segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Aquecimento global ameaça a vida dos povos indígenas

“Estão jogando tudo fora: a nossa terra e a nossa história. O gelo sobre o qual apoiamos os pés não tem mais a consistência que sempre teve. E o tempo, que os anciãos conseguiam prever pelo andamento das nuvens e do voo dos pássaros, tornou-se um mistério. A nossa visão do mundo não tem mais bases, a nossa cultura, baseada em milênios de adaptação e compreensão da natureza, está se perdendo”. Patricia Cochran, diretora do Alaska Native Science Commission, relata o drama dos inuits, um povo condenado a assistir a destruição do seu ambiente, a ver os ursos polares desaparecerem, enquanto no céu despontam pela primeira vez os sabiás migratórios. Enquanto ministros e chefes de Estado começam a chegar para a conferência da ONU sobre o clima, os povos indígenas se encontraram para fazer ouvir a sua voz. A voz de quem está na primeira fila na fronteira do mundo que desaparece. Ao lado dos inuits, estão os povos da floresta, como os yanomamis e os guaranis da Amazônia, os bosquímanos do Kalahari, os aborígenes australianos. Vivem nos ambientes de clima extremo, os de maior risco, nos quais o aumento de temperatura previsto ao longo do século corre o risco de fazer saltar os equilíbrios ambientais de modo definitivo, tornando impossível uma vida já hoje difícil. E não querem desaparecer em silêncio, ou serem dispensados pelas consequências de uma poluição à qual contribuíram de maneira totalmente marginal (a África é responsável só por 4% dos gases do efeito estuda emitidos mundialmente). Nos últimos anos, o orgulho indígena cresceu, e os descendentes dos povos que para sobreviver à colonização muitas vezes buscaram o anonimato agora reivindicam a sua identidade e começam a vencer causas nos tribunais. Tanto nos EUA quanto na Austrália, o seu direito à terra foi reconhecido mais de uma vez. E desde que começaram a se contar descobriram que eram muitos: 370 milhões de pessoas. “Os povos indígenas vieram para Copenhague para pedir. Porque não querem se tornar vítimas do clima que muda”, explica Francesco Martone, do Forest Peoples Programme, uma ONG inglesa. “Mas também para oferecer. Eles têm um conhecimento extraordinário do território, desenvolveram ao longo dos séculos a capacidade de sobreviver em climas extremos, encontrando recursos onde os outros só veem problemas. A sua voz deve ser escutada porque eles têm algo a ensinar”. Quem experimentou ouvi-los descobriu poços de conhecimento. Por exemplo, Glenn Wightman, chamado de etnobotânico descalço porque em 1981 se estabeleceu no território do norte da Austrália para ajudar as comunidades aborígenes a documentar o seu saber sobre as plantas e os animais, recolheu em 15 livros os testemunhos dos representantes dos vários povos aborígenes que relatam na sua língua os usos práticos e espirituais de sementes, cascas, frutos e folhas que crescem em climas extremamente áridos. Um dos desafios de Copenhague é justamente conseguir defender as razões de quem não pode colocar na mesa das negociações o peso de um PIB importante. E um resultado já foi alcançado. Pela primeira vez, o direito dos povos indígenas à terra, às tradições e à autodeterminação foi reconhecido nos encontros entre as delegações. “Foi uma grande vitória, a coroação de uma pressão que durou anos”, indica Vicky Tauli-Corpuz, diretora do Tebtebba (Indigenous Peoples’ International Centre for Policy Research and Education).“No fim, os EUA e o Canadá cederam e agora não se volta atrás: a conquista dos direitos dos povos indígenas deverá encontrar espaço nos documentos finais da conferência de Copenhague”.

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