mais importantes de ambientalistas da região, entrar no rio representa um perigo à saúde. Deste modo, deve ordenar ao Ministério do Turismo que proíba os batismos na zona dos fiéis cristãos.
“Pedimos ao Ministério da Saúde simplesmente que aplique a lei” declarou recentemente Gidon Bromberg, diretor em Israel da ONG, que acrescentou de forma taxativa que “banhos nessa área do Jordão são insalubres”.
Os estrangeiros que chegam à região seguindo rotas religiosas são uma das fontes turísticas mais importantes para Israel, que tenta desenvolver esse potencial.
Conforme cálculos do Ministério do Turismo, 100.000 pessoas visitam por ano Qaser Al-Yahud. Esse órgão está tentando encontrar uma solução com o Ministério da Saúde para permitir que as pessoas sigam fazendo as cerimônias batismais sem correr riscos.
Mas a solução não é singela, porque o Jordão está altamente contaminado e limpar suas águas não é tarefa fácil.
POLUIÇÃO ATIVA
“Enquanto Israel, Jordânia e a Autoridade Nacional Palestina não pararem de despejar poluição no rio e não proporcionarem fluxos de água limpa, banhar-se ali será perigoso”, sentencia Bromberg.
Pelos dados divulgados pela pesquisa dos Amigos da Terra, a água do Jordão registra na zona de Qaser al-Yehud um nível de bactérias fecal-coliformes de 750, quando o limite permitido tanto em Israel quanto na União Europeia para locais de banho é de 200.
“Não nos opomos à abertura ao local para o turismo, nem que se façam batismos, mas não pode ser feito com a água nessas condições”, explica Bromberg.
Segundo ele, se durante a cerimônia se tragar acidentalmente algo de água, o batizado “pode sofrer no melhor dos casos vômitos, infecção estomacal e gastroenterite e, no pior, pode contrair doenças graves como a pólio”.
Também adverte que banhar-se na água poluída pode provocar infecções de pele, otites, e reações alérgicas e infecções a partir de pequenos cortes na pele.
TRADIÇÃO
O método habitual adotado pelos peregrinos cristãos para reviver o batismo de Jesus Cristo é mergulhar totalmente na água do Jordão, uma experiência que costumam fazer emocionados, acompanhados de párocos e cobertos simplesmente com uma túnica branca que leva impressa a imagem do rosto de Jesus.
A Amigos da Terra denunciou em maio que o Jordão, que nasce no mar da Galiléia e desemboca no mar Morto, serpenteando ao longo de 217 quilômetros, perdeu nos últimos anos 98% de seu caudal e poderia secar no próximo ano se os países contíguos não tomarem medidas.
Este rio, que tem um importante significado espiritual para as três principais religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, também perdeu metade de sua biodiversidade.
De suas margens desapareceram lontras e corujas que não puderam suportar a salinidade e a ausência de água limpa, e muitas das árvores que ficavam na margem do curso d’água foram substituídas por juncos, mais resistentes à deterioração do ecossistema.
Altos índices de poluição levam Israel a estudar proibição de batismos no rio Jordão
Israel estuda proibir batismos no rio Jordão devido à poluição.
Por causa dos altos índices de poluição no caudaloso rio Jordão, quatro vezes acima do permitido, os batismos no local podem ser proibidos até a redução desses níveis.
O Ministério da Saúde israelense ordenou análises para determinar os níveis de bactérias presentes no Jordão e, enquanto se esperam pelos resultados, dará instruções para que se advirtam os banhistas de que as águas estão contaminadas e que se proíba banhos no local, conforme a imprensa israelense.
Nesse rio fica o local conhecido como Qaser al-Yahud, perto da cidade cisjordaniana de Jericó, onde, como ensina a tradição cristã, São João batizou Jesus. Milhares de fiéis vão a cada ano a esse ponto do rio para mergulhar em suas águas e reviver esse ato de fé.
A fim de potencializar o turismo religioso, o Ministério do Turismo investiu nos últimos meses US$ 2 milhões para dar melhores condições à margem ocidental da bíblica nesse ponto.
ESTUDO
Mas o projeto poderá parar se o Ministério da Saúde determinar que, como mostra estudo da ONG Amigos da Terra, uma das mais importantes de ambientalistas da região, entrar no rio representa um perigo à saúde. Deste modo, deve ordenar ao Ministério do Turismo que proíba os batismos na zona dos fiéis cristãos.
“Pedimos ao Ministério da Saúde simplesmente que aplique a lei” declarou recentemente Gidon Bromberg, diretor em Israel da ONG, que acrescentou de forma taxativa que “banhos nessa área do Jordão são insalubres”.
Os estrangeiros que chegam à região seguindo rotas religiosas são uma das fontes turísticas mais importantes para Israel, que tenta desenvolver esse potencial.
Conforme cálculos do Ministério do Turismo, 100.000 pessoas visitam por ano Qaser Al-Yahud. Esse órgão está tentando encontrar uma solução com o Ministério da Saúde para permitir que as pessoas sigam fazendo as cerimônias batismais sem correr riscos.
Mas a solução não é singela, porque o Jordão está altamente contaminado e limpar suas águas não é tarefa fácil.
POLUIÇÃO ATIVA
“Enquanto Israel, Jordânia e a Autoridade Nacional Palestina não pararem de despejar poluição no rio e não proporcionarem fluxos de água limpa, banhar-se ali será perigoso”, sentencia Bromberg.
Pelos dados divulgados pela pesquisa dos Amigos da Terra, a água do Jordão registra na zona de Qaser al-Yehud um nível de bactérias fecal-coliformes de 750, quando o limite permitido tanto em Israel quanto na União Europeia para locais de banho é de 200.
“Não nos opomos à abertura ao local para o turismo, nem que se façam batismos, mas não pode ser feito com a água nessas condições”, explica Bromberg.
Segundo ele, se durante a cerimônia se tragar acidentalmente algo de água, o batizado “pode sofrer no melhor dos casos vômitos, infecção estomacal e gastroenterite e, no pior, pode contrair doenças graves como a pólio”.
Também adverte que banhar-se na água poluída pode provocar infecções de pele, otites, e reações alérgicas e infecções a partir de pequenos cortes na pele.
TRADIÇÃO
O método habitual adotado pelos peregrinos cristãos para reviver o batismo de Jesus Cristo é mergulhar totalmente na água do Jordão, uma experiência que costumam fazer emocionados, acompanhados de párocos e cobertos simplesmente com uma túnica branca que leva impressa a imagem do rosto de Jesus.
A Amigos da Terra denunciou em maio que o Jordão, que nasce no mar da Galiléia e desemboca no mar Morto, serpenteando ao longo de 217 quilômetros, perdeu nos últimos anos 98% de seu caudal e poderia secar no próximo ano se os países contíguos não tomarem medidas.
Este rio, que tem um importante significado espiritual para as três principais religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, também perdeu metade de sua biodiversidade.
De suas margens desapareceram lontras e corujas que não puderam suportar a salinidade e a ausência de água limpa, e muitas das árvores que ficavam na margem do curso d’água foram substituídas por juncos, mais resistentes à deterioração do ecossistema.
Água fóssil
Água fóssil: Líbia adota processo semelhante ao da exploração do petróleo para obter água.
Líbia floresce com ‘água fóssil’ – Em meio às areias amarelas escaldantes do deserto líbio, videiras cobertas de folhas verdes estão carregadas de cachos de uva; amendoeiras florescem em perfeitas fileiras e pomares de pereiras estendem-se indefinidamente.
A Líbia é um dos países mais secos da Terra, sem rios, lagos nem chuva. Mas o seu deserto está florescendo.
No Oriente Médio e no norte da África, a tentativa de transformar milhares de quilômetros de deserto em terra arável passou para um segundo plano diante da necessidade de conter uma ameaçadora escassez de água. Enquanto muitos países da região brigam entre si pelos direitos de exploração da água, a Líbia decidiu modificar sua topografia, transformando a areia em solo próprio para a agricultura.
O Grande Rio feito pelo homem, que é a ambiciosa resposta do seu líder Muamar Kadafi aos problemas de água, irriga enormes fazendas no deserto líbio. A rede de mais de 3.700 quilômetros de dutos transporta a água dos quatro principais aquíferos subterrâneos no sul da Líbia para os centros populosos do Norte. Poços pontuam a trajetória dos dutos, permitindo que os produtores agrícolas utilizem a rede de fornecimento de águas em seus campos.
O governo líbio afirma que o projeto tem 26 anos e custou US$ 19,5 bilhões. O Grande Rio feito pelo homem, que está quase concluído, é o maior projeto de irrigação do mundo e o governo pretende usá-lo para desenvolver 160 mil hectares de terra para a agricultura. É também a opção mais barata disponível para irrigar os campos no país onde a água é mais escassa e cuja precipitação média anual é de aproximadamente 25 mm.
“A precipitação atmosférica está concentrada em 5% da área do país, mais ou menos – 95% da nossa terra é deserto”, diz Abdul Magid al-Kaot, ministro da Agricultura, durante uma apresentação no PowerPoint numa recente visita oficial de várias horas ao projeto e às fazendas nos arredores da capital, Tripoli. “A água é mais preciosa para nós do que o petróleo. Aqui na Líbia, a água é vida.”
Assim como a Líbia explora o deserto em busca de petróleo, o governo está fazendo o mesmo para procurar “água fóssil” água da Era do Gelo preservada nos bolsões porosos do Aquífero de Arenito Núbio. O enorme aquífero estende-se por baixo da Líbia, Egito, Chade e Sudão.
Ele inclui quatro bacias de água potável na Líbia, que contêm aproximadamente 10 mil a 12 mil quilômetros cúbicos de água de origem antiga a uma profundidade de 600 metros sob a superfície do deserto, disse o governo em sua apresentação.
A Líbia transfere o precioso recurso do solo para cinco gigantescos reservatórios acima do solo por meio de dutos de concreto protendido, pesando de 75 a 86 toneladas, que correm a pouco mais de 6 metros e meio de profundidade.
Guindastes de 450 toneladas operam sobre estradas especialmente construídas para a instalação dos cilindros enormes.
Outros países perfuram o solo em busca de água subterrânea com a mesma intensidade da Líbia. O país extrai 2,5 milhões de metros cúbicos diários, com a expectativa de chegar a bombear 6,5 milhões. Os especialistas disseram que o projeto equivale a transportar diariamente 2,5 milhões de automóveis Volkswagen (Fuscas) por mais de 3.200 quilômetros – um carro equivaleria aproximadamente a um metro cúbico de água, que pesa cerca de uma tonelada.
Consumo
Novas técnicas de irrigação por gotejamento estão sendo usadas para garantir que a água não seja desperdiçada. Mais de 70% da água deve ser usada como subsídio para a agricultura doméstica, e o restante para o consumo dos cidadãos. Ela não é reservada para a indústria pesada, segundo o governo.
Embora seja mais barato para a Líbia bombear a água subterrânea ou importar água, os especialistas estão preocupados com a decisão do país de irrigar fazendas em grande escala com a água fóssil.
“Para a Líbia esta água é muito cara. Não é tão cara quanto a água dessalinizada, mas para irrigar com ela provavelmente não é econômica do ponto de vista da relação custo/benefício”, diz Aaron Wolf, professor e diretor do departamento de Geociências da Universidade do Estado de Oregon. “Se o produtor agrícola tivesse de pagar o custo total do bombeamento e distribuição da água até a sua fazenda, não compensaria para a agricultura, é por isso que outros países não estão fazendo isto.”
O governo líbio subsidia abundantemente a água para os produtores agrícolas que pagam cerca de US$ 0,62 o metro cúbico, pouco menos do que a metade do preço que o cidadão comum paga a água que bebe.
“É basicamente uma das maravilhas do mundo, porque é exatamente como as pirâmides – é enorme, maciço e provavelmente não compensa do ponto de vista da relação custo/benefício.”
O governo líbio afirma que as reservas durarão para o país 4.625 anos, às taxas atuais de demanda.
No entanto, estimativas independentes indicam que o aquífero pode ser esvaziado já de 60 a 100 anos desde o início da exploração, segundo Stephen Longhorn, professor de Geografia da Universidade de Victoria, no Canadá.
“As principais preocupações a respeito de um recurso não renovável são a taxa de depleção e a dependência inerente à sua utilização”, afirmou o professor.
“A consequência secundária destes projetos é que quando a água acaba, já se criou uma dependência que só poderá ser atendida no futuro pela dessalinização ou a importação de água”, disse Longhorn. Projetos como este criam “um legado que pode ter vantagens a curto prazo, mas em última análise tornam o país ou a região muito vulneráveis no futuro”.
Por hora, enquanto esguichos gigantescos borrifam 100 mil oliveiras do viveiro de uma estufa cercada por areia nos arredores de Tripoli, os campos líbios estão florescendo.
Água e mudanças climáticas
O presente documento constitui uma revisão do estado da arte do conhecimento sobre mudanças de clima e água no Brasil e na América do Sul. Discutem-se alguns dos resultados dos estudos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e do Relatório de Clima do INPE em relação a estudos observacionais de variabilidade de clima e projeções de clima e das componentes do ciclo hidrológico até finais do século XXI, para as principais bacias hidrográficas no continente. Um dos aspectos importantes discutidos neste informe refere-se aos aspectos econômicos e gerenciais do recurso água nas diferentes regiões do Brasil, e como isso pode mudar num cenário de mudanças de clima.
O PLANETA Terra tem dois terços de sua superfície ocupados por água – são aproximadamente 360 milhões de km2 de um total de 510 milhões. Entretanto, 98% da água disponível no planeta são salgadas. Existem múltiplos usos para a água, como para beber; abastecimento doméstico; abastecimento industrial; agricultura; recreação e lazer; geração de energia; navegação; diluição de despejos; harmonia paisagística; preservação da fauna; preservação da flora; irrigação, entre outros.
O Brasil tem posição privilegiada no mundo, em relação à disponibilidade de recursos hídricos. A vazão média anual dos rios em território brasileiro é de cerca de 180 mil m³/s. Esse valor corresponde a aproximadamente 12% da disponibilidade mundial de recursos hídricos, que é de 1,5 milhões de m³/s (Shiklomanov et al., 2000). Se forem levadas em conta as vazões oriundas em território estrangeiro e que ingressam no país (Amazônica: 86.321 mil m³/s; Uruguai: 878 m³/s e Paraguai: 595 m³/s), a vazão média total atinge valores da ordem de 267 mil m³/s (18% da disponibilidade mundial).
A Amazônia detém 74% dos recursos hídricos superficiais e é habitada por menos de 5% da população brasileira. A menor vazão média por habitante é observada na região hidrográfica do Atlântico Nordeste Oriental, com média inferior a 1.200 m³/hab/ano. Em algumas bacias dessa região, são registrados valores menores que 500 m³/hab/ano. Destacam-se ainda, na condição de regiões com pouca disponibilidade relativa, algumas bacias das regiões hidrográficas do Atlântico Leste, Parnaíba e São Francisco. Na porção semi-árida dessas regiões, onde o fenômeno da seca tem repercussões mais graves, a água é um fator crítico para as populações locais (GEO Brasil, 2007).
A disponibilidade de água no Brasil depende em grande parte do clima. O ciclo anual das chuvas e de vazões no país varia entre bacias, e de fato a variabilidade interanual do clima, associada aos fenômenos de El Niño, La Niña, ou à variabilidade na temperatura da superfície do mar do Atlântico Tropical e Sul podem gerar anomalias climáticas, que produzem grandes secas, como em 1877, 1983 e 1998 no Nordeste, 2004-2006 no Sul do Brasil, 2001 no Centro-Oeste e Sudeste, e em 1926, 1983, 1998 e 2005 na Amazônia (Marengo & Silva Dias, 2006; Marengo, 2007; Marengo et al., 2008 a, b). Adicionalmente, os riscos derivados das mudanças climáticas, sejam naturais sejam de origem antropogênica, têm levantado grande preocupação entre os círculos científicos, políticos, na mídia e também na população em geral.
Desde a década de 1980, evidências científicas sobre a possibilidade de mudança do clima em nível mundial vêm despertando interesses crescentes no público e na comunidade científica em geral. Em 1988, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estabeleceram o Intergovernamental Panel on Climate Change [Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas] (IPCC). O IPCC ficou encarregado de apoiar com trabalhos científicos as avaliações do clima e os cenários de mudanças climáticas para o futuro. Sua missão é “avaliar a informação científica, técnica e socioeconômica relevante para entender os riscos induzidos pela mudança climática na população humana”. O IPCC foi criado pelos governos em 1988 para fornecer informações técnicas e científicas sobre as mudanças climáticas. O processo utilizado para produzir essas avaliações é criado para assegurar alta credibilidade tanto na comunidade científica como na política. Avaliações prévias foram publicadas em 1990, 1996 e 2001. Existem três “grupos de trabalho”: O Grupo 1 avalia os aspectos científicos do sistema climático e de mudança do clima; o Grupo 2 avalia os efeitos das mudanças climáticas sobre a natureza e a sociedade; e o Grupo 3 discute os métodos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
O Quarto Relatório Científico do IPCC AR4 (Trenberth et al., 2007; Meehl et al., 2007) apresenta evidências de mudanças de clima que podem afetar significativamente o planeta, especialmente nos extremos climáticos, com maior rigor nos países menos desenvolvidos na região tropical. As principais conclusões desse relatório sugerem, com confiança acima de 90%, que o aquecimento global dos últimos cinqüenta anos é causado pelas atividades humanas.
Apenas no decorrer do ano de 2007, segundo a ONU, 117 milhões de pessoas em todo o mundo foram vítimas de cerca de trezentos desastres naturais, incluindo secas devastadoras na China e na África e inundações na ásia e na África – em um prejuízo total de US$ 15 bilhões. Grande parte dos países menos desenvolvidos já enfrenta períodos incertos e irregulares de chuvas, e as previsões para o futuro indicam que as mudanças climáticas vão tornar a oferta de água cada vez menos previsível e confiável. Economizar água para o futuro não é, portanto, lutar por um objetivo distante e incerto. As tendências atuais de exploração, degradação e poluição dos recursos hídricos já alcançaram proporções alarmantes, e podem afetar a oferta de água num futuro próximo caso não sejam revertidas. A mudança climática significa que os desertos cedo ou tarde expulsarão 135 milhões de pessoas das suas terras, segundo estimativas das Nações Unidas. A maioria desses indivíduos mora no Terceiro Mundo. Segundo previsões da Unesco, 1,8 bilhão de pessoas podem enfrentar escassez crítica de água em 2025, e dois terços da população mundial podem ser afetados pelo problema no mesmo ano. O crescimento explosivo das populações urbanas é também causa alarmante da ameaça global de escassez de água no mundo.
No passado, a maior preocupação dos governos federal e estadual sobre o gerenciamento no uso da água era como satisfazer as demandas de uma população cada vez maior, e como enfrentar o problema de secas ou enchentes. Recentemente, a mudança climática tem sido observada como possível causa de problemas que podem afetar a variabilidade e a disponibilidade na qualidade e quantidade da água. Mudanças nos extremos climáticos e hidrológicos têm sido observadas nos últimos cinqüenta anos, e projeções de modelos climáticos apresentam um panorama sombrio em grandes áreas da região tropical.
Possíveis impactos da mudança climática: o Relatório Stern
Segundo o Relatório Stern, um documento divulgado em outubro de 2006 pelo principal economista do governo britânico (Stern, 2006), uma elevação de temperatura no centro dessa faixa – por volta de 3ºC – poderá acarretar secas na Europa, falta de água para até quatro bilhões de pessoas e milhões de novos casos de desnutrição. Leiam-se, a seguir, algumas das conseqüências previstas para os diferentes níveis de aumento da temperatura da Terra, conforme o Relatório Stern:
• Elevação de 1º C na temperatura global – Encolhimento das geleiras ameaça o suprimento de água para 50 milhões de pessoas; pequeno aumento na produção de cereais nas regiões temperadas; ao menos 300 mil pessoas morrem a cada ano por causa de malária, desnutrição e outras doenças relacionadas com as alterações climáticas; queda da taxa de mortalidade durante o inverno, nas regiões de maior latitude; morte de 80% dos recifes de coral, em especial a Grande Barreira de Corais.
• Elevação de 2º C na temperatura global – Queda de 5% a 10% na produção de cereais na África tropical; 40 milhões a 60 milhões de pessoas a mais expostas à malária na África; até 10 milhões de pessoas a mais expostas a enchentes nas regiões costeiras; entre 15% e 40% das espécies de seres vivos vêem-se ameaçadas de extinção; grande risco de extinção das espécies presentes no Ártico, em especial dos ursos polares; possibilidade de que a camada de gelo da Groenlândia comece a derreter de forma irreversível, o que faria que o nível dos oceanos se elevasse em sete metros.
• Elevação de 3ºC na temperatura global – No sul da Europa, períodos de seca pronunciada a cada dez anos; entre 1 bilhão e 4 bilhões de pessoas a mais enfrentando períodos de falta de água; entre 150 milhões a 550 milhões de pessoas a mais expostas à ameaça da fome; entre 1 milhão e 3 milhões de pessoas a mais morrem de desnutrição; possível início do colapso da floresta Amazônica; elevação do risco de colapso da Camada de Gelo da Antártida Ocidental; elevação do risco de colapso do sistema de circulação de águas quentes pelo Atlântico; elevação do risco de mudanças abruptas no mecanismo das monções.
• Elevação de 4º C na temperatura global – Safras de produtos agrícolas diminuem entre 15% e 35% na África; até 80 milhões de pessoas a mais expostas à malária na África; desaparecimento de cerca de metade da vegetação de tundra no Ártico.
• Elevação de 5º C na temperatura global – Provável desaparecimento de grandes geleiras no Himalaia, prejudicando um quarto da população da China e uma grande parte dos moradores da índia; crescente intensificação da atividade oceânica, prejudicando seriamente os ecossistemas marinhos e, provavelmente, as populações de peixes; elevação do nível dos oceanos ameaça as pequenas ilhas, as áreas costeiras como o Estado da Flórida e grandes cidades como Nova York, Londres e Tóquio.
O Brasil é vulnerável às mudanças climáticas atuais e mais ainda às que se projetam para o futuro, especialmente quanto aos extremos climáticos. As áreas mais vulneráveis compreendem a Amazônia e o Nordeste do Brasil, como mostrado em estudos recentes (Marengo, 2007; Ambrizzi et al., 2007; Marengo et al., 2007). O conhecimento sobre possíveis cenários climático-hidrológicos futuros e as suas incertezas pode ajudar a estimar demandas de água no futuro e também a definir políticas ambientais de uso e gerenciamento de água para o futuro.
Neste estudo, avalia-se o estado da arte sobre o conhecimento de mudanças de clima e os seus impactos na disponibilidade de água no futuro, considerando estudos de tendências de longo prazo nos últimos cinqüenta anos e as projeções dos modelos climáticos até finais do século XXI. Para maior informação, sugere-se revisar os seguintes estudos do IPCC e do Relatório de Clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe): Trenberth et al. (2007); Magrin et al. (2007); Bates et al. (2008); Marengo et al. (2007); Ambrizzi et al. (2007); Salati et al. (2007).
Clima do presente e do futuro
O continente já experimentou, nos últimos anos, uma sucessão de acontecimentos radicais: chuvas torrenciais na Venezuela, inundações nos pampas argentinos, secas na Amazônia, tempestades de granizo na Bolívia e uma temporada recorde de furacões no Caribe. Ao mesmo tempo, as chuvas diminuem no Chile, no sul do Peru e no sudoeste da Argentina. Com a elevação de temperaturas já registrada (+1ºC na América Central e na América do Sul em um século, ante a média mundial de +0,74ºC), os glaciares andinos estão retrocedendo. A disponibilidade de água destinada ao consumo e à geração de eletricidade já está comprometida e o problema se agravará no futuro, tornando-se crônico caso medidas não sejam tomadas, afirma o relatório do IPCC GT2 para a América Latina (Magrin et al., 2007).
Em relação às chuvas, observa-se a tendência já detectada em estudos anteriores do IPCC AR4 (Trenberth et al., 2007) de aumento de até 30%/década da chuva na bacia do Prata e em algumas áreas isoladas do Nordeste. Para a Amazônia não se observa uma tendência clara de aumento ou redução nas chuvas (em razão do desmatamento), apresentando mais uma tendência de variações interdecadais contrastantes entre a Amazônia do Norte e do Sul (Marengo, 2004). No Nordeste as tendências observadas também sugerem uma variabilidade interanual associada ao El Niño e ao gradiente de TSM no Atlântico tropical, assim como uma tendência decadal associada a mudanças na posição meridional da ZCIT.
Regionalmente, tem sido observado um aumento das chuvas no Sul e partes do Sul do Brasil, na bacia do Paraná-Prata, desde 1950, consistente com tendências similares em outros países do Sudeste da América do Sul. No Sudeste o total anual de precipitação parece não ter sofrido modificação perceptível nos últimos cinqüenta anos.
As projeções de mudança nos regimes e distribuição de chuva, derivadas dos modelos globais do IPCC AR4, para climas mais quentes no futuro não são conclusivas, e as incertezas ainda são grandes, pois dependem dos modelos e das regiões consideradas. Na Amazônia e no Nordeste, ainda que alguns modelos climáticos globais do IPCCC AR4 apresentem reduções drásticas de precipitações, outros modelos apresentam aumento. A média de todos os modelos, por sua vez, é indicativa de maior probabilidade de redução de chuva em regiões como o Leste e o Nordeste da Amazônia como conseqüência do aquecimento global. O IPCC AR4 (Meehl et al., 2007) mostra reduções de chuva no Norte e no Nordeste do Brasil durante os meses de inverno JJA (junho, julho, agosto), o que pode comprometer a chuva na região Leste do Nordeste, que apresenta o pico da estação chuvosa nessa época do ano.
Hidrologia do presente e do futuro
Em relação a vazões dos rios, as tendências de chuva observadas refletem bem as tendências na precipitação, com uma clara tendência de aumento nas vazões do Rio Paraná e outros rios no Sudeste da América do Sul. Na Amazônia, no Pantanal e no Nordeste não foram observadas tendências sistemáticas em longo prazo em direção a condições mais secas ou chuvosas, sendo mais importantes variações interanuais e interdecadais, associadas à variabilidade natural do clima, na mesma escala temporal de variabilidade de fenômenos interdecadais dos oceanos Pacífico e Atlântico tropical. As análises de vazões de rios na América do Sul e no Brasil (Milly et al., 2005) apontam para aumentos entre 2% e 30% na bacia do Rio Paraná e nas regiões vizinhas no Sudeste da América do Sul, consistente com as análises de tendência de chuva na região. Não foram observadas tendências importantes nas vazões dos rios da Amazônia e da bacia do Rio São Francisco. Na costa Oeste do Peru, as tendências positivas de chuva podem ser explicadas pelos valores extremamente altos de chuvas e vazões durante os anos de El Niño de 1972, 1983, 1986 e 1998 que afetam sensivelmente essas tendências.
Milly et al. (2005) analisaram as componentes de vazões dos rios de vários modelos do IPCC AR4 para o futuro, comparados com o presente. A Figura 1 a-b mostra que os modelos do IPCC AR4 (Figura 1a) representam bem as tendências crescentes observadas na bacia do Paraná-Prata. Para finais do século XXI, os modelos do IPCC AR4 sugerem reduções nas vazões dos rios São Francisco, Parnaíba, Tocantins, Xingu e outros no Leste da Amazônia, assim como no Chile central. Por sua vez, os modelos também sugerem aumentos nas vazões dos rios do costa Oeste da América do Sul, próxima ao Peru-Equador e na bacia do Paraná-Prata. Essas projeções são muito importantes, pois as alterações nas vazões podem mudar a freqüência de enchentes, e isso pode produzir danos nos ecossistemas, e afetar produção de alimentos, transporte e geração de energia. Os aumentos nas vazões são consistentes com os aumentos de chuva no futuro (Meehl et al., 2007).
Algumas das vazões no Brasil (Amazônia, Sul do Brasil, Norte do Nordeste) apresentam altas correlações com os campos de anomalias de temperatura de superfície do mar nos oceanos Pacífico e Atlântico Tropical, o que sugere uma possível associação entre vazões extremas e El Niño, ou um aquecimento no Oceano Atlântico Norte Tropical, como foi o caso, por exemplo, de 1998, com reduções nas vazões em Manaus e Óbidos e nos níveis baixos do Rio Solimões durante a recente seca de 2005 (Marengo et al., 2008 a, b). As projeções do relatório do IPCC AR4 para a América Latina em 2050 não são animadoras (Magrin et al., 2007). O aumento da temperatura e a presença de menos água no solo devem de fato transformar parte da Amazônia em savanas, e áreas reconhecidas hoje como semi-áridas sofrerão processo de desertificação – fenômeno também previsto para áreas agricultáveis.
Extremos climáticos hidrometeorológicos
No Sudeste e na região Sul do Brasil, assim como na Amazônia, tem sido observado um aumento intenso na precipitação, o que também tem sido observado nos últimos cinqüenta anos, como mostrado na Figura 2a (Marengo et al., 2007). Groisman et al. (2005) identificaram tendências positivas de aumentos sistemáticos de chuva e de extremos de chuva na região subtropical, no Sul e no Nordeste do Brasil. Os autores consideraram que o Sudeste, desde 1940, tem mostrado aumentos sistemáticos na freqüência de chuvas intensas, de até quase 58%/100 anos. Carvalho et al. (2002) consideram que em São Paulo observam-se mais eventos extremos de chuvas durante o El Niño, os quais, nesse Estado, são sensíveis à intensidade Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) (Carvalho et al., 2002, 2004).
Haylock et al. (2006) investigaram as tendências de extremos de chuva no Sudeste da América do Sul no período de 1960-2000. Eles encontraram tendências para condições mais úmidas no Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e no Norte e Centro da Argentina. Eles notaram que a região Sudeste da América do Sul experimentou um aumento na intensidade e freqüência de dias com chuva intensa, o que concorda com os trabalhos de Groissman et al. (2005) para a mesma região.
Eventos intensos de chuva no outono podem ser responsáveis por grandes valores de vazões no Rio Paraná nos Pampas da Argentina. Liebmann et al. (2004) mostraram que, em São Paulo, na escala interanual, o número de eventos extremos de chuva revela correlação com anomalias de TSM no Pacífico Tropical e no Sudeste do Atlântico próximo ao litoral de São Paulo. O controle que a ZCAS e o jato de baixos níveis da América do Sul ou SALLJ têm, em escalas intra-sazonais e interanuais, pode ser observado na freqüência de eventos intensos de chuva, associados à presença da ZCAS e à presença do SALLJ que, em média, sugerem maior freqüência de eventos intensos de chuvas no Sul e no Sudeste do Brasil, quando o SALLJ é intenso e a ZCAS é mais fraca e deslocada para o sul da região Nordeste. Diferentes autores definiram eventos extremos de chuva seguindo metodologias diferentes e usando valores similares ou acima de um percentil (95th), o que torna difícil a comparação entre os resultados. No Sul do Brasil, Teixeira et al. (2007) identificaram uma ligeira tendência de aumento no número de eventos extremos de chuva, com maiores freqüências em anos como 1993-1994 e 1997-1998, que são anos de El Niño.
Mais recentemente, Alexander et al. (2006) analisaram tendências em extremos anuais de chuva e chegaram à conclusão de que essas aparentam ser similares àquelas da chuva total acumulada: positivas no Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e no Norte-Centro da Argentina. Eles identificaram tendências positivas no número de dias com chuva intensa e muito intensa (R20 mm) concentrada em curto tempo, e na quantidade de chuva concentrada em eventos que são indicadores de chuvas que produzem enchentes durante o período 1961-2000. Essas tendências sugerem aumento na freqüência e intensidade de eventos de chuva no Sudeste da América do Sul, enquanto a ausência de dados na região tropical não permite uma análise mais compreensiva dos extremos nessa parte do continente.
As projeções de extremos segundo o IPCC AR4 (Meehl et al., 2007; Tebaldi et al., 2006) sugerem para boa parte do Brasil aumentos na freqüência de extremos de chuva em todo o Brasil, especialmente no Oeste da Amazônia, no Sul e Sudeste do Brasil. Para o período de 2080-2099, em relação ao presente (1980-1999), no cenário A1B, os eventos extremos de chuva intensa mostram um aumento na freqüência e na contribuição de dias muito chuvosos no Oeste da Amazônia, enquanto no Leste da Amazônia e no Nordeste a tendência é de aumento na freqüência de dias secos consecutivos, o que também se observa para o norte do Sudeste. Recentes estudos (Marengo et al., 2007; Tebaldi et al., 2006) sugerem de fato que os possíveis cenários de aumento de chuva no Sul do Brasil, projetados até finais do século XXI, poderiam ser na forma de eventos extremos de chuva mais intensos e freqüentes (Figura 2b). O Oeste da Amazônia poderia experimentar um aumento na freqüência de extremos de chuva até 2100, podendo gerar problemas de erosão e enchentes nessa região. Porém, a falta de informações hidrológicas confiáveis nessa região não permite validar as tendências simuladas para o presente. Problemática regional
Amazônia
A situação é caótica e preocupante na Amazônia. Toda a bacia hidrográfica do Rio Amazonas, que abrange vários países além do Brasil, contém 70% da disponibilidade mundial de água doce e é formada por mais de mil rios. Mas essa presença exuberante e essencial está ameaçada. Em 2005, a situação complicou-se ainda mais. Uma forte estiagem – a maior dos últimos 103 anos – atingiu o Leste do Amazonas, quando alguns rios chegaram a baixar seis centímetros por dia. Milhões de peixes apodreceram e morreram nos leitos de afluentes do Amazonas que serviam de fonte de água, alimentos e meios de transporte para comunidades ribeirinhas (Marengo et al., 2008 a, b; Zeng et al., 2008; Aragão et al., 2007). As chances de ocorrerem períodos de intensa seca na região da Amazônia podem aumentar dos atuais 5% (uma forte estiagem a cada vinte anos) para 50% em 2030 e até 90% em 2100 (Cox et al., 2008).
Nordeste
O Nordeste possui apenas 3% de água doce. Em Pernambuco, existem apenas 1.320 litros de água por ano por habitante. A Organização das Nações Unidas (ONU) recomenda um mínimo de dois mil litros. Segundo os relatórios do IPCC (Magrin et al., 2007) e do Inpe (Marengo et al., 2007; Ambrizzi et al., 2007), o semi-árido tenderá a tornar-se mais árido. Aumentarão a freqüência e a intensidade das secas e se reduzirá a disponibilidade de recursos hídricos. Isso teria impacto sobre a vegetação, a biodiversidade e atividades que dependem dos recursos naturais.
No Nordeste do Brasil, o maior problema seria o aumento da seca e da falta de água. A região poderá passar de zona semi-árida a zona árida, e as conseqüências dessa mudança afetarão a alimentação, a sanidade e a saúde da população local. Mais de 70% das cidades do semi-árido nordestino com população acima de cinco mil habitantes enfrentarão crise no abastecimento de água para o consumo humano até 2025, independentemente da megaobra de transposição do Rio São Francisco, concluiu um estudo feito pela Agência Nacional de Águas (ANA). Problemas de abastecimento deverão atingir cerca de 41 milhões de habitantes da região do semi-árido e do entorno, prevêem pesquisadores da agência, que estimaram o crescimento da população e a demanda por água em cerca de 1.300 municípios dos nove Estados do Nordeste e do Norte de Minas Gerais.
Até 2050, metade das terras agrícolas poderá ser prejudicada com um grau “elevado” de certeza, expondo milhões de pessoas à fome, afirmam os especialistas. De sessenta milhões a 150 milhões de pessoas sofrerão com a falta de água (serão até quatrocentos milhões em 2080). Os depósitos subterrâneos de água do Nordeste brasileiro poderão receber menos 70% de recarga. O semi-árido nordestino caminharia para a desertificação.
Bacia do Prata
Na região Sul do Brasil, o aumento sistemático das chuvas pode também ser observado nos registros hidrológicos, onde as vazões do Rio Jacuí, em Espumoso e em Passo Bela Vista, apresentam tendências positivas (Marengo, 2007). O mesmo pode ser dito em relação às vazões dos rios Paraná, no seu trecho inferior, Uruguai e Paraguai, e no Rio Paraná, em Corrientes. Desde meados da década de 1970, surgem mudanças no regime de chuva (como também foi detectado na Amazônia) e já entre 2001-2003 vem se apresentando uma mudança de fase. As séries de vazões na bacia do Rio Paraná apresentam uma importante não-estacionariedade entre os períodos anterior e posterior à década de 1970, com um incremento de vazão variando em cerca de 30%. Esse período coincide aproximadamente com a época das vazões acima da média observadas nos rios Paraná, Uruguai e Paraguai, e no Rio Iguaçu, com tendências de incremento da chuva na bacia, uma média de cerca de 6% superior, para o período de 1971 a 1990, se comparado com o de 1930-1970 (Tucci, 2003; Obregon & Nobre, 2003). Existem amplas evidências de que mudanças no uso da terra nas bacias dos rios Alto Paraná, Paraguai e Uruguai podem ter contribuído para um aumento de 28% no fluxo médio do Rio Paraná desde 1970. Tucci at al. (1998) perceberam que esse incremento na vazão dos rios aconteceu depois de grandes áreas terem experimentado o desmatamento ou mudanças no uso da terra.
Em latitudes mais altas, na região da bacia do Prata, o IPCC AR4 (Meehl et al., 2007) apresenta projeções de possíveis aumentos na chuva e vazões de até 20% durante os meses de verão austral (DJF), até a segunda metade do século XXI. Isso sugere que, para essa região, o futuro apresentaria uma continuidade da variabilidade de chuvas e vazões observadas durante os últimos cinqüenta anos (Trenberth et al., 2007), o que talvez indique maior confiança nestas projeções para essa região.
Discussões e conclusões
Como apresentado neste relatório, ainda não se tem uma figura clara e certa sobre os possíveis impactos da mudança do clima na distribuição espacial e temporal do recurso água no continente. As incertezas ainda representam obstáculos para o planejamento operacional e gerenciamento do recurso água, mas mesmo assim esse fato não pode ser utilizado para evitar ações imediatas.
Uma das primeiras ações seria estabelecer programas de pesquisas e monitoramento para avaliar os riscos relativos às mudanças do clima. Regiões como o Nordeste e o Centro Oeste-Sudeste são regiões altamente vulneráveis, pela dependência da energia elétrica e pela presença ou ausência de água. Nessas regiões, as mudanças do clima (especialmente na forma de aumento de temperatura do ar) podem acrescentar o risco imposto pela crescente população, industrialização e pelas mudanças no uso da terra associadas à agricultura e à pecuária. Já na Amazônia, os problemas são associados a uma possível perda de biodiversidade e impactos no ciclo hidrológico que, em longo prazo, podem aumentar o risco de extremos de chuva no Sul do Brasil, como conseqüência de mudanças no padrão de transporte de umidade atmosférica da Amazônia até o Sul do Brasil.
As evidências científicas apontam para o fato de que as mudanças climáticas representam um sério risco para os recursos de água no Brasil. Não só as mudanças do clima futuras representam risco, mas a variabilidade climática também; é só lembrar as secas da Amazônia, do Nordeste, do Sul e do Sudeste do Brasil nos últimos dez anos, que têm afetado a economia regional e nacional. O impacto das variações e mudanças do clima pode ser acrescentado por outros fatores não-ambientais, como os aspectos políticos e sociais, e todos juntos podem gerar um custo elevado para a sociedade.
As projeções do clima sugerem que na Amazônia e no Nordeste a chuva pode se reduzir de até 20% nos finais do século XXI, num cenário de altas emissões. Portanto, o Sul do Brasil experimenta um aumento da chuva na forma de extremos. Em alguns lugares, a combinação de altas temperaturas mais chuvas e altas temperaturas menos chuvas podem ter diferentes impactos para o Brasil e a América do Sul. (EcoDebate)
Educação para a água
A água como tema no contexto educacional é abordada a partir de diversas perspectivas. Diante das discussões em relação à crise socioambiental atual, acreditamos que a educação para a água deva ser realizada a partir da abordagem das dimensões espacial e temporal, considerando nesta última o tempo geológico e a história humana, sem a qual não é possível enfrentar a fragmentação do conhecimento que predomina no ambiente escolar. A abordagem do local, tendo como unidade de estudo a bacia hidrográfica, auxiliada pelos conteúdos das geociências e por metodologias interdisciplinares, proporciona uma visão integrada e contextualizada do tema para a construção do conhecimento.
A ÁGUA tem fundamental importância para a manutenção da vida no planeta, e, portanto, falar da relevância dos conhecimentos sobre a água, em suas diversas dimensões, é falar da sobrevivência da espécie humana, da conservação e do equilíbrio da biodiversidade e das relações de dependência entre seres vivos e ambientes naturais.
A presença ou ausência de água escreve a história, cria culturas e hábitos, determina a ocupação de territórios, vence batalhas, extingue e dá vida às espécies, determina o futuro de gerações. Nosso planeta não teria se transformado em ambiente apropriado para a vida sem a água. Desde a sua origem, os elementos hidrogênio e oxigênio se combinaram para dar origem ao elemento-chave da existência da vida.
Em condição privilegiada, deu possibilidade às espécies de evoluírem e ao homem de existir e habitar esse planeta. Ao longo de milhares de anos, nossa espécie ocupou territórios, cresceu e desenvolveu com base nesse bem natural tão importante e valioso que é a água. No entanto, ao longo da história, modificações aconteceram na relação do homem com a natureza e, por conseqüência, na sua relação com a água.
Na sociedade em que vivemos, a água passou a ser vista como recurso hídrico e não mais como um bem natural, disponível para a existência humana e das demais espécies. Passamos a usá-la indiscriminadamente, encontrando sempre novos usos, sem avaliar as conseqüências ambientais em relação à quantidade e qualidade da água.
Somada ao aumento populacional em escala mundial no último século, a intensidade da escassez aumentou em determinadas regiões do planeta, especialmente por fatores antrópicos ligados à ocupação do solo, à poluição e contaminação dos corpos de águas superficiais e subterrâneos.
Em nossa sociedade, a exploração dos recursos naturais, dentre eles a água, de forma bastante agressiva e descontrolada, levou a uma crise socioambiental bastante profunda. Hoje deparamos com uma situação na qual estamos ameaçados por essa crise, que pode se tornar um dos mais graves problemas a serem enfrentados neste século.
Crise essa embasada numa multiplicidade de aspectos – sociais, econômicos, culturais, tecnológicos e ambientais – retratados no aumento da pobreza, na falta de saneamento básico, na poluição dos rios e aqüíferos, na derrubada das matas, na expansão agropecuária, na urbanização e industrialização, na ocupação das áreas de mananciais, na má gestão dos recursos hídricos disponíveis. Crise deflagrada pela visão de mundo centrada no utilitarismo dos bens naturais, a qual é descrita por diversos autores, dentre eles, Soffiati (1992), Grün (1996), Carvalho (2004), Loureiro (2004), Guimarães (2004, 2006) e no modo de desenvolvimento escolhido pela sociedade e suas relações atuais com o ambiente (Jacobi, 1999, 2005).
Segundo Tundisi (2006), o desenvolvimento econômico e a complexidade da organização das sociedades humanas produziram inúmeras alterações no ciclo hidrológico e na qualidade da água, a qual é afetada até mesmo pelas atividades de cunho religioso.
A resolução de problemas complexos, como a miséria, a proliferação de desastres ambientais, a escassez de recursos naturais, dentre outros, configura-se como um desafio que tem mobilizado cientistas, políticos e membros de comunidades de todas as regiões do planeta.
A água é um tema amplo e pode ser tratado a partir de diferentes enfoques. No presente artigo, optamos por tratar a educação para água a partir de duas dimensões: espacial e temporal (esta última tratando o tempo geológico e a história humana). A decisão de abordar a educação para a água a partir dessas dimensões se dá pelo fato de que sem elas não é possível enfrentar a fragmentação do conhecimento que predomina no ambiente escolar, impedindo a análise integrada de problemas reais, dificultando a relação de conceitos, procedimentos e atitudes nas diferentes disciplinas.
Nessa perspectiva, faz-se necessário compreender a relação homem-natureza ao longo do tempo.
Fragmentações sociais e disciplinares
A crise à qual nos referimos é resultado de um longo processo de apropriação e destruição da natureza, que se intensificou profundamente com o desenvolvimento do capitalismo industrial, baseado na apropriação da natureza. A produção tecnológica, sustentáculo do capitalismo, se fundamenta no desenvolvimento científico, configurando a sociedade moderna caracterizada por uma extrema fragmentação social e cultural em que o conhecimento se apresenta cada vez mais compartimentado.
O que teria levado à fragmentação do conhecimento e da sociedade? Como poderíamos buscar soluções de articulação entre os saberes? É possível integrar o conhecimento em práticas escolares? Acreditamos que tais questões possam ser respondidas quando abordadas de uma forma contextualizada, relacionando tempo e espaço na produção do conhecimento, de modo a compreendermos o processo de fragmentação dos saberes e a criação de novas práticas e atitudes. Dessa forma, a história das ciências em associação com a educação ambiental pode servir como uma metodologia de ensino que revele uma complexidade de fatores que condicionaram a situação atual e que possa indicar caminhos de reflexão e de elaboração de novas possibilidades para a inversão do contexto atual.
A transição entre o feudalismo e a sociedade moderna, marcada pelo desenvolvimento do mercantilismo, ocorreu de uma forma lenta e bastante heterogênea nos países europeus desde o século XV. A sociedade comercial que emergia trazia necessidades práticas para seu desenvolvimento e requisitou, cada vez mais, a construção de máquinas e de artefatos aliados ao desenvolvimento da matemática e, conseqüentemente, a quantificação da natureza. O homem voltou-se cada vez mais para a observação da natureza, com uma finalidade prática e utilitarista que permitisse a acumulação de capital. A construção do conhecimento baseava-se, então, em uma forte relação entre ciência e técnica, a fim de solucionar a demanda de instrumentos tecnológicos advinda da sociedade em transformação (Rossi, 1989).
Esse processo de transformação social formulou também um novo método científico. Durante a Idade Média, a natureza era interpretada predominantemente mediante princípios da Escolástica, ou seja, a construção de teorias sobre a natureza era baseada exclusivamente na leitura e interpretação da Bíblia. Durante o Renascimento, o novo contexto imposto pelo mercantilismo impõe uma nova relação do homem com a natureza. A necessidade de matéria-prima para o funcionamento das relações comerciais conduz a uma observação direta da natureza e ao experimentalismo.
O princípio do utilitarismo era a principal justificativa para o estudo da natureza, como preconizado por Francis Bacon, pois revelaria formas de apropriação e utilização dos seres dos três Reinos da Natureza (minerais, vegetais e animais), da ocupação territorial, da dominação humana e da intensa utilização dos recursos hídricos. Dessa forma, a ciência deveria proporcionar o desenvolvimento material da sociedade, relacionando o estudo da natureza com as formas de produção.
A valorização das atividades práticas e da construção de máquinas, necessárias ao desenvolvimento dos núcleos urbanos, à produção de mercadorias em larga escala, ao desenvolvimento da navegação pela construção de instrumentos mais precisos de medida de latitude e longitude, condicionou uma nova forma de observação do universo. Nesse contexto, a utilização da água determinou a expansão territorial e se associou a uma nova concepção de mundo. O desenvolvimento da navegação, necessário para uma expansão comercial e territorial pretendida pelos países europeus, requisitava o conhecimento sobre o clima, sobre a hidrografia, a astronomia e a matemática. Dessa forma, o homem moderno se voltou para a observação direta da natureza e para o conhecimento de seu funcionamento que possibilitasse sua utilização material.
A metáfora de um universo-máquina foi utilizada pelos filósofos, especialmente René Descartes, como uma nova forma de interpretação da natureza, em que o funcionamento do universo dependia de cada uma de suas partes. Para a compreensão do funcionamento da máquina, o universo poderia ser dividido em várias partes (ou peças) isoladas, que posteriormente seriam rearticuladas para o entendimento do todo.
Alguns filósofos, porém, especialmente franceses no século XVIII, como D’Alembert, defendiam uma forma organicista de observar a natureza, ou seja, o universo era imaginado como um organismo, cujo funcionamento ocorria num todo integrado. Assim como o corpo humano ou os organismos vivos, o funcionamento se dava em uma relação equilibrada entre as partes (Abrantes, 1998).
A concepção mecanicista teve uma grande influência no desenvolvimento das ciências naturais, configurando-se especialmente no Iluminismo durante o século XVIII. Tal pressuposto acarreta a divisão da natureza em partes cada vez menores, multiplicando a fragmentação da ciência. Francis Bacon já idealizava uma divisão do conhecimento, estruturada em três grandes grupos: memória (história), razão (filosofia ou ciência) e imaginação (poesia, ou artes como concebido atualmente). O que é entendido hoje como ciência relacionava-se à razão e à memória, onde ambas eram divididas em três partes: a ciência de Deus, a ciência do homem e a ciência da natureza.
Por sua vez, a história era dividida em sagrada, civil e natural. Já havia outras subdivisões no conhecimento, o que nos leva a observar o início da fragmentação do conhecimento. Porém, até o século XVIII, os filósofos não dissociavam as questões naturais das humanas, e o mesmo pensador abordava todas as questões e investigava objetos relacionados à natureza ou às relações humanas. Portanto, até esse momento não havia ocorrido, ainda, a especialização do conhecimento.
Foi após a Revolução Industrial que o movimento de especialização ou fragmentação do conhecimento tornou-se mais intenso. A divisão social do trabalho em nossa sociedade contemporânea levou a uma fragmentação cada vez mais intensa do conhecimento em várias disciplinas isoladas, que se relacionam, muitas vezes, aos diversos setores da produção industrial. A própria sociedade fragmentou-se em grupos sociais distintos, tornando-se cada vez mais desigual e heterogênea.
A ética antropocêntrica influenciou profundamente a educação moderna, o que foi sentido na reformulação dos currículos, os quais eram inspirados basicamente nas idéias baconianas em que a natureza tinha claramente um valor utilitarista. Além disso, no século XIX, o mundo comercializado e industrializado exigia a presença das ciências no currículo, essa vista a partir da racionalidade, o que contribuiu para perpetuar a idéia de natureza objetificada (Grün, 1996).
O pragmatismo, o individualismo e o racionalismo, pilares do pensamento curricular norte-americano, fundamentam-se em éticas utilitárias, que consideram a natureza apenas quanto ao seu valor de uso e de que a educação consiste somente nos indivíduos e sua aprendizagem, como se não houvesse natureza (Grün, 1996).
No início do século XXI, vive-se uma emergência, que mais que ecológica, é uma crise do estilo de pensamento, dos imaginários sociais, dos pressupostos epistemológicos e do conhecimento que sustentaram a modernidade. Uma crise do ser no mundo, que se manifesta em toda sua plenitude: nos espaços internos do sujeito, nas condutas sociais autodestrutivas, nos espaços externos, na degradação da natureza e na qualidade de vida das pessoas (Jacobi, 2005).
A integração de saberes – caminhos interdisciplinares na educação ambiental e nas geociências
O longo processo histórico apresentado conduziu a uma grande fragmentação do conhecimento e a uma separação muito profunda entre o homem e a natureza. Em nome da objetividade, precisão e aceitação das teorias científicas, o método científico pregou a “neutralidade” do observador perante seus experimentos e a criação de suas teorias. Tais premissas estão sendo concebidas atualmente, por alguns críticos, como uma das causas da degradação ambiental e da crise da sociedade moderna.
Nessa perspectiva, uma das questões tratadas nos debates sobre a educação ambiental é a crítica à extrema racionalidade da ciência moderna, que desvaloriza outras manifestações humanas como a sensibilidade e a espiritualidade. As ciências revelam uma inadequação de seus pressupostos epistemológicos a uma perspectiva ambiental, o que foi traduzido por Isabel Carvalho (2004, p.111) como a “Crise de uma forma de conhecer e a busca de novos modos de compreender”. A crise apontada pela autora refere-se ao contexto indicado antes, e a “busca de novos modos de compreender” refere-se a alguns pressupostos epistemológicos da educação ambiental, dentre os quais encontramos as integrações disciplinares.
A interdisciplinaridade como princípio e atitude constitui foco de discussão para pesquisadores e educadores de vários níveis de ensino, que, ao reconhecerem a complexidade do mundo pós-industrial e o processo de globalização, vivenciados pelos povos do mundo inteiro, estão cientes de que os saberes parcelares não dão conta de resolver problemas que demandam conhecimentos específicos, relacionados a um objetivo comum e central (Pontuschka et al., 2007).
Para uma educação efetiva, é necessário desenvolver uma visão integrada do mundo que nos cerca, uma visão que nos leve a compreender as diversas esferas (hidrosfera, biosfera, litosfera e atmosfera) e suas inter-relações, bem como as interferências geradas pelo homem no meio em que vive.
Os conteúdos das geociências fornecem uma base fundamental para a compreensão dessas inter-relações no espaço e no tempo, oferecendo um panorama da Terra como um sistema vivo e dinâmico. Uma questão central é entender como as geociências contribuem para a formação do professor e dos alunos, considerando as especificidades das ciências e das disciplinas escolares.
Ressaltamos que as geociências, em particular, a geologia, têm uma grande contribuição para uma visão integrada do ambiente, mas ela não faz parte do currículo escolar como uma disciplina, e os conteúdos a ela relativos estão dispersos nas demais disciplinas, em especial Ciências e Geografia. No campo das diversas ciências, apesar de toda a discussão sobre a interdisciplinaridade, ainda se realiza um trabalho compartimentado e isolado com pouca interlocução entre os responsáveis pelos vários ramos do conhecimento.
Segundo Compiani (2005), a falta do desenvolvimento integral das geo-ciências contribui para perpetuar a visão imediatista e utilitarista da natureza. Nessa perspectiva, podemos abordar temas como origem e evolução da Terra, formação de seus materiais e de seus ambientes, condições de provável origem da vida, registro sedimentar da história geológica da vida e dos processos de interferência dos processos biológicos no planeta e dos processos geológicos na evolução da vida, condições de concentração dos recursos naturais – minerais, hídricos e energéticos – e suas possibilidades de renovação, condições sustentáveis de utilização dos recursos.
Cuello Gijón (apud Gonçalves, 2006) enfatiza a potencialidade da geologia para servir como núcleo voltado para abordagens interdisciplinares de conteúdo no ensino de crianças e adolescentes, e que as bases metodológicas e epistemológicas, vinculadas ao conhecimento da história da natureza, são especialmente favoráveis ao tratamento sistêmico de temas ambientais, com significativas possibilidades para o trabalho educativo.
Guimarães (2004) nos indica que:
Através do raciocínio e de procedimentos específicos da Geologia é feita a caracterização dos materiais, das formas de energia e das suas interações no espaço e no tempo, definindo-se como um conjunto de parâmetros inter-relacionados que servem de padrão de referência do meio físico, construído pelo estudante. Este padrão leva a compreensão do ambiente físico local e de suas relações com o contexto sociocultural, estendendo-a para o contexto mais amplo, até chegar à concepção da Terra como sistema evolutivo complexo, que favoreceu o surgimento e evolução dos organismos, humanidade e que modificam a superfície terrestre.
As dimensões espaço e tempo, que muitas vezes não são tratadas no ensino de ciências, apresentam uma relevância fundamental para a compreensão das questões relativas ao meio ambiente na educação. Apresentam-se como estratégias educativas sem as quais a compreensão integrada do meio ambiente é praticamente impossível.
Segundo Compiani (2007), as escalas e suas dimensões horizontal e vertical são métodos de abordagem que enfatizam os processos de obtenção de informação, pois, dependendo da escala e do ponto de vista de quem está interpretando, um problema socioambiental terá diferentes perspectivas de enquadramento teórico e prático.
Ab’Saber (1991) afirma que a perspectiva integrada exige método, noção de escala, boa percepção das relações entre tempo e espaço, entendimento da conjuntura social e histórica do ambiente que cerca os alunos. Exige ainda respeitar e acreditar no valor da multiplicidade e diversidade de vários mundos que coexistem na sociedade, com o exercício permanente da interdisciplinaridade para enfrentar as questões cotidianas.
A história ambiental de um determinado lugar pode ser mais bem compreendida quando inserida no tempo geológico, a partir do qual se conhecem a história e a origem do planeta Terra, se compreende a dinâmica do sistema em que estamos inseridos e do qual fazemos parte, os fenômenos que se sucederam ao longo de bilhões de anos e as transformações ocorridas nesse período. Além disso, serve para promover a percepção dos processos naturais além do ciclo de vida humano e entender o potencial das ações antrópicas sobre o meio natural, ocupando um importante papel nas relações existentes entre o ambiente e a sociedade.
Dessa forma, o tema água deve estar presente no contexto educacional, tanto na educação formal como na não-formal, com enfoque na ética e na formação do cidadão consciente do lugar que ocupa no mundo, num mundo real, dinâmico, que parte do local e se relaciona com o global, onde todas as coisas podem tomar parte de um processo maior, de um sistema integrado. Assim, segundo Compiani (2007), é possível sair do paradigma da causalidade tão enraizado no ensino de ciências e praticar um ensino mais contextualizado, situar espaço-temporalmente os fenômenos, ou seja, levar em conta seu aspecto histórico e assim compreender a complexidade do contexto e causalidade de um fenômeno.
A educação para a água não pode, dessa forma, estar centrada apenas nos usos que fazemos dela, mas na visão de que a água é um bem que pertence a um sistema maior, integrado, que é um ciclo dinâmico sujeito às interferências humanas. Compreender a origem da água, o ciclo hidrológico, a dinâmica fluvial e o fenômeno das cheias, os aqüíferos, bem como os riscos geológicos associados aos processos naturais (assoreamento, enchentes) é essencial para que possamos entender a dinâmica da hidrosfera e suas relações com as demais esferas terrestres.
Acreditamos que a água seja um tema de aproximação dos conhecimentos parcelares profundos e plurais e um tema que desenvolva a prática interdisciplinar.
A construção de um programa que tenha a água como tema gerador, nu-ma proposta de ação interdisciplinar, apoiada nos conceitos fundamentais, no valor explicativo e na função das geociências, deve ser entendida pelos professores nas relações mais profundas entre esse conteúdo e a ação educativa, com envolvimento coletivo, dialógico e troca de saberes.
A escola, inserida nesse contexto social, deve ter como responsabilidade a disseminação do conhecimento, com base na realidade, de forma a caminhar na direção de uma nova ética e maneiras de viver que sejam pertinentes à sociedade. Para Lorieri (2002), a escola deveria propiciar certa interligação entre os conteúdos para a compreensão de determinada realidade que não é fragmentada, mas prenhe de relações, e os projetos interdisciplinares auxiliariam na compreensão dessa realidade complexa e contraditória.
Assim, os temas de geociências como eixos centrais, os quais hoje se encontram disseminados nas diversas disciplinas, com seus ramos físicos, químicos e biológicos, podem ser tratados numa organização interdisciplinar, superando a atual fragmentação. É possível tratar o tema água desde as primeiras séries do Ensino Fundamental até o Ensino Médio, com diferentes estratégias e recursos didáticos. Essa abordagem é necessária para atingir os objetivos pretendidos de formar cidadãos conscientes, capazes de julgar e avaliar as atividades humanas que envolvem o uso e a ocupação do ambiente, dentro e fora da comunidade em que estão inseridos.
As metodologias de ensino e aprendizagem devem se valer das diferentes estratégias. Nesse caso, as geociências contribuem para compreender a amplitude, a diversidade e a complexidade do ambiente e a multiplicidade de variáveis que o integram.
As aulas de campo, como enfatizadas por Compiani & Carneiro (1993), têm um papel pedagógico fundamental, pois é no campo que ocorre o conflito entre o real (o mundo), o exterior e o interior, as idéias e as representações, gerando um contexto único de observação e interpretação da natureza na busca de informações, no entendimento dos fenômenos e na formulação de conceitos explicativos. Segundo os autores, o campo é também o centro de atividades para ensinar o método geral de conceber a história geológica da Terra.
O estudo do meio é uma metodologia de ensino interdisciplinar que pretende desvendar a complexidade de um espaço determinado extremamente dinâmico e em constante transformação, cuja totalidade dificilmente uma disciplina escolar isolada pode dar conta de compreender (Pontuschka et al., 2007).
O estudo do meio como método que pressupõe o diálogo, a formação de um trabalho coletivo e o professor como pesquisador de sua prática, de seu espaço, de sua história, da vida de sua gente, de seus alunos, tem como meta criar o próprio currículo da escola, estabelecendo vínculos com a vida de seu aluno e com a sua própria, como cidadão e como profissional. As autoras ressaltam que um projeto de ensino que usa essa metodologia realiza um movimento de apreensão do espaço social, físico e biológico que se dá em múltiplas ações combinadas e complexas. Para aprender a complexidade do real, faz-se necessária a existência de muitos olhares, da reflexão conjunta e de ações em direção ao objetivo proposto pelo grupo de trabalho (Pontuschka et al., 2007).
O uso dessa metodologia para integrar as disciplinas é ideal para o ensino e a aprendizagem dos alunos, de forma a contextualizar os dados da realidade com os conteúdos. As intervenções pedagógicas de cada disciplina em particular contribuem para o conhecimento dos objetivos do estudo. O tema água pode ser abordado de várias maneiras no estudo do meio, dependendo dos objetivos propostos.
As perspectivas indicadas anteriormente estão sendo tratadas no projeto “Elaboração de conhecimentos escolares e curriculares relacionados à ciência, à sociedade e ao ambiente na escola básica com ênfase na regionalização a partir dos resultados de projeto de Políticas Públicas”, realizado na bacia hidrográfica do Rio Anhumas, em Campinas. O projeto é uma parceria entre professores e pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Faculdade de Educação (FE) da Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Geociências (IG) e Instituto de Biologia (IB) da Universidade de Campinas (Unicamp) e das escolas estaduais Adalberto Nascimento e Ana Rita Godinho Pousa. O projeto é coordenado pelo Prof. Dr. Maurício Compiani e conta com financiamento da Fapesp e da Petrobras.
No projeto está sendo trabalhada a perspectiva do professor-pesquisador, ou seja, de que o professor reflita sobre sua própria prática. Nessa abordagem, pensamos como a ciência é construída e como ela se articula com as questões políticas, econômicas e sociais. Assim, a interdisciplinaridade tem ocorrido na articulação entre os professores envolvidos no projeto e as relações ocorrerão no decorrer da prática de pesquisa do professor. Consideramos que as pesquisas educacionais se constituem em três perspectivas essenciais: na subjetividade do professor-pesquisador, ou seja, em sua dimensão individual; na constituição do coletivo de professores e na articulação do grupo; e, por fim, em todo o contexto em que está sendo construída a pesquisa.
Quanto ao contexto de elaboração, o projeto está sendo realizado em âmbito local na bacia hidrográfica do Ribeirão Anhumas. Essa dimensão ambiental é extremamente relevante em projetos educacionais que tratem de perspectivas ambientais.
A importância da bacia hidrográfica na educação
A complexidade que envolve o tema água na escola exige do professor uma capacidade de explorar o ambiente de forma contextualizada.
Os estudos podem partir do conhecimento das bacias hidrográficas como eixo norteador e resgatar a história ambiental local, a fim de desenvolver nos estudantes uma visão integrada dos diferentes fatores – naturais e antrópicos – que condicionam as transformações ambientais.
As bacias hidrográficas são espaços que se caracterizam pelos seus fatores físicos, mas são influenciadas diretamente pela ocupação humana e pela ação dos diversos grupos sociais que nela se instalam. Seja em meio rural seja em urbano, os usos da água na bacia hidrográfica são determinados pelos grupos que a ocupam, e sua interferência no meio físico ocorre em razão dos interesses desses grupos. As bacias são, então, palco de processos naturais ao mesmo tempo que sofrem modificações pelo homem.
Trabalhar no âmbito da bacia hidrográfica promove o entendimento do contexto, do singular e histórico, e a partir do qual se criam situações e estratégias de aprendizagem. A bacia hidrográfica pode ser tomada como local das atividades voltadas para ensinar o método geral de conceber a história da água no planeta. Conhecimentos sobre a origem da água, o ciclo hidrológico, os aqüíferos, a relação precipitação-vazão servem para inseri-la num amplo e complexo processo de interação na natureza e relacioná-la com a sociedade (usos múltiplos, ocupação de áreas de mananciais, riscos geológicos, poluição, contaminação e gestão dos recursos hídricos).
A bacia hidrográfica pode ser o eixo condutor de diversas disciplinas, pode propiciar o desenvolvimento de práticas escolares científicas, funcionar como agente integrador das disciplinas na construção de uma visão abrangente da natureza. Além disso, é na bacia hidrográfica que os diversos atores sociais se encontram para um a negociação dos usos múltiplos.
Para Tucci (1993, 1999), a bacia hidrográfica é uma área de captação natural da água da precipitação que faz convergir os escoamentos para uma única área de saída, seu exutório. Uma seção de um rio define a sua bacia hidrográfica.
A bacia hidrográfica é, na concepção de Tundisi et al. (1988, p.314-5):
Uma unidade importante na investigação científica, treinamento e uso integrado de informações para demonstração, experimentação, observação em trabalho real de campo. Uma bacia pode ser utilizada como laboratório natural em que a contínua e reforçada atividade estimula o desenvolvimento de interfaces e aumenta progressivamente a compreensão de processos e fenômenos de uma forma globalizada e não compartimentalizada.
A bacia hidrográfica é adotada na Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei n.9433/97) como unidade territorial que abrange cursos de água que são catalogados como “principal” e ou “tributário”, mas não está necessariamente abrangendo os aqüíferos. A lei faz distinção entre bacia hidrográfica e bacia hidrológica, a qual é a unidade fisiográfica ou geológica que contém pelo menos um aqüífero de extensão significativa.
As bacias hidrográficas constituem-se em unidades básicas de planejamento do uso, da conservação e recuperação dos recursos naturais, definido pela Lei Nacional da Política Agrária (Lei n.8171/91).
A definição dada pelas leis de uma unidade integrada na qual os fenômenos se inter-relacionam foi fundamental na adoção de políticas públicas de gestão dos recursos hídricos, dentre elas a da criação dos Consórcios e dos Comitês de Bacias Hidrográficas e a Agência Nacional das águas. Essa visão integrada, já consagrada nas políticas públicas, não pode deixar de ser adotada pela escola quando trata do tema água.
No contexto escolar, a bacia hidrográfica não deve ser vista somente como o rio principal e seus afluentes, mas, sim, como todo volume de onde se verificam as trocas de matéria e energia e a dinâmica suscitada principalmente pela água, incluindo tanto as formas de superfície como o lençol freático. A evaporação, os agentes de intemperismo que atuam sobre as formas de relevo e a ação humana devem ser estudados quando se trata de bacia hidrográfica examinada sob o aspecto de delimitação de um volume num espaço com uma história humana nele impressa (Silva, 2003, in Pontuschka et. al., 2007).
Partindo da perspectiva das políticas públicas ambientais, estão se desdobrando ações educacionais que têm envolvido a comunidade em estratégias participativas de conservação e recuperação ambiental.
Na literatura encontramos diversos projetos desenvolvidos em escolas com diferentes abordagens do tema água, mas todos articulando o currículo ao contexto da bacia hidrográfica: Tundisi et al. (1988, 1996), Leal & Sudo (1998); Silva (2003, in Pontuschka et al., 2007); Romera e Silva (2004); Compiani (2006); Hagy & Villanova (2007); De La Corte & Figueiredo (2007); Lucatto & Talamoni (2007).
É importante ressaltar que projetos que apresentam uma contextualização dos problemas que envolvem a água apresentam resultados mais eficazes quanto à questão da conscientização de professores e alunos, que passam a olhar para a realidade de maneira complexa. Os autores citados trazem essa experiência com resultados muito positivos, ressaltando a melhora na compreensão do conteúdo e mudanças de atitude dos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.
Braga et al. (2003) ressalta que é necessário educar para o ambiente, e somente a partir de ações locais, da sensibilização e da conscientização dos indivíduos como cidadãos participantes no processo de construção de uma nova sociedade é que podemos modificar o destino dos problemas globais que assolam o planeta, e a água é uma questão primordial.
Para Romera e Silva (2004), a educação e os projetos de capacitação devem facilitar a percepção e a avaliação das contradições locais, sendo a construção do conhecimento um fator de mediação na gestão de conflitos entre culturas, comportamentos diferenciados e interesses de grupos sociais, para que as transformações pretendidas pela sociedade se realizem.
Educando nas águas do Pirajuçara: uma proposta de educação ambiental
Com a preocupação de tratar a questão da água a partir das dimensões espaço-temporal, de forma interdisciplinar e tendo a bacia hidrográfica como foco principal, como discutido ao longo deste artigo, foi proposto o curso de atualização “Educando nas águas do Pirajuçara: uma proposta de Educação Ambiental” promovido pelo grupo TEIA-USP (Laboratório de Educação e Ambiente) composto por alunos e professores da Faculdade de Educação (FE), do Instituto de Geociências (IGc) e da EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidadesda Universidade de São Paulo). Faremos aqui um breve relato desse curso em andamento numa proposição de articulação entre as perspectivas teóricas discutidas neste artigo com a prática da formação de professores.
Os objetivos do curso são trabalhar a bacia hidrográfica do Pirajuçara, a partir dos aspectos físicos, históricos, sociais, econômicos e ambientais, a participação social, a avaliação do significado de degradação ambiental nos recursos hídricos e a percepção da realidade local. O curso pretende fornecer subsídios para a formulação de projetos e ações de educação ambiental nas escolas. Visa também estimular a troca de informações e experiências entre os participantes e o desenvolvimento de habilidades na utilização de meios de comunicação virtual para a formação de uma rede multiplicadora voltada para mudanças de atitude que visem ao uso sustentável da água.
A proposição do curso está de acordo com o objetivo principal do TEIA de constituir um espaço de pesquisa-ação e produção de conhecimento, reflexão e debate sobre práticas e políticas de educação ambiental no Brasil. Mediante a construção de um espaço interdisciplinar, o grupo propõe a participação direta da comunidade acadêmica no debate e na elaboração de políticas públicas voltadas ao conjunto da sociedade, ao aproximar o conhecimento gerado junto aos organismos públicos e privados e a comunidade em geral por meio de parcerias (www.teia.fe.usp.br).
O conteúdo do curso foi estruturado em quatro módulos, articulados entre os membros do grupo, e definido da seguinte forma:
1) Educação ambiental, sustentabilidade e participação. Trata-se de uma abordagem sobre as relações entre educação e meio ambiente com ênfase nos temas da sustentabilidade e da participação social como eixos que estimulam o desenvolvimento de um pensamento crítico. O módulo prioriza leituras que promovam um aprofundamento teórico das práticas de educação ambiental e permitam a aquisição de um repertório sobre a cultura da sustentabilidade em suas múltiplas dimensões, considerando as práticas sociais, o tema da cidadania e a dimensão cultural num contexto permeado pela ampliação dos problemas ambientais.
2) Ciclo da água no planeta – aspectos teóricos e metodológicos. Aborda a origem da água no planeta, o ciclo hidrológico, destacando-se as principais fases e características, água subterrânea, aqüíferos; conceitos de bacia hidrográfica, traçado e parâmetros básicos; interferências do homem nos processos naturais ocasionando enchentes e escorregamentos; aspectos físicos da bacia hidrográfica do Pirajuçara. Esse módulo é articulado a uma oficina temática de estudo da bacia hidrográfica pela construção de maquetes.
3) Aspectos sociais, institucionais e econômicos da água. Nesse espaço é analisada a política das águas, destacando a Política Nacional dos Recursos Hídricos, a situação no Estado de São Paulo e, especificamente, na Região Metropolitana de São Paulo. Também é dado destaque para os aspectos econômicos de cobrança da água e outros mecanismos e para a análise sobre o impacto dos problemas sociais na qualidade de vida e na gestão dos recursos hídricos.
4) A água: aspectos históricos e geográficos. A abordagem metodológica utilizada aqui é da relação histórica entre ciência, tecnologia, sociedade e ambiente. é feita uma contextualização histórica sobre os usos da água durante o período colonial brasileiro, destacando-se os condicionantes naturais para a navegação que configuraram a formação do Império português entre os séculos XV-XVIII. Além disso, destacamos a configuração das bacias hidrográficas brasileiras associadas às condicionantes de navegação fluvial como fatores determinantes para a expansão territorial e da divisão política da América portuguesa. A água também foi um elemento estruturador da urbanização, em que havia um planejamento construção de cidades em pontos estratégicos na costa brasileira e na foz de alguns rios durante o período colonial. Além disso, alguns traçados urbanos também seguiam a configuração dos rios, pela importância da água em todas as atividades do cotidiano das populações. Na perspectiva tecnológica, a água representou grande importância no desenvolvimento agrícola e industrial no Brasil, pois era uma das principais fontes de força motriz para os engenhos agroindustriais, de mineração e a separação dos minérios. Essa construção histórica é realizada com a análise de textos em associação com imagens, como cartas marítimas e fluviais; perfis de cidades; planos urbanísticos.
Os módulos são integrados pela articulação entre os formadores e, especialmente, pela proposição de uma atividade de campo integrada. O roteiro percorrerá a bacia do Pirajuçara e seus principais afluentes, com a observação in loco e discussão dos aspectos do meio físico, dos aspectos históricos, de uso e ocupação, dos problemas sociais e ambientais. Serão coletados dados com registro fotográfico e elaboração de um roteiro que possa ser usado pelos professores em suas aulas, com a possibilidade de levar os alunos para realização de atividades, como estudo do meio. Serão feitas observações da qualidade das águas dos rios na bacia, da forma de ocupação e dos problemas ambientais gerados pelo não-planejamento da ocupação da bacia, as obras estruturais realizadas pelo poder público (retificação de canais, piscinões).
O curso está em andamento, mas uma breve avaliação de seu desenvolvimento pode ser feita em razão do atendimento à demanda dos professores e da necessidade que eles apresentam em desenvolver uma visão integrada da realidade. O curso está fornecendo subsídios para que os professores possam rever seus currículos, reformulando-os numa perspectiva local, e cria oportunidade da prática da interdisciplinaridade, da integração e da discussão do papel da escola diante das realidades ambientais.
Considerações finais
Morin (2003, 2004) afirma que, para prepararmo-nos para o enfrentamento da crise em que a sociedade atual está inserida e das futuras gerações, é necessário mudarmos nossa forma de ver o mundo e partirmos para uma compreensão da complexidade da realidade. Segundo o autor, nossa civilização e, por conseguinte, nosso ensino privilegiam a separação dos conteúdos em detrimento da ligação, e a análise em detrimento da síntese desune os objetos entre si. Com o isolamento dos objetos de seu contexto natural e do conjunto do qual faz parte, é uma necessidade cognitiva inserir um conhecimento particular em seu contexto e situá-lo em seu conjunto, o que é imperativo na educação.
A contextualização desenvolve um pensamento que situa todo acontecimento, informação ou conhecimento em relação de inseparabilidade com seu meio ambiente – social, cultural, econômico, político e natural – e incita a perceber como esse o modifica ou o explica de outra maneira, tornando-se um pensamento complexo.
Sendo assim, passa a ser primordial entender a complexidade da relação homem-natureza na realidade local. Essa compreensão na escola, por meio da formação de professores e dos alunos, é que poderá fazer a diferença na formação de indivíduos críticos, participativos, prontos a enfrentar os problemas ambientais e uma possível crise dos recursos naturais disponíveis, dentre eles a água. (EcoDebate)
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